Como a direita se tornou pior do que a esquerda

Direita-ditaduraDeclarar-se de direita no Brasil não era algo comum até pelo menos o início dos anos 2000. Entre os motivos para isso está o fato de a direita política se vincular à ditadura civil-militar e às violações de direitos humanos naquelas duas décadas de autoritarismo. Mas algo mudou em nossa direita, inclusive sua visão da ditadura.

A crise política e ética que vivemos nos últimos anos com a decadência do petismo, o impeachment e as revelações da Lava Jato balançaram os pilares que mantinham a esquerda como voz dominante na vida intelectual do país.

A esquerda, representada nos últimos quinze anos pelo PT, tinha o discurso da ética e do progressismo como carro-chefe de suas campanhas eleitorais e de seu diálogo com a sociedade. Uma vez revelada a profundidade da corrupção dos governos petistas, abriu-se caminho para outras vozes, outros atores, outras visões de mundo ganharem espaço, especialmente por meio das mídias sociais.

Quando lidamos com ideologias políticas, é sempre bom atentarmos para o tripé quem fala, o que fala e para quem fala. Se o discurso da moralidade na política ganhou novos arautos, podemos dizer que o conteúdo de suas mensagens não é nada alentador.

A direita política veio ao debate público sem propostas para a economia para além de um liberalismo econômico recauchutado e prenhe de lugares-comuns e teorias conspiratórias.

Parte expressiva da esquerda se perdeu no dogmatismo e no populismo despolitizante do lulismo. A direita, por outro lado, em vez de fugir aos erros do PT, o acompanha em todos eles. Sua guerra ideológica contra a esquerda a levou a um reducionismo e autoritarismo que tem no MBL e no projeto Escola sem Partido os mais notáveis exemplos, e materializados em ataques como a Paulo Freire e ao fantasma do marxismo cultural.

Na ausência de uma liderança política democrática e intelectualizada, a direita mudou a retórica sobre a ditadura militar: não foi uma ditadura, as pessoas de bem viviam em paz, os guerrilheiros não queriam democracia (o que é verdade), o Brasil estava prestes a se tornar socialista (o que não é verdade), entre outros clichês dignos de guias politicamente incorretos escritos para uma massa de leitores incultos e ávidos para combater “o comunismo” do PT. Na falta de estudo sério, sobressai a negativação das universidades públicas e as (des)informações adquiridas de youtubers como Nando Moura.

Politicamente, a direita rendeu-se ao chauvinismo manco de Bolsonaro, à negação de direitos humanos e de minorias, e deixou-se envenenar de tal forma pelo antipetismo que limitou-se a posturas meramente reativas a tudo o que acredita que o PT representa.

A direita ressurgiu, mas orientada por gente inculta, sem projetos relevantes vai a reboque de grandes empresários com discurso de Estado Mínimo, leva a sério demais quem se declara socialista ou comunista sem se dar conta que o socialismo como projeto político está acabado desde a queda do Muro de Berlim. Para não reconhecer isso, o expediente da conspiração ajuda a preencher a lacuna: mistura-se Gramsci com Foro de São Paulo com a naturalidade de quem não passou por exames em instituições educacionais.

Embora a direita não seja monolítica, as vozes que lhe sobressaem são barulhentas e incultas o suficiente para entendermos que, para ser pior do que a esquerda que está aí, seria melhor nem existir.

Para ler outros textos sobre esquerda e direita, clique aqui.

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27 comentários sobre “Como a direita se tornou pior do que a esquerda

  1. LEKSEL NAZARENO REZENDE 06/02/2018 / 11:37

    Comentava com alunos essa semana e falava justamente sobre a ausência de pensadores liberais sérios no Brasil . Observava que academicamente são inexpressivos e que para haver debates sérios deveria superar dogmatismos tanto de esquerda quanto de direita.

  2. Ronaldo Thomé Júnior 06/02/2018 / 12:22

    Olá, Bertone, tudo bem? Que saudade dos seus textos…
    Enfim, queria compartilhar uma experiência incrível que tive neste ano passado.
    Contatei uma professora da USP, a Lília Schwarcz, pela plataforma Lattes. Perguntei a ela sobre a questão da arte no Brasil e as situações atuais que vivemos.
    Bem, não apenas fui respondido como convidado para a exposição Histórias da Sexualidade, no MASP!
    Foi incrível por muitos aspectos; o primeiro é que não sabia que pesquisadores e docentes acadêmicos fossem tão acessíveis. O segundo é que foi incrível poder fazer parte de um acontecimento tão comentado e polêmico do nosso momento atual. Senti-me participando da história!
    Queria compartilhar isso com você e os leitores do seu blog porque aprendi uma lição: diálogo precisa existir, e sem isso fica difícil. Não digo o que aconteceu entre Márcia Tiburi e Kataguiri, mas… Ele é uma pessoa que maltrata e ofende os outros; não há como conversar com alguém assim. Mas de resto, vale a pena, porque nunca estamos completamente certos de nada.
    A propósito, você conhece a obra desta historiadora? Pensei em comprar o Brasil: Uma Biografia, mas a grana ainda não deu…
    Abraços;)

    • Bertone Sousa 06/02/2018 / 12:36

      Olá Ronaldo , conheço sim, a obra dela é referência em História do Brasil.

