TROTSKY

trotskyNestes cem anos de Revolução Russa, Trotsky continua a ser um dos personagens mais venerados pela esquerda. Isso se deve em parte às suas divergências de Stálin acerca da Revolução Mundial e em parte ao fato de ter sido vítima dele num atentado contra sua vida. Também se deve ao fato de Trotsky ter sido um hábil orador e excelente escritor, mas o fato é que seu papel na Revolução foi bem menos inspirador do que parte da esquerda política acredita.

Ao longo do século passado, certa vulgata marxista vendeu a ideia de que Trotsky estava em oposição na Stálin no que diz respeito à forma adquirida pelo Estado soviético após a morte de Lênin. Por não concordar com a burocratização do partido e o personalismo que elevou Stálin ao cargo de líder máximo do país, Trotsky pagou com o desterro, o exílio e, finalmente a morte, tendo sido assassinado por um golpe de picareta na cabeça a mando de Stálin, em 1940.

Contudo, Trotsky foi mais do que uma vítima da loucura de Stálin pelo poder absoluto. Ele foi vítima de um sistema político autocrático que ajudou a criar. Trotsky foi um dos mentores do Gulag, acrônimo que significava “Administração Central dos Campos”, que mais tarde viria a identificar a administração dos campos de concentração.

Ainda em 1918, ele propunha que um grupo de prisioneiros tchecos fosse colocado em um campo de concentração, com o objetivo, segundo ele, de servir de “retaguarda para fazer serviço braçal”. O Gulag soviético começou a ganhar forma nos primeiros anos da ditadura bolchevique. Sua organização e práticas tem raízes nas prisões do regime czarista deposto em fevereiro/março de 1917, mas os bolcheviques aperfeiçoaram essas prisões e as transformaram em grandes centros de trabalho escravo para onde eram enviados não apenas prisioneiros comuns, mas também prisioneiros políticos, e estes recebiam os piores tratamentos nesses campos.

Lênin pensava de forma semelhante e, em 1921, segundo Anne Applebawm, já havia na Rússia soviética 84 campos de concentração e a maioria de seus ocupantes estavam lá por serem considerados “inimigos do povo”, designação que os bolcheviques davam a seus adversários reais e imaginários. A existência de tantos campos de trabalho forçado dissolve a ideia de que se Lênin tivesse vivido mais ou se Trotsky o tivesse sucedido na liderança do país, o destino da União Soviética teria sido substancialmente diferente do que veio a ser sob Stálin.

Enquanto foi líder do Exército Vermelho, Trotsky exerceu um papel central na disseminação do terror, da violência e da repressão estatal para consolidar o poder dos bolcheviques. Contribuiu decisivamente para que o terrorismo de estado criasse na sociedade uma disciplina e um centralismo rigorosos sob a liderança do Partido.

Em 1921, quando a irrompeu a rebelião dos marinheiros de Kronstadt, Trotsky teve uma participação importante em seu desfecho. Os marinhos reivindicavam liberdade de expressão, de reunião, sindicatos livres, liberdade para os camponeses trabalhassem como desejassem em suas terras e eleição dos sovietes por voto secreto. A revolta não se colocava contra a Revolução, mas reivindicava um programa essencialmente democrático.

Contudo, na Rússia bolchevique qualquer proposta de pluralismo político era prontamente combatida. Ainda em 1921, o Politburo, órgão máximo do Partido Comunista, ordenou, sob os olhares de Lênin e Trotsky, o fuzilamento dos líderes do motim de Kronstadt e o envio dos demais para uma “colônia disciplinar” no extremo norte do país. Trotsky não participou diretamente da repressão a Kronstadt, mas ficou satisfeito com seu desfecho.

Embora seja comumente retratado como uma versão mais democrática e suave de liderança bolchevique em relação a Stálin, Trotsky não escondeu seu gosto pelo terrorismo e pela ditadura durante a guerra civil russa. Ele foi uma peça chave na montagem do aparato de repressão estatal que encontraria em Stálin seu apogeu e do qual ele próprio se tornaria uma de suas vítimas fatais.

