Razões para não crer em Deus(es)

Por que uma pessoa se torna ateia ou agnóstica? Em muitos países, o número de pessoas que não creem numa divindade se iguala ou supera o dos que creem. Embora a descrença religiosa moderna tenha cerca de dois séculos de existência, ainda é incompreendida por muitas pessoas, onde a ausência de uma educação básica e científica de qualidade faz a descrença ser estranha e repudiada por muita gente. 

O ateísmo, bem como o agnosticismo (a incerteza de se existe ou não um deus) são posturas intelectuais. Nem sempre são mais éticos do que a religião. Já se matou pelo ateísmo como também já se matou e ainda se mata em nome da religião. No entanto, o ateísmo tende a ser mais tolerante na medida em que parte de uma concepção de mundo relativista e aberta à investigação e ao questionamento.

Quando se perseguia e matava pessoas por sua crença religiosa, nos regimes comunistas do século passado, a tolerância havia sido deixada de lado porque o ateísmo (no caso, o marxista) estava atrelado a uma doutrina de Estado totalitária, coletivista e não relativista, que substituía a religião pelo culto à personalidade de ditadores. Perseguir pessoas por sua crença religiosa não é uma prática comum dos ateus e jamais foi incentivada por nenhum importante teórico ateu ou agnóstico. Não por acaso, países que hoje contam com grande número de ateus, como a Escandinávia, Alemanha, Inglaterra e França, são sociedades pluralistas e caracterizadas por ampla liberdade religiosa.

O ateísmo não é homogêneo e, afora a descrença em divindades, ateus podem divergir sobre política, economia, questões culturais e ideológicas, entre outros. Ateus podem ser conservadores ou progressistas, de esquerda, de centro ou de direita, liberais ou marxistas.

Os depoimentos a seguir foram dados por vários intelectuais e ativistas à Revista New Statesman, em 2011. A tradução foi feita por mim. (clique aqui para acessar o original).

Eu havia publicado esse texto no blog há alguns anos e depois excluído por considerar que outros textos sobre ateísmo aqui já eram suficientes para esclarecer a pergunta que coloquei no início. Porém, vários leitores sentiram falta e vez ou outra me perguntam sobre a postagem e por isso volto a republicar.

A maior parte dos entrevistados são do campo das ciências naturais e falam com base nos avanços e paradigmas das áreas em que atuam e que pode ser resumido na seguinte frase de Jerry Coyne, um dos entrevistados aqui: “Quanto mais a ciência aprende sobre o mundo, menos espaço há para Deus.”

Para os jovens que começam a deixar a prática da religião e para aqueles que querem compreender aspectos da descrença esse texto pode ser útil por apresentar pontos importantes para reflexões e como um passo inicial para outras leituras.

Resultado de imagem para Maryam NamazieMaryam Namazine

Ativista dos direitos humanos

Não lembro exatamente quando deixei de acreditar em Deus. Tendo sido criada em uma família de mentalidade bastante aberta no Irã, não tive contato com as questões fundamentais do Islã até que o movimento islâmico tomou o poder no Irã. Eu tinha 12 anos na época.

Acho que as pessoas podem passar toda a vida sem questionar a Deus e uma religião em que nasceram (não por escolha delas próprias), especialmente se não tiverem muito a dizer de suas vidas. Se você vive na França ou na Inglaterra, pode nunca ter a necessidade de renegar a fé em Deus ou declarar-se um ateu.

Mas quando o Estado envia um “Hezbollah” (termo genérico para fundamentalista) para sua escola, para garantir que você não tenha amizade com meninos, proíbe você de praticar natação, força a usar o véu, considera machos e fêmeas desiguais, prescreve livros diferentes para você e suas amigas daqueles que os meninos leem, proíbe algumas áreas de estudo a você por ser mulher e começa a matar indiscriminadamente, então você não tem escolha mas questiona, desacredita e confronta isso – tudo isso. E foi o que fiz.

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Philip Pulman

Autor

O principal motivo porque não acredito em Deus é a falta de evidências. Logicamente, não poderia haver nenhuma evidência de que ele não existe, então eu posso apenas partir do fato de que, até agora, não descobri nenhuma evidência de que ele existe. Não tive nenhuma experiência pessoal de ter falado com Deus e não vejo nada no mundo ao meu redor, onde quer que eu olhe na história, ciência, arte ou em qualquer outro lugar, que me convença que isso foi obra de Deus em vez da natureza.

