Os 200 anos de nascimento de Karl Marx

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Inauguração da estátua de Marx, em Trier, Alemanha, 05 de maio de 2018

Neste dia cinco de maio estamos lembrando os duzentos anos do nascimento de Karl Marx. Não há qualquer dúvida para quem está no campo das ciências humanas que Marx não apenas foi um dos maiores filósofos de todos os tempos, como também um dos principais intérpretes da sociedade industrial do século XIX. Ele só pode ser uma figura controversa para quem o detesta ou não compreende seu pensamento.

Se o ano de 2018 marca o bicentenário de nascimento de Marx, também marca cento e setenta anos de publicação do Manifesto Comunista, escrito em coautoria com Engels.

Quando Marx e Engels publicaram o Manifesto do Partido Comunista em 1848, a Europa passava por uma onda revolucionária que rapidamente se espalhou para grande parte do continente, com foco central em Paris, e não voltaria a se repetir. Aquelas revoluções não foram homogêneas, mas uma das características que tinham em comum é que eram revoluções de trabalhadores pobres.

Elas marcaram dois pontos importantes de virada na sociedade europeia: a primeira é que fracassaram, uma vez que os trabalhadores foram abandonados e esmagados pelas forças da ordem vigente; a segunda é que representaram o momento em que a burguesia deixou de ser uma classe revolucionária.

O Manifesto Comunista expressa as tensões daquele momento e conclama os trabalhadores à tomada de uma consciência revolucionária e à urgência de construção de uma ordem social mais justa. É um panfleto político que se tornou um clássico.

Depois de 1848, mudanças importantes aconteceram no continente, concessões graduais foram feitas aos trabalhadores pobres e a perspectiva de uma revolução, Marx passou a entender isso, não estava mais na ordem do dia.

Mas se a derrubada da ordem burguesa não aconteceu como os autores do Manifesto esperavam em 1848, sua influência foi muito além na segunda metade do século. E podemos destacar a criação do Partido Social-Democrata Alemão e a Associação Internacional dos Trabalhadores, duas organizações que adentraram o século XX e exerceram papel determinante em conquistas sociais dos trabalhadores.

Embora Marx nunca tenha se tornado um gradualista no que diz respeito à passagem do capitalismo ao socialismo, a social-democracia foi diretamente influenciada por seu pensamento e, a longo prazo, se tornou uma das forças políticas mais atuantes contra as tendências predatórias do capitalismo industrial.

Por outro lado, seus estudos sobre a mercadoria e a industrialização, para além de seu pensamento revolucionário, se tornaram marcos importantes na compreensão do mundo moderno e mesmo na formação das ciências sociais, que ainda engatinhavam quando o primeiro volume de O Capital foi lançado, em 1867.

Há, de fato, muito o que celebrar neste bicentenário do nascimento de Marx. Os alemães sabem disso. Uma estátua do filósofo foi inaugurada em sua cidade natal, Trier, nesta data, sem culto à personalidade e com importantes contextualizações feitas por políticos locais.

Críticas qualificadas a Marx foram feitas no século passado por importantes intérpretes de seu pensamento; é importante, porém, entender que não cabe remeter Marx aos genocídios do stalinismo, de Mao ou Pol Pot.

Crítico ferrenho do Estado, Marx jamais poderia subscrever algo como o culto à personalidade e as brutais perseguições políticas que em seu nome engendraram massacres por toda parte.

Depois que a Comuna de Paris foi derrotada em maio de 1871, com outro massacre de trabalhadores pobres, ele publicou um breve ensaio intitulado A Guerra Civil na França, e concluía com uma crítica mordaz ao Estado, ao seu aparato de opressão e à esperança de que uma geração pudesse se desfazer dele como “lixo”. Se as críticas ao Estado feitas por Marx estão datadas para nós, hoje, não deixa de ser pertinente destacar que elas nos ajudam a entender o quanto ele estava distante do que viriam a ser os totalitarismos socialistas do século seguinte.

Acima de tudo, Marx permanece para nós como um dos gigantes do pensamento contemporâneo, cuja obra, se precisa ser compreendida no seu tempo, também transcende sua época como uma referência na compreensão do capitalismo novecentista.

Leia também:

Cinco mentiras que a direita conta sobre Marx

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15 comentários sobre “Os 200 anos de nascimento de Karl Marx

  1. Ronaldo Thomé Júnior 05/05/2018 / 17:34

    Bertone, e quando os leitores de seu blog comemoraremos seu aniversário?
    Abraços!!!!!!!!

