Por que o nazismo era de direita

desfile-tropas-nazistasA confusão que se faz em relação ao nazismo e aos conceitos de direita e esquerda ainda produz muita desinformação na internet. Recentemente, um importante site de notícias veiculou uma matéria questionando se o nazismo era de esquerda ou direita. Entre os vários especialistas entrevistados não houve consenso sobre o assunto, embora ninguém tenha apontado o regime como “de esquerda”. A falta de consenso se deveu ao fato de uma professora explicar o nazismo como “terceira via”, uma alternativa ao socialismo e ao liberalismo. Isso é verdade, mas é preciso dar nome aos bois: nos anos 1920 e 1930 o que se pode chamar de terceira via era a extrema-direita.

Embora eu já tenha publicado neste blog e numa revista acadêmica um artigo de cerca de vinte páginas sobre o tema (ver link ao final), vou sumariar neste texto as razões pelas quais o nazismo era uma ideologia de direita:

  1. Não faz sentido definir esquerda e direita pela intervenção do Estado na economia, como costumam fazer aqueles que jogam o nazismo para a esquerda. Esquerda e direita não se definem pelo tamanho do Estado, mas por suas posições sobre as hierarquias sociais e a desigualdade. A esquerda historicamente luta pela igualdade, a universalização de direitos, a inclusão social e contra hierarquias baseadas em privilégios de nascimento ou do dinheiro. A direita se define por sua posição a favor das hierarquias; ela é conservadora e não quer mudanças radicais que alterem a ordem social. O nazismo se enquadra aqui porque o nazismo surgiu para manter hierarquias sociais, os privilégios da plutocracia econômica e contra as minorias. Frente à derrocada do capitalismo liberal após a crise de 1929, o nazismo veio com o capitalismo de Estado para fazer frente ao socialismo soviético e preservar a propriedade privada. O termo “capitalismo de Estado” foi criado para definir essa experiência, ou seja, uma economia regida por um Estado totalitário associado a grupos de empresários e industriais e com imposição de forte disciplina militar sobre as massas.
  2. O partido de Hitler se chamava “Partido nacional-socialista dos trabalhadores alemães”, mas é importante observar que o “nacional-“ vem antes de “socialista” porque é o termo que define a ideologia nazista, ou seja, seu princípio norteador vem do nacionalismo, da crença na superioridade da raça germânica e da necessidade da conquista do espaço vital. Hitler planejava, após a Segunda Guerra, transformar os povos eslavos do leste europeu em colônias de escravos da Alemanha; eles forneceriam a mão de obra e o trabalho que perpetuariam a grandeza alemã. Por outro lado, o nacionalismo tem raízes conservadoras, apela à tradição, a Deus e ao passado para restaurar ou manter uma ordem social. Com isso, o nacionalismo rejeita os valores da esquerda de universalização de direitos e igualdade.
  3. Paralelamente a isso, o nazismo está relacionado às teorias raciais do século 19, ou seja, foi uma ideologia que exacerbou o darwinismo social e a ênfase no imperialismo, de onde provinha a noção de “comunidade nacional” pensada para exterminar o elemento judeu e marxista (Hitler chamava de “marxista” praticamente toda a esquerda política). O desenvolvimento da Biologia forneceu a fundamentação para as teorias voltadas para a definição de raças melhores ou superiores e o antissemitismo também se tornou um sentimento cada vez mais cultivado até entre intelectuais entusiastas dessas teorias. Hitler não inventou a noção de uma oposição cruenta entre arianos e judeus, ele aprendeu isso com Houston Stewart Chamberlain. Em Mein Kampf, Hitler sempre enfatiza o racismo como base de seu pensamento.
  4. A propaganda era o carro-chefe do nazismo para obter apoio das massas. Hitler deixou claro em Mein Kampf que era necessário confundir os adversários, copiando suas estratégias de luta ideológica e de ação. O período entre-guerras é conhecido como a era das massas. A ascensão das ideologias coletivistas e do rádio como meio de comunicação deram o tom a uma época marcada pelo extremismo. Nesse sentido, usar a cor vermelha e até o nome socialismo como forma de atrair o apoio das massas fazia parte da estratégia adotada por Hitler em sua escalada ao poder.
  5. Nazismo e socialismo não podem ser nivelados pela quantidade de vítimas que fizeram, mas por seus objetivos finais: enquanto o extermínio das “raças inferiores” era o objetivo último do nazismo, a sociedade sem classes e sem hierarquias de qualquer teor (racial, econômica, nacional, etc.) era o fim último do socialismo. Hitler e seus seguidores tinham aversão por todos os movimentos de esquerda. Ainda em 1930, mais de vinte militantes socialistas abandonaram o Partido Nazista quando perceberam que os ideais do socialismo não tinham lugar ali. O nazismo era uma ideologia voltada para a exclusão, a perseguição e o extermínio; representou a negação mais radical dos valores do Iluminismo (do qual o marxismo e as esquerdas são herdeiros) e nada poderia estar mais à direita do que isso.