Neste sentido, sou um ateu. Mas eu teria que concordar que Deus pode existir mas estar escondido (e posso entender por que – com seu registro, então eu seria). Se eu soubesse mais, seria capaz de informar algo sobre isso. Mas a quantidade de coisas que sei é apenas o pequeno lampejo de uma faísca solitária, cercado pela escuridão que representa todas as coisas que não sei, então ele poderia muito bem estar lá fora no escuro. Como não sei dizer com certeza se ele não existe, tenho dito que sou um agnóstico.

Resultado de imagem para Kenan MalikKenan Malik

Neurobiólogo, escritor e locutor

Sou um ateu porque não preciso de Deus. Sem Deus, dizem, não podemos explicar a criação do cosmos, ancorar nossos valores morais ou inspirar nossas vidas com significado e propósito. Eu discordo.

Invocando a Deus, na melhor das hipóteses realçamos o que não podemos ainda explicar sobre o universo físico e, na pior das hipóteses, exploramos nas pessoas aquela ignorância para mistificar. Valores morais não vêm pré-embalados de Deus, mas são criados por seres humanos através de uma combinação de fatores como empatia, argumentação e diálogo.

Isso é verdade para os fiéis também: eles, afinal, têm de decidir por si mesmos quais valores em seus livros sagrados aceitam e quais rejeitam.

E não é Deus que dá significado a nossas vidas, mas nossos relacionamentos com outros seres humanos e as metas e obrigações que derivam deles. Deus é na melhor das hipóteses redundante, na pior das hipóteses uma obstrução. Por que eu preciso dele?

Resultado de imagem para Susan BlackmoreSusan Blackmore

Psicóloga e autora

Que razão eu poderia ter para a crença? Para explicar o sofrimento? Não é necessário. A menos que você compre a ideia de que temos livre arbítrio, o que entra em conflito com tudo o que sabemos sobre a tomada de decisão humana.

Para me dar esperança de uma vida após a morte? Meus 30 anos de pesquisa parapsicológica jogou fora essa esperança. Para explicar experiências espirituais e místicas extra-corpóreas? Não, nosso conhecimento do funcionamento do cérebro está fornecendo explicações muito melhores do que o raciocínio religioso. Para explicar a existência e a complexidade do mundo maravilhoso que vemos a nosso redor?  Não – e esta é mesmo a parte principal.

Supõe-se que Deus (pelo menos em algumas versões da história) tenha criado a todos nós. No entanto, o Criador (qualquer criador) é simplesmente redundante. Todos os seres vivos deste planeta evoluíram por processos que não requerem nenhum projetista, nenhum plano, nenhuma orientação e nenhuma previdência. Não precisamos de nenhum Deus para fazer este trabalho. Onde ele se encaixa? O que ele faria? E por quê? Se ele teve algum papel em nossa criação, ele teria que ser imensamente ardiloso, exigente, mentiroso e assustadoramente cruel, o que seria um tipo muito estranho de Deus para acreditar. Então, eu não acredito.

Resultado de imagem para Richard DawkinsRichard Dawkins

Biólogo evolucionista

Eu não acredito em duendes, fadas, lobisomens, Thor, Poseidon, Jeová, Alá ou a Trindade. Pela mesma razão, em todos os casos: não há o menor vestígio de evidência para qualquer um deles, e o ônus da prova recai sobre aqueles que desejam acreditar.

Mesmo não tendo evidências para deuses específicos, poderíamos argumentar a favor de algum “projetista inteligente”, “primeiro motor” ou progenitor de “algo em vez de nada”? De longe, a única versão mais interessante deste argumento é biológica: os seres vivos apresentam uma poderosa ilusão de projeto. Mas essa é a versão que Darwin destruiu. Qualquer teísta que apela ao “design” dos seres vivos simplesmente revela a sua ignorância em biologia. Vá embora e leia um livro. E qualquer teísta que apela para evidências bíblicas mostra sua ignorância sobre o conhecimento moderno. Vá embora e leia outro livro.

Quanto ao argumento cosmológico, cujo Deus age sob nomes como “Primeiro motor” ou “Causa primeira”, os físicos estão fechando o cerco, com resultados fascinantes. Mesmo que ainda haja perguntas sem respostas – de onde vêm as leis fundamentais e constantes da física? – Obviamente isso não pode ajudar a postular um projetista cuja existência coloca questões maiores do que ele se propõe a resolver. Se a ciência falha, nossa melhor esperança é a construção de uma ciência melhor. A resposta será falsa tanto na teologia ou – seu equivalente exato – na leitura de folhas de chá.

