Por que precisamos do politicamente correto

politicamente-corretoPara desespero de muitos que se colocam como conservadores, o politicamente correto veio para ficar, e não por acaso: se trata de uma postura voltada para a positivação de grupos que sofreram e ainda sofrem formas variadas de discriminação, exclusão e estigmatização, com destaque para negros, homossexuais e mulheres, ao que também podemos acrescentar indígenas e idosos, por exemplo.

A principal crítica que os opositores do politicamente correto fazem é que essa postura frequentemente leva esses grupos a hiperbolizarem a própria vitimização, engendrando atitudes e comportamentos vitimistas, não raramente permeados também de atitudes policialescas ou de hostilização de pessoas que consideram opositoras a seus ideais ou princípios. Critica-se o fato de estarem sempre ou quase sempre na postura defensiva, de terem mania de perseguição e a verem tudo como sinais de homofobia, racismo, machismo ou misoginia, e usarem desse expediente para tentarem ganhar privilégios ou posições de destaque em variados meios. Cria-se o fantasma de que o politicamente correto impõe censura, restringe liberdade de expressão, busca impor uma espécie de ditadura de alguns grupos.

O erro dessa crítica está no fato de tomar o todo pela parte. Podemos falar de excessos de alguns grupos ou até mesmo de indivíduos, mas atitudes isoladas marcadas por certo extremismo não podem nos tornar insensíveis para as demandas das minorias, entendidas num sentido sociológico, ou seja, são minorias aqueles grupos que são numericamente expressivos porém não têm hegemonia cultural e política. Por este motivo, historicamente não tiveram meios de se defender de formas distintas de exclusão e preconceitos.

O jornalista William Waack perdeu o emprego por ter vindo a público um caso em que ficou irritado com um motorista buzinando alto quando fazia a cobertura das eleições norte-americanas em Washington. Na ocasião, soltou a seguinte frase para um convidado no estúdio: “isso é coisa de preto”!

Muitos saíram em defesa do jornalista e em ataque ao politicamente correto. Tentou-se provar que não houve objetivos racistas na frase, que em sua carreira o jornalista não havia demonstrado racismo, entre outras coisas. Mas, independente do que se tentou justificar, o racismo estava ali, explícito, verbalizado, exposto. Quantas coisas estão implícitas no termo “isso é coisa de preto”? Ali carregou-se uma multiplicidade de significados de estigmatização do negro: negro não sabe fazer silêncio, não sabe se comportar socialmente, não é civilizado…

Circula também nas redes sociais um meme com imagens de mulheres grávidas sambando no carnaval e depois o questionamento: então por que elas têm preferência nas filas de banco? O politicamente correto existe para fazer frente à ignorância que pode ser tão facilmente e rapidamente reproduzida por memes, a ignorância que de alguma forma justifica a subtração de direitos, ou a negação de direitos.

Quantas vezes se associa as causas de estupros ao comprimento das roupas que as vítimas usavam, ou a homossexualidade à promiscuidade? Afirmar a importância do politicamente correto não significa privar-se de criticar os excessos, quando ocorrem. Mas se a crítica não pontua análises de caso pode incorrer no erro de tomar o todo pela parte, isto é, negar direitos a todo um segmento social porque alguém ou alguns se excederam em determinada manifestação ou atitude.

O politicamente correto se relaciona a uma mudança de sensibilidade para com grupos historicamente excluídos de variadas formas. Tal mudança requer também uma nova forma de nos reportarmos a esses indivíduos, em mudarmos nossa linguagem para que ela não continue a reproduzir a depreciação e desumanização desses grupos. Hoje, um programa de humor não faz mais o que Os Trapalhões faziam nos anos 1990, quando Didi chamava Mussum de azulão. Nossa mudança de sensibilidade nos fez perceber esse tipo de humor não mais engraçado, mas estigmatizante.

