Os 500 anos da Reforma Protestante

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Estátua de Martinho Lutero em Wittenberg, Alemanha

Quando afixou suas 95 teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg em 31 de Outubro 1517, o monge agostiniano Martinho Lutero não poderia imaginar que aquele gesto simbolizaria o início de um dos movimentos religiosos mais duradouros da história ocidental.

Neste ano de 2017 protestantes em todo o mundo devem comemorar meio milênio de Reforma. Não faltarão discursos sobre a corrupção do clero no século XVI e o papel triunfal de Lutero como reformador. Para o historiador, contudo, a questão central sobre a Reforma não deve estar voltada para o que deve ou não ser comemorado, mas como podemos compreender o legado de um movimento que se tornou tão amplo, heterogêneo, multinacional e tão importante na definição do mundo moderno?

A Reforma está inserida num contexto de amplas mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais que marcavam a ascensão de um novo tempo na Europa. O período compreendido entre os anos de 1450 e 1550 concentraram os eventos delineadores da nova época que chamamos de modernidade: o surgimento da impressão gráfica; o fim da Guerra dos Cem Anos e subsequente formação dos Estados Nacionais soberanos da França e Inglaterra; a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos, a Revolução Comercial que libertaria o continente europeu de variadas limitações da sociedade agrária; as Grandes Navegações; a chegada dos europeus à América, que nos séculos seguintes levaria a uma unificação da Terra com a exportação dos valores e do modelo de organização das sociedades europeias; e também marcou o apogeu do Renascimento Cultural, que trazia em seu bojo os ideais do humanismo, da cultura clássica e do individualismo.

Havia também um sentimento geral desorientação: as guerras e epidemias dos séculos XIV e XV trouxeram sobre as consciências uma sensação de culpabilidade que as faziam pensar que o pecado era o responsável pelas desgraças que assistiam. Esse período conheceu uma crença generalizada na feitiçaria, o temor na iminência do juízo final e o pavor do inferno – sentimentos que faziam da morte uma presença vívida no imaginário social, na arte  e projetavam sobre muitas pessoas o desejo de uma autoridade infalível que a Igreja, que estivera envolvida em um grande Cisma e em forte depreciação do sacerdócio, não mais preenchia.

Dentro desse contexto, a Reforma iniciada por Lutero refletia muito os anseios de uma sociedade à espera de mudanças e que há séculos via alguns de seus reformadores serem queimados pela Inquisição. Mas os tempos mudaram, a Bíblia já havia sido traduzida para o inglês, mais pessoas aprendiam a ler e queriam interpretá-la. E como disse Karen Armstrong: “Ao deixar a Igreja Romana, os reformadores faziam uma das primeiras declarações de independência da modernidade Ocidental[1].”

As ideias de Lutero se espalharam muito rapidamente pela Europa e a designação “protestantes” para os seguidores de sua doutrina foi usada pela primeira vez em 1529, quando seis príncipes e catorze cidades protestaram contra um decreto que restabelecia seu exílio do Sacro Império Romano.

Lutero imprimiu em sua doutrina muito de suas inquietações pessoais, especialmente seu medo do diabo e a crença na insuficiência humana para obter qualquer favor divino. Contudo, suas diatribes contra a venda de indulgências, o papado e a tradução da Bíblia para o alemão ecoaram fortemente naquele mundo em transformação. Sua ênfase na doutrina da justificação pela fé também se coadunava com o crescente individualismo que incentivava a busca de uma espiritualidade menos dependente do clero e das restrições da Igreja.

Muito se fala na repressão romana aos reformadores, mas com Calvino a Reforma atingiu seu ponto alto pelo estabelecimento de uma teocracia em Genebra. A frequência à igreja era obrigatória e o governo liderado por Calvino estabelecia até mesmo a cor das roupas que as pessoas deviam usar e a quantidade de pratos em cada refeição. Sua doutrina da predestinação o levou a adotar regras sociais extremamente rígidas, como a proibição de banquetes, danças, canto, quadros, estátuas, relíquias, teatro, joias, apostas, jogos de cartas, caça, bebidas alcoólicas, relações sexuais antes do casamento. Mulheres solteiras que engravidassem eram afogadas. O roubo também era punido com a morte, assim como a apostasia ou mesmo a redução da frequência à igreja[2].

A Reforma também desencadeou um clima geral de intolerância em toda a Europa. Perseguições e guerras religiosas dilaceraram o continente até o século XVII, como foi o caso da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), iniciada por motivações políticas e religiosas e que, com exceção da Inglaterra, envolveu todas as grandes potências do continente e deixou um rastro de mortandade que só seria superado pela Primeira Guerra Mundial, quase trezentos anos depois.

A Reforma fomentou a intolerância num mundo onde a separação entre religião e política ainda era uma utopia distante e num contexto em que matar em nome da fé era uma virtude. A violência em nome da fé era também uma forma de manter a ordem pública. A heterodoxia era sempre vista como perigosa porque era um crime contra as próprias autoridades seculares. Na Idade Moderna, obediência confessional e lealdade política caminhavam juntas.

