Caçadores de comunistas

foro-de-spNasci em 1983. Quando me entendi por gente, o Brasil já vivia na democracia e a Guerra Fria chegava ao fim. Lembro das imagens da Guerra do Golfo na TV, os jornalistas falando em Saddam Hussein e o Estados Unidos esbanjando para o mundo parte de seu repertório militar. De janeiro de 1992 em diante, ninguém falava mais em comunismo. O mundo havia mudado e eu aprenderia isso alguns anos mais tarde, ainda naquela década, no Ensino Médio.

Sem União Soviética, sem movimento socialista internacional, os partidos de esquerda no mundo tiveram que se reinventar. Na Europa já faziam isso desde a década de 1950, mas na América Latina ainda titubeavam entre a crença hesitante em um socialismo para o Terceiro Mundo e uma via socialdemocrata. Foi assim que surgiu o Foro de São Paulo, uma reunião de partidos e movimentos de esquerda da América Latina que se uniram para traçar estratégias de ação e eleitorais.

Embora muitos políticos e intelectuais latino-americanos continuassem a falar e a defender a ideia de socialismo, essa ideia, contudo, era evocada mais como defesa da inclusão social e de direitos trabalhistas do que qualquer outra coisa. Afinal, para muitos os ideais do socialismo ainda pareciam fazer sentido em um mundo em que políticas de caráter neoliberal se tornaram a ordem do dia nos países mais desenvolvidos.

O Foro de São Paulo se afirmava contra essas políticas, contra o que compreendia como imperialismo, especialmente norte-americano, e contra iniciativas que tolhiam a soberania dos países da América Latina. Embora a Guerra Fria estivesse chegando ao fim em 1990, ainda era muito recente a memória das ditaduras militares, das perseguições políticas, do autoritarismo de direita que deixara como herança social no continente um profundo abismo social entre ricos e pobres, dívidas externas astronômicas, inflação e desemprego.

Esse cenário de caos, a memória dos regimes militares e a atuação de intelectuais e outras pessoas que sobreviveram aos horrores da ditadura mantinham o pensamento marxista como filosofia dominante na interpretação de mundo desses intelectuais. Contudo, sabia-se que evocar algo como ditadura socialista ou ditadura do proletariado não era mais relevante. Cuba, membro do Foro de São Paulo, era admirada mais pelas suas conquistas sociais do que por sua força política. Dependente economicamente da União Soviética, jamais fora capaz de exportar com êxito seu sistema político e não viria tentar a fazê-lo após a queda do muro de Berlim.

Depois da redemocratização, ninguém em sã consciência se declarava abertamente de direita, uma vez que a direita esteve ligada à violação de direitos humanos, à desigualdade e, em alguns casos, ao fascismo. Diante disso, os partidos de centro e de esquerda assumiram a frente da reconstrução democrática e a esquerda, no Brasil particularmente com o PT, teve de amargar algumas derrotas eleitorais até convencer o mercado e muitos eleitores de que seu projeto de poder não era o comunismo, isto é, não era um projeto que objetivava a abolição da propriedade privada dos meios de produção. Grande parte dos intelectuais de esquerda dos anos noventa em diante não defendia mais o comunismo como meta política.

Depois da queda do muro de Berlim, socialismo e comunismo deixaram de ser alternativas políticas e nenhum partido ou movimento socialista internacional teve qualquer relevância desde então. Mesmo assim, a emergência da direita política no Brasil nos últimos anos tem apelado sistematicamente para uma “ameaça comunista”, que seria representada pelo PT e o Foro de São Paulo. Um de seus maiores erros é associar marxismo e comunismo, esquerda e ditadura ou esquerda e totalitarismo. Tomam a esquerda como um campo homogêneo e revolucionário.

Esse pensamento binário transformou a direita num antro de teóricos da conspiração e gente limítrofe. Como se não bastasse, essa direita ainda defende as ditaduras militares, pede intervenção militar, passam vergonha com generais quando estes lhe dizem que não vão subverter a ordem democrática e, mesmo assim, são incapazes de compreender a própria incoerência.

