O ateísmo pode ser considerado religião?

religiaoProvavelmente alguns leitores já devem ter ouvido expressões do tipo: “o ateísmo também é uma religião”, “os ateus também acreditam em algo, como a inexistência de Deus”, “é uma crença como a religião”. Embora quem diga isso às vezes pretenda ser inteligente, na verdade está sendo o oposto porque parte de uma confusão conceitual que não explica nada.

Quando trabalhamos com conceitos, o primeiro cuidado que precisamos ter é o de aplicá-lo corretamente, ou será usado apenas como rótulo, às vezes como insulto. Podemos ver vários exemplos disso em diferentes meios: fundamentalista, fascista, comunista são, por exemplo, conceitos que têm sido usados com frequência fora de contexto como rotulações e insultos. Quando alguém diz que o ateísmo também é uma religião não está propriamente insultando ateus, mas usando conceitos diferentes de forma equivocada.

Primeiro, precisamos entender o que é religião. Conforme abordei no texto A função social da religião em Durkheim, religião vem do latim re-ligare, que significa “religar”, e está relacionada, em alguns autores, aos primeiros registros de ritos fúnebres desenvolvidos pelo homem, na tentativa de não se perder para sempre de seus mortos, de se religar a eles.

Durkheim observa que apenas a crença em entidades sobrenaturais ou em Deus(es) não é suficiente para definir uma religião, porque esses atributos não são encontrados em todos os credos religiosos. Em sua abordagem, se há algo em comum que define uma religião é a divisão que  ela faz do mundo em dois domínios: o sagrado e o profano. São duas categorias que se opõem, portanto.

O sagrado se manifesta num conjunto de ritos e crenças que determinam e prescrevem comportamentos e afirmam a superioridade da coletividade sobre o indivíduo. O sagrado evoca a autoridade sacerdotal, que personifica a ordem representada pelos deuses e/ou pelo desejo ontológico de alcançar um estado elevado de existência e consciência. O profano, como abordou Mircea Eliade, representa o caos, o desconhecido, o espaço não consagrado, o não-ser.

A dicotomia sagrado/profano pode ser encontrada com características distintas, portanto, em todos os sistemas religiosos e é uma particularidade deles. São esses sentidos que formam o cerne do pensamento e da ação do homem religioso. A noção de sagrado também comporta gestos de reverência e adoração, seja para com forças da natureza tomadas como divindades, seja para um Deus considerado criador da natureza, ou mesmo para com uma liderança religiosa do passado.

O ateísmo, por outro lado, não comporta nada que se assemelhe a uma noção de sagrado. Ao contrário, o ateísmo é uma postura intelectual que reflete a dessacralização da consciência. O ateu não age eticamente porque tem medo da punição divina, mas pelo senso de responsabilidade para com o outro. A essência do ateísmo é o humanismo.

O ateísmo também é refratário à submissão a qualquer autoridade. Isso torna difícil sua união em torno de ideais comuns. Ateus podem ter em comum a descrença, mas podem divergir amplamente em torno de outros assuntos como política, economia, entre outros. Não formam um bloco homogêneo e podem divergir até mesmo sobre conceitos e referenciais que adotam em matéria de assuntos religiosos.

Pode-se objetar que as religiões também não são homogêneas. De uma mesma Bíblia se criam inúmeras seitas e segmentos religiosos. Mas todas elas reconhecem uma Bíblia e determinada interpretação dela como autoridade final. Todas elas reconhecem a autoridade de um ou mais sacerdotes, que pode o fundador e líder ou alguém que alega ser herdeiro dele. Todas elas possuem uma distinção clara entre sagrado e profano. Nada disso tem qualquer relação com o ateísmo.

A própria noção de fundamentalismo não pode ser usada para ateus. O conceito de fundamentalismo não tem sentido fora de um contexto religioso monoteísta. É necessária a crença em um livro sagrado e em sua literalidade para que fale de fundamentalismo. O próprio termo, em sua origem, está associado ao protestantismo norte-americano do início do século XX, que reafirmou a literalidade das narrativas bíblicas rejeitadas pela teologia liberal do século XIX e pela evolução darwinista, expressas num conjunto de documentos intitulados The Fundamentals (daí o uso da expressão).

Você pode não gostar do ateísmo nem de autores ateus, mas não é prudente chamar as coisas pelos nomes errados. Ateísmo não é religião.

Leia também

O que é fundamentalismo

 

Para outros textos sobre ateísmo, clique aqui

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20 comentários sobre “O ateísmo pode ser considerado religião?

  1. Germano 19/07/2017 / 15:40

    Adquirir muito conhecimento na área da Ciência e na área teológica também ajuda a desenvolver a racionalidade, desde que o tal conhecimento adquirido sirva para sanar as dúvidas que inquietam a consciência humana. Tem pessoas com ensino superior, e que fazem curso de Teologia, mas, estudam por estudar, só para fixar regras da Hermenêutica, da exegese, da homilética, da escatologia e do corpo de doutrinas da denominação a qual pertencem, mas não usam esses conhecimentos para questionar a veracidade de suas crenças. Seja verdade ou não, o importante é que se formam em Teologia, e vivem em função de suas crendices.

