Religiões políticas

polarizaçãoAlguns estudos já constataram que pensar de forma dualista é uma tendência natural dos seres humanos. Essa tendência estaria dentro de nosso cérebro, se manifesta especialmente na infância e produz nas pessoas uma predisposição para a adoção de ideias religiosas.

De um modo geral, as religiões são em essência dualistas: elas concebem a existência de uma alma ou espírito imortal que habita o corpo e que vai para outro lugar após a morte. (O oposto disso se chama “monismo”. Monistas não acreditam na existência de uma alma imortal nem concebem a separação entre mente e matéria).

O pensamento dualista das religiões produz uma teleologia muito clara e simples: todas as coisas têm um propósito que, nos credos monoteístas, provêm de Deus. Mesmo o sofrimento, as doenças, os desastres e a morte possuem um propósito na mente divina, que em geral está relacionado a um projeto de redenção final da humanidade ou dos escolhidos, de destruição do mal e inauguração de uma era dourada de felicidade e paz. Faz parte da infância atribuir um propósito para tudo (o que chamamos de teleologia), e como as crianças são teleológicas por natureza, muitas levam essa características durante toda a vida.

As ideologias políticas modernas dessacralizaram a interpretação de mundo da cosmovisão judaico-cristã, mas não eliminaram a visão dualista que, uma vez transferida para o campo da luta social, ainda manteve a roupagem religiosa da qual é herdeira. Muito já se escreveu sobre o perfil messiânico do fascismo e do comunismo que levou ao poder lideranças imbuídas de uma missão histórica e sedentas de adoração e controle total sobre os indivíduos.

Não é incomum as pessoas adotarem na política uma visão dualista similar a que encontramos em confissões religiosas: mesmo que não o digam explicitamente, concebem o mundo como palco de uma luta entre o bem e o mal, nós – os iluminados por um conhecimento correto do mundo – contra eles – os alienados ou as classes dominantes maquiavélicas.

Por conseguinte, a apropriação de figuras e discursos religiosos se torna uma prática recorrente em alguns meios políticos. A Teologia da Libertação, por exemplo, ao fundir o cristianismo e o marxismo, se transformou literalmente numa poderosa corrente político-religiosa voltada para a idealização dos pobres e a demonização do liberalismo.

Embora essas apropriações possam servir a objetivos aparentemente inócuos, não significam que estejam historicamente corretas. Afirmar, por exemplo, que Jesus Cristo era socialista ou comunista é não apenas um anacronismo, mas uma inverdade histórica espantosa. Além disso, essa fusão de teologia com política não pode resultar em outra coisa que não seja o populismo, ou uma visão de mundo monomaníaca e por vezes intolerante, como frequentemente ocorre com feministas e defensores de direitos dos homossexuais.

A rigor, a esquerda e a direita subsistem a partir de uma visão dualista do mundo. Na maior parte do tempo, isso é mais visível na esquerda. Como historicamente a esquerda está ligada à defesa dos mais pobres e à construção de um projeto de futuro emancipatório, ela tende a exacerbar a visão dualista da vida social mais do que seus concorrentes ideológicos. Ao fazer isso, também não se omite de justificar os mais odiosos crimes em nome de um ideal de igualdade.

Mesmo que o comunismo não exista mais como projeto político, as esquerdas ainda mantêm o laivo ideológico salvacionista que caracterizou a história do comunismo no século passado. O impeachment de 2016 no Brasil e seus desdobramentos ilustram bem essa questão: o discurso do golpe, a ênfase numa suposta honestidade da presidente deposta e até mesmo teorias de conspiração contra a operação Lava Jato, foram e ainda são repetidos à exaustão contra todas as evidências que incriminaram a cúpula do Partido dos Trabalhadores, bem como os governos Lula e Dilma. A corrupção e a desonestidade se tornam prerrogativas dos outros, daqueles que não querem que os pobres andem de avião, por exemplo. A retórica do “nós contra eles” ganha aqui matizes mais extremos e binários, como se funcionasse dentro do seguinte raciocínio: omitimos tudo o que não queremos ver e focamos apenas no que queremos acreditar. Podemos verificar essa postura facilmente em virtualmente qualquer segmento religioso.

A polarização ideológica que seguiu ao impeachment lançou o  país num furacão de discursos irracionais e reducionistas que volta sempre ao mesmo ponto: a visão dualista que idealiza determinadas personalidades políticas e coloca em sua conta a responsabilidade pela salvação dos mais pobres (à esquerda) ou da nação (à direita). As rotulações de “coxinhas” e “mortadelas”, “golpistas” e “esquerdopatas” se tornaram os insultos para os hereges que se quer exorcizar. O outro representa a encarnação do próprio mal, são fascistas ou comunistas. O inimigo, cujo poder de dissensão é potencializado pelo discurso maniqueísta da imprensa ideologicamente alinhada, se torna a caricatura irreal que justifica os atos de fanatismo.