Em qualquer caso, é totalmente ilógico o salto deísta do Motor Imóvel para a Trindade cristã, com o Filho sendo torturado e assassinado porque o Pai, com toda a sua onisciência e onipotência, não poderia pensar em uma maneira melhor para perdoar “pecados”.

Da mesma forma, essas crenças não são convincentes porque causam consolo (e por que causariam?) ou porque fazem alguém “sentir-se bem”. Cherie Blair (“Eu sou um crente”, New Statsman, 18 de Abril) pode achar que se “sente bem”. Ela baseia sua crença [segundo ela mesma diz] em “uma compreensão de algo que minha cabeça não pode explicar, mas o meu coração sabe que é verdade”. Ela aspira  ser uma juíza. Meritíssima, não posso fornecer a evidência que você pede. Minha cabeça não pode explicar o porquê, mas meu coração sabe que é verdade.

Por que a religião está imune às normas críticas que aplicamos não apenas nos tribunais, mas em todas as outras esferas da vida?

Resultado de imagem para Paula KirbyPaula Kirby

Escritora

Deixei de ser religiosa quando ficou claro pra mim o quanto as várias versões de cristianismo são mutuamente contraditórias, e que não havia nenhuma evidência empírica que pudesse apoiá-las. Do reconhecimento de que aquele “sentimento interior” não é um guia confiável para a realidade, comecei a explorar outros tipos de explicação para a vida, o universo e tudo e descobri na ciência – biologia, química, física, cosmologia, geologia, psicologia – respostas que realmente explicam, em oposição às da religião, cujo objetivo é encobrir sua falta de substância em um manto de mistério e metáforas.

O mais importante de tudo é que essas respostas científicas, mesmo quando provisórias, são apoiadas por evidências. Que elas também são muito mais emocionantes, muito mais inspiradoras do que qualquer coisa que a religião possa oferecer, onde encontro uma vida plena, mais rica e mais satisfatória quando se olha firmemente e abraça o transitório e finito que é toda essa maravilha, é gratificante.

Resultado de imagem para Sam HarrisSam Harris

Neurocientista

Um dos maiores problemas enfrentados por um não crente é o peso que tem sobre seus ombros a ideia do ônus da prova:  “Como você sabe que Deus não existe? Você pode provar isso? Vocês ateus são tão dogmáticos quanto os fundamentalistas que criticam”. Isso é bobagem:  até mesmo o devoto rejeita tacitamente milhares de deuses, juntamente com as doutrinas de várias religiões. Todo cristão pode julgar confidencialmente o Deus de Zoroastro como uma criatura fictícia, sem primeiro buscar no universo evidências de sua ausência. Ausência de evidência é tudo o que é necessário para banir um conhecimento falso. E evidência ruim, proferida com o desejo de impressionar, é inaceitável.

Mas o raciocínio honesto pode levar-nos mais longe no campo da incredulidade, para provarmos que livros como a Bíblia e o Corão não possuem qualquer vestígio de autoria divina. Sabemos muito sobre a história desses textos para aceitar o que eles dizem sobre suas próprias origens. E imagine como seria bom um livro que tivesse sido escrito por um ser onisciente.

No momento em que se vê o conteúdo da escritura sob esta luz, pode-se rejeitar, definitivamente,  as doutrinas do Judaísmo, do Cristianismo e do Islamismo. Os verdadeiros autores da Palavra eterna de Deus nada sabiam sobre as origens da vida, a relação entre a mente e o cérebro, as causas das doenças, ou a melhor forma de criar uma civilização global viável no século 21. Mas isso só deve resolver todos os conflitos entre religião e ciência em favor desta última, até o fim do mundo.

Na verdade, a noção de que qualquer livro antigo poderia ser um guia infalível para viver no presente tem o meu voto para ser a ideia perigosamente mais estúpida da Terra.

O que nos resta descobrir, agora e sempre, são as verdades sobre o nosso mundo que nos permitam sobreviver e florescer plenamente. Para isso, precisamos apenas de investigações honestas e bem-intencionadas –  o amor e a razão. A fé, se já esteve certa em alguma coisa, esteve apenas por acaso.

