Anti-educação como projeto de sociedade

escola-educaçãoChamamos de anti-intelectualismo a postura que se caracteriza essencialmente pela hostilização a intelectuais e suas obras. Tal postura pode se manifestar de diferentes formas: ataques verbais, intimidação por grupos organizados da sociedade civil ou paramilitares, tentativas de censura por meio de projetos de lei e ações governamentais e, em casos mais extremos, exílio, prisões, destruição de livros ou bibliotecas e até a condenação à morte de intelectuais.

Regimes autoritários são anti-intelectualistas porque para se manterem no poder precisam do consentimento obtido pelo silenciamento de vozes discordantes. Seja nos regimes do nazi-fascismo, na antiga União Soviética e seus satélites, na China de Mao Tsé-Tung, na Coreia do Norte, nos países onde o fundamentalismo islâmico alcançou hegemonia e nas ditaduras militares ao redor do mundo, a liberdade de expressão se tornou uma utopia e a atividade intelectual rigorosamente vigiada e regulada.

A vida intelectual floresce nas democracias, mas, mesmo nelas corre o risco de sofrer ataques de variados grupos. Atualmente, o Brasil é um exemplo disso. Se hoje vivemos em um contexto onde governos podem ser eleitos por meio de fake news, o anti-intelectualismo também é espalhado por um mecanismo similar: difunde-se a ideia de que uma elite não quer que você conheça a verdade sobre algo, mas você pode chegar a essa verdade pelos meios alternativos que são as redes sociais e páginas “independentes” espalhadas na internet.

Se, por um lado, é fácil ridicularizar os teóricos contrários a vacinas e os terraplanistas, por mais que apelem a supostas autoridades científicas, por outro lado, determinadas concepções vêm a público travestidas de uma capa de intelectualismo para fazer frente ao que alguns consideram como uma visão hegemônica, em nosso contexto associada à esquerda.

No Brasil, os guias politicamente incorretos inauguraram uma era de anti-intelectualismo marcada pela desonestidade intelectual. Eis alguns exemplos: nazismo era de esquerda porque tinha o termo socialismo na sigla; o fascismo também era de esquerda porque Mussolini veio das fileiras da militância socialista e socialismo é de esquerda; a escravidão africana não foi tão brutal como a historiografia sobre o tema faz crer; a ditadura militar não mexeu com o cidadão de bem e somente perseguiu os terroristas que pretendiam implantar o comunismo no Brasil; a miséria na África é resultado da corrupção dos governos africanos, não das colonizações europeias.

Os autores dos guias politicamente incorretos transformaram densas pesquisas historiográficas em rótulos para levarem seus leitores a acreditarem que estão lendo refutações pautadas em renomados autores, alguns dos quais são atribuídas afirmações que não fizeram, como é o caso de Ian Kershaw em O Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo. A linguagem fácil e bem concatenada atrai jovens e adultos com pouca leitura e baixo nível intelectual, ou apenas conservadores bem posicionados socialmente que tomam esses guias como peças de propaganda de uma contra-história. Seguiu-se a eles uma enxurrada de publicações de baixo nível intelectual que inundaram o mercado editorial, acompanhadas da ascensão relâmpago de youtubers conservadores.

Nos últimos anos, o Brasil tem assistido a uma reação conservadora que criou o fantasma da doutrinação comunista nas escolas para vociferarem contra tudo o que não está alinhado a uma visão de mundo cristã e neoliberal. O Projeto Escola sem Partido, outro sintoma da onda anti-intelectualista que se espalhou pelo país, toca exatamente neste ponto. É um projeto elaborado por pessoas que não são educadoras, mas pretendem intervir no sistema nacional de ensino. Ao tratar exceções como regra, ou seja, ao tomar casos isolados de professores que fazem propaganda político-partidária em salas de aula como uma prática corriqueira nas instituições de ensino, do infantil às universidades, os autores do Projeto Escola sem Partido deixam de lado qualquer discussão sobre os problemas estruturais e históricos da educação brasileira para concentrar ataques sobre os docentes não conservadores e o método Paulo Freire.

O anti-intelectualismo trabalha com respostas fáceis para problemas complexos. Não propõe, impõe; não debate, mas busca a censura; despreza a pesquisa científica, o método científico e os desqualifica como inúteis ou instrumentos de uma ideologia a ser combatida. Ao tentar demolir a ciência e sua divulgação livre, o anti-intelectualismo não pode pôr outra coisa no lugar senão uma anti-educação. Trata-se de uma postura negativa, ou seja, é reativa, coloca todos os problemas que pretende combater na conta de um inimigo muito poderoso – os comunistas, marxistas, anticristãos. A essa lista podem ser acrescentados grupos bastante heterogêneos e tomados como parte de uma conspiração global.

