Por que não sou (mais) de esquerda

manifestação-de-esquerdaAinda existem duas formas de esquerda política no Brasil: a extrema-esquerda, professada por PSOL, PSTU, PCO, PCB, movimentos sindicais ligados a esses partidos e tem como característica o discurso extemporâneo da Guerra Fria, o anticapitalismo e até a defesa intransigente do socialismo. A outra frente é a esquerda moderada, com perfil socialdemocrata, e tinha no PT seu principal representante que, de 2003 ao impeachment de Dilma Rousseff, levou a reboque outras legendas como PDT, PSB, PC do B.

O impeachment de Dilma em 2016 representou um ponto de inflexão em todo o campo das esquerdas no país. A postura de moderação e ajustamento à democracia com a defesa de direitos civis e políticas públicas que havia predominado nos anos anteriores, de repente ruiu como um castelo de areia para dar lugar a posturas agressivas, antidemocráticas e à verbalização exaustiva de clichês ideológicos, como a designação de “fascistas” a virtualmente tudo e todos que não se enquadravam no discurso fabricado do golpe e na defesa do lulopetismo.

Chamo aqui de lulopetismo não apenas a posição de vinculação partidária ao PT, mas também daqueles que, sem serem formalmente filiados, compraram o discurso do partido sobre o golpe e o reproduziram em seus círculos de atuação, além do culto à personalidade ao ex-presidente Lula em graus variados e subjacente a essa postura.

O impeachment removeu a barreira entre esquerda moderada e extrema-esquerda, o que levou ao nivelamento de sua retórica. Com o impeachment, foi possível ver Rui Costa Pimenta, líder e dono do PCO, repetir a narrativa do golpe em apoio incondicional ao petismo, assim como ver o PSOL, fundado por dissidentes do PT, voltar a apoiar o reduto político do qual saiu. O PT, que a despeito de alguns anacronismos, como a amizade com a ditadura cubana e com o chavismo na Venezuela, se mantivera em casa dentro do limite das liberdades democráticas, de repente começou a falar no sentido de que se não estiver no poder não há democracia de fato e de direito.

O ponto forte da esquerda são seus intelectuais, que se encontram sobretudo nas universidades públicas. Há décadas, levados pela convicção da necessidade de aliar vida intelectual com militância política, levaram em 2016 até às últimas consequências essa fusão. Os movimentos de ocupação estudantis ocorridos no final daquele ano em escolas e universidades em todo o país levou uma massa de rebanho de estudantes a trancarem suas instituições de ensino para protestarem contra “o golpe” e a PEC do teto dos gastos públicos proposta pelo governo federal naquele momento. As ocupações estudantis de 2016 foram instrumentalizadas por professores de esquerda e extrema-esquerda que transformaram instituições de ensino e pesquisa em plataformas de doutrinação política e ideológica em favor do lulopetismo.

Nas universidades, a vida intelectual em cursos de humanidades ficou fortemente contaminada pelo dogmatismo de professores que transformam salas de aula e até espaços de convivência em auditórios de partido político. Incapazes de fazer uma interpretação coerente da realidade social e uma revisão crítica de suas próprias convicções, se refugiaram numa tentativa patética e desesperada de inculcar dogmas políticos sobre estudantes, e aproveitando de sua autoridade professoral e do poder de perseguição e intimidação a alunos que divergem de suas posições. Fazendo o trocadilho com o livro célebre de Raymond Aron, o lulopetismo se tornou o ópio dos intelectuais de esquerda no Brasil.

Movimentos de minorias, especialmente feministas e LGBT’s, que também têm nas universidades públicas seus principais redutos, deixaram de lado qualquer debate qualificado e rapidamente se transformaram em grupelhos de jovens proto-fascistas prontos a atacar qualquer um, inclusive outros professores não-alinhados à sua militância, e contando sempre com o apoio tácito ou explícito de seus professores doutrinadores.

A gritaria e histeria orquestrada por movimentos sociais, sindicatos, partidos, professores e intelectuais em favor do lulopetismo foram e ainda são demonstrações vergonhosas de infantilidade mental e incapacidade de análise. Esse irracionalismo se manifestou também em atos de violência verbal e física contra pessoas visadas como inimigas, como a advogada Janaína Paschoal e jornalistas de TV, quando não pela verborragia iracunda em redes sociais ou no jornalismo marrom vinculado ao governo deposto.

Sem reverter o impeachment, o PT abraçou cada vez mais forte o discurso da extrema-esquerda: fez loas a Fidel Castro quando de sua morte em novembro de 2016 e no Foro de São Paulo em 2017 apoiou abertamente as iniciativas ditatoriais de Maduro na Venezuela, juntamente com PC do B e PDT.

