MBL: a face da nova-velha direita

mblO MBL nasceu como oposição ao PT e ganhou notoriedade na esteira da queda de popularidade de Dilma e da crise econômica. Foram eles quem puxaram as manifestações pró-impeachment desde 2014 nas redes sociais. Apesar disso, as manifestações inflaram em 2015 e 2016 menos pelo MBL do que pelo descontentamento social em relação aos resultados da política econômica do governo Dilma. Mas cabe questionar: o que o Movimento Brasil Livre representa hoje no país?

É importante destacar que eles não puxaram apenas manifestações contra Dilma, mas contra Eduardo Cunha e Renan Calheiros também. Dilma e Cunha caíram e Renan foi salvo por um arremedo de bastidores articulado pelos poderes Executivo e Judiciário. Mas o MBL não existe apenas para conclamar manifestações. Seus membros também têm uma ideologia e aí reside alguns de seus problemas.

Trata-se de um movimento de direita que cresceu sobre os escombros de uma esquerda que abandonou a ética na política e perdeu apoio social. Seus membros se definem como liberais, mas suas posições políticas ficaram fortemente comprometidas pelo antipetismo.

No afã de combater tudo o que compreende por esquerdismo, o movimento se limitou a ser a outra face da moeda em relação ao que nega e tem deixado de defender políticas liberais importantes apenas porque foram realizadas pelos governos do PT. A política de cotas é uma delas. Tomada erroneamente como política educacional, é combatida e criticada pelo que não é. O mesmo ocorre com as políticas de ensino de gênero e legalização do casamento homoafetivo.

Essa tem sido a postura de Fernando Holiday, por exemplo. Eleito vereador pelo DEM em São Paulo, tem sistematicamente atacado os negros como minoria sociológica ao advogar o fim das cotas raciais e o dia da consciência negra. Qualquer vereador ou deputado branco do Democratas que fizesse isso teria o receio de sair como racista na imprensa. Holiday, por ser negro, tem salvo-conduto. Ele é a peça-chave do Democratas para combater os direitos dos negros.

Nesse passo, para não ceder nada à esquerda, o MBL também flerta com o conservadorismo e subscreve os discursos xenófobos de Trump e Bolsonaro. Na página do movimento no Facebook, se nivelam ao senso comum que aprova massacres em presídios[1], pena de morte como solução para a criminalidade e ao mote “bandido bom é bandido morto”, além de ratificarem a incultura de direita em torno de Paulo Freire e Marx.

Falta leitura e estudo aos meninos do MBL? Tudo indica que sim. Muito jovens, trocaram o estudo sério pela militância. Por isso são a outra face da moeda de uma militância de esquerda que criticam. Talvez nenhum deles exemplifique melhor isso do que Kim Kataguiri. O rapaz que abandonou a universidade porque se considerava melhor que o professor, se tornou aprendiz de teórico da conspiração que não passou da terceira série do ensino primário, com quem parece ter rompido, mas de quem não pode negar a influência.

Em matéria econômica, Kataguiri se limita à defesa de políticas privatistas como panaceia para qualquer crise e que remetem ao século XIX, mesmo que ele se esforce por citar Friedman em suas entrevistas. O discurso anti-Obama[2] e pró-Trump que o movimento tem abraçado de forma apaixonada nos últimos meses, ignora a importância do Estado na recuperação econômica dos Estados Unidos durante a administração Obama. No campo político, a repetição da teoria conspiratória sobre o Foro de São Paulo evidencia o comprometimento do grupo com uma direita inculta e paranoica.

Direita. Essa palavra não inspirava confiança no Brasil há décadas. O motivo é que a direita, tanto no Brasil quanto nos demais países da América Latina, está associada à ditadura militar, ao autoritarismo e às violações de direitos humanos ocorridas no continente. Curiosamente, a direita que ora emerge no Brasil não busca dissociar-se daqueles regimes, ao contrário, busca positivá-los, transforma torturadores em heróis, pede intervenção militar e chuta para a lata de lixo direitos humanos como algo desprezível. Em nome do combate à esquerda, vale defender qualquer posição retrógrada e pré-moderna.

O MBL poderia defender pautas liberais e ainda assim se afirmar como um movimento progressista. Ao invés disso, não tem uma identidade definida: não sabem se são liberais ou conservadores e, na impossibilidade de conciliar ambos, se mostram mais conservadores do que liberais. A retórica antiesquerdista os deixou presos numa bolha ideológica. Magoados com o fato de alguns de seus mentores estarem no campo da extrema direita, decidiram chamar tudo o que não concordam de “extrema esquerda”. Almejam ser a nova direita. Não, seu discurso é apenas o da velha direita em corpos mais jovens.

Leia também

O que Bolsonaro representa para o Brasil

Cinco mentiras que a direita quer que você acredite

Cinco mentiras que a direita conta sobre Marx

Marxismo cultural ou a burrice ideológica de direita

O impeachment de Dilma foi golpe? 

Notas

[1] Recomendo ao leitor essa entrevista com Jörg Stippel, especialista alemão em assuntos carcerários, onde ele explica os equívocos do sistema prisional no Brasil, comenta que a privatização e a pena de morte não são soluções e aponta políticas que deram certo em outros lugares que os governos brasileiros também poderia adotar: http://www.dw.com/pt-br/brasil-encarcera-pessoas-como-animais-selvagens/a-37113330

[2] Sobre o legado de Obama, recomendo esse texto que destaca pelo menos três pontos positivos de sua administração: a contenção da crise de 2008, a maior no país desde a era Roosevelt; ter evitado envolver o país em novas guerras levando ao sacrifício inútil de muitos jovens militares e as políticas sociais. Somado isso ao fato de ter sido o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, Obama deixa um legado positivo. http://www.dw.com/pt-br/o-amea%C3%A7ado-legado-do-governo-obama/a-37078899?maca=pt-BR-Facebook-sharing

Anúncios

19 comentários sobre “MBL: a face da nova-velha direita

  1. Yan Borges 15/01/2017 / 19:38

    Olá Professor,gosto muito dos seus textos,são muito construtivos e muito bons por sinal.
    Eu queria que você falasse um pouco da história do nacionalismo e seu contexto.Abraços.