Uma vez que as redes sociais engendraram uma sociedade opiniática, a anti-educação não nasceu como projeto de governo, mas brotou de uma parte da sociedade: qualquer um pode alcançar rapidamente milhares ou milhões de seguidores no Youtube e falar sobre virtualmente qualquer coisa sem uma qualificação mínima para isso.

A anti-educação se alimenta da desinformação, da desonestidade intelectual e do ódio propagado contra um inimigo real ou imaginário. O que nasceu como um conjunto de vozes desconexas na internet, ganhou forma e um projeto de poder que flerta com o autoritarismo e a censura. Autores clássicos são hostilizados e questões de ordem científica, históricas e sociais são preteridas pela tentativa de imposição de uma agenda moral e religiosa.

A agenda moral objetiva combater especialmente o ensino de gênero nas escolas. O argumento principal é que valores morais devem ser ensinados em casa pelos pais e que o papel da escola é ensinar o que podemos chamar de disciplinas tradicionais: português, matemática, geografia, história, etc. Ora, a escola existe para colocar a criança em contato com o mundo, com a alteridade. Numa democracia, a escola deve se pautar pela valorização dos direitos humanos, do indivíduo e sua liberdade; para isso, é importante trabalhar noções relacionadas à pluralidade e o respeito à diferença.

Originados na Revolução Francesa, com a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789), e presentes na ONU, na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), os direitos humanos não constituem uma matéria estanque ou de um grupo ou ideologia específicos.

Tais conteúdos não fogem às disciplinas tradicionais, antes são parte dela, uma vez que estão presentes na literatura, geografia humana, história, ou mesmo nas ciências naturais por transversalidade. Se o ensino se choca com determinados valores da família, é importante destacar que o papel da escola não é reproduzir valores familiares. Se os pais de uma criança consideram que a homossexualidade é uma doença ou que a Teria da Evolução é uma mentira anti-cristã, por exemplo, cabe à escola ensinar os equívocos dessas perspectivas.

Sem a perspectiva valorativa do humano, relacionada à empatia para com a diferença e à  alteridade, aliada ao rigor do ensino científico, a escola perde a dimensão de humanização dos indivíduos para se tornar amiúde um veículo de reprodução de preconceitos e formas variadas de violência. Uma vez que o anti-intelectualismo rejeita os direitos humanos em nome do que considera como valores da maioria, cabe sempre destacar o papel da escola como instrumento agregador, de humanização, de esclarecimento e de um conhecimento pluralista.

Leia também:

Marxismo cultural ou a burrice ideológica de direita

A importância (e o perigo) das ciências sociais 

Escola sem Partido

Criação e Evolução

Socialismo e Nacional-Socialismo

16 comentários sobre “Anti-educação como projeto de sociedade

  1. Ágora 05/12/2018 / 21:59

    Muito bom professor.

  2. Germano 06/12/2018 / 8:15

    O erro comum dos intelectuais esquerdistas é tentar mudar o mundo sem entender o mínimo da natureza humana, abrindo mão da lógica com todo o relativismo e sentimentalismo clichê e bocó.

    jamais diga “nós” quando você quer dizer “eles”, pare de usar linguagem democrática, pare de fingir que estamos todos no mesmo time, porque não estamos, e não temos que estar.
    A característica mais proeminente do imbecil é a incapacidade de sair fora da sua esfera de interesses e perceber que a do interlocutor pode ser outra.
    eu sou contra o “escola sem partido” porque sou a favor da liberdade de expressão, cada um que assuma as consequências do que acha melhor pra si …

    Homens adultos capazes e independentes não são burros, eles apenas não são convencidos por acusações ridículas de “intelectuais” alimentados por colheres, vadias indignadas, transexuais bipolares ou obesos mórbidos

    • Bertone Sousa 06/12/2018 / 8:36

      Germano, você comprova meu texto. Antes, pessoas como você tinham vergonha ou não tinham espaço para expressar toda sordidez de seus preconceitos, hoje podem se esconder no anonimato da internet e até pagarem de inteligentinhos. Mas não vou parar de usar linguagem democrática, e não apenas a linguagem, mas não vou parar de defender valores democráticos nem de defender direitos humanos. Eu escrevo para alertar contra pessoas como você: intolerantes, medíocres, cheias de preconceitos e ódio.

      • Mikael 06/12/2018 / 19:46

        Olá professor Bertone. Mais um texto que problematiza plausivelmente. Que nos aponta de como essa onda anti-intelectuais forma/caracteroza. Obrigado mais uma professor, por compartilhar conosco. Há! Tentei entender o comentário do Germano, mas apenas subentendi. O que entendi, professor, com a sua resposta ao comentário em questão, é que ele se posicionara demasiadamente intolerante. Enfim. Mais uma vez, muito obrigado. E sigo lendo seus textos professor Bertone.