Para o leitor que quiser uma leitura mais aprofundada, com referências teóricas e discussão historiográfica, recomendo meu artigo Nazismo, socialismo e as políticas de esquerda e direita na primeira metade do século XX, publicado na Revista Brasileira de História & Ciências sociais, também publicado neste blog.

Leia também

Cinco mentiras que a direita conta sobre Marx

As razões do Iluminismo

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27 comentários sobre “Por que o nazismo era de direita

  1. Marcus Canesqui 05/06/2017 / 11:38

    Bom dia professor.

    Li esse artigo e iria perguntar sua opinião sobre o tema. Mas uma vez um texto muito elucidativo.
    Para mostrar o quanto certas pessoas que fazem “sucesso” na internet são desonestas com seus seguidores, pedi ao grande intelectual Nando Moura, em um vídeo em que ele critica os professores Leandro Karnal, Mario Sérgio Cortella e Clóvis de Barros apenas por terem opiniões de contrárias as suas e não pelo seus conhecimentos de fato. Pedi a ele que explicasse aos seus admiradores o que é ser conservador? O que significa esquerda e direita política? Ele respondeu? Claro que não, pois se a maioria souber o que significa, deixam-no apenas com o Olavo de Carvalho e o Bolsonaro na sala.

    Aproveitando, tenho uma pergunta: O partido Nazista revolucionou o modo de se fazer propaganda política?

  2. Olá Bertone. Vejo que a tentativa de relacionar nazismo com esquerda se deve a uma querela quase teológica. Essa direita contemporânea relaciona direita exclusivamente aos postulados econômicos do liberalismo do século XVIII, e por exclusão empurram para a esquerda do seu movimento qualquer proposta divergente. O curioso é que qualquer pensamento que se distancie por pouco que seja desse liberalismo é automaticamente rotulado como socialismo. Qualquer mínimo desvio da doutrina faz relacionar o outro como herege. Por isso fiz o paralelo com as tradicionais querelas teológicas, onde as vezes surgem cisões fiadas em detalhes como vestimentas ou dietas alimentares. Com isso até tubarões do capital como o prefeito de São Paulo chegam a receber a alcunha de socialistas em razão de temas considerados pecaminosos, tais como a parada gay.

  3. Yan Borges 05/06/2017 / 15:31

    Professor uma pergunta,que livros você recomenda sobre a época de extração de ouro no Brasil,principalmente nas Minas Gerais?
    Te pergunto isso porque vi muitas informações básicas que não sei se são verdade ou não.Algumas dizem que a maior parte do nosso ouro foi para a Inglaterra,outras dizem que 80% do nosso ouro ficou aqui.O que você me diz?

  4. Alan Costa 05/06/2017 / 16:33

    Eu li a matéria do G1 e percebi que eles meio que não quiseram criar polêmica já que 95% dos leitores do G1 são extremistas (se é que podemos chamar de leitores). Eu não li os cometários porque é simplesmente inacreditável os comentários do G1, mas aposto que o que tinha de pessoas “argumentando” contra a matéria devia ser um absurdo.

    Por fim, gostaria de parabenizar mais um post interessante.

    Mais uma coisa, eu aconselho a pessoas notarem o nomes dos livros que o Prof. Bertone cita e procurarem pelo menos o epub/PDF porque vale a pena. Site que eu recomendo: http://gen.lib.rus.ec/

  5. Jose Roberto de Lima Machado 05/06/2017 / 19:33

    Como é de costume,parabéns pelo artigo.Entretanto,tenho “dúvidas” quanto a classificação em função do papel do Estado, economia e hierarquia social.Pois vejamos: o Socialismo no seu início,chegou a pregar o Liberalismo(o Estado Leviatã).O Liberalismo como o partido da esperança, do radicalismo,da liberdade,da revolução industrial, do progresso da humanidade.Em contrapartida, ao conservadorismo,o partido da reação,que queria restaurar hierarquia,estatismo,teocracia,servidão e a exploração de classe da velha ordem.O confundir adversários,rivaliza com o idealismo crítico de Marx(ideal como um logro para a tomada do poder).O Capitalismo de Estado,onde o Estado é a “elite” do partido único é o “modus operandi” das economias socialistas clássicas.O Estado Socialista atuando direto no mercado interno e externo.O país como uma propriedade de um líder/partido e o povo não-cidadão,mas pseudo-escravos(hierarquia). Talvez, ideais diferentes,mas na prática “Totalitarismo” puro.O Socialismo de direita com escopo nacional e o de esquerda,mais ambicioso, com escopo internacional.Talvez,o diferencial esteja no “estrato social” alavancador.A elite econômica na direita e a ralé econômica na esquerda.Um apoiado socialmente de cima para baixo e o outro de baixo para cima.Ambos visando o poder totalitário através de “iscas” de demanda/anseios no universo social ao qual pertence.