Em apenas alguns meses a esquerda moderada foi absorvida pela extrema-esquerda, numa demonstração de que seu amadurecimento político é tão fictício quanto sua honestidade.

Recentemente, Jean Wyllys publicou em sua página no facebook um texto condenando o apoio da esquerda a Maduro, uma posição que destoa da visão majoritária de seu próprio partido, o PSOL. Recebeu mensagens de apoio e rejeição. Mesmo que a posição de Wyllys tenha sido elogiável, ele próprio já se vestiu de Che Guevara e teceu elogios ao guerrilheiro argentino que é notoriamente conhecido por assassinar inocentes a sangue frio durante e depois da Revolução Cubana.

O apego da esquerda brasileira ao mito de Guevara e à ditadura cubana permanece como uma nódoa em suas representações que ela parece ser incapaz de remover. Não é possível que, quase três décadas após o fim da Guerra Fria, ainda não tenha caído a ficha para a incoerência gritante que é defender direitos humanos e de minorias em casa e ignorar solenemente que eles estejam ausentes nos países com os quais simpatiza. O mesmo pode ser dito em relação às violações flagrantes de direitos civis retiradas pelo governo de Nicolás Maduro na Venezuela, que conta com a anuência asinina de nossa extrema-esquerda. Em tudo isso, a esquerda moderada não se mostra melhor, uma vez que seu silêncio covarde e pusilânime apenas evidencia sua condição de subalternidade e impotência.

Estar alinhado ideologicamente e doutrinariamente no Brasil se tornou um sintoma de uma patologia mental, de uma condição intelectual limítrofe. Quando a vida intelectual é sacrificada pela militância sem sentido, pelos discursos que destoam da vida social, pela ideologia colocada acima de qualquer coerência, é hora de tomar uma posição clara: afastar-se, posicionar-se contrariamente e denunciar a inconsistência e mesquinhez desse pensamento.

Tenho publicado muitas críticas nesse espaço à esquerda e à direita basicamente pelos mesmos motivos, o principal deles o dogmatismo e autoritarismo de suas posições. Quando escolhi seguir a vida acadêmica, uma vida dedicada à pesquisa, leitura e à formação de jovens, vi nessa opção a oportunidade trabalhar conhecimentos de forma a ampliar o horizonte de perspectivas deles.

Um curso como História, por exemplo, que é o campo onde estou, proporciona isso de forma magistral. O conhecimento histórico deve estar voltado para a compreensão e interpretação da sociedade. A história é imprescindível como ferramenta de crítica e entendimento do presente, das descontinuidades e permanências em relação ao passado. A História, como conhecimento, deve abrir ao estudante um campo de possibilidades para pensar a sociedade e deve instrumentalizá-lo para dominar os conceitos a partir dos quais poderá entender processos, conjunturas, contextos.

Contudo, como campo aberto de possibilidades, o conhecimento histórico pode facilmente ser usado como ferramenta em favor da política doutrinária por professores com pouco ou nenhum preparo e que não conseguem dissociar suas convicções ideológicas pessoais de seu trabalho docente. Nada pode ser mais prejudicial à vida intelectual do que ser condicionado a posicionar-se ideologicamente antes de aprender a dominar conceitos e compreender a sociedade. Quando um professor de humanas chega em uma turma de primeiro ano de graduação induzindo seus alunos a serem de esquerda ou feministas está justapondo à sua atuação docente a vigarice descarada. Formar militantes e formar intelectuais são duas coisas muito distintas.

Muitos professores e intelectuais de esquerda ainda são movidos pelo pensamento de Marx de que é “preciso transformar o mundo em vez de interpretá-lo”. Retirando a frase de contexto e tomando como senso comum ideológico, anulam seu próprio trabalho como docentes ao ensinarem dogmas como se fossem saberes.

Afastei-me da esquerda política não por me converter à direita, mas por perceber que suas posturas representam sua própria morte intelectual. Sua incapacidade de ler coisas novas e de refletir criticamente suas convicções a coloca na posição de uma seita político-religiosa facilmente suscetível ao discurso populista e ao culto à personalidade de chefes e ditadores, como temos visto recentemente.

Contudo, parte da força política da esquerda vem também de seus adversários. Ao tratarem direitos humanos e políticas sociais como coisa de esquerdista, muitos conservadores e até liberais colocam na conta da esquerda e de seus líderes populistas pautas que historicamente não estão necessariamente vinculadas a eles, e com isso contribuem para fortalecer figuras como Lula que, de outra forma, poderiam cair mais facilmente no ostracismo por conta de sua corrupção.