  3. Ronaldo Thomé Júnior 06/12/2018 / 14:45

    Grande texto, Bertone! Se me permite, usei uma frase sua para fazer uma montagem no site Canva e gostaria de usar como foto de perfil do Whatsapp: https://drive.google.com/file/d/0B2d4bEGuTK0JelVEQ0FoNE94X2g3NjNYSTJWcW1aUGdTUlpJ/view?usp=drivesdk
    Depois você me diz o que achou.
    Lendo recentemente “O Mundo Assombrado pelos Demônios”, de Carl Sagan, pensei em algo que ele sempre falava: como o intelectual pode se aproximar mais do cidadão comum? No Brasil, a comunidade em geral parece se afastar muito da ciência e da informação acadêmica. O que você acha que pode ser feito para que isso mude? Muitas pessoas, por exemplo, já me disseram que os filósofos brasileiros são fracos e ruins, mas eu penso que finalmente temos alguns pensadores como Karnal e Cortella, que se preocuparam em se aproximar de um público maior sem acesso a esta disciplina. Abraços!

    • Bertone Sousa 06/12/2018 / 22:19

      Ronaldo, pode usar sim. Penso que a melhor forma de se aproximar do cidadão comum é indo pela estratégia deles. Lilia Schwarcz, uma das mais destacadas historiadoras do Brasil, também faz um importante trabalho nesse sentido e tem até um canal no YouTube.

  4. Leandro Carrascosa Oliveira 06/12/2018 / 18:22

    Primeiramente, obrigado Professor Bertone, por sempre escrever textos ótimos sobre os pontos da nossa história e história mundial. Esse que lhe escreveu com ódio, é só mais um doutrinado por Olavo de Carvalho, o que me deixa triste é ver um intolerante desses escrever asneiras e não ter a coragem de tirar as nádegas da cadeira e olhar as realidades do nosso país. São covardes e não tem a mínima vontade de procurar a verdade, porque acha que o astrólogo sabe muito mais que os pesquisadores de qualquer área. Em suas escritas, Olavo só destila ódio e preconceito, igual ao que lhe escreveu acima.

  5. Eduardo Britto 06/12/2018 / 21:44

    Brasil ladeira abaixo.

  6. Ronaldo Thomé Júnior 09/12/2018 / 12:05

    Bertone, qual sua opinião sobre Thomas Sowell? Sei que ele é um acadêmico respeitado, mas li trechos de seus livros que não batem muito com o que já li sobre ação afirmativa e afins, inclusive sobre a questão dos afro descendentes. Você conhece esse autor?

  7. Marcus Canesqui 14/12/2018 / 9:39

    Olá professor, estava sentindo falta dos seus textos. Acho que comentei isso no post anterior, essas pessoas se articularam muito bem e formaram uma rede para impor suas verdades e distorcer fatos, ao mesmo tempo que ganham dinheiro explorando o “prestígio” que adquiriram e inventando cursos sobre nada, como faz o Nando Moura, por um preço exorbitante. Aproveitando a oportunidade gostaria de sugerir, se possível, uma seção no blog de leituras e autores recomendados, para aqueles menos tarimbados não caírem no conto dos “pseudos-intelectuais”.

  8. Edson Silva 18/12/2018 / 16:50

    Numa republiqueta de bananas, costumo dizer que isso aqui não é um país, é um território com um aglomerado de gente, se essa população acéfala, que vota em ator porno analfabeto, em palhaços assumidos e agropecuaristas bandidos aprovar o tal “partido sem escola”, nada me surpreende, pois já descobri que isso aqui nunca será de fato uma democracia e um país! Aposto com quem quiser, tudo o que tenho, e não é pouco, que se tiver um plebiscito para essa republiqueta virar o 51º Estado Americano, o sim ganha estourado, pois esse é o sonho de praticamente todo brasileiro!

  9. leonado 21/01/2019 / 17:32

    Sei que nao tem nada haver com o artigo mas Bertone qual é o seu posicionamento sobre a operaçao lava jato e o ex juiz Sergio Moro vc ainda ve os 2 como uma luta contra a corrupção?
    obs: provavlemente vc nunca vai responder mas gostaria da sua opiniao

  10. Gabriel Telles Lins Gonçalves Taveira 02/02/2019 / 2:00

    Bertone é a prova de que é possível ter uma cosmovisão à esquerda sem ser desonesto. Todos os meus testes dão de centro já há alguns anos e tenho severas críticas ao mal atual dos excessos progressistas, mas isso não impede opiniào clara sobre os tópicos nem muito menos de ter passado a pelo menos considerar o discurso da esquerda quando o interlocutor se mostra honesto.

    • Martha Aulete 15/12/2019 / 7:55

      Educação? Imagina o que o PT FEZ! E FHC!

      FHC do PSDB é atualmente o maior chupador do pé imundo de lula. FHC adora lamber o pé de lula. E lula é aquele grotão de um mau gosto enorme. Um primitivista das cavernas. lula é um apedeuta. Além disso é ladrone. FHC: lambedor do pé de lula!

Os comentários estão desativados.