Os cem anos da Revolução Russa

União-SoviéticaO dia 12 de março de 2017 marca o centenário da Revolução Russa em nosso calendário (pelo calendário Juliano, adotado pela Rússia na época, essa data foi 27 de fevereiro). A Revolução de Fevereiro, como ficou conhecida, teve um viés democrático e foi liderada por socialistas moderados – os mencheviques. Ela aconteceu de forma mais ou menos espontânea, iniciando com greves e motins que tomaram a capital russa, Petrogrado, naquele dia. Logo depois o governo do czar foi deposto e um Governo Provisório foi instituído. Era o primeiro capítulo de um dos eventos que definiram o século XX.

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Notas sobre a morte de Fidel

fidel-castro-mortoA morte de Fidel Castro escancarou para o país inteiro que a esquerda não se importa com democracia, não aprendeu muito com o fim do comunismo nem se sente envergonhada de sua incoerência retórica: fala tanto em democracia aqui mas defende lugares onde ela não existe. Com uma esquerda tão mequetrefe, não é de admirar que tenha gente conservadora vendo símbolo do comunismo até na bandeira japonesa. A miopia política e ideológica no Brasil é um problema ambidestro. Continue lendo

Artigo sobre a relação nazismo e socialismo é publicado em revista acadêmica

Os leitores que acompanham o blog já devem ter lido o texto Socialismo e Nacional-socialismo: a esquerda e a direita autoritárias do século XX. É um texto no qual discuto os equívocos das narrativas que situam o nazismo como fenômeno de esquerda. Embora essa informação seja básica para historiadores, devido à tendência irracionalista e anti-academicista de direita que tem crescido no país, várias publicações cheias de erros e sem qualquer rigor metodológico têm se espalhado em nosso mercado editorial trazendo falsas informações históricas como essa.

Anuncio aos leitores que meu texto foi publicado na Revista Brasileira de História & Ciências Sociais, um periódico bem avaliado pela CAPES, com o título Nazismo, Socialismo e as políticas de direita e esquerda na primeira metade do século XX. O texto teve leves alterações para ser adaptado ao formato de artigo científico. Os leitores podem baixar, usar como material de pesquisa e indicar para outros acadêmicos que se interessem pelo tema.  CLIQUE AQUI  para acessar.

Esse artigo é produto das discussões que temos desenvolvido no blog e outros deverão vir. Lembro também aos que ainda não conhecem nosso perfil no Facebook, podem acompanhar nossas discussões, comentários, críticas, indicações de leituras. O perfil é um complemento do blog: https://www.facebook.com/bertonesousa

O mito da Revolução Cubana

revolucao_cubanaEm uma palavra, o socialismo do século 20 representou apenas e simplesmente isto: totalitarismo, uma herança certamente pesada para que seus supostos herdeiros ainda possam reivindicar, hoje, qualquer tipo de filiação intelectual.

Paulo Roberto de Almeida

A revogação do embargo econômico a Cuba pelos Estados Unidos ganhou a tônica dos noticiários nos últimos dias. No Brasil, muitos intelectuais e acadêmicos ainda defendem Cuba como vítima do embargo e do Imperialismo, ou como exemplo de avanços em saúde e educação, reproduzindo os mitos que Eduardo Galeano expôs em “As Veias Abertas da América Latina”, livro que o próprio autor hoje repudia. O que muitos não sabem é que o embargo americano nem de longe foi a causa da pobreza a que a população cubana é submetida pela ditadura dos irmãos Castro, e que seus indicadores sociais definham com a rigidez de um regime que tenta resistir ao tempo. E se se critica a violação de direitos humanos na prisão de Guantánamo, também é preciso criticar essas mesmas violações na imensa prisão que é toda a ilha de Cuba. A esquerda que escolheu a social-democracia deixou para trás a alternativa autoritária oriunda do leninismo e do stalinismo, mas as sociedades que permaneceram sob essas bandeiras ainda se constituem em notáveis exemplos de violações de direitos humanos e ausência de liberdades individuais, assuntos já discutidos em vários textos que o leitor pode acessar no tema Socialismo/Comunismo.

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O governo e o legado de Mao Tsé-Tung – Parte II

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Cena de tortura em um comício durante a Revolução Cultural de Mao

Esse texto continua o anterior tomando por base a obra “Mao, a história desconhecida” de Jon Halliday e Jung Chang (Editora Companhia das Letras, 2006 – Clique aqui para ler a primeira parte do texto). Após a tomada do poder em 1949, o início do governo de Mao ocorreu sem grandes rupturas. Durante alguns anos a propriedade privada foi tolerada e mesmo a coletivização da agricultura somente ocorreu após meados dos anos 1950. Mas tudo isso foi uma jogada estratégica de Mao; ele queria primeiro consolidar-se no poder para depois instituir o terror como política de Estado. No entanto, logo em 1950 uma reforma agrária foi imposta pelo governo provocando um banho de sangue no país. Continue lendo

O governo e o legado de Mao Tsé-Tung

Mao-Tse-TungNão concordo com a ideia de que, para ser moral, o motivo de nossa ação deve ser beneficiar os outros. A moralidade não tem de ser definida em relação aos outros […] As pessoas como eu querem […] satisfazer o próprio coração, e, ao fazer isso, temos automaticamente o mais valioso dos códigos morais. Claro que existem pessoas e objetos no mundo, mas eles estão todos lá somente para mim […] Pessoas como eu têm um dever somente para consigo mesmas; não temos dever para com outras pessoas […] Não sei do passado, não sei do futuro. Eles não têm nada a ver com a realidade de meu próprio eu. […] Estou preocupado apenas com meu desenvolvimento. […] Tenho meu desejo e ajo de acordo com ele. Não sou responsável perante ninguém.  Mao Tsé Tung Continue lendo

Socialismo e Nacional-socialismo: a esquerda e a direita autoritárias do século XX

Stalin_HitlerEm um texto anterior, discuti algumas características do comunismo a partir do recorte temporal que vai do período da tomada do poder pelos bolcheviques na Rússia ao fim da era Stálin, tomando por base a obra do historiador alemão Gerd Koenen, “Utopia do Expurgo[1]“, uma importante referência para quem quer compreender historicamente o comunismo (clique aqui para ler o texto). Um ponto importante discutido na obra é acerca da relação entre comunismo e nazismo e a qual ele dedica dois capítulos (8 e 10). Portanto, esse texto tentará responder às seguintes questões: o que havia em comum entre nacional-socialismo e socialismo? Quais as diferenças? É possível falar que as duas ideologias se encontravam em campos opostos (direita e esquerda)? Se sim, então por que ambas professavam o socialismo e até fizeram um pacto de não agressão? Se não, então por que guerrearam até a derrota completa e extinção de uma delas? Continue lendo