Por que não existe mais comunismo nem comunistas

comunismo

Cuba, China, Coreia do Norte. Esses são os primeiros nomes que vêm à mente de algumas pessoas quando dizemos que não existe mais comunismo no mundo. Mas a afirmação de que não há mais comunismo tem um peso histórico que vai além dos rótulos desses três países.

Cuba recentemente permitiu a propriedade privada e anunciou que vai eliminar o termo comunismo da Constituição. A transição para uma democracia pode ainda ser longa, mas a ilha cambaleia economicamente desde o fim da Guerra Fria e não deverá subsistir por muito tempo com o atual regime. A China é um capitalismo de Estado comandado por um partido comunista desde o governo de Deng Xiaoping e a Coreia do Norte é uma dinastia totalitária que nenhuma importância dá ao que compreendemos por comunismo ou marxismo.

Comunismo ou socialismo? Se tomarmos por base o pensamento de Marx há uma distinção entre os dois, na medida em que o socialismo seria uma transição entre o capitalismo e a sociedade sem classes, o comunismo. Mas quando chamamos os regimes do socialismo real do século XX de comunismo estamos usando uma designação sociológica, com um sentido específico. Um autor que trabalha isso de forma clara é o historiador britânico Archie Brown, cuja obra Ascensão e Queda do Comunismo (Editora Record, 2012), elenca seis características do comunismo que desapareceram há décadas, que são:

  1. O monopólio do poder do Partido comunista;
  2. Centralismo democrático (termo essencialmente leninista e que integrou virtualmente todos os regimes comunistas no mundo);
  3. Posse não capitalista dos meios de produção;
  4. Domínio de uma economia de comando, em oposição a uma economia de mercado;
  5. Propósito de construir o comunismo (isto é, uma sociedade sem classes e sem Estado) como objetivo final e legitimador;
  6. Existência de um movimento comunista internacional e o sentimento de pertencimento a ele.

As características 5 e 6 tornavam o comunismo uma ameaça ao capitalismo na medida em que integravam partidos e movimentos no mundo, especialmente durante a existência do Comintern (Internacional Comunista). Mesmo antes da queda do muro de Berlim o comunismo deixou de ser uma ameaça, na década de 1970, quando a revolução tecnológica nos países capitalistas centrais deixou claro que os países socialistas não podiam acompanhá-los em termos de consumo de massa, produção de bens de consumo e qualidade de vida aliados a liberdades civis. A queda do muro de Berlim e o subsequente desmantelamento da URSS foram eventos que apenas fecharam a tampa do caixão de um império que cambaleava há décadas.

Por outro lado, as características 1, 2, 3 e 4 perderam sentido num mundo onde a noção de classe trabalhadora foi diluída e cedeu lugar a reivindicações de direitos de minorias, um mundo marcado pelo triunfo da democracia liberal e da economia de mercado, fora das quais as outras alternativas do século XX (fascismo, socialismo) se mostraram ineficazes ou mesmo indesejáveis.

Sem União Soviética, o socialismo e o comunismo como projeto final deixou de ser uma alternativa, um atrativo. O fracasso das reformas de Gorbachev deixou claro que o socialismo real era incapaz de conjugar bem-estar econômico com liberdades individuais, incluindo valores relacionados aos direitos humanos.

A União Soviética não seguiu o mesmo exemplo da China, isto é, abertura econômica aliada à permanência da ditadura de partido único e seu desmembramento afastou de uma vez por todas o único rival potencial que o capitalismo tinha até pelo menos os anos 1960. Além disso, na Europa Ocidental, a socialdemocracia e os investimentos do plano Marshall após a Segunda Guerra Mundial tornaram o comunismo um regime político de países subdesenvolvidos, que vivenciaram as terríveis experiências do genocídio e de ditaduras brutais. Após a guerra, a Europa superou o fantasma do totalitarismo, mas as ditaduras socialistas, não.

Na Europa ocidental, a socialdemocracia suplantou as pretensões revolucionárias dos velhos partidos comunistas, alguns dos quais se dissolveram, como foi o caso do Partido Comunista Britânico, que deixou de existir em 1991.

Em outros lugares, como o Brasil, partidos comunistas mantiveram sua existência. Mas por aqui os discursos de alguns setores radicais de PCB e PC do B não ecoam os interesses do eleitorado e seus quadros políticos reverberam programas de governo essencialmente socialdemocratas.