O politicamente correto é uma forma de nos orientarmos para uma ampliação da noção de direitos humanos e entendermos que não existe algo do tipo “isso é coisa de preto”, ou “mulher grávida não pode ter fila preferencial no banco porque mulheres grávidas sambam no carnaval”, ou “mulher que usa saia curta está pedindo pra ser estuprada”. Os exemplos podem ser multiplicados à exaustão.

Precisamos do politicamente correto para humanizar nossa percepção da alteridade. Direitos civis e sociais precisam avançar à medida que as mudanças históricas nos impõem novos desafios e demandas, e nossa linguagem precisa se adaptar e mudar em favor desses direitos.

Leia também:

A importância das políticas de ação afirmativa

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24 comentários sobre “Por que precisamos do politicamente correto

  1. Ronaldo Thomé Júnior 11/02/2018 / 21:09

    Grande Bertone! Mais uma vez, parabéns pelo texto. Hoje, conversando com um amigo meu, que é advogado, reparei uma coisa interessante. No passado, eu me considerava de esquerda e sempre tive ceAbraços! patia por ideologias desta pauta, em parte por minha criação (venho de uma família relativamente humilde), e também por causa de minha carreira profissional. Meu primeiro emprego foi em um açougue e outro foi na faxina de outro estabelecimento; lá, tive contato com diversos homens de muitos estados, mas na maioria pobres e que tinham passado por todo tipo de exploração, alguns nem sabendo escrever o próprio nome. Enfim, hoje me vejo de centro, mas entendo porque precisa existir este tipo de ação e visão social: não é certo que tais pessoas vivam à margem da sociedade, sem conhecer seus direitos, sujeitas à exploração de pessoas mal intencionadas. Alguns com quem trabalhei passaram a juventude colhendo cana ou o início da fase adulta em minas de cobre, com trechos sob a água. Não passei por tudo isso – mas foi uma lição para a vida toda.
    Abraços

  2. Ronaldo Thomé Júnior 11/02/2018 / 21:10

    Ops! Eu quis dizer simpatia!

  3. Éderson Cássio 11/02/2018 / 21:42

    Bertone, com todo respeito.
    Acho que hoje em dia há que se ter um certo cuidado ao dizer “o politicamente correto”, bem como “o feminismo”, e outras coisas desse tipo.
    Concordo 110% que a boa e velha análise de caso é sempre melhor do que generalizar, coisa que os dois lados dessa briga fazem frequentemente.
    Só que, infelizmente, hoje em dia não dá mais para dissociar “politicamente correto” e seus movimentos-irmãos dos seus excessos. Os policiais da roupa/vocabulário/fantasia de carnaval alheios já fizeram seu barulho e já se “apropriaram culturalmente” da noção de politicamente correto, transformando uma causa justa e que deveria ser tocada por gente estudada, em um chororô tocado por amadores inexperientes com a maturidade de um bebê contrariado.
    No imaginário popular, politicamente correto já virou algo como isto aqui:

    . É um olhar leigo, não acadêmico, mas na minha opinião escancara bem o angu de caroço que os setores de esquerda, na pretensão de defender os oprimidos da sociedade, estão aprontando enquanto os problemas reais correm soltos.
    Da mesma forma que os exemplos de linguajar e atitudes inapropriadas podem ser multiplicados à exaustão, também o podem os de policiamento no mais verdadeiro estilo “procurando pelo em ovo”. Há poucos dias vi uma foto de um índio segurando um aviso: “índio não é fantasia”. Nos comentários, índios/descendentes opinando e, quem diria, opiniões divergentes entre eles.
    O modus operandi que se espalhou, estrategicamente, é um puta enfiar do pé na jaca: só está servindo para colocar os conservadores e reacionários na defensiva. Aí surgem aqueles políticos fofinhos como Bolsonaro se colocando como seu protetor e agora temos que conviver com o risco desse jacu virar presidente aqui.
    Gostaria que desse uma olhada, também, na página “Aventuras na Justiça Social 6.0” no Facebook, e emitisse uma opinião sobre as análises deles. O Eli Vieira (lembra dele?) faz parte dos produtores de conteúdo do grupo.