  2. José ROBERTO de Lima Machado 05/05/2018 / 20:48

    Como a todos que se manifestam e expôem-se, para entender o mundo, conquistou seu lugar cativo na evolução da Civilização – homenagem e respeito.Por regra, toda “informação/teoria/conhecimento”,sucumbe,altera-se e aperfeiçoa-se ao longo da realidade da história.Não há nenhuma processo melhor, para entender algo,que o seu contraditório/antítese.Considero-o,atualmente,uma espécie de “criacionismo”,diante do “evolucionismo” capitalista.

  3. José ROBERTO de Lima Machado 05/05/2018 / 20:53

    Fundamental,para a evolução da sociedade,dentro do seu “contexto histórico” – cenário.

  4. José ROBERTO de Lima Machado 05/05/2018 / 20:58

    Uma observação/sugestão:seria interessante uma possibilidade de edição/alteração.Em TI existe o paradigma da “possibilidade do arrempedimento do usuário- de voltar atrás”.Normalmente,nesse tipo de “dissertação/diálogo”,se escreve direto.

  5. Marcus Canesqui 15/05/2018 / 17:36

    Pena que poucas pessoas tem intelecto ou vontade para entender os clássicos. E isso da margem para distorções maldosas e uso politico para jogarem as pessoas umas contra as outras.

    • José ROBERTO de Lima Machado 15/05/2018 / 19:19

      Os clássicos,fundamentais na formação do cidadão,exige mais que a sua leitura;o seu estudo.Quando assim abordado, por consequência do próprio “rolar/acontecer” da história,tem seus axiomas,muitas vezes transformados em “erros crassos”.Nem por isso perde o seu valor/papel na jornada do conhecimento.

  6. Gabriel Tavares 19/05/2018 / 20:53

    Professor Bertone Sousa, a famosa frase atribuída a Marx de que a classe burguesa deveria perecer no holocaust Revolucionário nunca foi dita por ele em nenhuma obra não é? O senhor sabe por quem ela foi dita se por algum seguidor de Marx ou é uma total invenção da direita?

    • Bertone Sousa 19/05/2018 / 21:58

      Gabriel, essa frase é apócrifa. Falei sobre isso no texto “Cinco mentiras que a direita conta sobre Marx”.

  7. Ana Vitória Almeida da Silva 20/05/2018 / 20:50

    Ele foi eleito pela BBC de Londres como o maior filósofo de todos os tempos,além de ser meu pensador preferido.No curso de Serviço Social e nas ciências humanas e sociais os acadêmicos estudam,além do positivismo de Augusto Conte, a sua linha de pensamento:o marxismo,e a relacionam com diversas disciplinas como filosofia,sociologia,economia,história,e muitas outras.

  8. Márcio 07/06/2018 / 21:53

    CARO BERTONE, A LEITORA ACIMA CITOU O POSITIVISMO DE COMTE. MUITO BEM. O SENHOR CONSIDERA QUE EXISTE UM “”POSITIVISMO” NO PENSAMENTO DE MARX, UMA VEZ QUE AMBOS FORAM CONTERMPORÂNEOS E QUASE CONTERRÂNEOS?

  9. Marcus Canesqui 21/06/2018 / 11:58

    Professor, o que o Sr. acha da obra do professor José Paulo Netto sobre Marxs? Recomenda seus livros?

  10. Ronaldo Thomé Júnior 12/10/2018 / 23:35

    Bertone, tenho lido recentemente textos acerca do anarquismo. Um deles é da Emma Goldman. Ela comenta algo interessante sobre a revolução russa: ao contrário das análises marxistas – que a revolução poderia ter dado errado por questões estruturais do povo russo, Goldman alega que era perfeitamente possível que a revolução funcionasse no país. O que teria acontecido seria a ênfase numa reorganização estatal que subverteu os propósitos necessários para esta revolução funcionar.
    Pois bem. O que você acha desta afirmação? Sei que os anarquistas tiveram grande importância para o século 20, mas me incomoda que pouco se comenta sobre a revolução espanhola, ou mesmo sobre os massacres de Trotsky contra os ucranianos.

    • Bertone Sousa 12/10/2018 / 23:39

      Ronaldo, o que sabemos hoje sobre os desdobramentos da Revolução Russa provam que foi muito diferente. Há ampla pesquisa histórica sobre o assunto, parte da qual já comentei em postagens aqui.

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