Leia também:

Lênin e o comunismo

O que foi o comunismo

Os cem anos da Revolução Russa

Referências

APPLEBAWM, Anne. Gulag: uma história dos campos de prisioneiros soviéticos. Rio de Janeiro: Ediouro, 2009.

BROWN, Archie. Ascensão e Queda do Comunismo. Rio de Janeiro: Record, 2010.

SERVICE, Robert. Camaradas: uma história do comunismo mundial. Rio de Janeiro: DIFEL, 2015.

______. Trotski: uma biografia. Rio de Janeiro: Record, 2017.

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8 comentários sobre “TROTSKY

  1. Ronaldo Thomé Júnior 23/10/2017 / 12:26

    Olá, Bertone! Mais uma vez parabéns pelo ótimo texto.
    Realmente não conhecia nada sobre a vida de Trotsky, e já havia ouvido falar sobre esta questão, como seria a Rússia com ele.
    Mas não imaginava que ele também era um político radical com tendências brutais.
    Queira aproveitar para fazer uma pergunta: qual sua opinião sobre Nelson Mandela e Mahatma Gandhi?
    Fiquei sabendo que eles foram políticos com passados bastante sombrios, mas nunca li uma biografia ou algo assim sobre eles. Quais fontes poderia consultar para saber mais?
    Eles realmente eram de esquerda? Foram libertários? Eram homens violentos celebrados por falta de conhecimento da sociedade?

    Sem dúvida uma sugestão para um post seu.

    • Bertone Sousa 23/10/2017 / 13:35

      A pergunta é realmente muito ampla, Ronaldo, e como foge ao assunto do texto, fica para outra ocasião.

      • Ronaldo Thomé Júnior 23/10/2017 / 15:51

        OK. Obrigado!