  4. Tereza Thompson (@terezacs2) 11/02/2018 / 22:19

    Bobagem Bertone, ser politicamente correto e defender toda a putaria da esquerda, que foi a responsavel por toda essa guerra e odio mentre todas as classes sociais. Ha alguns anos ninguem se incomodava quando era chamado de macaco, ou de linguica, ou de baleia ou de viado. Era uma coisa que todos aceitavam numa boa e nao era ofensivo, depois que esses malditos vermelhos avancaram contra a nacao, apos a saida dos governos militares e que essa cetinice comecou a ser levada a serio e voce sabe muito bem que isso nao e uma invancao desses idiotas petralhas, nao! Isso vem la das ideias de Gramsci, misturado com as Teoria Critica la da Escola de Frankfurt com Theodor Adorno, Max Horkheimer, Herbert Marcuse, Walter Benjamim e outros cientistas sociais marxistas dissidentes, e loucos, que acreditavam que a filosofia ocidental, de Santo Tomás de Aquino a Kant, passando por Hegel, Fichte, Schellin e Goethe, deveria ser sumariamente descartada e substituída pelas regras próprias.
    “A Teoria Crítica é a politização da lógica. Horkheimer, ao declarar que “a lógica não é independente de conteúdo”, quis dizer que um argumento é LOGICO se ele tem o objetivo de destruir as bases culturais tradicionais da civilização Ocidental, e é ILOGICO se ele tem o objetivo de defendê-las.
    Este, obviamente, é o pilar do “politicamente correto” e explica por que o debate aberto e sem censura é vituperado como sendo algo SUBVERSIVO e INFLAMATORIO. O politicamente correto DESPREZA o DEBATE o debate aberto porque o vê como um gerador de discórdias e dúvidas, algo que estimula a análise crítica e impede uma uniformidade (e uma hegemonia) intelectual. Em suma, o debate aberto e sem censura evita a predominância do chamado “pensamento de manada”, que é o cerne da revolução cultural.”

    • Pedro Sousa 12/02/2018 / 0:06

      Perfeito! Você acabou de confirmar categoricamente tudo que ele escreveu no artigo!
      Parabéns!

      • Tereza Da Cruz Thompson 12/02/2018 / 21:27

        Obrigada Pedro, eu discordei do Bertone ao afirmar que o politicamente correto nao ajuda em nada a causa da solucao das desigualdades porque e uma coisa ja planejada e preparada ha muitos anos, o que infelizmente esta sendo seguido a risca por todos os vermelhos do mundo. Mas enfim vamos fazer o que, se todas as instituicoes estao tomadas por esses vermlhos e os responsaveis por puni-los, os tratam como descerebrados, apoiando tudo o que de desumano e praticado por eles. Voce observa isso na fala de uma tal “Filosofa” do RS Marcia Tiburi que diz que quem assalta um coitado na rua tem la os seus direitos e os seus motivos e que nao podemos censura-lo por cometer esse ato insano. Eu nao consigo ouvi-la DOIS minutos mas se voce consegue, digite o seu nome no Google e escute qualquer coisa dela, incluindo a defesa de Lula, ai ate voce vai vomitar, como eu! Pode? Eu desisto!!!

    • Ronaldo Thomé Júnior 13/02/2018 / 19:31

      Eu sinceramente gosto da Márcia e a acho muito mais coerente que Kim Kataguiri, que ofende as pessoas pelas costas delas. Enfim, cada um tem direito a seu ponto de vista, mas não a ser desonesto com os outros. E, querendo ou não, todos os setores políticos do Brasil neste momento estão cometendo a mesma desonestidade. Vide Bolsonaro, por exemplo; olhe o que ele se transformou. Enfim, isso que você chama erroneamente de esquerda – a defesa das minorias – é apenas tentar reparar o que houve no passado.

