Religião para ateus e religiosos

 

Papa Bento XVI e Stephen Hawking
Encontro do Papa Bento XVI com o físico britânico Stephen Hawking em 2008. Hawking, que era ateu, insistia para que religião e ciência não se fechassem uma para a outra. A Igreja, por outro lado, teve uma relação com a ciência marcada por censura e perseguições durante longo tempo. Foto: G1

“Religião para ateus” é um livro do filósofo Alain de Botton ainda pouco conhecido no Brasil. Esse texto não é uma resenha da obra, mas toma emprestado seu título para tecer algumas considerações sobre como ateus podem compreender a religião para além da mera rejeição. Ao final, trago uma bibliografia básica para se compreender a religião. Acrescento aqui no título “e religiosos” porque tanto a bibliografia ao final como a breve discussão do texto são úteis tanto a crentes (no sentido de pessoas que creem em uma divindade ou em vida após a morte) quanto a descrentes.

Em “Religião para ateus” (Editora Intrínseca, 2011), Botton diz no início: “Num mundo ameaçado por fundamentalistas religiosos ou seculares, deve ser possível equilibrar uma rejeição da fé e uma reverência por rituais e conceitos religiosos” (p. 12). Logo depois, ele diz que inventamos as  religiões para servirem a duas necessidades básicas que nenhum meio secular foi capaz de superar: primeiro, a necessidade de controlarmos nossos impulsos egoístas e violentos para vivermos em comunidade; segundo, a necessidade de lidarmos com diferentes graus de dor resultantes de nossa vulnerabilidade ao fracasso, a doenças e à morte.

Botton, que é um filósofo ateu, deixa claro que não pretende no livro fazer uma defesa da religião, mas se concentrar em alguns aspectos particulares de três religiões (cristianismo, judaísmo e budismo) que possam ser úteis à vida secular e nos ajudar nos dois aspectos acima mencionados, viver em comunidade e superar os desafios que nos são impostos pelo sofrimento e a dor.

Religião e ateísmo podem parecer, em um primeiro momento, como dois pontos inconciliáveis e sem possibilidade de diálogo. Que são inconciliáveis em relação a determinados aspectos relacionados ao fim último da nossa existência, por exemplo, ou a noções de espiritualidade, isso é compreensível, mas não quer dizer que o diálogo entre ambos não seja possível. Isso não é verdade.

Historicamente, o ateísmo sempre foi visto como uma ofensa, algo imoral. Em nossa sociedade isso ainda está muito enraizado no imaginário social e se deve a duas razões, como coloquei em outro texto: à herança cristã e aristocrática da formação de nossas elites, que veem na propagação da descrença um sinônimo de amoralidade e rebeldia (isto é, temem o questionamento à autoridade e à tradição) e se deve também ao fato de nossa educação básica não proporcionar uma formação humanística de qualidade. Contudo, o ateísmo sempre foi uma prerrogativa de pequenos círculos, ele é sempre uma exceção, não a regra. Como diz Rodney Stark, “a religião é um fator preponderante na vida humana e, num futuro previsível, pode-se acreditar que se mantenha assim”.

Maxim Gorki dizia que a melhor forma de desacreditar a religião era incentivar o estudo da história da Igreja. De fato, um estudo histórico e sistemático das religiões não é a melhor forma de se reforçar convicções religiosas, ainda mais porque o campo multidisciplinar que compreendemos por estudos de religião é essencialmente não religioso.

Mas disso não segue que as religiões sejam apenas irracionais, como certo ateísmo militante tenta postular. Quando se coloca as coisas nesses termos, parte-se de uma fé cega nas potencialidades da ciência e da razão, ignorando quase tudo o que o estudo das religiões produziu em mais de cem anos.

São muitas as contribuições da religião para nossa formação cultural. Tomemos como exemplo a  Bíblia: a moralidade e as noções de justiça no Ocidente têm como base os mandamentos cinco a dez, como descritos em Êxodo 20. Isso é um legado cultural, além de religioso. Nossas leis, embora laicas, mantêm sua essência. A definição do direito de propriedade, direito à vida e à não violação da integridade do indivíduo que estão presentes ali formam o sustentáculo da vida em sociedade. São elementos de longa duração que ainda definem nossa concepção de certo e errado.

A ideia de pensar moralidade sem religião é muito recente, mas em qualquer época a moralidade está vinculada a crenças religiosas. E não apenas a moralidade, mas a criação de cidades, bem como a organização de seu espaço, a agricultura e todas as outras formas de conhecimento estavam vinculadas à religião. As regras de matrimônio, de retribuição (como a instituição do Potlatch estudada pelo Marcel Mauss ou Kula por Malinowski), de padrões comportamentais não existem sem os sistemas de crenças aos quais estão vinculadas. Os códigos jurídicos também eram elaborados a partir da religião.