Isso afeta desde militantes pagos e ignorantes a intelectuais. Conheço professores que não são dogmáticos em matéria de religião (embora tenham uma fé religiosa), mas são extremamente religiosos e dogmáticos em matéria de política. Estão tão convencidos de que sua visão de esquerda é a única correta que não toleram nada que divirja disso. Em sala de aula, são tão intolerantes quanto pregadores fundamentalistas. São incapazes de repensar seus posicionamentos diante de novos eventos. Suas mentes estão enrijecidas pelo pensamento dualista infantil que deverão levar para o túmulo. São crentes de uma fé política. Repetem sempre os mesmos clichês ideológicos que pode facilmente ser reduzidos a uma crença na luta do bem contra o mal. Essas posturas intransigentes de esquerda fizeram nascer seu contrapeso na direita.

Se a atividade e a vida intelectual não forem capazes de nos prevenir contra isso, não servirão para mais nada de útil.

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15 comentários sobre “Religiões políticas

  1. RONALDO DA SILVA THOME JUNIOR 09/07/2017 / 18:11

    Belo texto. Achei interessante. Mas fica aí uma pergunta: esta questão do pensamento dualista é exclusiva da religião?
    Afinal, tivemos ao longo da história diversas crenças, como as religiões da Grécia, o budismo e afins, que não necessariamente são dualistas, como você mesmo afirma. Bem como dos credos dos sumérios, pelo que já li.
    O que causaria essa diferença entre o pensamento do oriente e ocidente? Como isso afeta diariamente o aspecto sócio-cultural destes povos?
    Por falar nisso, quais livros você recomendaria para quem deseja estudar a filosofia oriental e estas diferenças?

    • Bertone Sousa 09/07/2017 / 18:51

      A questão do dualismo nas religiões tem diferentes nuances, Ronaldo. As religiões orientais em geral não têm, como no cristianismo e islamismo, a dicotomia pecado/salvação, salvos/perdidos ou infiéis, paraíso/inferno, mas as religiões também se definem pelo dualismo sagrado e profano e isso inclui também as orientais. Falei um pouco sobre o assunto no texto “A função social da religião em Durkheim”, dá uma passada lá.
      Sobre sua última pergunta, veja os volumes I e II de “História das crenças e das ideias religiosas”, de Mircea Eliade.

      • RONALDO DA SILVA THOME JUNIOR 09/07/2017 / 21:37

        Valeu pela dica. Aproveitando, queria perguntar sobre um outro livro que vi na loja em que trabalhava, “Espiritualidade e Transcendência”, do Jung. Você conhece? Recomenda?

      • Bertone Sousa 09/07/2017 / 22:00

        Esse do Jung ainda não, mas outro livro dele, “O homem e seus símbolos”, é uma excelente referência.

  2. Cesar Marques - RJ 09/07/2017 / 21:30

    Ou seja, no fim das contas a culpa da crise em que se encontra o Brasil é do PT, e a visão dualista é quase exclusividade das esquerdas, mesmo que as evidências mostrem que o Impeachment passou sim por uma conspiração congressual entre o centrão fisiologista e a oposição de caráter udenista, como quando um áudio do Aécio apareceu dizendo que tinha ido ao TSE “só para torrar o saco do governo”. Não sou petista, e nem estou eximindo o Lula de qualquer culpa, mas surpreendente eu tenho visto na análise de professores que se colocam como moderados jogarem uma responsabilização absurda apenas apenas na conta do PT, mesmo com esse partido estando 1 ano fora do poder. Parece que o PT criou o Geddel, o Cunha, nomeou o Alexandre Moraes para o STF e também nomeou a nova Procuradora-Geral da República a revelia da primeira opção posta pelos membros do MPF em sua lista tríplice. O PT se imiscuiu na canalhice política brasileira e está pagando o preço disso, pena, que o mesmo rigor não é aplicado aos outros partidos.

    • Bertone Sousa 09/07/2017 / 21:58

      César, em todos os links que estão aí ao final do texto eu explico várias por que o PT tem grande responsabilidade sobre a atual crise, mais inclusive do que outros partidos. Recomendo que leia. Além disso, ninguém adotou uma retórica mais beligerante e moralista do que os apoiadores do PT. Meus textos também pautam isso.