      • Tereza Da Cruz Thompson 14/02/2018 / 14:56

        Voce sinceramente colocaria seus filhos nas maos de uma louca como ela? Ou voce esta dizendo isso para ser politicamente coreto porque eu nunca vi qualidade alguma anessa mulher, pra mim, totalmente desvairada, sem nocao e sem educacao? Penso que ela nem leu o livro que escreveram para ela. Qual e a desculpa que ela pode dar aos leitores dela, ja que ela nao seguiu o que o livro diz? Eu nao li esse livro mas parece que diz “como dialogar com um facista”. Se ela acha Kataguiri um “facista” por que nao teve argumentos nem para iniciar uma conversacao com ele? Ai ja poe por terra os argumentos que deve ter usado no livro, nao sei! Pode ser que ela tenha dito aos leitores para FUGIREM de um facista.

    • Edson Silva 14/02/2018 / 12:35

      “Horkheimer quis dizer que um argumento é LOGICO se ele tem o objetivo de destruir as bases culturais tradicionais da civilização Ocidental” (?) KKKKKKK, preciso reler todos os clássicos dos autores citados e ver se consigo encontrar esse ET, KKKKKKKKK.

    • Ronaldo Thomé Júnior 14/02/2018 / 19:35

      Acho que você não leu meu comentário. Se leu, não entendeu. Mas tudo bem… Kataguiri não é um fascista. Mas é um mentiroso, a Márcia não. Eu não perderia tempo debatendo com um mentiroso porque ele inverteria tudo aquilo que eu disse e o usaria da forma errada. E, bem, se você pensa assim, por que não lê os livros dela?
      E, não, não estou sendo politicamente correto nem o serei agora. Acho que, se você só consegue enxergar “esquerda” e “direita” à sua frente, me desculpe, mas… Isso me parece um cabresto de cavalo. A realidade é formada de milhares de tons de cores, não só de preto e branco. Enfim. O blog é do Bertone e não meu, então não vou mais deixá-lo constrangido. Mas saiba que a maior crítica do sr. Olavo de Carvalho é o analfabetismo funcional, e os erros de gramática das pessoas. E se você analisar o seu texto…
      Um beijo no ombro!

      • Tereza Da Cruz Thompson 17/02/2018 / 1:07

        Nao ligo a minima para os erros na escrita porque, ninguem sabe sobre as dores que sinto nas minhas maos! Escrevo demais para me preocupar com algo que nao vai atrapalhar no entendimento do texto! Mesmo assim procuro nao deixar sem resposta nada que acho abusivo. Meu caro, nao sei voce mas eu nao preciso comer um ovo inteiro para notar que ele esta estragado, pois vejo isso, assim que quebro sua casca. Assim tambem e com os livros, por que vou ler um livro de uma pessoa que considero completamente louca?

    • Ronaldo Thomé Júnior 19/02/2018 / 8:26

      Deveria parar de escrever então, pois no fundo você não me parece diferente da Márcia. Ou talvez seja pior;)

      • Tereza Da Cruz Thompson 19/02/2018 / 14:53

        Posso sim ate parecer pior porque alem dessas denominacoes usadas pelas esquerdas tambem nao tolero gente burra e jornalistas que perguntam as mesmas bobagens ja esclarecidas e ja respondidas CEM vezes por entrevistados importantes. E voce cuide de suas visoes de mundo e nao se intrometa com o que falo. Estou incomodando? Nao leia meus comentarios!!!