Mesmo as ditaduras do socialismo real que sobraram, como a Coreia do Norte, definham sem pretensões expansionistas. Cuba vive a transição para o capitalismo, caminho que a China vem seguindo há décadas. O  PT, por outro lado, jamais foi um partido comunista, foi socialdemocrata por um tempo e depois se perdeu no populismo. A direita nunca viu no PT apenas o problema da corrupção, via antes de tudo um monstro revolucionário que o PT jamais representou. Na ausência de uma ameaça real, inventa-se uma ameaça imaginária.

A direita e parte da classe média alta ainda evocam o comunismo como se estivessem em 1964. Em 2016, um grupo chegou até mesmo a invadir o Congresso pedindo intervenção militar. Essa incultura já arrebanhou alunos nas universidades públicas. Estes, motivados a denunciar o dogmatismo de alguns professores de esquerda, veem comunismo em toda parte e se tornam ainda piores do que o que denunciam, e alimentam um anti-intelectualismo que os faz pensarem não precisar ler Marx.

Trocando em miúdos: não existe mais comunismo no mundo, nem no Brasil, nem existe qualquer ameaça relacionada a isso em lugar algum. É o tipo de coisa que não precisaria mais ser escrita, não fosse um tipo de debilidade mental que se espalhou rapidamente da internet para a vida social.

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17 comentários sobre “Caçadores de comunistas

  1. Yan Borges 16/01/2017 / 20:22

    Olá,Professor,ótimo como sempre.
    Queria te fazer uma pergunta:
    O que você acha dessas pessoas que querem de volta a monarquia e o fim da república brasileira.Achando que com isso o Brasil será um país melhor?

    • Bertone Sousa 16/01/2017 / 20:26

      Yan, esses têm o mesmo perfil das pessoas que querem a volta da ditadura, ou seja, sua idade mental é infantil, eles precisam de um vigilante, um pai, um Estado que lhes determine, que na monarquia se manifesta na pessoa do rei.

      • Yan Borges 16/01/2017 / 20:54

        Eu fiz essa mesma pergunta para outro pesquisador que eu conheço Professor,ele disse que os argumentos desses grupos que são a favor de uma nova monarquia são cheios de falácias.
        Quando vi alguns Nerdologias de História,sempre via nos comentários pessoas que defendiam a Monarquia se baseando nos modelos da Inglaterra,Canadá,França,etc.

        Queria que você fizesse um texto falando da Monarquia desses países,principalmente da Inglaterra e de forma básica como funciona atualmente.

    • Germano 16/02/2017 / 11:09

      Monarquia se baseando nos modelos da Inglaterra,Canadá,França,etc. ??? … existe o primeiro Ministro que atua como um “presidente”, os “reis” são figuras praticamente irrelevantes na politica geral desses países … reis estão la como figuras, uma identidade cultural do pais

  2. JOSE ROBERTO DE LIMA MACHADO 16/01/2017 / 21:35

    Concordo com a “visão geral” na análise do competente Professor, referente ao cenário atual – diria com uma aderência de noventa por cento(90%).Permita-me verificar “algumas” percepções quanto a “invalidade” da esquerda(salvo outro juízo) na atual conjuntura mundial:a distorção da verdade quanto a “Direitos Humanos”(engodo);os resultados pragmáticos históricos da utopia socialista nas Nações que o vivenciaram;o “Culto a Personalidade”(submissão) inerente e imprescindível aos governos socialistas na captação de seguidores; o fortalecimento político através divisão e animosidade de grupos sociais;a incapacidade de evolução dentro da dinâmica técnico-social e política, apenas com mudanças superficiais doutrinárias de implementação(maquiagem); o “totalitarismo” eminente na operacionalização do conceito Socialista (partido único, etc);o “golpe” do “Politicamente Correto”, como armadilha emocional para favorecer minorias em detrimento da maioria democrática(uma “cunha” na democracia), etc. Complementando, diria que o termo “COMUNISTA”, usado pejorativamente, tem a mesma conotação do “FASCISTA”(Nacional Socialismo)para os que rejeitam tão visão politico-econômico-social.

    • Elton 05/03/2017 / 14:24

      No seu entender, o que é esquerda?

  3. Caio Vinicius da Silva de Carvalho Bacelar 18/01/2017 / 21:56

    Muito bom texto professor é muita conspiração achar que o PT é comunista ou que Lula é admirador de Gramsci. Admiro muito teus textos. Grande abraço.