  3. Lima 07/02/2018 / 11:39

    Sintetizou muito do que eu vinha pensando! Muito bom!

  4. Rodolfo Andrello 07/02/2018 / 15:26

    Olá Bertone. Tive contato com um conteúdo que, a priori, poderia ser considerado direita, mas que destoa significativamente das bravatas de nandos mouras ou bolsonaros da vida. Trata-se de indivíduos declarados austro-libertários, que tem uma leitura mais séria de teóricos como Rothbard e Mises. Existe até um certo destaque para proponentes dessa corrente que colhem visibilidade por contestarem esses sujeitos mais famosos e formadores de opinião do nível mbl. Enfim, ainda que esse movimento não usufrua de tanta visibilidade, a emergência de alguns assuntos correlatos como as criptomoedas vem refinando o embasamento teórico de alguns que antes poderiam apenas se declarar anti-pt por motivos de moda ou memes de internet.

  5. Ronaldo Thomé Júnior 07/02/2018 / 21:49

    Bertone, deixa eu aproveitar pra fazer uma pergunta… Bem, eu andei estudando alguns divulgadores no YouTube e reparei no termo binarismo para falar desta polarização que vivemos. Neste caso, a palavra certa poderia ser maniqueísmo? E pelo que estudei, podemos dizer que o que necessitamos seria de uma espécie de pluralismo?
    Quero entender melhor esses conceitos. Você poderia indicar um autor ou livro sobre isso?
    Um que vi na internet seria o Poliarquia, do Robert Dahl. Você conhece?

  6. roberto 08/02/2018 / 13:27

    O PT não é e nem foi de esquerda (radical). Quando a linha sindical estabeleceu sua supremacia nas outras correntes nos anos 80, de sua linha radical originou PSTU e linhas esquerdistas no PCdoB/PSB. Com exceçào ao projeto includente (valorização do SM e planos para combater a pobreza absoluta, ele está mais para uma social-democracia com o estado como agente desenvolvista e valores como meritocracia e livre mercado a guiar a vida social, do que para uma esquerda revolucionária, o que o PSOL nem chega perto.
    Abraços, gosto muito de ler seus textos, lúcidos e afindos com o presente da sociedade brasileira!

  7. Gabriel Telles Lins Gonçalves Taveira 08/02/2018 / 21:57

    Não queremos mais a ausência prolongada dos textos cá publicados, e tal se da em razão da riqueza equilibrada do conteúdo textual ora acessível aos alfabetizados e cultores da arte e ciência da História.
    Trata-se raríssima vida inteligente na internet.
    Por ser cada vez mais rareada, o período de espera chega mesmo a angustiar a quem quer espere a seguinte seleção de conteúdo.

    • Gabriel Telles Lins Gonçalves Taveira 08/02/2018 / 21:59

      Mais um texto reto, justo e bom.

  8. Gabriel Telles Lins Gonçalves Taveira 08/02/2018 / 22:01

    *

    Não queremos mais a ausência prolongada dos textos cá publicados, e tal se da em razão da riqueza equilibrada do conteúdo textual ora acessível aos alfabetizados e cultores da arte e ciência da História.
    Trata-se de raríssima vida inteligente na internet.
    Por ser cada vez mais rareada, o período de espera chega mesmo a angustiar a quem quer que espere a seguinte seleção de conteúdo.

  9. Gabriel Telles Lins Gonçalves Taveira 11/02/2018 / 7:49

    Eu só gostaria de fazer constar que também toda a esquerda em disputa tampouco aparenta prestar para o Brasil que desejamos.
    Sem corrupção, sem populismos irresponsáveis, sem abuso nocivo do ‘nós versus eles’, mas com o necessário Governo das pessoas físicas do povo para o povo, em nome da Nação e das pessoas, com a ordem como meio e o progresso como fim.
    A falta de lideranças publicamente defensáveis é triste, além de cansar bastante.
    As esquerdas estão desnorteadas e as direitas vêm progressivamente se afastando da realidade.
    Enfim, o cenário não me parece poder ser reduzido à velha dicotomia direta vs esquerda, ainda que dela não se possa e, quiçá, nem se deva prescindir.
    A coisa parece cobrar dos pré-candidatos a coragem de elencar publicamente quais são, objetivamente, os problemas do País e quais são as propostas para solucioná-los pragmáticamente em 4 ou 8 anos.
    Essas propostas necessitam ser constitucionalmente executáveis, além de claras, transparentes e precisas. É PRECISO ainda demonstrar conclusivamente de onde virão os recursos financeiros e humanos para entregá-las.
    Que vença o melhor.

  10. Vitor 12/02/2018 / 7:36

    Oi, Bertone
    O Nando Moura fez um vídeo ontem falando com Saddam Hussein era de esquerda, citando alguns motivos para isso. Você pode escrever um texto mostrando a falsidade da alegação dele?

