O que é fundamentalismo

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O fundamentalismo nasceu entre protestantes norte-americanos e o conceito é usado hoje para designar a interpretação literal de textos sagrados nas três tradições monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo

Fundamentalismo se tornou uma forma de insulto. Quando não se gosta de alguém ou de um movimento, é comum chamá-lo(a) de fundamentalista. Assim fazem, por exemplo, representantes do movimento GLBT com a bancada evangélica no Congresso e vice-versa. Há quem fale de ateus fundamentalistas, de feministas fundamentalistas e por aí vai. No fim, uma questão fica em aberto: quem realmente é fundamentalista?

O termo se origina de um conjunto de doze documentos publicados com o título The Fundamentals, a Testimony to the Truth no início do século passado por lideranças protestantes norte-americanas. O documento é uma afirmação contundente da literalidade de algumas narrativas da Bíblia, além de expressar a ideia de que a Bíblia não contém erros: afirma que a criação ocorreu como descrita no Gênesis, que Jesus Cristo nasceu de uma virgem,  ressuscitou fisicamente,  assim como os milagres por ele realizados relatados nos evangelhos são todos autênticos e que sua deidade é real.

O fundamentalismo não advoga a literalidade de toda a Bíblia, apenas de algumas partes dela e isso está relacionado ao contexto de seu surgimento. O movimento surgiu como reação a importantes tendências do século 19: o evolucionismo darwinista, a física moderna e a crítica superior da Bíblia (a crítica literária e histórica dos textos bíblicos). O pano de fundo que ocasionou o nascimento do movimento fundamentalista foi o afastamento da explicação religiosa da origem da vida e dos fenômenos naturais, e os estudos históricos da Bíblia iniciados na Teologia alemã. Esses estudos investigavam a autoria dos livros da Bíblia e rejeitavam a historicidade da Revelação e dos milagres que durante séculos legitimaram a autoridade da Igreja e do clero.

A crítica superior da Bíblia teve no filósofo holandês Baruch Espinosa um de seus precursores. Para ele, a Bíblia deveria ser lida como qualquer texto e não como uma revelação divina. Ele foi um dos primeiros a examinar suas características históricas e literárias, assim como as ideias políticas que nortearam sua escrita. Mas foi apenas no século 19 que a crítica superior ganhou forma. O termo “superior” é uma referência à iniciativa de seus representantes de tentar identificar os autores e as fontes que inspiraram os livros da Bíblia, assim como as tradições religiosas ligadas a ela; superior remete à noção de ser uma crítica explicativa, em oposição à explicação literal, que seria inferior.

Também conhecido como método histórico-crítico, os representantes dessa vertente descobriram, por exemplo, que os cinco primeiros livros da Bíblia não foram escritos por Moisés, nem os Salmos por Davi, que as narrativas de milagres são tropos literários e os Evangelhos não são integralmente verdadeiros. Hoje também sabemos que nenhum dos evangelhos foi escrito pelos autores que lhes são atribuídos, assim como muitas cartas de Paulo também não foram redigidas por ele. Por outro lado, graças ao avanço da geologia, o Dilúvio passou a ser interpretado como uma enchente local, isto é, que não inundou todo o planeta, assim como a descoberta de rochas com centenas de milhares de anos proporcionou o entendimento de que o mundo não poderia ter menos de dez mil anos, como se acreditava com base no relato da criação.

Foi entre presbiterianos de Princeton, em 1910, que a doutrina da infalibilidade da Bíblia foi formulada. Nos cinco anos seguintes, os panfletos The Fundamentals foram elaborados por alguns teólogos conservadores; nesses documentos, eles refutavam a crítica superior da Bíblia e o darwinismo; eles também distribuíram cerca de três milhões de exemplares desses panfletos pelos Estados Unidos.

Ainda em 1908, o importante seminário Bible College foi fundado por magnatas do petróleo para ser um centro de educação dos fiéis nos princípios centrais da fé cristã e para fazer frente às abordagens oriundas do método histórico-crítico.  Embora os panfletos tenham causado pouco impacto na época de sua publicação, o movimento fundamentalista ganhou força nos Estados Unidos nas décadas seguintes, se expandiu juntamente com o pentecostalismo, que ainda dava seus primeiros passos e foi usado para reforçar a Doutrina do Destino Manifesto, da escolha divina dos Estados Unidos para expandir o cristianismo.

Desse modo, os fundamentalistas pretendiam retornar ao que consideravam as verdades “fundamentais” da Bíblia e passaram a apelar para a exatidão científica de seus relatos. Ao fazer isso criaram enormes problemas para si mesmos, pois tentaram casar linguagens e estilos narrativos tão diferentes quanto inconciliáveis, que é a diferença entre a narrativa mítica, isto é, poética e que não pretende evocar questões empíricas e cronológicas, campo onde se situa a Bíblia, e o logos, que é onde se situa o pensamento científico. Este último é empírico, demonstrativo, racional no sentido de propor enunciados (verdades) que correspondam ao mundo físico e natural; é um pensamento que busca origens, encadeamento de eventos, argumento causal. O logos é o pensamento que deve ser capaz de provar, demonstrar e garantir a veracidade empírica do que é dito.

