Cursos universitários sobre o “golpe” de 2016: aonde vamos chegar?

golpe-7Um professor da Universidade de Brasília organiza um curso sobre o que ele chama de golpe de 2016, numa referência ao impeachment da ex-presidente Dilma. O MEC intervém. O ministro da Educação Mendonça Filho diz que a universidade não pode usar da liberdade de cátedra para fazer propaganda ideológica. O caso repercute. A atitude do ministro gera um efeito dominó. Em poucos dias, cursos sobre “golpe de 2016” são organizados em pelo menos dez universidades públicas Brasil afora. Estava errado o professor da UnB. Estava mais errado ainda o ministro da Educação.

Os acontecimentos políticos dos últimos anos e a emergência de uma nova direita política liberal e conservadora com uma retórica beligerante e fortemente dogmática, levou a esquerda política a marcar terreno num discurso polarizado e igualmente dogmático tendo como campo de batalha as redes sociais.

Mas as redes sociais são uma coisa, a vida acadêmica é outra. Quando a vida acadêmica começa a ser contaminada pela polarização ideológica, perde-se o sentido do que a própria academia deve fazer: a investigação científica. Quando professores universitários trazem para a sala de aula a semântica de guerra cultural das redes sociais, deixam de atuar como professores para atuarem como propagadores de uma doutrina partidária. E muitos desses cursos foram elaborados por professores de História.

Sabemos que muitos docentes de universidades federais também são filiados e militantes de determinados partidos políticos. Não se exige de um professor que não tenha convicções políticas nem uma escolha partidária. Mas sua formação deveria lhe deixar apto a distinguir entre suas convicções ideológicas pessoais e sua atuação como docente, investigador e pesquisador, o que requer abertura, distanciamento e cuidado ao lidar com temas que tocam em questões ideológicas, especialmente questões referentes ao tempo presente.

O problema é quando as convicções pessoais estão tão equivocadas que refletem diretamente no seu trabalho. E aí entram os tais cursos sobre o golpe de 2016. Se se quer dizer, por exemplo, que a presidente deposta foi vítima de uma conspiração parlamentar, é preciso dizer que a tal conspiração não configura um golpe uma vez que o mecanismo que levou à sua deposição – o impeachment – é constitucional.

Conforme já abordei em outro texto (o impeachment de Dilma foi golpe?), o impeachment é um processo essencialmente político; tem um viés jurídico também, mas é essencialmente político, isto é, a conspiração contra a presidente se deveu ao fato de ela não ter maioria no Congresso e esse mesmo Congresso, revestido da legitimidade que a Constituição lhe garante, ter encontrado brechas para colocar em votação um processo de deposição da presidente. Essa legitimidade foi reconhecida pela própria presidente na medida em que ela apresentou sua defesa, na Câmara e no Senado, dentro do prazo estipulado, e no Senado ela foi pessoalmente apresentar sua defesa. Um golpe, por se tratar de uma violação da Constituição, não se aplica ao caso.

O julgamento da presidente, os desdobramentos do processo e os rumos que o país adotou após sua deposição são questões para uma discussão ampla, mas qualquer proposta de curso universitário que quisesse promover uma investigação honesta sobre o processo partiria de uma problematização das diferentes forças políticas em disputa e, principalmente, de problematizações conceituais a fim de se evitar os equívocos do que fazem as militâncias nas redes sociais, o discurso político-partidário.

Ao intitular os cursos como “golpe”, os docentes que fazem a proposta já se mostram a priori partidários de uma causa, ou seja, abre-se mão da investigação e da problematização pela reprodução da cartilha amplamente reproduzida pelo partido apeado do poder. Ao se observar as ementas dos cursos percebe-se uma tentativa de encontrar uma linearidade golpista na história do Brasil que vai de Vargas a Dilma. A militância empobrece toda a historicidade da proposta desses cursos.

Contudo, isso não é uma característica só da esquerda política. Em muitas universidades começam a proliferar professores que chamam nazismo de esquerda, que associam o nome socialismo no partido de Hitler ao marxismo, ou quando a História do Brasil começa a ser falada a partir de uma leitura enviesada dos guias politicamente incorretos.