  11. Ronaldo Thomé Júnior 19/02/2018 / 10:12

    Bertone, tudo bem?
    Peço desculpas por ter me exaltado com alguns “comentaristas” em posts anteriores… Eu apenas fiquei indignado com a atitude e a grosseria de alguns cidadãos que parecem não pensar sobre o que falam.
    Peço que você não me bloqueie, por favor, porque adoro participar aqui, e prometo não mais responder. Seu blog é muito importante para deixar de ser seguido.
    Abraços!

    • Bertone Sousa 19/02/2018 / 10:29

      Ronaldo, não precisa pedir desculpas. Não vou bloquear você e fique à vontade pra comentar sempre. É importante ter esse feedback dos leitores.

      • Ronaldo Thomé Júnior 19/02/2018 / 11:42

        Eu só achei que a pessoa foi muito grosseira, mas tudo bem.

      • Bertone Sousa 19/02/2018 / 12:00

        Sua interlocutora é olavete, não dá pra esperar postura diferente.

  12. Alan 20/02/2018 / 17:27

    Não vejo como seria diferente: uma direita que tem como principal “nome” um velho pedófilo, que passa o dia todo no facebook falando sobre órgãos genitais e ânus e brinca de ser filósofo, com uma filosofia pobre (recomendo ‘nos jardins das aflições’ pra comprovar isso) não tinha como ser “superada” por uma esquerda acoada e idólatra do Lula. Dito isso, com a mistura perfeita dos fraudadores de história do Brasil Paralelo, essa direita é a mais virulenta e porca da história da América-Latina, nem o anti-comunismo dos Pinochetistas do século XX foi tão limitrofe e reducionista quanto essa brasileira.

  13. pablito corrientes 21/02/2018 / 18:21

    Olá, tudo bem?
    Uma pergunta: outro elemento unificador da direita no Brasil não seria a crença (ou pelo menos o discurso) de que se deve desconfiar do Estado? Daí não só a defesa de privatizações, mas a própria deslegitimação da política e do fazer político – o que se vincula ao discurso violento (bancada da bala) e moralista (bancada da bíblia).
    (bem, mais uma pergunta) A deslegitimação da política e do fazer político não seria um dos fatores que explicam o surgimento de tantos influenciadores da direita vindo de fora dos quadros político-partidários (como o Nando Moura, o Olavo e mesmo humoristas como Gentili)?

  14. Celio roberto da silva 04/03/2018 / 10:46

    sou formado em história pela unespar, li alguns de seus textos em revistas de história, gostaria uma indicação de leitura ou explicação sobre a questao que vc levanta como conspiratória a relacao de gramsci e o foro de sao paulo, que muito defendem os olavistas…

  15. Vinicios Cervantes 19/04/2018 / 11:57

    Gostaria de entender uma coisa, como o senhor pode chamar um lado oposto ao que governou o país de inculto e que as coisas que os opositores ao PT e a esquerda falam, ou até mesmo fazem em algumas vezes pode ser categorizado como desinformação e além disso falar de autoritarismo de um movimento que tem demonstrado, refutado e propondo diversas mudanças estruturais ao país, uma leitura rápida sobre esses conceitos de esquerda e direita, liberalismo, marxismo, conservadorismo se entende que é preciso um campo de ideias opostas mas que criem um meio de convivência justa para um povo e não a busca por uma utopia perfeita que jamais existirá, essa bolha que tanto um lado quanto outro prega que estraga o debate, mas é INCULTO da sua parte dizer que a direita é pior, sendo que, nos debates, quem só repete bordões, chavões e continua a propagar fatos inexistentes, falácias e ESSES SIM, DESINFORMAÇÕES, é a esquerda, tudo pra propagar o projeto de Estado supremo que desejam e perpetuar com a mesma estrutura corrupta, se fosse possível fazer um teste prático entre políticas de direita e esquerda em um período de tempo, tenho plena convicção que o projeto da direita é muito superior as proposições esquerdistas que só sugam do povo e distribuem migalhas.

  16. Ronaldo Thomé Júnior 26/04/2018 / 16:18

    Bertone, comprei recentemente um livro que já vinha há tempos planejando ler: Os Últimos Dias da União Soviética, do Serhii Plokhy. Você conhece esse livro? Recomenda? Vi que foi muito bem avaliado. Abraços.

  17. Ronaldo Thomé Júnior 29/05/2018 / 16:08

    Bertone, tudo bem? Sobre a questão levantada acerca de a ditadura ser um governo em que a sociedade era mais segura, pude pesquisar algumas reportagens que comprovam exatamente o contrário. O regime militar teria na verdade impulsionado a delinquência. Você conhece textos ou artigos que exemplifiquem como isso ocorreu? Abraços!

  18. Marcus Canesqui 11/07/2018 / 22:07

    Professor, seria possível escrever um texto sobre o que a direita fez de bom no mundo, se é que isso aconteceu?

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