A maior crítica que se pode fazer a eles é o fato de não se voltarem criticamente para o próprio passado. Quando a deputada federal e então pré-candidata à presidência da República pelo PC do B Manuela D’ávila esteve no programa Roda Viva, em 2018, foi incapaz de tecer uma crítica consistente a Stálin, Mao Tsé-Tung, ao Gulag, ao totalitarismo. Fugindo sempre das perguntas sobre esses assuntos, Manuela perdeu a oportunidade de mostrar que a esquerda brasileira busca uma renovação e o desvinculamento de líderes genocidas que PCB e PC do B ainda cultuam de forma quixotesca. As boas intenções de nossa esquerda política não coadunam com a doutrina e as personalidades que defendem.

Mas por que não proibir a existência de partidos comunistas como se proíbe a divulgação do nazismo, uma vez que o comunismo também matou milhões? A resposta a essa pergunta está no cerne do que essas ideologias defendem. O comunismo não carrega, enquanto doutrina, uma concepção de mundo racista como faz o nazismo. No escopo do pensamento comunista não existe uma tendência inevitavelmente genocida como existe no nazismo. Nos regimes comunistas do século passado, as perseguições tinham corte político, não racial.

O que chamamos de comunismo hoje no mundo é um restolho do stalinismo (Coreia do Norte), um partido Comunista dirigindo uma grande economia de mercado sem liberalismo (China) e um regime moribundo comandado por uma gerontocracia e em lenta transição para o capitalismo (Cuba).

Há uma direita política no Brasil que ainda teima a se reportar a seus adversários como comunistas, mas os discursos exacerbados e a gritaria que deles resulta simplesmente não têm correspondência em nossa realidade social.

Quando alguns partidos pretendem se eleger com plataformas voltadas para a defesa de direitos humanos e de minorias, políticas sociais de inclusão, políticas de redistribuição de renda e de pleno emprego, nada disso atende mais pelo nome de socialismo ou comunismo. É nesse sentido que o uso desses termos em movimentos sociais ou siglas partidárias não faz mais qualquer sentido, como os britânicos já entenderam há muito tempo. Vivemos em outro contexto.

Para ler outros textos relacionados ao assunto, clique aqui.

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21 comentários sobre “Por que não existe mais comunismo nem comunistas

  1. Ronaldo Thomé Júnior 19/08/2018 / 17:48

    Mais um bom texto! Fiquei triste pela vacilada da Manuela no programa em questão, embora ache que ela ainda era uma candidata mais coerente (em atitudes) que os demais. Pelo menos, ela não tinha o comportamento intempestivo de Ciro Gomes, ou a homofobia e racismo bizarros do Bolsonaro. Enfim, vamos ver o que essa eleição reserva… Quanto ao socialismo, já faz tempo que todo mundo deveria saber disso, mas gostaria de aproveitar para fazer uma pergunta: você acha que as experiências dos kibbutzes, em Israel, podem ser comparadas a uma espécie de socialismo? Esse tipo de iniciativa ainda pode ser viável na nossa sociedade? Abraços!

    • Bertone Sousa 19/08/2018 / 18:53

      Ronaldo, em Israel os Kibutzes tinham um caráter mais de integração nacional. Dificilmente daria certo em nossa sociedade no atual contexto.

  2. Sergio Luiz 19/08/2018 / 17:50

    bom texto!

  3. Edson Silva 19/08/2018 / 18:37

    Comunismo, socialismo, solidariedade e democracia, tudo balela, a espécie humana é por evolução filogenética uma espécie extremamente egoísta, egocêntrica, como diz o ditado popular: “farinha pouca meu pirão primeiro”, o resto é discurso acadêmico. É como eu digo sempre, salve-se quem puder, cada um por si, e Deus se existe, por todos.

    • Patrick Bastos 19/09/2018 / 1:45

      Ué, e o discurso das ciências naturais não é um discurso acadêmico? Estou confuso…

  4. ROGERIO AUGUSTO PINTO DA SILVA 20/08/2018 / 6:50

    Te encontrei na Internet gracas ao texto contra Olavo de Carvalho que li com grande prazer. E repassei para os amigos que o defendem. Isso pq não tive a menor paciência de le-lo ou escutsr seus vídeos. Coisa que vc conseguiu (haja saco!). Parabéns pelas análises sensatas, cultas, com referências… parabéns!