Lutero não era um pacificista, chegou mesmo a apoiar os massacres de camponeses que se revoltavam, mas foi com ele que o embrião de uma visão secularista teve início, por ter estabelecido uma divisão rigorosa entre o mundo terreno e o espiritual, e por inferir a independência entre Igreja e Estado, sem interferência de um na esfera do outro. Mas Lutero, pressionado pelas circunstâncias políticas de sua época e condicionado por sua visão de que a política terrena é inferior, terminou por autorizar o poder ilimitado do Estado que culminou na tortura e morte atrozes dos chefes anabatistas que lideravam revoltas no campo.

Depois de 1525, ele interrompeu sua visão de não intervenção para advogar a intervenção das autoridades civis contra os que chamava de blasfemadores. Como disse o historiador Jean Delumeau: “Por sentir que as massas cristãs da Alemanha eram incapazes de tomarem por si próprias em mão seus destinos espirituais, Lutero tinha chegado ao princípio Cujus régio, hujus religio [tal príncipe, sua religião][3].” Por meio desse princípio, o credo de um governante na Europa determinava a fé dos súditos.

Contudo, um dos aspectos fulcrais da Reforma é que seu legado excede a tradição religiosa e se liga intimamente a valores que cultivamos no mundo atual: a liberdade de expressão, de crença, associação e até a separação entre religião e governo. Mesmo que os primeiros reformadores não tenham tocado nessas questões e até tenham se distanciado delas, elas se tornaram em longo prazo bandeiras defendidas por intelectuais protestantes que sofriam perseguições religiosas em seus países ou no estrangeiro.

Nesse aspecto ganha relevância personalidades como Pierre Bayle, um protestante francês calvinista (na França os calvinistas eram chamados de huguenotes) da segunda metade do século XVII, que viveu parte de sua vida como refugiado na Holanda e se tornou um dos intelectuais mais eruditos de seu século.

A vida de Pierre  Bayle foi marcada pela revogação do Édito de Nantes pelo rei francês Luís XIV, em 1685. Esse Édito havia sido promulgado em 1598 e garantia tolerância religiosa aos protestantes franceses, que nas décadas anteriores sofreram brutalmente com perseguições religiosas. Agora, com a revogação, protestantes perdiam novamente os direitos conquistados com aquele documento. Como filósofo, Bayle se tornou um dos grandes defensores da tolerância religiosa, um crítico perspicaz da religião e suas ideias, expressas em sua principal obra, o Dictionnaire historique et critique, que começou a aparecer em 1696, influenciou posteriormente nomes importantes do Iluminismo francês, como Voltaire.

A longo prazo, os países protestantes também desenvolveram um ambiente de relativa liberdade política que lhes proporcionou assumir a dianteira em pesquisa científica e crescimento econômico. Mesmo em questões sociais, o surgimento do pensamento liberal está intimamente relacionado às experiências de perseguições religiosas que levaram protestantes calvinistas a contestarem autoridades seculares e eclesiásticas, e pensarem formações sociais voltadas para a liberdade.

Isso aconteceu porque Com a Reforma a teologia se abriu para uma perspectiva laica e, com o apoio da impressão gráfica, segundo Christopher Hill, “estimulou um academicismo apurado, inicialmente bíblico e, depois, científico[4]”. Na Inglaterra, por exemplo, a leitura da Bíblia estimulou uma intensa vida intelectual e também a formação de grupos protestantes cujas ideias sociais e políticas radicais no século XVII conduziram a numa revolução social e à execução do rei Carlos Stuart. Na Revolução Inglesa, a Bíblia forneceu o repertório de ideias contra o absolutismo numa era pré-iluminista.

Numa perspectiva histórica, a relação entre protestantismo e democracia moderna se tornou tão relevante que a escritora somali e ex-muçulmana Ayaan Hirsi Ali propôs em um de seus livros[5] a necessidade de uma Reforma no mundo islâmico nos moldes do que foi o protestantismo.

Nestes 500 anos da Reforma ainda há muito campo fértil para a reflexão histórica relacionada ao assunto.

Para o leitor que quiser uma obra sobre o protestantismo no Brasil, especialmente suas manifestações mais recentes, recomendo meu livro Fé e Dinheiro: o pentecostalismo da prosperidade e a redefinição do protestantismo no Brasil, publicado pela editora Paco. Clique aqui para adquiri-lo pelo site da editora. Para ler uma sinopse da obra, clique aqui.

Notas

[1] ARMSTRONG, Karen. Campos de Sangue: religião e a história da violência. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 261.

[2] Cf. MANCHESTER, William. Fogo sobre a Terra: a mentalidade medieval e o Renascimento. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004, p. 257-259.

[3] DELUMEAU, Jean. Nascimento e Afirmação da Reforma. São Paulo: Pioneira, 1989, p. 106.

[4] HILL, Christopher. A Bíblia inglesa e as revoluções do século XVII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

[5] ALI, Ayaan Hirsi. Herege: por que o Islã precisa de uma Reforma imediata. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

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