Pensar ideologicamente é, na verdade, não pensar, é ter sempre as mesmas respostas para todos os problemas, não importa o quanto as respostas destoem da realidade a qual se reportam. É preciso mostrar à juventude que é possível e salutar pensar sem ideologias, sem aquele corpo de doutrinas com fórmulas prontas e acabadas sobre o mundo que facilmente se transformam em clichês. O pensamento ideológico é útil para criar grupos de pressão, para formar rebanhos de militantes, mas  a universidade jamais deveria se tornar um lugar de formação de militantes.

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44 comentários sobre “Por que não sou (mais) de esquerda

  1. Rafael 04/09/2017 / 15:21

    Professor, lamento seu “desencanto”, mas entendo perfeitamente. Eu sou de um curso de história e simpativo com a esquerda justamente por pensar mais no bem estar coletivo do que o individualismo do liberalismo, porém, nunca consegui me envolvi com nenhum movimento de “esquerda” por ou ainda estarem pensando na revolução socialista nos moldes do século passado( nada contra quem tem isso como utopias, eu particurlamebto não tenho muita fé em utopias) que por vezes defendem regimes “complicados”( cuba, urss) ou por serem intransigentes e intolerantes com quem não é igual ao grupo e que geralmente formam panelinhas movidos pelo pessoalismo de forma emotiva demais deixando a razão de lado. Realmente precisa aparecer alguma renovação que fuja destas caracteristicas e não sejam uma falsa renovação como essa “nova direita” que é canalha, mentirosa, falso moralista e age de formas parecidas com os movimentos de esquerda(panelhinhas movidas pela emoção e não razão). Sobre universidade, nunca tive professor que colocou militância a frente da aula, na verdade, os professores que mais falaram de politica atual em sala foram liberais. E, por favor, um dia escreva sobre a social democracia e como os partidos usam esse nome esvaziando seu sentido. Dica de livro: O mal ronda a terra, Tony Judt, esse historiador faz uma excelente leitura da social democracia,dos problemas da esquerda e tem um posicionamento muito sóbrio.

  2. AntimidiaBlog 04/09/2017 / 16:44

    Não é minha intensão aqui questionar sua decisão sobre seu posicionamento político…………..esquerda, direita, centro, nenhum, todos, meio termo, nova de cá, nova de lá, não é sobre isso que meu comentário trata…………deixando isso claro, vamos ao ponto……………enfim……….sendo genérico, até certo ponto simplista, poderia se definir ideologia como um “conjunto de ideias e opiniões”? Independente de quais ideias e opiniões, um conjunto delas que orientam, por exemplo, as políticas públicas, ou os conceitos empregados na administração de uma empresa, ou até mesmo as diretrizes de um projeto cultural…………quando existe um pensamento embasador (ou vários), um conjunto de metas e objetivos, porquês e comos, existe ideologia…….não precisa de uma direção, esquerda ou direita………….ideologia não me parece ser relativo só a isso…………….dizer que não se tem uma ideologia por trás de um pensamento não é se postar na defensiva, ou negar o inegável? Esse pensamento, não seria por si só, parte de uma ideologia? Não seria mais prudente dizer que você esta se afastando (para usar um dos termos que você usou) da ideologia de esquerda (independente do que isso signifique ou de qual direção seus pensamentos estão mais alinhados) do que dizer que “é possível e salutar pensar sem ideologia”?……….

    • Bertone Sousa 04/09/2017 / 21:26

      Antimidia, pensar ideologia como “um conjunto de ideias e opiniões” é muito abrangente sim. No meu texto trabalho com a noção de ideologia como um modelo de explicação do mundo e da realidade social, usado como instrumento de luta política. É essa noção de ideologia que entra em crise depois da Segunda Guerra Mundial no mundo desenvolvido quando falamos, por exemplo, em crise das ideologias, ou quando Jean-François Lyotard falou em crise das metanarrativas ou metarrelatos no livro “A condição pós-moderna”. Ideologia como metanarrativa seria um discurso com pretensões universalizantes. Embora parte da esquerda reconheça a problemática das narrativas universalizantes, especialmente o marxismo, ainda tem dificuldade de se desprender disso e ainda se coloca a serviço de uma doutrina partidária ou toma, por exemplo, as lutas de minorias sociais como um substituto dessas narrativas, engendrando novas formas de dogmatismo. Nesse sentido, sim, é possível e salutar pensar sem ideologia, porque a ideologia resvala facilmente para o pensamento monolítico, doutrinário, mesmo entre pessoas aparentemente bem preparadas.

      • AntimidiaBlog 04/09/2017 / 22:24

        Entendi…………..ideologias………

  3. LEKSEL NAZARENO REZENDE 04/09/2017 / 18:59

    Boa noite professor . Li seu post e alguns anos busquei a mesma postura. Tenho incentivado os alunos a buscarem conhecer diversos pontos de vista . Estou fora do mundo academico desde 2004 . Por isso pergunto o que tem valido a pena ler sobre historia do Brasil ? Quais intelectuais hoje sao relevantes para se ler ? Há intelectuais de direita ou esquerda que valem a pena serem lidos ?