  3. Alysson 09/07/2017 / 23:32

    Acho que escolher “um lado” é mais confortável e cômodo. Ficar problematizando tudo frita a cabeça, acho que a maioria das pessoas precisa de verdades que funcionem como porto seguro. Mas realmente, quando isso ocorre com acadêmicos e intelectuais a coisa se complica. A um tempo atrás, vc professor Bertone, escreveu algo que eu não me esqueci mais desde então, que militância e academia são incompatíveis (ou algo parecido). Quanto às ideologias políticas, ainda que os conceitos de Esquerda e Direita continuem sendo importantes (como vc já disse em outros textos), acho que, numa sociedade maniqueísta, tais conceitos atualmente mais atrapalham do que ajudam. O curioso é que a um tempo atrás surgiu o termo “isentão”, rótulo criado pra ser atribuído àqueles que não se enquadram na perspectiva dualista. Bem, sigamos pensando fora da caixa e “bugando” as mentes binárias.

  4. Alan Costa 10/07/2017 / 16:07

    Eu, mesmo me considerando um centro-esquerda, não consigo ter essa visão dualista de bem contra o mal, ou os discursos de: ideologia x é a única que funciona, o esquerdismo nunca fez nada de bom para o mundo, a direita só beneficia os ricos, etc, etc. Eu tenho uma visão política, que pode até ser idiota, mas eu acho que o socialismo pode coexistir com o capitalismo cada um no seu lugar, capitalismo cuida do capital, socialismo do social. A social-democracia nos países escandinavos mostra que isso é possível. (não sou especialista me política na escandinávia, pelo o pouco que estudei eu acho que lá funciona dessa forma: capitalismo no capital, socialismo no social, desculpa se eu estiver equivocado).

    • marcos souza 11/07/2017 / 16:58

      Excelente texto!

  5. Cristiane Lira 12/07/2017 / 20:53

    Muito bom esse texto, professor. Sou de esquerda e feminista e embora ache que os movimentos sociais continuem importantes percebo o extremismo neles. No entanto perbeço essa mesma intolerância na direita e parecem que estão ficando piores agora. Para mim a diferença está apenas no que defendem. A direita não faz um discurso de “salvação” dos mais pobres, mas de salvar a nação com a mesma intolerância que existe na esquerda

    • Bertone Sousa 12/07/2017 / 22:44

      Obrigado, Cristiane. De fato, essa direita não é em nada melhor do que as esquerdas, e também tenho destacado isso nos textos.

  6. Cristiane Lira 14/07/2017 / 14:18

    Acho que o problema não está em querer “salvar” os pobres, mas naquilo que os esquerdistas acreditam que seja o caminho para resolver o problema da pobreza ou até mesmo pensar que a pobreza possa ser erradicada.
    Se a questão da religiosidade e espiritualidade tem alguma base nos genes, a descrença em um deus ou em deuses tradicionais levaria a busca por “deuses” substitutos.
    Para mim o problema da direita também não está em querer “salvar” a nação, mas sim em para quem eles querem salvar a nação e a custo do que se quer “salvar” a nação. Enquanto parte da esquerda erra defendendo políticos corruptos é uma forma de governar que não está dando certo, a direita frequentemente culpa os programas de inclusão social pela quebra do país quando a crise tem fatores bem mais complexos do que esse. Muitos na direita também costumam insistir que não existe, racismo, preconceito contra homossexuais, e afirmar que os pobres são pobres por falta de esforço e que toda reivindicação feminista é mimimi. Enquanto os movimentos sociais por vezes exageram no que a direita chama de politicamente correto, a mesma direita julga que tudo é “ditadura do politicamente correto”. Vejo que a direita é hoje o que sempre foi. Só que agora, com os escândalos de corrupção na esquerda, está bem mais raivosa.

  7. Marcus Canesqui 18/07/2017 / 10:22

    Professor, podemos dizer que essa característica dualista é mais acentuada na política brasileira do que em países como a França?

    • Bertone Sousa 18/07/2017 / 10:51

      Sim, Marcus. O fato de a Europa em geral ser mais laica e já ter vivido de perto as experiências do totalitarismo é determinante nesse sentido.

      • Marcus Canesqui 18/07/2017 / 16:26

        Incrível como a religião se aproveitou da ignorância e do medo das pessoas para se estabelecerem e se consolidarem. Os políticos aprenderam rapidamente a estratégia e á usam como forma de conseguir os votos. Veja quantas asneiras são ditas apenas para as pessoas ouvirem o que elas querem. Gostamos de histórias para dormir.

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