  4. Marcelo 19/01/2017 / 10:30

    Desculpe-me, professor, mas o Olavo de Carvalho( que a Desciclopédia chama de “Olavo de Cavalo”!) declarou, no Yotube, que o sennhor, após criticá-lo, “não é historiador, não escreveu nenhuma obra historiográfica”, e que o senhor “é apenas um professor de História”…

    • Bertone Sousa 19/01/2017 / 14:53

      Marcelo, o Olavo nunca concluiu a terceira série do ensino primário, por isso nunca pôde ingressar numa universidade e se tornar professor. Mas ele alimenta muita mágoa de professores e universidades no Brasil, mesmo reconhecendo a validade de nosso ensino (a filha dele estudou História na USP!). Por causa disso, sempre que é contrariado, ele solta esses ataques pessoais, como fez comigo naquele vídeo.

      • Li Silva 08/04/2017 / 21:20

        Professor, e a afirmação “não é historiador, não escreveu nenhuma obra historiográfica”? O senhor não respondeu! Obrigada!

      • Bertone Sousa 08/04/2017 / 21:28

        Li, você sabe o que é ser historiador e sabe o que é uma “obra historiográfica”?

  5. Marcus Canesqui 19/01/2017 / 15:38

    Boa tarde.

    Não sei se o professor costuma acessar o youtube para ver o que anda sendo difundido politicamente, eu faço isso e o que eu vejo me deixa revoltado.
    Vejo propaganda ideológica misturada com mentiras e distorções históricas. Quando peguntado por um repórter: o que é a direita? A sua excelente resposta foi: “O oposto da esquerda” e pesquisando em vários vídeos nunca vi ele dar uma pequena explicação sensata sobre o que é a direita. O ”brilhante” Nando Moura perguntou se ele era conservador, liberal ou neo-liberal (mais de uma vez) não respondeu objetivamente, simplesmente disse as mesmas coisas que os outros políticos falam, valorizar o empresariado, diminuir a carga tributária e até citou Pinochet como exemplo de desenvolvimento econômico. No entanto, o vomitório de ressentimento em relação a esquerda foi bem afiado. Os ataques de sempre a Jean Willys, a defesa do escola sem partido, ou seja, mais uma mente rasa se aproveitando da mentalidade acéfala que reina neste país e conseguindo com seu discurso “pra torcida” chegar ao seu objetivo.

  6. Marcus Canesqui 20/01/2017 / 7:29

    Esqueci de mencionar no comentário anterior que na “entrevista” á Nando Moura, ao defender o “escola sem partido”, Bolsonaro enfatizou que o importante na escola é o ensino de ciências exatas e o ensino técnico mostrando grande desprezo pelas ciências humanas como se elas não fossem importante em nossa formação. No próprio exército, tenho certeza que as ciências humanas fizeram parte da formação dele.

  7. Eliseu Kruauspenhar 26/01/2017 / 7:49

    A esquerda vai ter que se “reinventar” muitas vezes ainda! E o resultado…

  8. ferrão 09/02/2017 / 22:04

    Professor Bertone,

    Qual a sua opinião a respeito do financiamento de movimentos sociais pelo capitalista George Soros?

  9. RENATO RAFAEL 02/03/2017 / 8:32

    Me pergunto sempre, qual o motivo principal dessas ideias de que os comunistas estão “tramando” algo sórdido contra não sei o que ! Professor Bertone, em sua opinião isso se deve a fraqueza intelectual, revolta pueril de adolescentes, necessidade inata do ser humano ter um inimigo a combater? Pois é impressionante a falta de noção das pessoas com relação a origem dos termos esquerda e direita, sobre a história recente (Guerra fria, Ditaduras Militares e etc..) ! Obrigado por mais um bom texto !

    • Bertone Sousa 02/03/2017 / 15:00

      Renato, é basicamente isso mesmo. Pra muitos, pensar de forma limítrofe e acreditar na existência de um inimigo permanente a quem responsabilizar por todos os males é a única coisa que conseguem fazer. Isso dispensa qualquer atividade intelectual, é o caminho fácil do não-pensamento.

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