    • Bertone Sousa 04/09/2017 / 21:12

      Leksel, o importante ler os autores mais renomados e os clássicos com os quais você deve ter tido contato na graduação. O resto é complemento.

  4. Raphael 05/09/2017 / 2:08

    Boa Noite Prof.º Bertone!
    Realmente é possível observar a ausência de pensamento crítico e agressividade extrema nesses militantes de esquerda, que nada mais são do que massa de manobra.
    Existe um canal no YouTube chamado “mamãe falei”, onde um rapaz, muito corajoso, sai em meio às manifestações apenas com uma câmera na mão para fazer perguntas aos militantes. E o resultado quase sempre é o mesmo: ofensas gratuitas, como o famoso “fascista”, e agressões físicas.
    É impressionante o nível de alienação ao qual o ser humano pode chegar!

  5. Ronaldo da Silva Thomé Júnior 05/09/2017 / 22:42

    Bertone, tudo bem? Gostei do artigo, é interessante e elucidativo. Acho que é melhor ter lucidez e sensatez ao invés de paixonites e exageros.
    Ao que parece, após todo esse ocorrido pós-impeachtment, ninguém realmente esperava tantas mudanças impopulares. Eu observo que muitos dos manipuladores têm saído de cena e esta ascensão da direita parece ter diminuído.
    O problema é que este país sempre teve uma população violenta e conservadora, independente de ideologias (esquerda ou direita).
    Queira apenas que eu faça uma objeção com relação a algo que você já comentou: um amigo meu, que é advogado, comentou comigo que o impeachment de Dilma realmente foi ilegal, em relação ao que a constituição e as leis determinam. Na época, fui contrário não por gostar dela, mas por que imaginava que as coisas piorariam. Se fosse para cassar a chapa, poderia ser favorável.
    Eu não acho, no entanto, que isso me faça menos crítico ou correto do que qualquer outro, até porque sofri muito com a crise.
    Aí fica a grande pergunta: como no mundo de hoje pode se desenvolver senso crítico sem se deixar levar pela própria opinião?

  6. Thomas Hutchinson 06/09/2017 / 8:28

    Saudações professor!
    Não gosto de alinhar meu pensamento a padrões (doutrinas) ideológicos, como não acredito ser possível impossível pensar sem ideologia (não compreendo ideologia como um conjunto de idéias, mas sim uma matriz de idéias) considero que a única forma de escaparmos de uma doutrina ideológica é exatamente conhecer várias ideologias. A ideologia está para o pensamento assim como as dimensões estão para a geometria, se conhecemos apenas uma dimensão só traçamos retas, se conhecemos três conseguimos fazer esculturas dotadas de várias curvaturas. O agravante no caso do pensamento é que os “eixos” não estão limitados a três.
    Sou engenheiro, trabalhei toda a vida interpretando e modificando a realidade do momento, e pregunto: qual a finalidade de se interpretar a realidade se isso for suficiente em sim mesmo?
    As expressão lulopetismo, coxismo, tucanalha e outras do gênero não denotam cada uma um “eixo” ideológico?
    Obrigado.

  7. Marcus Canesqui 06/09/2017 / 12:54

    Boa tarde.
    Como o professor disse em um de seus posts: “As ideologias foram jogadas no liquidificador”.
    Eu acho que os políticos pouco se importam com ideologias desde que consigam o que querem, o poder.E quanto mais fanáticas as pessoas ficam, melhor para eles e muitos desses “intelectuais” servem de instrumento para isso. Já tive professores envolvidos na política que tentavam doutrinar os alunos, enquanto outros faziam seu papel de ensinar. Acho que a ignorância intelectual está nos levando á esse caminho, muitas questões são amplas e não têm respostas simples e os picaretas se aproveitam disso.

  8. João Vitor Reis 07/09/2017 / 15:33

    Só a ressalva: é importante lembrar que “mamãe falei” é completamente enviesado por um discurso tão raso quanto aquilo que critica. O canal é do MBL e é bom lembrar que não segue qualquer código ético do jornalista – sou graduando em jornalismo.
    Digo que nesse canal há uma produção crítica com relação à militância de esquerda, mas imediatamente oculta sua pretensão ideológica da maneira mais calhorda possível.
    Em um nível moderado cheguei a ver este canal apoiando o candidato derrotado à prefeitura de Guarulhos Eli Corrêa (DEM) ao peitar o candidato vencedor, Guti (PSB), perguntando sobre uma certa denúncia de corrupção a qual não vou me lembrar agora. Só denotei neste contexto como o MBL, para dúvida de alguns, tem lado e merece as mesmas críticas que o texto deste blog, e em progressão geométrica.
    Por complemento:

  9. Gabriel Telles Lins G. Taveira 09/09/2017 / 16:15

    Bravo, professor.
    Podemos e devemos, como intelectuais, nos alinharmos a determinados partidos e ideologias, mas tão somente àqueles que realmente ofereçam ações e programas razoáveis e factíveis no curto, médio e longo prazo, dentre esses, escolhemos o melhor (ou o menos pior).
    E se desses nenhum houver, apenas votamos no menos pior, sem grandes expectativas.
    Esquerda x direita, no Brasil, ainda é uma classificação útil, ainda que insuficiente.
    Me parece que são tão preponderantes as propostas e até as promessas acerca dos problemas reais e concretos da Nação, um a um, caso a caso, que a distinção entre esquerda e direita perde constantemente relevância no país.
    Igualmente perdem significância termos e rótulos como consevador, liberal, libertário, progressista etc.
    Tudo isso sempre será útil politicamente, mas todos sabemos quais são os problemas do Brasil, de forma que o que pesa mesmo é essas lista de problemas, o ordenamento de prioridades, a honestidade, verdade e responsabilidade acerca dos recursos e possibilidades jurídicas para resolvê-los etc.
    Talvez o melhor candidato, por enquanto, deva estar mais no centro. No futuro, poderemos rever isso ou não, conforme as normas e a ordem democrática.

  10. Alan Costa 10/09/2017 / 23:00

    “Não é possível que, quase três décadas após o fim da Guerra Fria, ainda não tenha caído a ficha para a incoerência gritante que é defender direitos humanos e de minorias em casa e ignorar solenemente que eles estejam ausentes nos países com os quais simpatiza.” comentário mais preciso impossível. A esquerda, digamos racional, se fundiu com extrema-esquerda meio que buscando um abrigo no meio dessa tempestade cujo ela mesma se colocou. Não me admiraria se essa mesma esquerda “unificada” e hipócrita começasse a usar das mesmas artimanhas de líderes da “nova direita imbecilizada”, como dizem: os extremos se convergem.
    Eu tenho 20 anos, pretendo fazer história e quero me especializar em história europeia, germânica ou russa, eu quero perguntar a você, por você ser um historiador, se isso é uma boa ideia, quer dizer, com esse desrespeito a intelectualidade (sem mencionar a depreciação da ciência em geral) e essa adoração a completos néscios, você acha que a história ainda é uma ótima escolha?

    • Bertone Sousa 10/09/2017 / 23:20

      Alan, a história é um campo cuja amplitude o torna muito fértil para novas pesquisas. Só é preciso foco, no sentido de se saber o que quer, e esforço. A depreciação da ciência é uma atitude que sempre encontrará seus adeptos. O caminho da pesquisa e da vida intelectual é diferente e é gratificante trilhá-lo.

  11. Paulo Roberto Pinto 11/09/2017 / 13:07

    Moramos na periferia do poder mundial. E nunca ficou tão claro esta submissão como colônia como agora. Interesses internacionais ou do grande império do ocidente a ditar suas ordens. Nossa República se desmancha ao “menor” gesto de golpismos e o Brasil não consegue se estabelecer de fato como nação. Um contingente grande de pessoas não se consideram nativos desta terra, mas cidadãos não do mundo, mas subserviente e entregues como mucambas a fazerem a vontade de seus senhores.
    Espero que um dia possamos nos libertar da sina de nos acharmos “intelectuais”.

  12. Allan 11/09/2017 / 15:16

    Você pode ser sem misturar, professor. Eu me preocuparia mesmo é com a direita que está promovendo uma patrulha ideológica que não se via desde a época da ditadura. Tudo que tem um viés liberal e muitas vezes sem ter nenhuma relação com a política é taxado de ‘esquerdopata’, ‘comunista’, ‘petralha’ etc sem o menor pudor. A ignorância e a intolerância estão vencendo.

  13. Eduardo Crestani 12/09/2017 / 14:49

    Bertone, fico feliz que vc decidiu abandonar o esquerdismo. Sobre ideologias, como o papa Bento XVI disse: ideologia é o antagonismo da fé. Se a pessoa tem uma verdadeira fé, não consegue alinhar-se à nenhuma ideologia. Que Deus te abençoe!

  14. Luís Afonso 13/09/2017 / 12:01

    Qual é sua ideologia ou posição política agora é de centro,direita?.