Nada disso diz respeito ao mito. O mito não usa argumentações racionais, mas intuitivas. Seu objetivo não é explicar o mundo, mas sustentar um conjunto de rituais e cerimônias de um determinado culto religioso. E esse é um dos aspectos sociais mais relevantes do mito: ele está sempre associado a um tipo de culto e à observação de determinados ritos religiosos. Por isso, quando uma religião desaparece, seus mitos também perdem sustentação social.

Quando o pensamento moderno deixou claro que é a matemática e a pesquisa empírica que podem explicar o mundo, não a fé, isso representou um duro golpe naqueles que não conseguiram aceitar que a linguagem da Bíblia não é a linguagem da ciência, que suas narrativas não objetivam ser verdades no sentido que o pensamento racional moderno se apresenta e nem poderiam, pois o pensamento pré-moderno se preocupa com sentidos, não com explicações causais. Nesse passo, a Bíblia trata de significados, não de narrativas históricas como nós entendemos narrativa histórica hoje.

Mas há outro aspecto do fundamentalismo que precisa ser enfatizado: as religiões monoteístas, devido à sua crença em um Deus, chegam facilmente à noção de que a verdade é única e está revelada em determinados textos sagrados. Por isso, o fundamentalismo nasceu para se contrapor à noção de que as verdades são construções provisórias e sua interpretação dos textos sagrados rejeita a distinção entre tipos diferentes de linguagens que expus acima.

O fundamentalismo não é anti-moderno, ele não rejeita toda a ciência nem o seu método; rejeita apenas as teorias científicas que contrariam sua interpretação literal de textos sagrados. Ele nasce como uma tendência da modernidade para se contrapor a outras tendências da própria modernidade e não apela apenas à autoridade religiosa para afirmar seus enunciados como verdadeiros, mas frequentemente tenta dar a esses enunciados uma casca, uma aparência científica, como é o caso da teoria do Design Inteligente (ou ID, Intelligent Design, em inglês).

O fundamentalismo é essencialmente antirrelativista, por isso não pode existir fora de uma cosmovisão monoteísta. Nenhuma religião politeísta pode ser fundamentalista, uma vez que a aceitação de vários deuses implica a aceitação da validade de outros credos, além do fato de que disputam de forma permanente a hegemonia e a imposição de alguns desígnios. Por outro lado, tendências seculares como o feminismo, o ateísmo, movimentos de minorias ou ideologias políticas também não podem ser fundamentalistas porque não possuem um livro sagrado a partir do qual poderiam extrair uma verdade revelada de natureza universal.

Embora o termo fundamentalismo tenha nascido no protestantismo, também é usado para caracterizar movimentos análogos no Judaísmo e no Islamismo. No primeiro, possui uma dimensão essencialmente étnica (isto é, não universal) e relacionada à valorização da identidade do povo judeu como povo escolhido. No Islamismo está relacionado à crença de que seu livro sagrado foi gerado diretamente por Deus, em vez de ter sido apenas revelado e os valores que norteiam a sociedade, seu poder político e seu direito devem ser extraídos diretamente do Alcorão de forma direta e literal.

Mais do que o cristianismo e o judaísmo, o islamismo tem uma postura ainda mais radical em relação aos não-muçulmanos e à cultura secular: o islã é um credo que funde política e religião e divide a humanidade entre os de dentro, que pertencem à fé islâmica, e os de fora, entre aqueles do Dar-al-Islam e aqueles do Dar-al-harb. Historicamente, o islamismo se caracteriza como uma religião militarista e inelutavelmente avessa à descrença. A noção de fundamentalismo aqui tende a ser mais generalizada do que nos outros monoteísmos, uma vez que as escrituras sagradas do islã, o Corão e a Sunna, regulam toda a vida privada e pública dos fiéis.

O fundamentalismo é uma das características mais marcantes dos três monoteísmos nos últimos cem anos e tem como uma de suas características centrais ser uma religiosidade beligerante, interpreta o mundo a partir da luta entre o bem e o mal, vê os defensores de posições diferentes como inimigos potenciais, daí sua impossibilidade de aceitação do diferente e sua permanente propensão à imposição de seus ideais. O estilo de vida pluralista e tolerante das democracias seculares ocidentais é o oposto do que pregam os fundamentalistas e frequentemente usam dos direitos por elas concedidos para derrubá-las, ou pelo menos torná-las menos tolerantes.

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