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Filósofo

O conceito de Deus retirou-se gradualmente da imagem de um Criador antropomórfico, juiz e supervisor para envolver-se em uma maravilhosa aura de mistérios disto ou daquilo totalmente além da compreensão humana. É impossível para mim acreditar em qualquer deus antropomórfico porque eles são simplesmente ridículos e obviamente projeções fantasiosas de mentes cientificamente ignorantes para compreender o mundo. É impossível para mim acreditar nessas mentiras deslavadas, porque são incompreensíveis. Seria como tentar acreditar na existência de wodgifoop – o que é isso? Não pergunte, está além do que pode ser dito.

Mas, por que tentar? Não há obrigação para se tentar acreditar em Deus – é um mito particularmente pernicioso oriundo da época em que as religiões organizadas criaram a crença na crença. É possível ser bom sem Deus, obviamente.

Muitas pessoas sentem de forma muito forte que devem acreditar em Deus, para não aborrecer a vovó, encorajar outros a fazer o mesmo ou porque isso as torna melhor ou mais nobre. Então, eles seguem a maré. Geralmente isso não funciona.

Sou deslumbrado com o próprio universo e muito grato por fazer parte dele. Isso é suficiente.

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Filósofo

Não acredito que existem coisas como deuses e deusas pela mesma razão porque eu não acredito em fadas, duendes ou espíritos e essas razões deviam ser óbvias para qualquer pessoa com idade acima de dez anos.

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Prêmio Nobel de Física

Eu não acredito em Deus – um ser inteligente, todo-poderoso que se preocupa com os seres humanos – porque a ideia me parece boba. Os argumentos positivos que foram dados para a existência de Deus me parecem tão bobos quanto a proposição a que pretendem provar. Felizmente, em alguns lugares do mundo, a crença religiosa tem enfraquecido o suficiente para que as pessoas não matem umas às outras por causa dessas tolices.

Já passou da hora de a raça humana crescer, aproveitando o que é bom na vida, incluindo o prazer de aprender como o mundo funciona, e libertando-nos completamente de bobagens sobrenaturais para enfrentar os problemas e as tragédias reais de nossas vidas.

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Químico

Em parte, porque não há nenhuma evidência de um Deus (saudade sentimental, o desespero, a ignorância e a angústia não são provas) e, em parte, porque a ciência está mostrando que é capaz de responder a todas as perguntas que os religiosos têm levantado e, sem qualquer prova, requerem as atividades de um Deus. Eu descarto a Bíblia como prova. Também descarto o argumento de que a maioria das pessoas no mundo dizem ser crentes, porque a verdade não é decidida pelo voto da maioria.

Reconheço o poder do condicionamento cultural, especialmente quando se está cercado por pessoas jovens e impressionáveis e pode-se até aceitar o poder das vantagens evolutivas em uma crença, mas nenhum desses argumentos provam a existência de um Deus. Além disso, os horrores do mundo, tanto pessoais como sociais, não me convencem de que a criação é um ato de infinita benevolência.

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Físico teórico

Costuma-se dizer que a fé religiosa é uma busca da humanidade por um significado mais profundo para a existência. Mas só porque buscamos isso não significa que esteja lá. Minha fé é na própria humanidade, sem acrescentar qualquer bagagem metafísica.

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Sir Roger Penrose 

Físico

Não acredito em dogmas de nenhuma religião (ou de nenhuma que já ouvi falar), porque os mitos associados a elas me soam demasiado fantasiosos e arbitrários para que eles tenham qualquer credibilidade, na minha opinião. Se você me perguntar sobre uma crença em alguma noção mais abstrata de “Deus”, eu, é claro, tenho que saber o que você quer dizer com esse termo.

Acho que o mais próximo que eu poderia chegar de algum tipo de ideia semelhante ao termo “Deus” seria algo na linha das ideias platônicas. Isso poderia incluir um ponto de vista moral objetivo, independente de nós mesmos e não apenas definível em termos do que pode ser um benefício para a humanidade. Isso implicaria, por exemplo, que seres conscientes como os elefantes teriam direitos, além dos seres humanos.

Também estou preparado para aceitar que pode haver elementos objetivos (“platônicos”) envolvidos numa realização artística e certamente atribuo uma objetividade platônica à verdade (especialmente às verdades matemáticas). Mas não estou certo se é útil incluir o termo “Deus” para qualquer uma dessas coisas. Além disso, pensar em Deus como um criador benevolente é particularmente enganoso, como fica claro, na minha opinião, com o problema da existência do mal – ou de desastres naturais.

