As jornadas de junho de 2013 e suas consequências

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Manifestação em Junho de 2013. Foto: Valter Campanato/ABr/Dw Brasil

De 2013 ao momento em que publico esse texto (2020), o Brasil viveu um clima de instabilidade política constante. Em 2013 o país estava prestes a sediar a Copa do Mundo e tudo parecia ir bem quando um clima de insatisfação social veio à tona e milhões de pessoas foram às ruas protestar contra os escândalos de corrupção que vinham a público. Tudo começou com manifestações contra o aumento de tarifas de transporte público em São Paulo. As jornadas de junho, como ficaram conhecidas as passeatas daquele ano, tiveram um impacto significativo sobre os eventos dos anos seguintes.

O ano de 2013 foi um marco na história recente do país e dali em diante eventos importantes abalaram nossa sociedade: a derrota humilhante do Brasil para a Alemanha na semifinal da Copa do Mundo de 2014 por 7 a 1 foi seguida da polarização política na campanha presidencial que culminou na vitória de Dilma Rousseff. Em janeiro de 2015, Dilma reassumiu o poder com um país profundamente dividido e insatisfeito.

As medidas impopulares que tomou naquele ano, contrariando suas promessas de campanha, somadas ao avanço das investigações da Lava Jato que expunham crimes de seu partido e aliados, bem como o crescimento da inflação e do desemprego corroeram sua popularidade e levaram à ascensão de movimentos sociais de direita que mobilizaram milhões de pessoas para as ruas pedindo sua deposição. Sem base de apoio no Congresso e com a popularidade abaixo de dois dígitos, Dilma sofreu um processo de impeachment e foi deposta em agosto de 2016.

O restante da história é bem conhecido dos leitores: o vice Michel Temer assumiu a presidência, promoveu reformas econômicas austeras com base no programa “Ponte para o Futuro” e a polarização política que vimos em 2014 voltou nas eleições de 2018 com ainda maior força. Dessa vez, a polarização não era entre um partido de centro-direita (PSDB) e um partido de centro-esquerda (PT), mas entre o PT e um candidato de extrema-direita, Jair Bolsonaro. Apesar de ter sido um deputado federal insignificante nos 28 anos anteriores, Bolsonaro pegou carona no sentimento antipetista que se espalhou na sociedade em decorrência dos eventos que levaram à deposição de Dilma e venceu o pleito naquele ano ao derrotar, no segundo turno, o candidato petista Fernando Haddad.

Para muitas pessoas, os acontecimentos desses anos geraram uma incompreensão de suas causas mais profundas. No calor dos eventos, sentimentos de ódio dos dois lados do espectro político obstacularizaram debates mais qualificados sobre os problemas do país. Mas por que as jornadas de junho aconteceram? Quais foram suas consequências sociais e políticas? Qual foi o papel das redes sociais nesse processo? Que relação as jornadas tiveram com o impeachment de Dilma?

Um leitor do blog, Aderson Silva, estudante de Jornalismo, me enviou recentemente algumas perguntas sobre as jornadas de junho para um trabalho da faculdade. Posto aqui as perguntas que respondem às questões acima e outras também.

  1. Na sua análise, o que foi as ‘Jornadas de Junho de 2013’? E quais foram as implicações políticas e sociais desse movimento?

As jornadas foram as primeiras manifestações sociais espontâneas desde as Diretas Já. Começaram com um viés progressista, na forma de protestos contra o aumento das passagens de ônibus em São Paulo, e logo ganharam o país na esteira dos escândalos da Lava Jato, que começavam a vir a público naquele momento, e da corrupção envolvendo a construção dos estádios para a Copa do Mundo. Eram manifestações apartidárias, e naquele ano permaneceram assim. Foram um sinal de alerta de que as coisas não estavam indo bem no país. Suas implicações políticas estão relacionadas ao que ocorreu nos dois anos seguintes: o avanço das investigações da Lava Jato, evidenciando o enorme buraco provocado nas contas públicas pelo petrolão e pela associação dos governos petistas com as grandes empreiteiras e, finalmente, a reeleição de Dilma seguida de um estelionato eleitoral, ou seja, o descumprimento de promessas de campanha e a tomada de medidas impopulares, como aumento frequente de impostos para conter a sangria nas contas públicas. Nesse contexto, uma nova direita emergiu associando o petismo à crise, ao petrolão, à corrupção desenfreada e ao aparelhamento da máquina pública em favor do partido. Essa nova direita, que ganhou força pelas redes sociais e manifestações de rua, professava um antiesquerdismo e um liberalismo econômico radicais. Em resumo, ao falar das implicações políticas das jornadas é preciso levar em conta que elas acenderam o sinal amarelo para um governo que estava acomodado demais ao poder e envolvido demais em escândalos de corrupção para mudar suas diretrizes a partir dali. Dilma não mudou e, pior, cometeu um estelionato eleitoral que lhe custou o segundo mandato, pelo impeachment, e fortaleceu, pela primeira vez desde o fim da dituadura, a direita radical no país.