  6. RONALDO DA SILVA THOME JUNIOR 05/06/2017 / 21:07

    Professor, aproveitando a discussão: todo aquele que se intitula marxista pode ser considerado de esquerda? Sim, porque, pelo que eu saiba, os governos mais conservadores e reacionários que conheço foram os da URSS, da China e Cuba, fora a Coréia do Norte. P.S.: não estou aqui ridicularizando os esquerdistas em geral, até porque tenho enorme respeito e amizade por muitos deles, e sim tentando esclarecer uma confusão de setores da sociedade que se reflete em nós hoje. Até porque, se não me engano, Lenin ridicularizava este termo e escreveu um livro sobre o esquerdismo. Aguardo sua resposta!!!

    • Bertone Sousa 05/06/2017 / 21:29

      Ronaldo, todo marxista é sim de esquerda. Também é importante esclarecer que Stálin, Mao e outros também eram de esquerda, mesmo que os regimes políticos que comandaram tenham degringolado para o totalitarismo. Aí entra a noção de extrema-esquerda. Já a versão democrática do marxismo assumiu o nome de social-democracia. Em relação a Cuba, a Revolução de 1959 não tinha originalmente um viés socialista, de esquerda, somente depois é que houve essa definição. Mas também é preciso entender que esses países absorveram a versão stalinista do marxismo-leninismo e mesclaram isso com suas tradições autocráticas, como aconteceu na própria Rússia soviética. O governo de Mao, por exemplo, se tornou um novo tipo de mandarinato, mas comandando um Estado mais poderoso e mais vigilante. Na Ásia, aliás, onde esses totalitarismos foram proporcionalmente mais brutais, como no Camboja, Marx sequer era um autor conhecido pela sociedade e suas ideias nem mesmo eram problematizadas a fundo, mesmo que esses regimes pretendessem ser “socialistas”. A Coreia do Norte, por outro lado, abandonou qualquer referência ao marxismo ou ao socialismo há um tempo e de fato assumiu um perfil mais conservador para manter a dinastia Kim no poder. Veja meu texto sobre isso aqui: https://bertonesousa.wordpress.com/2013/09/08/o-totalitarismo-nacionalista-da-coreia-do-norte/

      O livro do Lênin, “esquerdismo- doença infantil do comunismo”, foi uma crítica pontual às estratégias de ação de alguns líderes e partidos comunistas na Europa que rejeitavam participar da democracia parlamentar e esperar o momento propício para a revolução. O livro tem um perfil mais panfletário e Lênin advertia ali sobre a importância de atuar nos parlamentos, participar de eleições e usar a própria democracia para atrair as classes trabalhadoras para o socialismo.

      • maquinadotempowordpress.com 02/07/2017 / 6:38

        Bertone,apenas uma observação, esta correto diser que a social democracia é uma ,digamos, cria do marxismo ?
        Pensei no socialismo utópico que é anterior a Marx ,esta não seria a derivação da social democracia?
        Não tenho esta certeza, por isto o questiono.

  7. RONALDO DA SILVA THOME JUNIOR 05/06/2017 / 21:54

    Aproveitando sua resposta: hoje, parece ser claro que existe uma diferença entre ser de ESQUERDA e MARXISTA. Você poderia comentar um pouco sobre isso? Li um texto do Bobbio que falava sobre isso: o comunismo busca a igualdade social, a esquerda, a justiça social. Você concorda?

    • Bertone Sousa 05/06/2017 / 21:57

      A esquerda não se restringe ao marxismo e nunca foi homogênea. Já comentei essas diferenças em outros textos.

  8. Eliseu krauspenhar 05/06/2017 / 22:23

    O Caminho da Servidão escrito por Friedrich Hayek,empurra o nazismo para a esquerda e humildemente posso estar enganado mas foi a impressão que tive! Já ouvi cientista político com diploma universitário afirmar que Nazismo é esquerda. Eu acho que como tudo na ciência para haver progresso não se pode ser seletivo na bibliografia, algo comum nos curso de humanas no Brasil!