  15. Francisco Robson 15/09/2017 / 10:34

    Mais do que pensar fora de conjuntos pré estabelecidos de ordem ideológica, nós como indivíduos temos que desenvolver a capacidade de análise entre fatos, perspectiva e construção narrativa. O professor de história Raphael Silva Fagundes ( que leciona na rede municipal do Rio de Janeiro), em um artigo expõe como conceitos entre direita e esquerda se volatizam entre os campos, quando exercem o poder de governabilidade. Demonstra que a retórica mais serve para imbuir militantes, todavia a promiscuidade entre os espectros se faz presente acima de tudo para manter o establishment e a influência no poder, para tanto cita exemplos de ” quebra ideológica” como: apoio do PCdo B à Rodrigo Maia, privatizações no governo Dilma Roussef e até esboça um encadeamento genealógico que remonta ao período imperial.
    https://www.carosamigos.com.br/index.php/colunistas/236-raphael-fagundes/10763-esquerda-e-direita-entre-duas-caixas-vazias

  16. Bianca Landau Braile 18/09/2017 / 10:08

    Bom dia, professor,

    Creio que, na iminência do impeachment de Dilma Roussef, o único caminho possível às esquerdas moderada e radical era o alinhamento do discurso – e, ainda assim, sabíamos que seria difícil evitar algo que, a bem da verdade, já se encontrava orquestrado. O problema foi a forma como decidiram atacar o impeachment: ao invés de tentarem demonstrar a ilegitimidade do procedimento, haja vista que, de fato, não restou juridicamente comprovada a prática de crime de responsabilidade pela presidente, optaram por adotar uma postura agressiva, uma argumentação rasa e, assim, acabaram se nivelando à direita que apoiou todo esse processo.
    Sempre fui alinhada à esquerda, mas hoje não me sinto confortável nessa posição justamente por conta dessa militância caolha, dessa retórica autoritária e da falta de auto-crítica que temos percebido. Obrigada pelo belo artigo, que reflete exatamente o que penso acerca da militância no Brasil.

  17. Ronaldo da Silva Thomé Júnior 18/09/2017 / 21:19

    Bertone, tudo bem? Sobre esta questão de posicionamentos nos dias de hoje, um amigo me sugeriu um site muito interessante que eu já segui há um tempo e havia parado: Observatório da Imprensa. Qual sua opinião, a respeito deste site? Você recomenda outros sites que sejam bons para obter informação séria no Brasil, hoje?

    • Bertone Sousa 18/09/2017 / 22:14

      Olá Ronaldo, não leio o observatório de imprensa. Gosto muito dos sites de matriz estrangeira com versões em português, como DW Brasil e BBC. E para informações básicas, a chamada “grande mídia” dá conta do recado em termos de confiabilidade das informações.

      • Ronaldo da Silva Thomé Júnior 18/09/2017 / 23:17

        Obrigado! Só complementando, o meu jornalismo favorito é o da TV Cultura.

  18. Rafael Cherem 19/09/2017 / 10:40

    Nas universidades, a vida intelectual em cursos de humanidades ficou fortemente contaminada pelo dogmatismo de professores que transformam salas de aula e até espaços de convivência em auditórios de partido político. Incapazes de fazer uma interpretação coerente da realidade social e uma revisão crítica de suas próprias convicções, se refugiaram numa tentativa patética e desesperada de inculcar dogmas políticos sobre estudantes, e aproveitando de sua autoridade professoral e do poder de perseguição e intimidação a alunos que divergem de suas posições. Fazendo o trocadilho com o livro célebre de Raymond Aron, o lulopetismo se tornou o ópio dos intelectuais de esquerda no Brasil.

    Isso não justifica o escola sem partido?

    • Bertone Sousa 19/09/2017 / 10:55

      Não Rafael, porque o Escola sem Partido apenas substitui uma forma de dogmatismo por outra, na medida em que institui uma prática policialesca em instituições de ensino que vai de encontro à própria liberdade de cátedra e à constituição. Não se combate uma patrulha ideológica com outra, mas com esclarecimento e valorização da carreira docente com o objetivo de atrair pessoas que saem mais preparadas do Ensino Médio e menos suscetíveis à política doutrinária. Escola sem Partido bate na tecla errada quando se trata de resolver o problema a que se propõe e na verdade termina criando outro problema. Veja minha indicação de leitura:

      https://bertonesousa.wordpress.com/2016/07/11/escola-sem-partido/

  19. Pedro Gabriel 19/09/2017 / 13:25

    Bravo professor! Acho uma pena que só recentemente tomei conhecimento do seu blog e da sua pessoa, com quem me identifiquei em termos de convicções e de ideias. Aliás, sou formado em História, embora não seja professor e tenha me enveredado para a área de Patrimônio Cultural. Pretendo acompanha-lo mais vezes daqui para frente. Vivemos tempos efervescentes e confusos, que exigem de nós a todo momento uma autocrítica e reorientação de visão, posicionamento e pensamento, nada óbvios. Enfim…
    Apenas gostaria que, por favor, esclarecesse uma dúvida, que permaneceu após ter lido o seu texto: na verdade, o seu desencanto, afinal de contas, foi com a Esquerda mesmo ou foi com os “esquerdistas”??? O título do texto me deixou confuso, embora eu acho que tenha compreendido sua colocação (talvez antimaniqueísta e mais no sentido de uma crítica ao pensamento ideológico e doutrinário e porque mencionou expressamente não ter se convertido à Direita). Só gostaria mesmo que esclarecesse esse ponto. Fico agradecido. Abraços!