    • Bertone Sousa 15/01/2017 / 20:57

      Olá Yan, já fiz alguns comentários sobre o assunto no texto Socialismo e Nacional-Socialismo. Dê uma olhada lá. Abs.

  2. Flávio Victor 15/01/2017 / 20:30

    Professor, o senhor considera que a liberdade de expressão deve ser absoluta ou relativa? Vide o HC 82.424 e o caso do Levy Fidelix.

    Abraços.

    • Bertone Sousa 15/01/2017 / 21:00

      Flávio, a liberdade de expressão não deve ser confundida com iniciativas contra outros grupos ou indivíduos. Para isso existe a lei, para regular as relações sociais.

  3. Alice Guimarães 15/01/2017 / 23:24

    Minhas felicitações pelo ótimo trabalho, professor Bertone. Seus posts são excelentes e de grande qualidade e conhecimento agregado. Gostaria de ler mais os impactos do imperialismo europeu sobre os países da América Latina e Oriente Médio.
    Satisfações e continue com o belo trabalho.

    • Bertone Sousa 16/01/2017 / 0:12

      Oi Alice, obrigado. Escrever sobre esse tema não está em meu cronograma por enquanto, mas agradeço pela sugestão. Abraço.

  4. Alveri Rocha 16/01/2017 / 8:38

    Excelente

  5. Marcus Canesqui 16/01/2017 / 16:02

    Olá professor.
    Mais um ótimo texto, como de costume. Felizmente ou infelizmente o seu blog é um dos poucos meios de conhecimento histórico confiável. Cada dia que passa fico mais preocupado com o futuro deste país.

  6. Pedro Sousa 17/01/2017 / 1:19

    Caro Professor Bertone, muito bom o texto. Uma questão, por quê nenhum dos militantes do MBL sabe debater sem gritar? Sempre achei isso muito curioso.
    Abraços.
    PS: com sugestão, não seria possível fazer os comentários via Disqus?

    • Bertone Sousa 17/01/2017 / 2:22

      Pedro, já me sugeriram isso mas além de eu não saber como se faz essa transferência, não entendi em quê isso seria melhor.

      • Pedro Sousa 17/01/2017 / 20:34

        Professor, a interface é mais intuitiva e tem alguns recursos como poder postar vídeos e fotos, bloquear usuários que tumultuam o debate, etc.Também não sei como se faz a transferência, mas penso que deva ser como as outras redes sociais.
        Abraços.

  7. Allan 19/01/2017 / 23:17

    Holiday é um idiota útil.

  8. Allan 19/01/2017 / 23:28

    Sobre o MBL não tem muito mais o que acrescentar. O texto diz tudo. Eu diria que são 100% conservadores. Liberais de verdade jamais compartilhariam as ideias que aqueles tontos defendem.

  9. Marcus Canesqui 23/01/2017 / 8:07

    Bom dia.
    Professor, o que o senhor acha do pensamento político do Fábio Ostermann?

  10. SEP 07/02/2017 / 16:13

    O MBL é um puxadinho do PSDB paulista. São o reflexo no espelho de quem criticam.

  11. Francisco Sulo 29/03/2017 / 16:55

    Vivemos realmente tempos duais, em que tudo é aceito ou rejeitado conforme o parentesco com a esquerda radical ou o seu oposto. Às vezes a referência nem precisa ser a face extrema de qualquer dos espectros.

    Mas um ponto me chamou a atenção, professor: “uma esquerda que abandonou a ética na política e perdeu apoio social.”

    Acredita que a esquerda poderia ter agido de outro modo, considerando que nossas ações ocorrem em contextos em que a margem de liberdade de ação é praticamente mínima em face dos condicionantes de ordem sócio-histórica? Noutras palavras, é possível para qualquer governo agir senão conforme a moral já estabelecida tanto no Congresso quanto nas relações com o eleitor, sem ferir o ambiente democrático?

    Acredito que a esquerda corrupta o é na mesma proporção que a direta quando no governo. Talvez as expectativas em torno da esquerda como referencial de honestidade e a sanha oposicionista em expor a esquerda como tragédia administrativa a partir da denúncia de sua moral tenha fechado os olhos mesmo dos analistas para a nossa moral, a moral do brasileiro, da qual a moral esquerdista é apenas reflexo.

    Guardadas as devidas observações sobre determinação (não estou sugerindo determinação absoluta, apenas níveis ou graus de determinações) creio que a esquerda é mais vítima do que segmento distinto dos demais brasileiros por conta de sua moral degenerada.

  12. Johnnatah 16/05/2017 / 15:56

    Só um adendo: o MBL nunca fez protesto contra Cunha. Muito pelo contrário. O MBL era abastecido com carros, dinheiro, residência em brasilia para apoiar o impitiman. Isso foi dito por um dos Coordenadores nacionais do MBL. E isso quando já se tinham fartas provas contra Cunha.

    Eles ficaram contra Renam apenas pq este, disse que é contra a reforma da previdência e trabalhista.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s