  5. Ronaldo Thomé Júnior 23/08/2018 / 16:06

    Bertone, gostaria de aproveitar para fazer outra pergunta. Circula há algum tempo uma estimativa de que o comunismo teria matado 100 milhões de pessoas. Mas este número é verídico? Sim, porque, até onde eu saiba, ainda não se tem números completos a respeito deste tipo de assunto – seria uma estimativa. Em todo caso, acredito que o intuito de fazer isso seja errado, uma vez que qualquer sistema que permita a morte de um inocente é criminoso. Enfim, existe uma estimativa segura de quantas vítimas este sistema fez? Abraços!

    • Bertone Sousa 23/08/2018 / 21:04

      Sim, Ronaldo, é só uma estimativa. O número elevado se deve especialmente à enorme quantidade de vítimas na China maoísta (cerca de 70 milhões).

      • Ronaldo Thomé Júnior 23/08/2018 / 21:11

        Opa! Valeu! Aproveitando, recomendo a você um excelente canal do YouTube, o Leitura obrigaHIStória, a propósito, talvez você já conheça. O canal e o blog são liderados pelo Icles Rodrigues, que é doutorado em história e dá aulas em Santa Catarina. Dá uma olhada: https://youtu.be/eNODxKNR9yk
        Abraços!

  6. Marcus Canesqui 28/08/2018 / 10:45

    Ótimo texto professor, porém, se retirarmos a palavra comunismo, vamos matar o vocabulário do candidato Bolsonaro, que é composto de umas 40, 50 palavras, ou seja, um papagaio tem um vocabulário mais amplo que o dele.

  7. Marcus Canesqui 29/08/2018 / 22:51

    Professor, a direita diz que o marxismo cultural ainda persiste e que é uma forma dos comunistas atingirem seus objetivos. O que o senhor acha disso?

    • Bertone Sousa 30/08/2018 / 17:51

      Marcus, tenho um texto sobre o assunto aqui no blog: marxismo cultural ou a burrice ideológica de direita.

      • Marcus Canesqui 31/08/2018 / 12:39

        Ok professor, obrigado.

  8. Clésio Oliveira 10/10/2018 / 0:16

    Excelente texto!!

  9. luizacorreia 16/10/2018 / 23:28

    Oi Bertone, encontrei seu blog ao pesquisar no google textos sobre Olavo de Carvalho, gostei muito. Mas eu queria te fazer uma pergunta aqui, você considera que o PT tenha um projeto comunista para esse país, ou que alguém que seja católico ou apenas frequente a Igreja Católica não pode votar em partidos de esquerda, pois seguindo uma lógica de pessoas que interagi no facebook ou se é é cristão ou de esquerda, as duas coisas é impossível. Parece absurdo eu questionar isso tendo lido esse texto no seu blog, mas é que fiquei horrorizada com a forma que alguns católicos se dirigiram a mim na página do Sr. Pe. Paulo Ricardo de Azevedo, por um simples questionamento que eu fiz lá, não fui agressiva com ninguém e eles me agrediram verbalmente. Segundo eles o padre Paulo é um dos únicos que zela pelos ensinamentos católicos que são anti-comunistas, e
    que a Igreja em momento algum apoiou o comunismo e tem a autoridade para a excomunhão a partir de um decreto de Pio XII. Na visão deles o PT e outros partidos querem implementar um projeto comunista no Brasil, com um regime ditador e demoníaco, pois é contrário ao que a Igreja prega, eles usam como exemplo o fato de a esquerda ser favorável ao aborto. Você acha que tem lógica a visão de mundo dessas pessoas. Obs: não pus o ponto de interrogação nas perguntas pq meu teclado está com problemas, valeu um abraço.

    • Bertone Sousa 17/10/2018 / 0:22

      Oi Luiza, a resposta à sua pergunta é não. O PT jamais foi um partido comunista; o partido foi fundado, inclusive, para ser diferente dos partidos comunistas de outrora. O padre Paulo Ricardo é seguidor do Olavo e difunde, como seu mentor, uma série de mentiras e ódio a respeito das esquerdas.
      Seja bem-vinda ao blog. Leia também os textos que escrevi sobre o PT e esquerda/direita, que você pode acessar nos temas na lateral do blog.

  10. Rafaela Coutinho 12/11/2018 / 15:38

    Muito bom e explicativo o texto. Parabéns pelos argumentos apresentados!

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