    • Bertone Sousa 05/06/2017 / 22:40

      Hayek não define o nazismo como esquerda em “O Caminho para a servidão”; ele diferencia o fascismo do comunismo e os define como ideologias coletivistas que se opõem à democracia liberal. O foco da abordagem dele está aí. Mas há livros melhores para se entender o assunto, como “Origens do Totalitarismo” da Hannah Arendt e algumas pesquisas históricas mais recentes. Não é questão de opinião. Dizer que nazismo era de direita não comporta nenhum tipo de juízo de valor. Em meu artigo, cujo link está ao final, tentei explicar isso. Cientista político que diz que nazismo era esquerda tem que rasgar o diploma.

      • Eliseu krauspenhar 05/06/2017 / 22:49

        Antonio Roberto Vigne. Cientista politico Gaúcho afirma que nazismo é esquerda, não é o primeiro que ouço afirmar acerca do “assunto”… Agradeço pela resposta, gosto de opiniões antagônicas, afinal a democracia sobrevive do antagonismo.

  9. Pedro 05/06/2017 / 22:40

    Professor, mais uma vez parabéns pelo artigo, que retorna a um tema já bastante esmiuçado. Entretanto, qualquer tentativa de ensinar as pessoas que nazismo é de extrema-direita, doravante será conhecida como 13º Trabalho de Hércules, tal a ignorância e dificuldade de entender texto que grassa na rede.
    Abraços.
    PS: por favor, publique no blog ais vezes.

  10. Jose Roberto de Lima Machado 05/06/2017 / 22:51

    Interessante que todos esse movimentos/revolução socialistas de esquerda,foram financiados por capitalistas estrangeiros(direita):Lenine,pelos banqueiros alemães, que o enviaram de volta a Rússia para desequilibrar o governo do Nicolau II, que estava em guerra com a Alemanha. Fidel Castro, por banqueiros dos EUA, que queriam se livrar do Fulgêncio.No final é tudo capitalismo; ora centralizado nas mãos de poucos,ora descentralizado em um universo maior.O “MERCADO” definirá a permanência no poder.

  11. roberto 06/06/2017 / 10:06

    Ola Bertone,
    Uma sugestão para entender esta polemica em torno de esquerda/direita, capitalismo/socialismo/comunismo, seria uma crítica sua a respeito do livro “Futuros Imaginários” que explica como os EUA investiram massissamente numa alternativa as ideiais socialistas que brotavam com força nos seculo XIX e sua implementação no inicio do século XX.

    Grande abraço,
    Roberto

  12. Gustavo Leite 07/06/2017 / 14:48

    ‘(Hitler chamava de “marxista” praticamente toda a esquerda política)’

    Hmmm, já vi isso em algum lugar.

  13. Matheus Roberto da Silva 07/06/2017 / 14:56

    Bertone, gostaria primeiramente de elogiar seu blog, muito útil, e em segundo lugar gostaria de falar de assunto atual, qual e sua visão a respeito do que esta acontecendo no Brasil, aonde vemos nitidamente a esquerda que tomou conta da politica,imprensa e universidades? e qual o efeito do mesmo no futuro do Brasil(podemos nos transformar em uma republica bolivariana, semelhante a venezuela)? se voce concorda com a primeira afirmação, qual seriam as saidas a serem tomadas?

    desde ja agradeço a atenção

    • Bertone Sousa 07/06/2017 / 15:54

      Matheus, a esquerda não tem mais o poder político, não tem controle da imprensa e nas universidades se refugiou no dogmatismo e na defesa do petismo. No geral se encontra desorientada e fragmentada, sem um nome que lhe dê perspectiva eleitoral que não seja o Lula, que já é réu seis vezes na Lava Jato.

  14. Gustavo Leite 07/06/2017 / 14:58

    Bertone, uma questão aqui:
    ‘ O nazismo se enquadra aqui porque o nazismo surgiu para manter hierarquias sociais, os privilégios da plutocracia econômica e contra as minorias.'(…) uma economia regida por um Estado totalitário associado a grupos de empresários e industriais e com imposição de forte disciplina militar sobre as massas.’

    E quanto ao empresariado judeu? O quão eles faziam parte da ‘plutocracia’ ou mesmo da ‘hierarquia social’ alemã? O empresariado judeu sempre foi visto como alienígena dentro das elites econômicas alemãs mesmo antes do nazismo?

  15. Gustavo Leite 07/06/2017 / 15:03

    Mais uma questão: Não conheço muita informação sobre a relação do nazismo com as igrejas dentro da Alemanha (encontra-se isso mais no fascismo italiano) tanto a católica quanto as igrejas protestantes tradicionais. Achei essa entrevista de meu antigo professor André Chevitarese num programa da comunidade judaica – Menorah, relatrando algum apoio das igrejas ao nazismo na Alemanha.

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