Teorias de conspiração: usos e abusos

illuminatiEm um ensaio sobre Escatologia, o historiador francês Jacques Le Goff disse que a proliferação de teorias sobre o fim do mundo (ou dos tempos) é resultado de uma história que não domina mais o futuro. Ele faz alusão às filosofias da história que, a partir de Hegel, adquiriram um sentido de apreensão do significado da história universal. As filosofias da história se desenvolveram no século 19 e são herdeiras do racionalismo iluminista, em que o passado caracterizado pela superstição religiosa e a ignorância seria suplantado, no futuro, pela ciência e sua capacidade crescente de aperfeiçoamento das habilidades humanas. O enredo da história deveria culminar com a liberdade humana e, para pensadores como Hegel e Fichte, essa liberdade estava vinculada ao Estado. Hegel desenvolveu uma concepção de história calcada em leis gerais e continuada, com nuances diferentes, pela tradição idealista alemã, o materialismo histórico de Marx e Engels e o Positivismo. Continuar lendo

Pós-teísmo

Don CupittDesde a década de 50 nossa civilização ocidental passou por transformações culturais profundas. Chamamos isso genericamente de pós-modernismo. É um conceito bastante controverso, porém suficientemente sedimentado nas ciências sociais para ser simplesmente rejeitado. As mudanças ocorreram na arquitetura, arte, literatura, moda, economia, comunicações, transportes e mudaram substancialmente nossa percepção de mundo, as relações interpessoais e diluíram identidades baseadas em noções de território, nacionalidade, etnicidade, política e religião. Continuar lendo

Humanismo Secular: inimigo número um dos radicalismos religiosos

humanismoA história dos movimentos fundamentalistas nas três grandes tradições monoteístas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) possui como plano de fundo uma profunda aversão aos ideais do humanismo secular, tomados como herança do racionalismo iluminista (especialmente em sua versão francesa) e como refratários aos princípios da religião. Para os muçulmanos, tudo isso se confundia com o secularismo ocidental. Foi entre os fundamentalistas norte-americanos, nas décadas de 60 e 70, que o inimigo a ser combatido ganhou essa denominação. Continuar lendo

A Bíblia e a História

mar_vermelho_History Channel possui uma série de documentários chamada “Em Busca do Tesouro Sagrado”. Um deles fala sobre a busca de um arqueólogo pela Arca da Aliança, um artefato muito mencionado na Bíblia, no Antigo Testamento, em formato de baú, que os antigos hebreus acreditavam conter a presença de Deus. Além disso, era um símbolo que eles acreditavam que lhes garantia vitórias nas guerras. A arca passava a maior parte do tempo no antigo Templo de Salomão e não se tem notícias de seu paradeiro desde a diáspora. Ao final, o arqueólogo é informado de que a Arca estaria guardada em uma igreja na Etiópia. A igreja é vigiada por alguns homens armados e um ancião, que nunca sai de lá, é o único que pode vê-la. O pesquisador não pôde confirmar se se trata do mesmo artefato dos antigos hebreus e lamentou não permitirem que a visse embora possa ter chegado muito perto. Continuar lendo

Por que a crença no inferno ainda importa?

inferno
Ilustração de Gustave Doré para “A Divina Comédia”, retratando Dante e Virgílio no inferno. Fonte: wikipaints.org

A ideia de um “mundo dos mortos” sempre aterrorizou a humanidade ao longo da história. As narrativas sobre o que compreendemos como “inferno” são incrivelmente semelhantes quando as cotejamos. Isso ocorre porque as civilizações estão em contínuo processo de trocas culturais e simbólicas. Entre os antigos mesopotâmicos, acreditava-se que após o enterro o fantasma do morto ficava aprisionado em uma espécie de caverna, úmida, escura e cercada por muralhas. A existência de muralhas, guardiões e palácios de deuses nesse “país dos mortos” remetia à estrutura das cidades no Oriente Próximo. A crença em reencarnação ou qualquer outra forma de renascimento era inexistente, diferente dos egípcios, que imaginavam um julgamento antes de o morto adentrar na outra vida e é de conhecimento geral que suas técnicas de mumificação foram desenvolvidas por sua crença na ressurreição. Continuar lendo

Profecias e apocalipses: o medo do fim sempre presente na humanidade

Fim-do-mundoEsses dias estava pensando quantos recursos foram gastos nos últimos anos sobre a profecia maia de que o mundo passaria por uma grande transformação cataclísmica em 21 de dezembro de 2012. Revistas, livros, documentários, algumas pessoas ganharam dinheiro com isso, outras ficaram e estão amedrontadas. Há alguns dias, a NASA se manifestou sobre o assunto por ter recebido várias cartas de pessoas perguntando sobre isso e dizendo que pretendiam suicidar-se; alguns até falavam em matar os próprios filhos para que não vissem o fim do mundo. Continuar lendo

Por que não é possível acabar com a religião?

meca1Se a religião for tirada das pessoas, outra coisa deverá ser posta em seu lugar. Comte propôs a ciência, comunistas e nazistas transformaram seus regimes políticos em religiões de Estado, ao mesmo tempo em que baniram as outras.

O filme O Livro de Eli (2010), estrelado por Denzel Washington, retrata um mundo pós-apocalíptico devastado por uma grande guerra que dizimou a maior parte da humanidade e onde as piores observações de Hobbes sobre a ausência do Estado se tornam realidade. No Filme, Denzel Washington interpreta Eli, um homem errante que, apesar de sempre andar armado, busca viver em paz. Sua tranquilidade, no entanto, dura apenas até encontrar um vilarejo controlado por um chefe de bandidos, Carnegie, interpretado por Gary Oldman e cuja filha, Solara (Mila Kunis) se apaixona por Eli. Continuar lendo