Os cem anos da Revolução Russa

União-SoviéticaO dia 12 de março de 2017 marca o centenário da Revolução Russa em nosso calendário (pelo calendário Juliano, adotado pela Rússia na época, essa data foi 27 de fevereiro). A Revolução de Fevereiro, como ficou conhecida, teve um viés democrático e foi liderada por socialistas moderados – os mencheviques. Ela aconteceu de forma mais ou menos espontânea, iniciando com greves e motins que tomaram a capital russa, Petrogrado, naquele dia. Logo depois o governo do czar foi deposto e um Governo Provisório foi instituído. Era o primeiro capítulo de um dos eventos que definiram o século XX.

O Governo Provisório se comprometeu a convocar uma Assembleia Constituinte e sua demora em fazê-lo causou impaciência na opinião pública do país  e também no campesinato, cuja reivindicação por terras os levava a ocupar grandes propriedades sem o apoio explícito do novo governo. A demora na convocação de uma Assembleia foi apenas um dos erros do Governo Provisório e que levou à sua derrubada em 25 de Outubro pelos bolcheviques (07 de novembro em nosso calendário), que eram mais organizados e tiveram tempo para ganhar a simpatia de parte do proletariado e da marinha.

A Revolução de Outubro, como ficou conhecida a tomada de poder pelos bolcheviques, foi, para alguns historiadores, mais um golpe do que uma revolução, e uma de suas primeiras medidas já prenunciava os tempos sombrios que viriam sobre a Rússia: a tão esperada Assembleia Constituinte foi aberta em 18 de janeiro de 1918 e dissolvida no mesmo dia por eles. Sobre isso, Lênin falou: “A dispersão da Assembleia Constituinte pelo regime soviético é a eliminação total e aberta da democracia formal em nome da ditadura revolucionária[1].” Somente na segunda metade do século alguns países adotariam sistemas de governo que conciliavam os ideais de justiça social do socialismo com valores da democracia liberal.

O fechamento da Assembleia marcou uma ruptura decisiva entre socialistas russos, segundo o historiador britânico Archie Brown: “Dessa época em diante, o abismo entre os socialistas que aceitavam os princípios da democracia e os Comunistas que racionalizavam a ditadura em nome do poder de classe do proletariado aumentou cada vez mais[2].” Nos anos subsequentes, os bolcheviques enfrentaram dificuldades homéricas para se manter no poder e tiveram de lidar com forças de oposição dentro e fora do país.

A construção do socialismo foi impregnada pelo desprezo que Lênin nutria pela noção de liberdades individuais e por sua crença de que o pluralismo político não tinha qualquer relevância para a construção de liberdades. Nada que implicasse distribuição de poder tinha sua anuência. Sua crença de que somente o Partido Comunista detinha a vanguarda do proletariado deslegitimou manifestações civis espontâneas, mesmo se tratando de grupos que acreditavam e apoiavam o projeto comunista. Nesse sentido, a repressão à revolta dos marinheiros de Kronstadt, uma base naval, em 1921, foi o ponto de virada para a adoção de um modelo de terror e silenciamento de qualquer manifestação e oposição que perduraria por décadas.

Essa Revolução definiu todo o século 20 e por alguns momentos pareceu que faria o marxismo triunfar no mundo. Sua importância foi de tal magnitude que até mesmo seus adversários a plagiaram. As ideologias de extrema-direita, o fascismo e o nazismo, possivelmente não teriam existido, ou não teriam assumido as características que adquiriram, se o socialismo, se o marxismo-leninismo não lhes antecedesse, se um sentimento geral de “ameaça vermelha” não levasse as classes médias e as burguesias da Europa Ocidental a apoiarem ideologias políticas chauvinistas.

Em questões sociais, porém, o sistema soviético fez realizações notáveis: foi o primeiro país a erradicar o analfabetismo pela universalização do ensino público, promoveu igualdade de gênero e adotou um modelo econômico de planificação da economia que forçou o capitalismo a se reinventar após a crise de 1929. A União Soviética também se tornou uma potência em pesquisa científica que lhe possibilitou colocar o primeiro homem no espaço. Após a Segunda Guerra Mundial, os investimentos nos países ocupados do Leste Europeu levaram à formação de segmentos sociais similares às classes médias dos países capitalistas mais industrializados.

Durante sete décadas, o socialismo inspirou movimentos muito distintos: das guerras de descolonização, passando pelo feminismo, a atuação de partidos e grupos de guerrilha na América Latina e foi direta e indiretamente responsável pela instauração de regimes autoritários em virtualmente todo o mundo. O socialismo definiu aptidões intelectuais e calcificou convicções de quem alegava lutar por justiça e por um mundo melhor.