    Só sei de uma coisa: o ser humano que desenvolve ou exercita a sua racionalidade é mais lúcido, e não fica sujeito ao engano religioso.

    O ser humano que desenvolve mais a sua racionalidade não tem instinto assassino nem atitude de desonestidade; é pacato, preza pela paz, melhora seu senso de justiça e sentimento de amor pelo próximo.

    por outro lado … eu já passei muito tempo da minha vida tentando provar pra mim mesmo que Deus não existe, procurei na historia, ciência e na filosofia e confesso que adquirir consciência me levou pro caminho oposto, depois de 10 anos batendo na mesma tecla eu não tenho argumentos sólidos e desisti de estudar sobre isso … resolvi abrir a mente e agregar conhecimento de todas as partes, não me fechando a nada e mergulhei em um mar cartesiano, continuo perdido, mas de uma coisa eu tenho certeza, se existe um elo perdido entre o nosso ancestral irracional e o ser humano atual, esse elo é um ET especialista em manipulação genética que o cristãos chamam de Deus, entenda como for, mais é impossível negar a existência do primeiro ser a evoluir no universo

    • João Bosco Coelho Costa 08/02/2018 / 20:51

      Por que é impossível negar esse “Ser” primeiro, seja lá o que for? Está no mesmo nível epistemológico do afirmar.

  2. Raphael 19/07/2017 / 16:52

    Boa tarde, Bertone!

    É comum também em debates entre ateus e teístas surgir a acusação de que os regimes comunistas também mataram em nome do ateísmo. Já li muitos artigos a respeito do assunto, mas confesso que ainda tenho dúvidas a respeito. Gostaria de saber sua opinião, se tal afirmação pode ser considerada verdadeira.

    Desde já agradeço!

    • Bertone Sousa 19/07/2017 / 19:19

      Raphael, embora os regimes comunistas fossem declaradamente ateus, na prática eram religiões políticas. Seu ateísmo nada mais era do que uma forma de escamotear o único culto permitido nessas sociedades: o culto à personalidade de seus ditadores. E na verdade não era propriamente em nome do ateísmo que matavam, mas de uma ideologia política universalista, fora da qual nada podia ser pensado. Os regimes comunistas acreditavam que cumpriam leis da história e marchavam rumo a um futuro de glória. Nesse sentido, tudo o que não se encaixava nessas leis deveria ser abolido, incluindo a religião. Há um texto aqui chamado “O que foi o comunismo”, baseado na obra de um pesquisador alemão, onde esse tema também é abordado. Veja: https://bertonesousa.wordpress.com/2014/09/28/o-que-foi-o-comunismo/

  3. RONALDO DA SILVA THOME JUNIOR 19/07/2017 / 18:34

    Interessante. Compreendo o que você disse. Mas permita-me dar uma opinião.
    Ateísmo pode não ser uma religião. Concordo. Mas é preciso admitir que é uma forma de crença.
    Pelo que aprendi, crença e fé são duas coisas distintas. Fé é um princípio de ação. Leva você a agir e a imaginar.
    Crença aqui pode ser usado no sentido filósofico: uma ideia, uma suspeita ou até uma suposição.

    Bertone, não é querendo ser chato, mas… Pensando desta forma, é justo dizer que a ciência e a filosofia são, para muitas pessoas, uma forma de religião? Ou pelo menos de credo?

    • Bertone Sousa 19/07/2017 / 19:45

      Ronaldo, como um escopo de sentidos e significados sim, religião não, basicamente pelos mesmos motivos.

      • rosa cruz 08/08/2017 / 21:05

        Assim como o Capitalismo é uma religião?

    • Antonio Carlos de Carvalho 25/07/2017 / 9:43

      A Ciência deve se basear em evidências. É a sua essência. Por definição, qualquer outra coisa, não será ciência. A religião não necessita de evidência alguma. As pessoas creem por que creem, apesar de achar que tem evidências que justifiquem sua fé. Ademais, a fé, por si só, não tem a ver com religião ou crença em deuses. Fé, todo ser humano tem, e uma coisa que diferencia os ateus dos religiosos é que estes tem fé na existência de um criador. É errado achar que a definição de fé é a crença no divino. Ora, nunca se provou que deuses existem. Logo, não é exigível que alguém tome por verdadeira essa “existência”. Enquanto ela não for provada, os deuses seguem não existindo. Então, o ateu “não acredita que deus não existe”, o ateu constata a evidência de quem nunca foi provada essa existência. Aliás, de onde tiraram essa ideia de que existem deuses ou criadores do universo? Se NUNCA houve nenhuma evidência?