Se “Deus” é algum tipo de ser consciente, também acho incrível. Um ser consciente teria que ser um no lugar do qual eu poderia me imaginar estar. E certamente não posso me imaginar sendo “Deus”!

Resultado de imagem para Ben Goldacre Ben Goldacre 

Escritor de ciência

Acho que, provavelmente, a resposta mais importante à sua pergunta é: apenas não tenho nenhum interesse em qualquer religião, mas também não gostaria de subestimá-las. Ainda não inventaram uma designação para pessoas como eu, cuja experiência, quando apresentado a essas questões, é uma sensação intergalática irresistível, extasiante e com coisas mais interessantes para se pensar. Não tenho certeza se me encaixo com precisão em palavras como “ateu” e definitivamente não sou agnóstico. Apenas não me importo.

Resultado de imagem para Polly ToynbeePolly Toynbee

Jornalista e presidente da Associação Humanista Britânica

A única vez em que sou sempre tentado, momentaneamente, a acreditar em um Deus é quando ergo os punhos de raiva dele por algum sofrimento monstruoso infligido no mundo sem nenhuma razão.  Os gregos e romanos e outros pagãos provavelmente produziram os deuses mais convincentes – petulantes, infantis, egoístas, exigindo sacrifícios por sua vaidade e infligindo fúrias aleatórias. Pelo menos essa é uma explicação lógica. Mas um Deus todo-poderoso de bondade e amor é evidentemente impossível. Ele seria um monstro. Voltaire disse isso depois do terremoto de Lisboa.

Resultado de imagem para Victor StengerVictor Stenger

Físico de partículas

Não apenas não acredito em Deus, como estou quase cem por cento certo de que o Deus de Abraão adorado por judeus, cristãos e muçulmanos não existe. Este Deus supostamente desempenha um papel tão importante no universo que deveria haver provas de que ele existe. Não há nada no campo do conhecimento humano que requer algo sobrenatural, nada além da matéria, para descrever nossas observações. Além do mais, a religião é imoral. É ruim para os indivíduos e ruim para a sociedade.

Resultado de imagem para Jerry CoyneJerry Coyne 

Biólogo

Simplesmente não existem dados que apontem para um ser sobrenatural que, ou se interessa pelo mundo, ou o influencia ativamente. Não é curioso que todos os grandes milagres, ressurreições e ascensões ao céu ocorreram no passado distante, documentados por uns poucos livros duvidosos? Além disso, as “reivindicações de verdade” das várias crenças sobre profetas, nascimentos de virgens, anjos, céu e afins não são apenas cientificamente inacreditáveis, mas conflitantes, de modo que a maioria ou todos eles devem estar errados. Para os cristãos, Jesus é absolutamente o herdeiro e substância de Deus; para os muçulmanos, isso é blasfêmia, punível com pena de morte.

Quanto mais a ciência aprende sobre o mundo, menos espaço há para Deus. A seleção natural dissipou o último argumento de base biológica para a divindade – o “design” de plantas e animais. Agora a física está substituindo outras alegações, mostrando como o universo poderia ter começado do “nada” sem a ajuda celestial.

Não somente existe ausência de evidência de Deus, mas também boas evidências contra ele. Para os de mente aberta, as religiões foram claramente inventadas por seres humanos para sustentar seus desejos ardentes para o que eles queriam que fosse a verdade.

Nosso próprio mundo testemunha constantemente contra Deus. Pegue a Seleção Natural, um processo que é cruel, doloroso e esbanjador. Depois que a ideia de Darwin desalojou o criacionismo baseado no Gênesis, o moedor de salsicha teológico – projetado para transformar necessidades científicas em virtudes religiosas – racionalizou que era melhor para Deus ter usado a seleção natural para produzir seres humanos. É desnecessário dizer que esse argumento não se coaduna com um Deus todo amoroso. Igualmente fracas são as outras explicações teológicas para o sofrimento no mundo. Se há um Deus, as evidências apontam para um que é apático – ou mesmo um pouco malicioso.

Para os crentes, analisar o “Deus hipótese” não é uma opção, porque não aceitarão nenhuma observação que refute isso. Embora eu possa aceitar evidência científica para Deus, mesmo evidências que fariam de mim um crente (uma reaparição de Jesus que restauraria instantaneamente os membros amputados faria isso), não há nenhuma evidência – nem mesmo o  Holocausto – o que pode dissipar sua fé em um Deus bom e amável.