Hoje não vemos a proibição de matar ou roubar como intervenções divinas porque vivemos em Estados modernos secularizados. Mas na Antiguidade e posteriormente não havia separação entre religião, moral, ética, vida privada, poder, educação, porque todas as esferas da vida social eram coordenadas pelo elemento religioso. Era por meio da religião que os homens explicavam o mundo e organizavam as relações sociais. Mesmo em nossa época você pode encontrar comunidades indígenas no Norte e Centro-Oeste que ainda se regem dessa forma. Até em sociedades secularizadas, a vida civil está permeada de simbolismos religiosos. Mircea Eliade demonstra isso em seu livro O Sagrado e o Profano.

Religiões são sistemas culturais e como tais são produtoras de valores morais. Toda a moralidade ocidental, inclusive a laica, está assentada nos valores judaico-cristãos. Em alguns aspectos, mesmo a ciência moderna apenas foi possível porque a Igreja Católica criou as condições para isso na própria Idade Média. Nossos ideais de democracia e liberdade individual também têm bases religiosas.

Ao longo da história, a religião também foi importante fator de luta pela liberdade e transformação social. Os pais fundadores dos Estados Unidos eram deístas, assim como os iluministas que inspiraram a Revolução Francesa, e Locke, que teorizou as bases do Estado constitucional. E tudo isso remonta aos ingredientes da Reforma e do Humanismo renascentista, dois movimentos que, apesar das diferenças e divergências, eram profundamente religiosos. O cristianismo lançou as bases de virtualmente todos os elementos políticos e intelectuais da modernidade, entre eles o ateísmo.

Religião e razão não formam dois polos que se excluem mutuamente e se entraram em conflitos nos últimos séculos foi porque o método científico, ao se tornar independente da teologia, rompeu o monolitismo da explicação religiosa do mundo num contexto em que as esferas de valor (ciência, política, arte, educação, etc.) ganhavam autonomia dela.

Podemos até argumentar contra a Bíblia que ela legitima a escravidão, por exemplo. É fato que a Bíblia muitas vezes foi usada para legitimá-la, já que o judaísmo antigo não a considerava ilegal. Mas o cristianismo passou a ter uma relação diferenciada com isso, tendo exercido papel importante na extinção da escravidão na Antiguidade Tardia. No mundo moderno, a Bíblia tanto foi usada para justificar como para combater a escravidão nas colônias inglesas da América do Norte e também inspirou movimentos de luta pelos direitos civis dos negros naquele país.

Além disso, os ideais de ética e trabalho trazidos pelos calvinistas ingleses que sofriam perseguição religiosa na Europa e pensados a partir da noção de vocação, foram elementos importantes no desenvolvimento econômico dos Estados Unidos, como demonstrou Weber.

O ateu é alguém que consegue viver sem religião e entende que a frase “se Deus não existe, então tudo é permitido” é absurdamente falsa. Ele entende a importância de uma moralidade laica a partir da qual pode pautar seu estilo de vida. Esse estilo de vida é insustentável para a maioria das pessoas; a fragilidade e efemeridade da vida humana dá pouca vazão para a expansão da descrença. A luta pelo respeito à liberdade de consciência não pode se tornar uma luta irresponsável contra instituições e crenças religiosas.

Hoje, os embates com o radicalismo religioso que tenta mudar as leis a seu favor e em detrimento de outros grupos devem ser pautados por um debate qualificado que não pode seguir o caminho enviesado da denegação da religião como um mal. O Estado laico não abole a religião, ele a matiza, isto é, rompe o monopólio de uma religião hegemônica e abre caminho para a proliferação de múltiplas formas de crenças e espiritualidades.

A racionalização do mundo e a secularização não eliminam a religião, produzem novas e produz também a desfiliação religiosa. A religião fundamentalista, que afirma a literalidade de um livro sagrado, reage à secularização porque se sente ameaçada por ela; nesse passo, ela tenta burlar o dispositivo constitucional de separação entre Igreja e Estado para aprovar projetos de leis que interrompam o avanço de determinadas pautas progressistas. Ela faz isso porque a sociedade não é laica e se apoia na profissão de fé da maioria cristã para se opor a temas como temas como a união homoafetiva, a legalização do aborto e a discussão de gênero nas escolas, por exemplo.

Contudo, se conservadores religiosos estão em peso no Congresso brasileiro, eles não representam a totalidade das pessoas que se declaram cristãs. O Cristianismo não forma um bloco homogêneo e há muitos sacerdotes e fiéis progressistas que entendem a importância da não intervenção da religião em assuntos de Estado.