    • João Bosco Coelho Costa 08/02/2018 / 21:08

      Crença vem de CRER. Crer é acreditar sem provas, sem evidências e até mesmo sem nenhuma base racional. Ateísmo, nesse sentido, não é uma crença porque ele simplesmente nega, não conjectura a existência de entidades supra naturais. Fé é sinônimo de crença. O que fazes é mero jogo de palavras. Filosofia e Ciência não podem ser uma “forma de Religião” porque CRENÇA remete ao puro subjetivismo.Nesse sentido, não “cremos” na Filosofia de Platão nem na Mecânica Quântica, nós SABEMOS das mesmas.

  4. Marcus Canesqui 20/07/2017 / 10:37

    Professor, Você acha que a crença religiosa está de certa forma atrelada ao nível intelectual de determinada sociedade?
    Percebo que em países com alto grau de desenvolvimento intelectual como os escandinavos, a maioria das pessoas são ateus, enquanto que em países como aqui na América Latina, a crença religiosa monoteísta é maior.

  5. Alan Costa 21/07/2017 / 2:18

    Tem outro erro comum: “ateu é um crente já que crer na inexistência de Deus (s) apenas se pautando pela fé já que não tem ‘provas de sua inexistência’”, erro comum pois todo ateu que eu conheço não afirma uma coisa como essa, ele deixa no agnosticismo: se Deus (s) existe ou não, eu não sei, só sei que não posso afirmar nada sem ter certeza ou provas, mas EU NÃO ACREDITO, é um direito meu, percebeu onde “Karnals” da vida se equivocam quando saem de sua área (história da América)?!

  6. Max 16/08/2017 / 17:16

    Ateísmo não é uma religião, mas é uma crença. O problema da crença é que ela também pode ser imposta. O ser humano é coberto de crenças, até aí tudo bem, o problema é quando quer impô-las. Claro que a religião foi a que mais fez isso, mas não significa por outro lado, que um ateu não possa também querer impor sua crença; exemplos de ateus que disseram que a religião deveria ser abolida e na prática muitos tentaram eliminá-las é história.

    • João Bosco Coelho Costa 08/02/2018 / 21:14

      Está bom. Então me adiante em que um ateu “crê”? No nada, no inexistente, na vacuidade? Que sentido tem se dizer: “creio no inexistente”? A propósito, Religião é uma crença, sim, só que com justificação.

      • Antonio Carlos de Carvalho 17/02/2018 / 13:13

        Ateísmo não é religião e nem crença. A “base do “ateísmo” é a inexistência de deuses. E ponto final. Não existem dogmas ateus, pois não existem deuses. A Ciência não é um deus. Ela “não existe” como ser, é apenas o conjunto de cientistas existentes que utilizam métodos científicos nas pesquisas. Não queiram deusificar a “ciência”. Não podem o chamado ateu e o religioso estarem tendo fé ao mesmo tempo a respeito da inexistência ou existência de algum deus. Um dos 2 está crendo por fé. E por lógica, quem está crendo, é quem afirmou a existência ou quem inventou deus. E a quem cabe o ônus da prova. É assim.

  7. Clifford 23/10/2017 / 21:16

    O ateísmo não deve ser contraposto a uma “religião” e sim ao teísmo. O teísmo por sua vez não é, a meu ver, matéria de “crença” ou de “fé” mas de um conhecimento filosófico razoavelmente sólido.

  8. Antonio 10/11/2017 / 23:21

    Achei muito bom tudo, mas discordo da ideia passada no texto que os crentes ou aqueles que acreditam em Deus agem eticamente apenas por ter medo da punição ! Na verdade é ensinado em algumas religiões que se pode ser perdoado sempre. No meu caso ( e penso que em muitos acontece o mesmo ) agir eticamente parece mais natural, e se não agir assim surge um sentimento ou sensação de desconforto talvez aprendido imagino eu desde a infância não necessariamente relacionado a ensino religioso, mas a ética ensinada pela célula básica da família.
    Um exemplo que corrobora isso é que vemos muitos crentes (até fervorosos) e também ateus que não tem ética devido ao que receberam de seu aprendizado entre familiares.
    Veja que nem sempre se aprende a ser ético na família usando a punição como meio de ensinar isso ! Basta mostrar a uma criança o sofrimento de um animal sendo maltratado para ela se sentir triste e aprender a não maltratar mesmo não sabendo o que seria maltratar.

  9. William Andrews Hermenegildo 05/06/2018 / 3:16

    Sr. Bertone, o artigo “Razões para não crer em deuses” foi apagado, eu gostava muito daquele artigo, na época já estava cansado de ter medo e preocupações com coisas espirituais e o seu artigo, entre outras coisas, me ajudou a largar dessas crenças. Hoje sou uma pessoa mais feliz sendo ateu, eu até divulgava o seu artigo internet à fora. Porque vc o apagou?

    • Bertone Sousa 05/06/2018 / 11:48

      William, há algum tempo apaguei do blog alguns textos que eu achava que não eram mais úteis e esse foi um deles.

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