Resultado de imagem para Stephen Hawking Stephen Hawking (1942 – 2018)

Físico

Não estou afirmando que Deus não existe. A descrição científica está completa, mas não prevê o comportamento humano porque também há muitas equações para solucionar. Uma, portanto, usa um modelo diferente, que pode incluir o livre-arbítrio e Deus.

Resultado de imagem para Michael ShermerMichael Shermer

Editor da Skeptic Magazine

Não acredito em Deus por quatro razões. Primeiro, não há provas suficientes para a existência de um ser onisciente, onipotente, que criou o universo e nós mesmos, determina leis morais e nos oferece a vida eterna. Segundo, qualquer ser que fosse sobrenatural estaria, por definição, fora do alcance do nosso conhecimento do mundo natural e, necessariamente, teria que ser parte do mundo natural, se descobrirmos tal entidade. Isso me leva ao terceiro motivo: última lei de Shermer, segundo a qual qualquer inteligência extraterrestre suficientemente avançada é indistinguível de Deus. (Devido à lei de Moore [de potencialização do computador] e a lei de Kurzweil, de acelerar retornos, nós mesmos seremos capazes de criar vidas, sistemas solares e até mesmo universos, se houver tempo suficiente). Quarto, há provas contundentes na história, antropologia, sociologia e psicologia de que os seres humanos criaram Deus, e não vice-versa. Nos últimos 10.000 anos houve aproximadamente 10.000 religiões e 1.000 deuses diferentes. Quais são as chances de que um grupo de pessoas descobriu o único Deus verdadeiro, enquanto todo mundo acreditava em 9.999 deuses falsos? A explicação mais provável é que todos os deuses e religiões são socialmente e psicologicamente construídos. Nós criamos os deuses.

Resultado de imagem para john harris (bioethicist)John Harris

Bioético

Não há nenhuma boa razão para se acreditar que qualquer coisa que poderia coerentemente ser chamada de Deus, exista. Uma pessoa racional não perde tempo acreditando ou mesmo sendo agnóstico para coisas para as quais não há boas razões para aceitar. Mesmo se houvesse um ser mais poderoso (ou, mais provavelmente, a sociedade ou um planeta de seres) do que nós, com uma tecnologia que poderia ter criado até mesmo o nosso sistema solar e tudo nele, que não nos daria qualquer coisa, mas razões científicas cautelosas para se tomar qualquer aviso deles – e certamente nenhuma razão para adorá-los.

Bertand Russel observou há muito tempo que o caráter moral do Deus judaico-cristão, como revelado nos escritos de seus impostores, deixa muito a desejar. O mesmo parece se aplicar a outros deuses também. Assim, Deus não é apenas inexistente, mas também perverso e inútil.

Resultado de imagem para Jennifer BardiJennifer Bardi

Editora de O Humanista

A resposta curta e simples [para eu não acreditar em Deus] é a falta de provas. Também não vejo nenhum valor em acreditar em Deus, porque se você pensa de forma clara e honesta, você necessariamente deve encarar a questão do sofrimento e as subsequentes crises existenciais que desperdiçam um tempo e energia preciosos. O alívio do sofrimento é o que deveríamos verter de nossos corações e nossas mentes.

Além disso, eu simplesmente não quero acreditar, porque a noção de um Deus que tudo sabe e tudo vê, que permite que coisas ruins aconteçam, realmente me dá arrepios.

Resultado de imagem para Richard Wiseman Richard Wiseman 

Psicólogo

Não acredito em Deus porque parece ilógico e desnecessário. De acordo com os fiéis, seu Deus é tremendo e todo-poderoso. No entanto, o seu Deus permite uma enorme quantidade de sofrimento e doenças. Além disso, se eu fosse acreditar em Deus, logicamente falando eu teria que acreditar em uma ampla gama de outras entidades para as quais não há provas, incluindo duendes, gnomos, etc. É uma lista longa e não tenho espaço em minha cabeça para todos eles. Então, sou feliz em acreditar que Deus não existe. Somos apenas pedaços insignificantes de carbono voando através de uma pequena parte no universo. Nosso destino está totalmente em nossas mãos e cabe a cada um de nós fazer o melhor de nossas vidas. Vamos parar de nos preocupar com as entidades míticas e começar a viver.