      • Tereza Da Cruz Thompson 19/02/2018 / 15:08

        Ja vi que voce e do tipo que pediria a sua propria mae para deixar de respirar para nao atrapalhar voce e suas ideias marxistas, gramcianas. E isso o que prega? Que ninguem o contrarie? Eu nao preciso ser politicamente correta porque nunca votei em partidos esquerdalhas, e nem em mulheres que dizem que o bandido tem seus motivos para assaltar e ate matar para ter o que quer! Voce diz que nao sou diferente da tal Marcia, entao por que voce a defende tanto e me ofende com palavras crueis? Se eu fosse como ela, nao escreveria porque nao teria argumentos mas palavras de ordem da gang e isso cansa, eu simplesmente preferiria antes de tudo morrer, do que ser cumplice de tudo o que fizeram com o meu pais. Como nao sou igual a ela prefiro ver o #lLulaNaCadeia e todos os seus seguidores presos e devolvendo tudo o que roubaram, sejam eles de quais partidos forem.

    • Ronaldo Thomé Júnior 19/02/2018 / 16:59

      Ok. Beijos no ombro, miguxa!
      P. S.: desculpe se não sou seu tipo, mas…

    • William Andrews Hermenegildo 29/03/2018 / 21:51

      Como eles vão desconstruir as bases da filosofia ocidental se eles mesmo são ocidentais? A esquerda tem muita influencial ocidental, influencia do iluminismo que é ocidental, marxismo é ocidental, esses pensadores Gramsci, Theodor e etc também são ocidentais.

      Alias, esse pessoal conservador que diz defender os “valores ocidentais tradicionais” defendem as mesmas coisas que existe no oriente médio e no oriente: família entre homem e mulher, papeis de gênero, heteronormatividade, puritanismo (a maioria dos países não ocidentais proíbem a pornografia e a prostituição) e etc não sei o que tem de ocidental nessas coisas. E se vc for ver é justamente no ocidente onde o movimento LGBT, Feminismo e liberação sexual mais avança.