    • Bertone Sousa 19/09/2017 / 13:39

      Pedro, não é possível dissociar a esquerda dos esquerdistas; por mais que se tome um determinado conceito de esquerda, fazer análises de caso é sempre importante, uma vez que esquerda não é a mesma coisa em todo lugar. E obrigado por ler o blog.
      Abraços.

      • Pedro Gabriel 19/09/2017 / 16:07

        Eu é que agradeço por realiza-lo (o blog). Supostamente essa dissociação seja mesmo impossível. Levo isso em conta quando coloco a questão. Porém, se falamos de contradições e distorções de “esquerdistas” (isto, desta maneira, eu é que estou colocando, a partir da leitura que fiz do seu texto), talvez seja possível tal dissociação e a Esquerda nesse caso passaria de certa forma incólume. Para ilustrar, recordo o episódio de um desalentado Marx não se reconhecendo “Marxista” – “Tout ce que je sais, c’est que je ne suis pas Marxiste”… Esse não é o meu campo de estudos, mas espero haver certa pertinência no que estou colocando…
        Embora, como mencionei antes, vivamos num mundo confuso em que as posições se misturem etc, acredito que haja valores e visões de mundo bem delimitados e que contrapõem Direita e Esquerda. Darei meu próprio exemplo: particularmente, tenho certa dificuldade de me identificar com um e outro lado, porque muitas vezes há pautas em que me coloco mais à Esquerda, enquanto outras mais à Direita. Porém, creio que os polos existem, mesmo não sendo exatamente a mesma coisa em todo lugar. Vai depender de cada situação e contexto. Olhando para os partidos de Esquerda no Brasil, eu mesmo não consigo me identificar com nenhum deles, sobretudo agora; e fora as demais críticas que você faz no seu texto, as quais eu endosso. Obrigado pela oportunidade do diálogo. Abraços!

  20. Eric Pereira 20/09/2017 / 23:16

    Considero-me de esquerda. Observo o que acontece no congresso e gosto da postura dos parlamentares do PSOL e da REDE. Quanto ao impeachment de Dilma, na época me incomodou o excesso de convicção dos que gritavam golpe, mas me incomodou mais ainda os motivos pelos quais os parlamentares votaram a favor: por Deus, pela “família tradicional”, pelos militares, contra o “comunismo”… Após a votação da adimissibilidade do impeachment na câmara, passei a ser contra, pois achava que tudo iria piorar, e acho que realmente piorou. Vejo o impeachment da Dilma como um projeto de poder elitista, teocrático, ruralista, anti-ambientalista e cis-heteronormativo.
    Vivemos tempo difíceis e acho muito ruim a dicotomia que submete todos os aspectos da sociedade ao binarismo esquerda-direita. Hoje em dia, as pessoa procuram classificar tudo em esquerda ou direita: artes, comportamentos e pautas que não são originalmente vinculadas a um dos polos. Também está ocorrendo um esvaziamento das palavras, como diz Eliane Brum, as palavras já não dizem. Fascista e comunista são palavras que nada dizem.

  21. Ronaldo da Silva Thomé Júnior 21/09/2017 / 12:41

    Bertone, qual sua opinião sobre Anthony Giddens? Pelo que pesquisei, a teoria dele se tornou meio que um marco pela questão conciliatória da Terceira Via, que seria o que chamamos de centro. Mas pelo que li, ela seguiu caminhos muito próximos do liberalismo.
    Também pesquise sobre a teoria do Comunitarismo, do Michael Sanders e outros. Dã para dizer que eles são também de centro ou terceira via?
    Você acredita que estes são autores clássicos ou podem se tornar?
    Pergunto isso porque, com essa falsa dicotomia (esquerda e direita) as pessoas tendem a replicar preconceitos e nem estudar novas alternativas ao que aí está. Um exemplo que eu considero perigoso é o do Pondé, na minha opinião excelente debatedor, mas péssimo em seu canal do YouTube.

    • Bertone Sousa 21/09/2017 / 13:49

      Sim Ronaldo, são excelentes autores contemporâneos que fogem a essa dicotomia. Assim como John Rawls antes deles e Richard Rorty.