Resultado de imagem para P. Z. MyersP. Z. Myers

Biólogo

Estou acostumado com a ideia de que proposições que querem ser verdadeiras devem ser justificadas com alguma evidência razoável: se alguém afirma, por exemplo, que um carpinteiro judeu era o filho de Deus, ou que existe um lugar chamado céu, que para alguns é inefável, um lugar mágico para onde vão quando morrer, então deve haver alguma razão verossímil para se acreditar nisso. E essa razão deve ser mais substancial do que o que é dito em um grande livro.

Todas as reivindicações religiosas parecem entrar em curto circuito no processo racional de testes e reunião de evidências e o triste é que muitas pessoas não veem  nenhum problema com isso e até consideram isso uma virtude. É por isso que não basta apenas rejeitar a religião, mas opor-se ativamente a ela em todas as suas formas, pois ela é, fundamentalmente, um veneno para a mente que mina as nossas faculdades críticas.

As crenças religiosas são piadas preguiçosas com morais ruins. Por que você tem que cortar a pele ao final de seu pênis? Porque Deus assim o diz. Por que você deve abster-se de carne de porco, camarão, carne, leite ou suas aulas de ciências? Porque eles podem manchar sua relação com Deus. Por que você tem que reverenciar um pedaço de pão seco? Porque magicamente se transforma em um Deus quando um sacerdote murmura sobre ele. Por que eu tenho que ser bom? Porque se você não for, um Deus fará você queimar por toda a eternidade.

Essas são proposições ridículas. Todo o negócio da religião é uma divagação grosseira e excêntrica, consagrada por uma tradição irracional, pelo medo, o comportamento supersticioso e um governo de vigaristas que dedicam suas vidas para sustentar uma sensação de auto-importância, afirmando que falam com um grande mago invisível.

Isso não é apenas falso, é tudo bobagem.

Resultado de imagem para Andrew CopsonAndrew Copson

Diretor executivo da Associação Britânica Humanista

Não acredito em deuses ou deusas porque são obviamente invenções humanas. Moradores do deserto têm deuses severos, austeros; pessoas sofredoras e oprimidas têm deuses amorosos e misericordiosos; agricultores têm deuses da chuva e da fertilidade e nunca conheci um liberal que acredita em um Deus conservador ou um conservador que acredita em um Deus liberal. Tudo o que já ouvi sobre Deus carrega as marcas indeléveis da fabricação humana e através da história podemos explicar como e por que os inventamos.

 

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13 comentários sobre “Razões para não crer em Deus(es)

  1. Rafael Silva 10/07/2018 / 16:56

    Rafael Silva: – Olá Professor Bertone! Existe um autor muito em evidência atualmente, é o psiquiatra Theodore Dalrymple. No caso da religião, eu gosto das explicações de parapsicólogos em relação ao sobrenatural, a seitas e a cultos alternativos. Falam sobre o poder da mente e também falam, que em determinados casos, pode se tratar de um problema psicológico da pessoa que manifesta tais faculdades inconscientemente.
    Muitos Padres católicos estudaram parapsicologia, para esclarecer as pessoas em relação a mitos, crendices, feitiços. Um dos que eu mais gostei é ”Antes que os demônios voltem” do Padre Quevedo (ele é muito esculachado pela mídia e por humoristas, mas tem fontes, provas e pesquisas reveladoras, comprovando a máxima de Santo Agostinho ”O Amor vêm de Deus, mas o mal vem do homem”, não tem nada de forças do mal do oculto agindo na vida das pessoas).
    E eu gosto dos livros de Santo Agostinho e Erasmo de Roterdã, eles esclarecem coisas, como a importância das mulheres em ter prazer na relação, declaração reivindicada por pessoas como Sartre e Simone de Beauvoir (Paulo Francis tem textos brilhantes, refutando a obra e o legado de ambos).
    Defendo que ateus não devem ser militantes, é algo individual, pessoal da pessoa. Críticas a religiões, baseadas em estudos devem ser feitas, mas combatê-las e ”desconstruir a seu bem-querer” buscando militância política, como a esquerda tanto faz, eu reprovo.
    Por exemplo, gosto de Luis Bunhuel e Pier Paolo Pasolini (que filmou a vida de Cristo), ambos ateus. Glauber Rocha também fala do Cristianismo em ”A Idade da Terra” seu último e mais polêmico filme.
    Para mim, democracia e a luta pela
    harmonia entre as diferenças, em sociedades imperfeitas (bem diferente de muitos utopistas, nos impondo suas verdades e seus ideais de paraíso na terra)
    Recomendo também a obra do cineasta dinamarquês Lars Von Trier, em filmes como Dogville, Manderley e a trilogia da depressão, em que ele põe em cheque o intelectual com ideologia, o mundo de verdades e revoluções que a geração dos ’60 tanto prometia e tem caído por terra.
    Muito obrigado pela oportunidade Professor Bertone, Valeu!