Por outro lado, um personagem como o Papa Francisco, inteligente e humanista, faz muita diferença em um mundo onde radicalismos religiosos ainda são usados para matar; faz muita diferença também ao afirmar que as teorias do Big Bang e da Evolução são verdadeiras e não contrariam a Bíblia. Para os ateus, a afirmação ainda pode soar no mínimo risível. Mas algo assim, vindo de tão importante liderança religiosa, é um tapa na cara de cristãos fundamentalistas que pretendem impor o ensino do Gênesis nas escolas como ciência.

Ainda temos um longo caminho pela frente para avançarmos em pautas liberais e o esclarecimento necessário a isso convida para o diálogo entre variados setores da sociedade. A seguir, deixo uma bibliografia básica para quem quer entender a religião como fenômeno histórico e cultural.

ARMSTRONG, Karen. Breve História do Mito. São Paulo: Companhia das Letras: 2005.

______. Uma História de Deus: quatro milênios de busca do judaísmo, cristianismo e islamismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

______. Em Nome de Deus: o fundamentalismo no Judaísmo, no Cristianismo e no Islamismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

______. Em Defesa de Deus: o que a religião realmente significa. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

BOTTON, Alain de. Religião para Ateus. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2011.

DELUMEAU, Jean. De Religiões e de Homens. São Paulo: Loyola, 2000.

DURKHEIM, Émile. As Formas Elementares da Vida Religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

EAGLETON, Terry. O debate sobre Deus: razão, fé e revolução. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.

ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano: a essência das religiões. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

______. História das Crenças e das Ideias Religiosas. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

Vol 1: Da Idade da Pedra aos mistérios de Elêusis.

Vol 2: De Gautama Buda ao triunfo do Cristianismo.

Vol 3: De Maomé à Idade das Reformas.

LING, Trevor. História das Religiões. 2 ed. Lisboa: Editorial Presença, 2005.

MATA, Sérgio da. História & Religião. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010.

MILES, Jack. Deus, uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

MAUSS, Marcel; HUBERT, Henri. Sobre o Sacrifício. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

OTTO, Rudolf. O Sagrado. São Leopoldo: Sinodal/EST; Petrópolis: Vozes, 2007.

STARK, Rodney; BAINBRIDGE, William Sims. Uma Teoria da Religião. São Paulo: Paulinas, 2008.

WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro: Zahar editores, 1971.

WRIGHT, Robert. A Evolução de Deus. Rio de Janeiro: Record, 2012.

Leia também:

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2 comentários sobre “Religião para ateus e religiosos

  1. jose miguel leal da silva 10/05/2020 / 8:56

    Caro Professor Bertone Sousa, Coloquei no seu texto o comentário que, com pequeníssimas correções, aqui reproduzo. “Agradeço o seu texto e a excelente lista de referencias que o acompanham. Pena é que prossigamos afastados por uma língua comum, como dizia o Churchill a propósito do inglês UK e o dos EUA’s, não tirando daí as enormes vantagens que a língua comum – presente nos 5 continentes – nos poderia dar e que o modelo angloparlante afinal aproveita. Mas, adiante. Surpreende-me que, nos debates sobre as religiões, não apareça (ainda) plasmada e desenvolvida a construção racional de Kurt Göedel, genial amigo de Einstein, que cientificamente propôs e defendeu , desde 1930, a realidade científica da incompletude. Numa carta a sua mãe, Goedel (como também pode ser grafado) confessava não ignorar as consequencias metafísicas da incompletude e do teorema que, sobre a incompletude, enunciara ainda jovem e que, tanto a crentes como a não crentes, poderia trazer um apoio racional às respetivas posições, conciliando-as e amenizando um diálogo muitas vezes franzido em nome de um racionalismo exacerbado pela necessidade de prova. Simplesmente não há prova nem ela é precisa e nisto se radica aquilo que conhecemos como “Fé”. Aconselho-lhe, se já não conhece, as obras de Rebecca Epstein “Incompletude” e de Hofstaedter “Goedel, Escher, Bach – an eternal golden brand” (desculpe não ter aqui à mão o título em Português), editados ambos em Lisboa pela Gradiva, e – para uma difusão mais acessível o número especial dedicado a Goedel pela revista da National Geographic, Referem-me , do Brasil, uma obra a que está associado o nome de Ivo Korystovski (autor ou tradutor?), da Companhia das Letras, que eu não conheço e que me dizem estar esgotada. Encontrará na “net” outras referencias, mas é surpreendente que essas previstas consequencias metafísicas permaneçam sem divulgação e debate desde 1930, quando da famosa oposição pública de Goedel ao critério da finalidade e essencialidade do demonstrável defendido por Hilbert. Um abraço do outro lado do Rio Atlântico e a minha solidariedade com um Brasil tragica e injustamente enlutado no momento difícil e dramaticamente histórico que vivemos. Vamos falando. Bem haja. @ j. m. leal da silva em jmlealsilva@gmail.com, aos 2020.05.10.

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