  22. Ronaldo da Silva Thomé Júnior 21/09/2017 / 12:43

    Ops! Eu quis dizer pesquisei no comentário anterior…

  23. Marcus Canesqui 22/09/2017 / 12:04

    A ideologia ficou para os idiotas (povo). Eles não se importam, desde que consigam o poder, como diria o professor Clóvis de Barros.

  24. Ronaldo da Silva Thomé Júnior 25/09/2017 / 21:35

    Bertone, tudo bem? Algo que tem me deixado preocupado é esta ascensão de Trump e seu discurso de ódio. Você acha que mereceria um post seu?
    A propósito: você já ouviu falar de um blog chamado Senso Incomum? Andei lendo alguns artigos e simplesmente não suportei… O (ir) responsável, um tal de Flávio Morgestern, é um jornalista que já vi criticando os estudantes de humanas (sendo que ele mesmo foi um deles), vive falando bobagens e lançou um curso chamado História sem Doutrinação Ideológica… Dá uma olhada. Esse negócio de desonestidade cultural vai longe.

    • Bertone Sousa 25/09/2017 / 22:55

      Ronaldo, não conheço o site, mas depois da popularidade da página “meu professor de história mentiu pra mim” várias páginas de viés conservador seguiram a tendência. Sobre Trump, talvez um texto mais pra frente.

  25. Marcus Canesqui 28/09/2017 / 12:41

    Professor, em um post anterior você escreveu muito bem sobre a origem dos termos direita e esquerda. Diante disso, gostaria de perguntar se alguém pobre pode se dizer de “direita”? Ou alguém abastado pode se considerar de “esquerda”? Pois, diante do que foi descrito anteriormente, a esquerda, por essência, quer mudança e a direita conservar os privilégios, por isso, acho estranho quando alguém das classes desfavorecidas se diz de direita. Poderia explicar esse fenômeno?

    • Bertone Sousa 28/09/2017 / 22:47

      Marcus, embora os termos originalmente tenham esses sentidos, é possível realmente pessoas de baixa condição social se definir de direita por conta de uma visão de mundo conservadora, seja pautada em princípios religiosos ou mesmo filosóficos, da mesma forma como um rico pode se definir como esquerda também por convicções filosóficas. Não existe, na vida social, uma correlação exata entre os conceitos e a classe social em que se encontra alguém que se posiciona de tal forma, e isso não se deve a uma aberração ou alienação, cabe analisar os casos separadamente.

      • Marcus Canesqui 29/09/2017 / 8:19

        Existe as vertentes econômicas que destoam um pouco de seus correspondentes políticos, o que também confunde as pessoas.

  26. Érico 18/10/2017 / 21:35

    Belas palavras, Professor.
    Ultimamente eu vejo um problema muito sério na esquerda brasileira que é a falta de foco. Hoje, se você olhar bem, as únicas pautas de esquerda que tem se difundido pela população são as causas sociais. Ex: movimento LGBT, Feminismo, movimento negro e etc… Eu acho que todas essas bandeiras são muito importantes, mas fica faltando a principal bandeira, a solução dos problemas.
    Qual a proposta de esquerda que temos hoje para o abismo social da distribuição de renda? Repare que tem aparecido no YouTube e no Facebook grupos de pessoas que se dizem esquerda “radical” e esquerda “revolucionária”. Eu acho que essas pessoas estão desamparadas de um projeto nacional de esquerda que não inclua o PT.
    Enquanto isso a direita tosca ganha espaço com um discurso populista e imbecil de Bolsonaro.
    É realmente preocupante.

  27. Elton 23/10/2017 / 15:37

    Olá, professor Bertone.
    Sei que estou desviando do foco deste texto, mas tenho uma dúvida. Dentre filósofos conservadores, você diria que Mortimer J Adler seria um nome confiável?
    Gostaria de saber também de outros nomes de filósofos e historiadores conservadores que você considere confiáveis e honestos.
    Obrigado.

  28. Clifford 23/10/2017 / 23:13

    Será que a chamada esquerda moderada era mesmo moderada antes do impeachment ou apenas vestia uma máscara de moderação? Uma máscara que ela vestiu para chegar ao poder.

  29. Marcus Canesqui 27/10/2017 / 7:55

    A discussão entre Mendes e Barroso, ontem, mostra o quanto a Justiça é “ideológica”.

  30. Marcus Canesqui 08/11/2017 / 7:56

    Professor, gostaria de deixar um link do youtube da aula nº1 sobre o sistema político brasileiro do prof. Clóvis de Barros Filho. É uma série de aulas espetaculares, pois trata do assunto sem ideologia barata e usa a filosofia para explicar vários problemas desse nosso sistema político. Vale a pena.

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