Hoje, todos sabem no que resultou a experiência soviética. O olhar diacrônico da pesquisa histórica sobre a história soviética já nos revelou muito sobre as consequências daquela experiência: o totalitarismo com o culto à personalidade, o Gulag, os expurgos, a imposição do dogma marxista-leninista, as milhões de vítimas de Stálin denunciadas por Kruschev em um Congresso do Partido em 1956, a inexistência de liberdades civis e individuais. A União Soviética possuía um modelo de proteção social que garantia o pleno emprego e certa equidade social. Mas a longo prazo a ausência de uma economia de mercado engendrou uma estagnação econômica que a partir dos anos 1970 levou o país à carência crescente na produção de bens de consumo. Aos poucos, a distopia tomou o lugar da esperança.

Várias foram as causas que levaram ao colapso do comunismo na União Soviética. Seu fim, em 1991, representou também a morte de seu legado – seu significado, seus ideais, a esperança que por muito tempo tentou representar. Seu fim também representou a morte do movimento comunista internacional e, por extensão, do próprio socialismo enquanto alternativa de justiça social.

Não podemos compreender o século XX, suas transformações rápidas, por vezes dramáticas e chocantes, se não entendermos o significado histórico da Revolução Russa. O comunismo está morto, seja como movimento político organizado, seja como pensamento social e  político. Qualquer militância nesse sentido é extemporânea. Hoje temos mais possibilidade de compreendê-lo em seus múltiplos matizes do que aqueles que, há uma geração, raramente podiam abordar o comunismo sem a verve de uma retórica marcada pela ojeriza ou pela paixão militante e proselitista.

[1] LÊNIN apud BROWN, Archie. Ascensão e Queda do Comunismo. Rio de Janeiro: Record, 2010, p. 74.

[2] BROWN, op. cit., p. 75.

Leia também: 

Lênin e o comunismo

O que foi o comunismo

Kruschev não mentiu sobre Stálin

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10 thoughts on “Os cem anos da Revolução Russa

  1. Bruno de Oliveira 11/03/2017 / 0:54

    Ô, Bertone,

    Você poderia falar um pouco mais sobre essa afirmação de que a economia comunista forçou uma reformulação da economia capitalista?

    • Bertone Sousa 11/03/2017 / 2:14

      O modelo soviético de planejamento e intervenção estatal inspirou as políticas de reestruturação econômica dos países capitalistas após a crise de 29, ao lado da teoria keynesiana.

  2. leksel 14/03/2017 / 19:02

    Professor Bertone estou lecionando sobre revoluçao russa aos alunos de 3 ano ensino médio e seu texto vai enriquecer a discussao em sala. Gostei da abordagem sem partidarismo .

  3. Marcus Canesqui 20/03/2017 / 23:50

    Professor, podemos especular se após a morte de Lênin, outro assumisse o poder e não o maluco do Stalin, pode se dizer que a URSS teria tomado um rumo diferente até mesmo em relação a Segunda Guerra?

    • Bertone Sousa 21/03/2017 / 17:15

      Marcus, não duvido que poderia ter tomado um rumo diferente, mas acredito que seria difícil porque as condições e o aparato para a consolidação do totalitarismo já haviam sido viabilizados pelo próprio Lênin. Stálin só teve que se dar o trabalho de retirar do caminho os camaradas do partido que ele acreditava que ofereceriam alguma resistência à sua pretensão de poder absoluto. Sobre a relação de Lênin com o totalitarismo, veja meu texto “Lênin e o comunismo”, cujo link está no final desse artigo.

      • Marcus Canesqui 21/03/2017 / 23:08

        É verdade que Lênin não gostaria que Stálin assumisse o poder em seu lugar por causa desse seu lado muito violento?

      • Alan Costa 25/03/2017 / 10:38

        Trotski não pudia ter sido esse “substituto” de Lênin?

  4. Gustavo Leite 24/03/2017 / 6:38

    Mas, Bertone, vc deveria mencionar a decisão do governo Menchevique da Russia continuar na guerra (primeira guerra mundial), o que foi crucial para que os bolcheviques tivessem respaldo popular de um povo faminto.

  5. Alan Costa 25/03/2017 / 10:35

    Devia ter citado o medo, O PÂNICO na verdade, que os países capitalistas tinham do poder econômico, mas principalmente científico Russo pós-segunda guerra mundial.

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