Questões históricas não são definidas por posicionamentos ideológicos. Não é preciso ser de esquerda para entender que o socialismo marxista e o nacional socialismo dos nazistas não são a mesma coisa. Em qualquer boa escola de ensino básico se ensina isso. Da mesma forma, atenuar o impacto e as consequências humanas da escravidão em nossa história para reforçar uma posição conservadora é, na melhor das hipóteses, desonestidade intelectual.

Em todos esses casos, perde-se de vista a importância dos conceitos e da contextualização para se reforçar crenças políticas de antemão arraigadas. Afirmei no início do texto que tanto o professor da UnB quando o ministro da Educação Mendonça Filho erraram em suas atitudes. O professor pelo que foi exposto nesse texto e o ministro por não ter considerado a advertência de Millôr Fernandes: “não se amplia a voz dos imbecis”.

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13 comentários sobre “Cursos universitários sobre o “golpe” de 2016: aonde vamos chegar?

  1. Ronaldo Thomé Júnior 02/03/2018 / 21:13

    Bertone, tudo bem? Belo texto.

    Não sei se concordo muito com o início, porque até agora não há um consenso jurídico sobre o impeachment. Mas, como já disse aqui, creio que, por questões éticas, o correto seria a cassação de chapa, visto que Temer fazia parte do mesmo contexto político (e jurídico) que levou Dilma à queda.
    Em todo caso, creio que você está certo ao comentar que não tem havido imparcialidade e, sim, uma dose de manipulação acadêmica por parte de docentes dos dois lados.

    • Rui Borges 17/10/2018 / 12:45

      Mas se foi realmente um golpe
      O Hitler tomou o poder legalmente com a cumplicidade da justiSSa e também foi tudo legal
      O problema é quando as instituições democráticas viram organizações mafiosas e juízes do suprema viram mafiosos de toga que limpam o rabo á constituição
      Isso a história não apaga e agora ou depois será ensinada aos jovens em nome da verdade factual

  2. Ronaldo Thomé Júnior 02/03/2018 / 21:19

    Eu gostaria de aproveitar para fazer uma pergunta: conversei com uma professora sobre uma faculdade pública aqui de Sorocaba; ela me disse que a linha teórica usada pelos docentes da área era o materialismo histórico dialético, sendo que um dos seus teóricos é Bakhtin. Por ser um método já antigo, vinculado ao marxismo, como ele é, de fato usado? Este método ainda pode ser considerado atual?

    • Bertone Sousa 03/03/2018 / 0:32

      Ronaldo, o problema dessa vertente é o enfoque nos aspectos econômicos em detrimento de outras esferas da vida social, como a cultura, embora os estudos culturais marxistas do século XX tenham enxugado o determinismo econômico.

  3. Allan 10/03/2018 / 19:48

    O Temer pessoalmente ele é golpista. Usou do cargo para tramar e conspirar contra a sua companheira de chapa. Dessa pecha ele não vai se livrar jamais. Compartilho da opinião de muitos que foi um “golpeachment”. Uma mistura dos dois.

  4. Alan 16/03/2018 / 2:10

    “Golpe de 2016” é preciso primeiro encontrá-lo. Qual foi esse golpe? quando ele aconteceu? eu tive um aneurisma que não notei-o? ironias a parte, é um fato que isso não passa de doutrinação político-partidária. Qualquer estudante universitário de qualquer área do conhecimento, no PRIMEIRO SEMESTRE tem a capacidade de diferenciar uma ação presente na constituição de um golpe, como você resumiu bem: um golpe pressupõe-se que a constituição foi violada e isso aconteceu, por acaso?! a gente pode discutir os rumos que levaram à isso, as entrelinhas no processo, Dilma tomou um golpe do partido aliado? sim, Dilma tomou um golpe político do Eduardo Cunha? sim, articulações políticas sórdidas foram feitas se baseando no poder e não no processo em si? sim. Uma das coisas que mais me irrita é o famoso anacronismo histórico, as pessoas precisam urgentemente estudar e dominar esse conceito porque, daqui a pouco, estaremos tentando explicar por que uma região que se sustenta basicamente de um tubérculo não vai acabar como os Irlandeses da década de 1845 porque há uma série de questões cujo somente no período e naquelas condições era possível acontecer tal tragédia, entende? eu usei um exemplo muito exagerado e muito complexo, mas pode-se vê o avanço dos erros das argumentações que são de machucar os tímpanos, comparar o impeachment de 2016 com o golpe de 1964 é comparar, sei lá, a Revolução Cubana com a Revolução Russa.