  2. Sergio Luiz 10/07/2018 / 22:36

    bom texto! sérgio

  3. Cissa 11/07/2018 / 16:31

    Eu sou cristã mas entendo muito bem os pontos de vista expostos, fazem muito sentido. Porém acredito sim que fé e ciência podem caminhar juntas.
    O que não dá é ensinar criacionismo nas escolas. Aí é de matar!

  4. Alan 14/07/2018 / 11:12

    Eu acho Richard Dawkins, como militante ateísta, um ótimo biólogo. Como militante ateísta fez um grande desserviço para o ateísmo em geral, empregando um modus-operandi praticamente religioso e irracional e, como sabemos, o ateísmo nasceu do racionalismo e não do irracionalismo, não é viável termos alguém como Dawkins no movimento ateísta porque já somos odiados pura e simplesmente por sermos ateus, Dawkins coloca mais uns 10 motivos para o ódio, é deletério isso. Eu tenho inúmeras críticas à outros militantes ateístas, mas sempre críticas aos argumentos que eu discordo, jamais contra a forma deles argumentarem, já o Dawkins é o oposto. Parabéns pelo o texto, professor.

  5. Tereza Da Cruz Thompson 18/07/2018 / 0:56

    Para todos esses experts que se manifestaram dando suas opinioes sobre a NAO existencia de Deus, gostaria de pedir para que oucam esse video que estou enviando e contestem o que o Professor Orlando Feldeli fala sobre as CINCO provas da existencia de Deus e se nao forem covardes, respondam o que pensam sobre a sua aula aqui, neste mesmo site, por favor! Ou respondam direto para mim, porque ele me convenceu, voces nao!
    https://youtu.be/Q2I2QsjhKt0

  6. Mikael Douglas 21/07/2018 / 11:02

    Olá professor Bertone! Sou eu, seu aluno Mikael. Vez outra encosto aqui para ler algum de seus textos (inclusive tem um montão deles cotados para serem lidos e compartilhados por mim assim que possivel). Obrigado professor pelos textos. São textos de leitura tranquila. Quanto ao mesmo, fui notificado de que tinha esse texto já disponivel para lermos no meu E-mail. Sigo acompanhado seu trabalho professor. Obrigado mai uma vez professor.

    • Bertone Sousa 21/07/2018 / 11:16

      Olá, Mikael, seja sempre bem-vindo por aqui e obrigado por acompanhar a página. Abraços.

  7. William Andrews Hermenegildo 03/08/2018 / 21:42

    Mais uma vez obrigado por compartilhar Bertone, vc que fez a tradução?

  8. Ronaldo Thomé Júnior 16/08/2018 / 8:47

    Bertone, tudo bem? Demorei para responder… Bem, eu discordo da maioria dos autores citados neste ponto do texto. Mas é importante não se esquecer do óbvio: para quem acredita em Deus(es), o Estado Laico é fundamental. Afinal, se uma religião ou crença predomina, pode haver a ameaça da perseguição aos que pensam diferente. Um pensador que eu acho extremamente válido nesta questão é Carl Sagan (apesar de eu discordar do exemplo do dragão da garagem). Ele próprio diz, claramente, que o ceticismo precisa de limites, e seu radicalismo pode ser tão perigoso quanto o fundamentalismo religioso. Enfim, como diz a Escritura: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Abraços!

  9. Edson Silva 21/08/2018 / 17:58

    Eu acredito em deuses, sim, também acredito na bondade dos capitalistas, na sinceridade dos comunistas, na boa intenção dos socialistas,sim, também acredito em duendes, fada madrinha e lógico, no saci pererê!

  10. Lê Santos 01/09/2018 / 1:01

    Não se trata de acreditar ou não em Deus, se trata de aceitar a possibilidade do transcendente em meio a um mundo moldado e limitado ao imanente. Você pode não acreditar no espantalho que define como Deus, mas com certeza acredita em algo sublime e elevado que transcenda o mundo da matéria.
    .

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