  1. Como uma manifestação relativamente pequena centrada na capital de São Paulo contra a precariedade e alto custo do transporte público virou um movimento nacional contra a corrupção, classe política, governo federal, Copa do Mundo e etc. ?

Em 2013 ficou muito claro que os custos para construção dos estádios para a Copa e a reforma de outros eram altos demais para um país com problemas sociais muito graves como o Brasil. Também ficou claro o quanto empreiteiras e políticos se locupletaram com dinheiro público para isso. As passeatas pelo passe livre foram o estopim que levaram à externalização do sentimento de revolta em todo o país. As manifestações canalizaram uma série de insatisfações que tinham como ponto em comum a revolta contra a corrupção envolvida nos preparativos para a Copa. Parte significativa da classe política e o governo federal estavam profundamente envolvidos com isso, então era inevitável que se tornassem o alvo principal dos protestos.

  1. ‘Junho de 2013’ despertou o interesse – ou um maior interesse – do brasileiro pela política, sobretudo com a dinâmica das redes sociais? Se sim, quais foram as vantagens e desvantagens disso?

Por seu alcance e capacidade de engajamento as redes sociais se mostraram o meio mais eficaz de mobilização das pessoas. Vejo que essa mobilização pelas redes trouxe algumas questões que se tornaram fundamentais nos eventos que ocorreram desde então: a primeira foi o enfraquecimento dos partidos tradicionais. Associados à corrupção, ao fisiologismo e ao conhecido “toma-lá-dá-cá” de nossa política partidária, esses partidos já não representavam mais os interesses da sociedade, então movimentos mais ou menos espontâneos surgiram a partir disso. Como era um partido de esquerda que estava no poder, esses movimentos tinham um viés mais conservador, de direita e liberal. A segunda foi a quebra da hegemonia da imprensa tradicional, que deixou de ser o único meio de informação e depois passou a ser hostilizada como parte do status quo. A imprensa tradicional já era hostilizada por parte da esquerda, que contava com seus próprios veículos de informação, e passou a ser hostilizada também pela direita que emergiu nos últimos anos. Uma das consequências mais problemáticas disso foi a falta de critérios na produção e divulgação de notícias, com o fenômeno das fake news, que, evidentemente, não é exclusivo do Brasil e ganhou impulso a partir de então, a ponto de termos de um presidente que foi eleito em parte com base em fake news.

  1. Boa parte dos participantes ou estudiosos de ‘Junho de 2013’ entendem que os grandes veículos de comunicação só vieram a apoiar os manifestantes depois de também ter sido reprimida pela polícia. Qual foi o papel da grande mídia? E quais dimensões os protestos tomaram depois desse apoio?

Não entendo que os grandes veículos de comunicação apoiaram os manifestantes. Até porque é preciso dizer que havia tipos diferentes de manifestantes: os estudantes que lutavam pela redução da tarifa de transportes; os black blocks, jovens anarquistas que se notabilizaram pelo uso de capuzes e por quebrar vidraças de empresas e bancos;e, finalmente, as pessoas que empunharam a bandeira do Brasil e foram às ruas protestar contra a corrupção. Não havia unanimidade nas manifestações e mesmo os protestos contra a corrupção sofriam de um mal de qualquer manifestação do gênero: a corrupção é um alvo muito informe, sem rosto e naquele momento abarcava virtualmente toda a classe política. As pautas mais específicas, se existiam, se dissolviam na multidão de vozes que iam às ruas. A imprensa espetacularizou isso, especialmente quando mostrava ruas tomadas por manifestantes ou os vidros dos bancos quebrado pelos black blocks.