  2. Renata 28/10/2017 / 2:58

    Olá Bertone! Venho acompanhando seu Blog e uma vez passei aqui nos comentários para lhe parabenizar por seus textos e venho de novo dar os parabéns: Seu blog foi o único que encontrei até hoje em toda a internet que foge da ideia de reverenciar e defender ideologias, lideres e sistemas de governo de forma cega e isso é um alivio num momento em que parece que estamos vivendo numa seita e bolha ideológica onde as pessoas estão agarradas em aspectos ideológicos e defendendo-os de forma ferrenha sem o minimo de racionalidade e nem razoabilidade.
    Desculpe o textão mas aqui me sinto a vontade pra falar fora da bolha doentia em que se encontra o nosso pais.
    No meu perfil do Facebook, tenho um colega formado na área de ciências sociais, defensor de Fidel Castro e que vive a dizer que “o capitalismo deu errado”, “é uma praga”,” responsável por todos os males da humanidade”, insinuando o tempo todo que quem o defende é “burro e mau carácter” e por ai vai…porém esse mesmo colega também exerce a profissão de coaching para orientação profissional de clientes e vira e mexe posta fotos desde seu belo e bem equipado apartamento e nessas horas eu fico pensando como é fácil atacar brutalmente um sistema e defender um outro, sendo que nesse outro, socialismo, ele, primeiro, não poderia exercer essa profissão de coaching, pois em Cuba a maioria dos cidadãos não o contrataria pois não teriam dinheiro para paga-lo e nem interesse em contratar um profissional para orientar no melhoramento da vida profissional sendo que não existe quase a possibilidade de ascender economicamente em Cuba, razão esta que tornaria essa profissão dele inaplicável no pais que tanto defende e em segundo, não moraria nesse belo apartamento em uma área de classe media que ele só pode pagar devido a profissão que exerce aqui no pais “malvadão” capitalista. Ou seja ele vive bem graças ao sistema que ataca: O capitalismo, que promoveu a ascensão de uma classe média, pois em Cuba essa classe media é praticamente inexistente pois não há liberdade econômica. Só de uns tempos pra cá que a coisa melhorou depois que abriram a economia para que pessoas fossem trabalhar na iniciativa privada, como montar restaurantes por exemplo.
    Ainda que o Brasil seja um pais nada desejável por causa dos altos índices de corrupção e manutenção de privilégios da casta politica e do judiciário isso não torna Cuba exemplo de nação que deu certo e admirável ou modelo a ser seguido! Acredito eu que o modelo “ideal” a ser seguido é um modelo que invista em industrialização e iniciativas que visem melhorar a atividade econômica e usar o estado pra promover politicas publicas a modo de ajudar as pessoas a sair da pobreza e que possa fazer um ajuste a modo de mudar o sistema tributário para distribuir renda. mas parte da esquerda ao invés de focar nisso parece presa ao passado e acha que a unica forma viável de fazer justiça social é implementação de socialismo. Isso me parece um erro brutal e tão obvio que fico muito abismada quando vejo gente formada na área de ciências politicas defendendo cegamente esses modelos comprovadamente ineficazes na promoção de liberdade individual, econômica e de bens de consumo.
    Venezuela fracassou controlando preços de alimentos e fixando várias taxas de cambio, mas pra esquerda esse não é o problema da economia Venezuelana e sim oposição que esconde alimentos e a sabotagem dos Eua. Ou seja não admitem os erros do governo. Controlar preços deu errado no mundo inteiro, não é pra nenhuma esquerda ficar insistindo nesses modelos.
    Gosto do candidato Ciro Gomes, exatamente por mostrar-se fora dessas bolhas ideologias, mas ai ele é frequentemente criticado por que a esquerda diz que ele não é de esquerda e parecem querem um governo mais estilo PSOL, como se esse partido tivesse alguma chance de ganhar com as posições que defende e como se tivéssemos num momento de abundancia de poder escolher candidatos com um programa exemplar de esquerda, como se não estivéssemos a beira de sermos engolidos por uma extrema direita, como Bolsonaro….Tá difícil de conviver com essa esquerda lunática!!!!!
    Mas enfim falando do tema da Ex URSS, esses dias aqui no Rio de Janeiro, cidade onde moro, a UFRJ promoveu um evento para falar da revolução Russa, sei que a UFRJ é uma instituição publica de ensino séria mas não sei qual o intuito de promover um evento para falar da URSS, conhecendo a esquerda Brasileira imagino que foi em tom de elogio ou no máximo algumas criticas pontuais, quando na verdade deveria ser ferrenhamente criticado, principalmente seus lideres.
    Ocorre que, fanáticos da direita invadiram o tal evento da UFRJ pedindo e aclamando por ditadura militar. Veja a que ponto chegamos: Uma instituição publica de ensino promove um evento para falar de uma ditadura militar de esquerda( A URSS pelo que sei, foi exatamente isso) e ai fanáticos do outro lado do aspecto politico invadem o evento para clamar e mostrar-se a favor de uma outra ditadura militar, só que de direita! Só rindo para não chorar!

    • Bertone Sousa 28/10/2017 / 4:29

      Olá Renata, obrigado por ler meus textos e acompanhar o blog. É bom poder escrever para pessoas que fogem dessas bolhas ideológicas, como você bem definiu, e é gratificante receber esse apoio de pessoas como você aqui. Veja que nos últimos meses tenho publicado textos sobre algumas dessas questões que você levantou aqui e, de fato, a militância ideológica tosca da direita e da esquerda tem sido um frequente obstáculo a uma abordagem qualificada desses temas.

  3. Márcio 06/11/2017 / 14:21

    Bertone, e a sumária execução da Família Imperial russa, o czar Nicolau II, sua esposa, a czarina Alexandra e todos os seus filhos, em julho de 1918? Teve alguma necessidade?

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