  5. Newton Cavagni Facchini 12/02/2018 / 9:55

    Na minha infância e adolescência lembro que era comum ver o diferente como aberração. Fui criado numa região do Rio Grande do Sul com predominância de pessoas brancas, descendentes de imigrantes italianos de famílias católicas tradicionais. Todo o nosso aprendizado passava por questões relacionadas à igreja e aos valores da família, mas o grupo social que frequentava a igreja e as famílias que eram tradicionais em nossa região eram todos de uma mesma classe social, de descendência europeia (italianos, alemães, poloneses, suíços, etc) e de uma mesma cor. Por esse motivo, era natural que aprendêssemos que as atitudes corretas estivessem associadas com os ensinamentos da igreja católica e da educação e ensinamento vindos da nossa família branca, de classe média tradicional e conservadora. Aprendemos na infância, por exemplo, que os negros eram diferentes de nós. Não que meu pai ou minha mãe tivessem me ensinado isso verbalmente, mas é um aprendizado indireto, vendo a atitude dos mais velhos. Era comum fazer piada de negros, pois eles eram a minoria em nossa região, eram geralmente pobres e prestavam serviços braçais, diferentemente de muitos brancos que puderam estudar e trabalhar em escritórios ou se formarem advogados ou médicos. Cresci ouvindo coisas como “essa negrada” ou “isso é coisa de negri”, ao se referirem aos negros como pessoas vagabundas, pouco confiáveis, sujas e relaxadas. A mesma coisa acontecia com os homossexuais. Quando eu era guri, sabíamos que algumas pessoas de nossa cidade eram gays. Mas naquela época, eles eram considerados por nós verdadeiras aberrações. Fazíamos piada com eles. Quando passavam na rua, os machos brancos mexiam com eles, ameaçavam bater, debochavam. Lembro de um rapaz que era homossexual e toda a cidade conhecia ele, mas ninguém o via como uma pessoa normal, ele era diferente, um ponto fora da curva, alguma coisa que deu errado e coitado dos seus pais que têm que lidar com essa vergonha na família. Poderia citar até as lembranças que tenho das atitudes machistas que pude presenciar, seja na minha família ou com outras. Para uma família tradicional católica de descendentes italianos, o patriarcado é lei. Minha mãe tinha que servir ao meu pai ritualisticamente. É aquela história de mulher na cozinha e homem assistindo TV. E mesmo que minha mãe pode ter uma grande liberdade individual em comparação com tantas outras que conhecia na época – essas nem podiam trabalhar fora, tinham que ficar em casa lavando e fazendo comida – mesmo assim lembro perfeitamente do ritual dela de preparar a comida antes que meu pai chegasse em casa, pois senão haveria briga. Ou dela ter que ficar em casa aos finais de semana com os filhos, no máximo ir visitar a mãe dela, enquanto meu pai saia pra se divertir com os amigos. Aprendíamos até que os meninos com deficiência mental – com Síndrome de Down ou autismo severo – eram pessoas retardadas, abobadas. Mesmo se ensinassem na escola que negros, mulheres, gays e pessoas com deficiência devessem ser respeitados como iguais, a sociedade fora da escola, diariamente, nos mostrava o contrário. Mesmo se minha mãe ou as professoras tentassem me ensinar que o menino negro e pobre que morava perto de casa era igual a mim, em algum outro momento eu escutaria alguém fazer piada com negro ou falar que negro é inferior, ou que mulher só serve pra cozinhar e trepar, e que gay é aberração e que o menino com deficiência é um abobado e tem que ficar longe senão pode ser contagioso. O que ao final pesa mais no aprendizado cultural de uma criança ou adolescente? E isso não é uma particularidade da minha região, apesar de saber que aqui o preconceito é um pouco mais acentuado que em outros lugares do Brasil por conta desse retrospecto histórico da imigração. Todo brasileiro, em algum momento, aprendeu as coisas de forma errada, seja pela família, igreja ou pela própria sociedade. O desafio é mudar isso. Hoje em dia vejo as crianças crescendo em uma sociedade onde ensinar o que me foi ensinado quando eu era jovem já não é mais correto. Houve uma evolução evidente nesse sentido. Pessoalmente, precisei fazer diversas manobras para me desfazer dos aprendizados errados que adquiri na infância e adolescência. Muitas pessoas não conseguem fazer isso, ou não o fazem com esforço e talvez venham a morrer carregando consigo tudo de errado que aprenderam no passado. Alguns como eu preferem aprender o certo e passar a pensar e agir de forma mais correta, o que não significa que tenhamos atingido o nirvana da sabedoria social. É por esse motivo que penso que o politicamente é tão importante. Os excessos obviamente acontecem, e muitos vão chamar o politicamente correto de uma forma nova de totalitarismo, como diz o Slavoj Žižek e seus seguidores. Esses estão tão apegados à ultra-racionalidade que esquecem da importância do meio termo, do meio-justo. Somos aquilo que aprendemos, mas nem sempre aprendemos o certo, então nem sempre somos e agimos de forma certa. O benefício de certas diretrizes que vêm para arbitrar o nosso comportamento – como o politicamente correto – é o que deveria ser considerado bom, pois é uma forma da sociedade aprender o certo de forma mais rápida, algo que talvez demoraria para acontecer se fosse deixado apenas nas mãos do tempo. Vejo muito mais benefício do que prejuízo no politicamente correto, por isso não tenho como ser contra algo assim e nem contra seus divulgadores e praticantes, ainda mais sabendo que melhorei muito como pessoa reconstruindo o meu aprendizado com ajuda desses mecanismos de reeducação. Os excessos em comparação com os benefícios são apenas migalhas.