  1. Você vê alguma relação entre ‘Junho de 2013’ e os protestos a favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e da Lava Jato em 2016?

Como disse antes, os protestos a favor do impeachment foram consequência de o governo Dilma nada ter feito em relação ao que ocorreu em 2013. O governo estava envolvido demais com a Lava Jato e os escândalos envolvendo as empreiteiras. Dilma não apenas não mudou o rumo de sua política como criminalizou os movimentos sociais por meio da lei antiterrorismo sancionada em 2016. Os protestos a favor do impeachment foram consequência direta das manifestações de 2013 na medida em que essas manifestações acenderam a fagulha que em 2016 queimou a palha sobre a qual o governo Dilma estava estabelecido.

  1. Num artigo para a revista Teoria e Debate ainda em 2013, a filósofa Marilena Chauí alerta para o perigo das manifestações de alguns grupos que criminalizam a política, negando a importância da instituição partidária na democracia e abrindo espaço para ideais autoritárias. Você concorda com essa afirmação? Acha que esse alerta da pensadora se concluiu?

Por ser marxista e fortemente ligada ao PT, Marilena Chauí faz parte de uma geração de intelectuais que absorveu o lema leninista de que o partido deve ser vanguarda do proletariado em sua luta social e os intelectuais devem exercer esse papel como revolucionários profissionais. Os movimentos que surgiram em 2013 eram exatamente o oposto disso: eram movimentos sem lideranças verticais, articulados por meio das redes sociais em vez de partidos ou centrais sindicais. Naquele momento, isso deixou as esquerdas e seus intelectuais desnorteados porque representou a quebra de seu monopólio das manifestações de rua. É importante destacar que militantes de partidos também estiveram nas manifestações empunhando suas bandeiras, mas os partidos não foram protagonistas dos protestos. As pautas não estavam vinculadas pelo que historicamente as esquerdas reivindicavam, mas não deixaram de ter importância na medida que mostraram que era urgente que as instituições e os governos parassem de se locupletar e agissem em favor do bem comum. O autoritarismo que levou Bolsonaro ao poder emergiu pelo fato de os governos não terem atendido a esse ponto, por terem pensado que as manifestações seriam uma onda que logo passaria sem deixar rastros. O culto ao autoritarismo veio como resultado de a corrupção endêmica ter corroído a credibilidade das instituições e da democracia, não porque os partidos não foram protagonistas nas manifestações.

  1. Você acha que ‘Junho de 2013’ marcou o início da polarização política no país ou ela já existia antes e ‘Junho’ apenas agravou?

Antes de 2013 a polarização se manifestava especialmente em tempos eleitorais e gravitavam em torno de PT e PSDB. Até 2014 os dois partidos ainda atraíam as pessoas de um pólo e outro mas a partir de 2015 perderam relevância para os movimentos que surgiram a partir da redes sociais. Penso aqui especialmente no MBL e o Vem pra Rua, que, em 2015 e 2016 encabeçaram as manifestações que levaram à deposição de Dilma pelo impeachment. Esses movimentos captaram o clima de instisfação e levaram as pessoas às ruas quando os partidos tradicionais não eram mais capazes de fazê-lo. A partir desses anos, a polarização também passou a estar relacionada ao forte antipetismo que esses movimentos encetaram. O impacto disso foi grande porque o partido estava há 13 anos no poder e aglutinava virtualmente todas as forças de esquerda. Antipetismo se tornou então sinônimo de antiesquerdismo. Depois essa polarização ganhou novas tonalidades marcadas pela ascensão da intolerância e um forte obscurantismo, como por exemplo: glorificação da dituadura militar de 1964 a 85 em contraponto ao apoio histórico das esquerdas ao castrismo em Cuba, ódio a políticas sociais como medidas socialistas, apelo à religião e a uma visão idealista de “família tradicional” contra o feminismo e as políticas afirmativas para o ensino de gênero nas escolas, e hostilização das universidades públicas e dos saberes produzidos nelas, especialmente na área das humanidades.

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