  5. Ronaldo Thomé Júnior 13/04/2018 / 8:54

    Bertone, tudo bem? Tive uma oportunidade de conversar numa palestra, aqui em Sorocaba, com a Márcia Tiburi. Adorei a palestra, em que ela citou Hegel e Adorno, inclusive falando sobre a teoria dos 9 pontos da personalidade autoritária.
    Gostei muito, embora não tenha concordado com um ponto, em que ela fala que Fidel Castro era mais ridicularizado pelo seu povo por seus discursos meio “intermináveis”… Enfim. Mas ela acerta num ponto: como você mesmo disse aqui, ele não era fascista, embora tivesse sido um ditador como qualquer outro.
    A minha pergunta é: você concorda com isso? Eu até entendo que parece chocante, mas no contexto a frase não me soou como desonestidade, porque ela não disse que Castro era um modelo, apenas o analisou.

    • Bertone Sousa 13/04/2018 / 13:40

      Ronaldo, quando Fidel era estudante, Mein Kampf, de Hitler, era seu livro de cabeceira. Quando já era ditador em Cuba, ele também decretou luto nacional quando o ditador Franco morreu na Espanha. Há muitos elementos do fascismo nas ditaduras de esquerda, mesmo que elas não se enquadrem como regimes políticos propriamente fascistas. Esse era o caso de Fidel.

      • Ronaldo Thomé Júnior 13/04/2018 / 14:59

        Valeu, Bertone. Como eu já disse não concordei com a fala, embora eu admire a Márcia e até tenha ganho um autógrafo (…). Enfim, não sabia da informação e imagino que talvez ela ignore este fato. Abraços!

      • Alan 09/05/2018 / 23:49

        Isso não era o caso de Che Guevara, todos sabemos que Fidel foi um megalomaníaco e megalomaníacos se inspiram em outros e pra isso a ideologia é irrelevante. Há também o fato de Fidel sempre ter buscado o poder, diferente de Che que jamais sonhou com o poder e sim com um mundo revolucionário, isso não quer dizer que Che não admirava grandes megalomaníacos, mas não queria ser eles nem ter o poder deles.

  6. GABRIEL TELLES LINS GONCALVES TAVEIRA 15/04/2018 / 14:51

    Exato,
    professores de história não podem se prestar a função tão decadente quanto a de propagandista partidário, ainda que orfãos de sua ideologia falida.
    Separem uma coisa da outra, é o mínimo ético exigido, ao menos ao falarem na qualidade de professores.

    Menos que isso é o caos anômico social.

  7. Gustavo Leite 18/04/2018 / 18:45

    Ótimo texto. Sempre venho aqui ler seus textos. Contudo não discordo totalmente quando se fala em Golpe. Desde que se abranja um período de tempo maior e que ainda não acabou, dados os rumos políticos que tomaram seu sucessor, – reforma trabalhista e previdenciária etc – que conspirou pela queda de presidente eleita provavelmente para não ir junto com ela se se optasse pela cassação da chapa Dilma-Temer – ridiculamente rejeitada no TSE quase um ano depois – ao invés do impeachment pelas pedaladas fiscais.) Não creio que a conclusão do golpe seja a prisão de Lula – embora concorde que a celeridade do processo demonstre uma intenção óbvia do judiciário de interferir nas eleições. Chegaram a circular idéias sobre parlamentarismo – já rejeitado em plebiscito em 93 sob a atual constituição e em 63 nos anos que precederam o golpe militar. Muito vai depender do resultado das eleições e de sua aceitação principalmente pelos conservadores e pelos atores de sempre em particular a mídia.

  8. Rui Borges 17/10/2018 / 13:04

    Numa os historiadores sérios e objetivos tiveram uma importância tão grande como no actual contexto de manipulação e estupidificação de massas
    E não têm de ter vergonha de dizerem que o pt não é comunista , que se vive um golpe desde a eleição de Dilma ,que Dilma governou numa das piores crises financeiras globais da nova era ,que Dilma sofreu um impeachement sem crime de responsabilidade, aliás sem uma única suspeita judicial e portanto uma inconstitucionalidade legalizada fora da lei
    Lula foi dos melhores presidentes do Brasil se não mesmo o melhor
    Parece que há uma certa vergonha nos intelectuais em hoje em dia. Parace que a injecção de anti petismo até afectou os melhores pensadores humanistas

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