  6. Gabriel Telles Lins Gonçalves Taveira 13/02/2018 / 1:24

    O mais importante é, de longe, que Bertone voltou anos brindar com suas análises e argumentos.
    Quanto ao conteúdo do que veio no bem e escrito e bem apropriado texto acima, tendo a concordar, vez que algumas dessas minorias, a despeito de estarem isonomicamente equiparadas a quem quer que seja
    <>, ainda não estão em uma social, econômica e cultural distância mínima digna.
    O politicamente correto não morrerá tão cedo portanto.
    Nada obstante, é bom ressaltar com suficiente clareza:
    a direita não aceita aproveitadores baratos e vagabundos da subcultura vitimista nem aceita nenhum abuso do politicamente correto no dia a dia concreto.
    Isso é bom, deve continuar e irá se intensificar.
    Pois o abuso da esquerda será combatido de frente em toda oportunidade.
    A direita burra e iletrada, por sua vez, essa merecerá ser perseguida até entender quão estúpida é.
    Melhor não fulanizar muito, ao menos por enquanto.

    • Ronaldo Thomé Júnior 14/02/2018 / 19:45

      Com certeza. Acho que o mais importante é respeitar o espaço de debate e o acesso de todos a tudo. Há na minha cidade uma boate para negros e dizem que eles são racistas, pois não deixam brancos entrarem. Bem, se deixassem os negros entrarem em boates de brancos, será que estes primeiros precisariam de uma boate só deles?
      É para se pensar. Abraços.

      • Tereza Da Cruz Thompson 17/02/2018 / 1:09

        Bobagem, nao existe boate que proibe negros! Pelo menos eu nunca vi, nem ai no Brasil e nem aqui no Canada, onder moro ha muitos anos.

  7. Júlio César Ferreira 20/02/2018 / 12:43

    Espetacular o texto!Um fato observável é que o termo politicamente correto se tornou uma expressão de grande valor para grupos reacionários que o utilizam como barricada,para tornar suas manifestações de ódio ou preconceito um tanto mais sofisticados.Há uma literatura ou a comercialização de uma nova linguagem que por vezes oferece muito mais um certo sentimentalismo(que por ironia os ditos cujos alegam combater)sob o disfarce de investigações racionais:vide os livros de Pondé,Olavo de Carvalho e demais autores da mesma linha.Basta ser mencionado o termo politicamente correto para acionar toda uma histeria em massa que parece mais ser movida por emoção do que por razão.Alguns aspectos curiosos nessa nova literatura sendo comercializada é que o perigo de um novo fascismo -palavra desgatada bem sei- está se tornando mais sofisticado;vide a maneira afetada e cheia de vaidade com que oferecem análises e diagnósticos.
    O sintomático disso tudo é que tal literatura/linguagem/discurso vem suprir a deficiência de falta de narrativas em nossos dias atuais,daí a procura por uma narrativa unânime e estavel que seja base também para a uma identidade; infelizmente bem sabemos ou com um pouco mais de observação com a ajuda da psicologia linguística que somos abandonados e expulsos de nossas falas/discursos constantemente e que a identidade e suas relações é um trabalho de aspecto mais artesanal do que um consumo em massa.

  8. pablito corrientes 21/02/2018 / 18:43

    Olá,

    Vinculo a preocupação em ser politicamente correto à noção de empatia. Se percebo no outro que expressões que uso lhe causam emoções negativas, eu deveria ser capaz de sentir o que ele sente (compaixão) e buscar meios de não agredí-lo, mesmo que não tenha tido a intenção de agredí-lo originalmente.

    O politicamente correto nasce dessa preocupação básica com o bem-estar do outro.

    Infelizmente, hoje há um forte movimento que tenta reforçar a competitividade e consequentemente o egoísmo – houve quem escrevesse livros dizendo que egoísmo é virtude e hoje esses livros voltaram à moda. Creio que isso foi bem explorado pelo Larval e pelo Dardot no livro “A nova razão do mundo”.

    Acho apenas triste que muitas pessoas se … revoltem (?) tanto contra o politicamente correto, como se a preocupação em não agredir os outros fosse por si mesma uma agressão.

    Obrigado por compartilhar seus pensamentos e informações sobre o tema,

    Abraço

  9. Marcos Brasil 09/03/2018 / 7:22

    O excesso de politicamente correto é tão ruim quanto a completa ausência dele.

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