Religiões alienam e são irracionais?

religioesNão é muito raro vermos no ateísmo contemporâneo alguns posicionamentos que conduzem a interpretações reducionistas dos fenômenos religiosos. Por interpretação reducionista compreendo o pensamento que reduz a religião à intolerância e à supressão do pensamento científico e da liberdade de expressão, sem levar em conta as necessidades humanas e os contextos históricos e culturais em que os movimentos e fenômenos religiosos são produzidos. Richard Dawkins pode ser citado como exemplo, mas apenas por algumas colocações específicas (especialmente o apego dogmático de alguns de seus “admiradores no Brasil”) e não pela totalidade de seu pensamento, que possui lances de genialidade incríveis. Continuar lendo

A função social da religião em Durkheim

durkheim[…] a verdadeira função da religião não é nos fazer pensar, enriquecer nosso conhecimento, […] mas sim nos fazer agir, nos ajudar a viver. Durkheim

Grande parte das discussões entre ateus e religiosos na internet tem como pano de fundo a ignorância e mútua incompreensão. Da parte dos ateus, isso começa com a convicção de muitos deles de que as religiões são “irracionais”. As ciências sociais não trabalham com essa perspectiva. Elas são compreensivas. E as religiões, já reconhecia Durkheim, somente podem ser compreendidas historicamente. Desde o século 19, entendemos que fazer história é reconstituir contextos, épocas culturais, mentalidades. A história então monta o modelo do conhecimento das coisas humanas, que vai ser usado pela antropologia, economia, sociologia. Qualquer dimensão da ação humana deve ser entendida historicamente. Continuar lendo

Teorias de conspiração: usos e abusos

illuminatiEm um ensaio sobre Escatologia, o historiador francês Jacques Le Goff disse que a proliferação de teorias sobre o fim do mundo (ou dos tempos) é resultado de uma história que não domina mais o futuro. Ele faz alusão às filosofias da história que, a partir de Hegel, adquiriram um sentido de apreensão do significado da história universal. As filosofias da história se desenvolveram no século 19 e são herdeiras do racionalismo iluminista, em que o passado caracterizado pela superstição religiosa e a ignorância seria suplantado, no futuro, pela ciência e sua capacidade crescente de aperfeiçoamento das habilidades humanas. O enredo da história deveria culminar com a liberdade humana e, para pensadores como Hegel e Fichte, essa liberdade estava vinculada ao Estado. Hegel desenvolveu uma concepção de história calcada em leis gerais e continuada, com nuances diferentes, pela tradição idealista alemã, o materialismo histórico de Marx e Engels e o Positivismo. Continuar lendo

Pós-teísmo

Don CupittDesde a década de 50 nossa civilização ocidental passou por transformações culturais profundas. Chamamos isso genericamente de pós-modernismo. É um conceito bastante controverso, porém suficientemente sedimentado nas ciências sociais para ser simplesmente rejeitado. As mudanças ocorreram na arquitetura, arte, literatura, moda, economia, comunicações, transportes e mudaram substancialmente nossa percepção de mundo, as relações interpessoais e diluíram identidades baseadas em noções de território, nacionalidade, etnicidade, política e religião. Continuar lendo

Humanismo Secular: inimigo número um dos radicalismos religiosos

humanismoA história dos movimentos fundamentalistas nas três grandes tradições monoteístas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) possui como plano de fundo uma profunda aversão aos ideais do humanismo secular, tomados como herança do racionalismo iluminista (especialmente em sua versão francesa) e como refratários aos princípios da religião. Para os muçulmanos, tudo isso se confundia com o secularismo ocidental. Foi entre os fundamentalistas norte-americanos, nas décadas de 60 e 70, que o inimigo a ser combatido ganhou essa denominação. Continuar lendo

A Bíblia e a História

mar_vermelho_History Channel possui uma série de documentários chamada “Em Busca do Tesouro Sagrado”. Um deles fala sobre a busca de um arqueólogo pela Arca da Aliança, um artefato muito mencionado na Bíblia, no Antigo Testamento, em formato de baú, que os antigos hebreus acreditavam conter a presença de Deus. Além disso, era um símbolo que eles acreditavam que lhes garantia vitórias nas guerras. A arca passava a maior parte do tempo no antigo Templo de Salomão e não se tem notícias de seu paradeiro desde a diáspora. Ao final, o arqueólogo é informado de que a Arca estaria guardada em uma igreja na Etiópia. A igreja é vigiada por alguns homens armados e um ancião, que nunca sai de lá, é o único que pode vê-la. O pesquisador não pôde confirmar se se trata do mesmo artefato dos antigos hebreus e lamentou não permitirem que a visse embora possa ter chegado muito perto. Continuar lendo

Por que a crença no inferno ainda importa?

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Ilustração de Gustave Doré para “A Divina Comédia”, retratando Dante e Virgílio no inferno. Fonte: wikipaints.org

A ideia de um “mundo dos mortos” sempre aterrorizou a humanidade ao longo da história. As narrativas sobre o que compreendemos como “inferno” são incrivelmente semelhantes quando as cotejamos. Isso ocorre porque as civilizações estão em contínuo processo de trocas culturais e simbólicas. Entre os antigos mesopotâmicos, acreditava-se que após o enterro o fantasma do morto ficava aprisionado em uma espécie de caverna, úmida, escura e cercada por muralhas. A existência de muralhas, guardiões e palácios de deuses nesse “país dos mortos” remetia à estrutura das cidades no Oriente Próximo. A crença em reencarnação ou qualquer outra forma de renascimento era inexistente, diferente dos egípcios, que imaginavam um julgamento antes de o morto adentrar na outra vida e é de conhecimento geral que suas técnicas de mumificação foram desenvolvidas por sua crença na ressurreição. Continuar lendo