Ciência e religião: do conflito à coexistência possível

michelangelo-criacao-do-sol-e-da-luaO físico Stephen Hawking disse certa vez que “Deus pode até existir, mas a ciência pode explicar o universo sem a necessidade de um criador”. Esse pensamento tem uma importância singular para a compreensão que temos da origem do universo e da vida:  levamos milênios para chegar a essa condição, embora os saberes necessários para a compreensão disso não sejam dominados ou sequer vagamente compreendidos pela maioria das pessoas. Então isso quer dizer que a ciência expulsou Deus da explicação do mundo?

Em um livro chamado O Grande Projeto, escrito em parceria com Leonard Mlodinow, Hawking deixa claro que para explicar a origem do universo não é necessário recorrer à intervenção de nenhum ser sobrenatural ou Deus. Foram os avanços do último século e meio que nos permitiram prescindir da ideia de um criador para a explicação do mundo. Mesmo na era moderna, durante a Renascença (séculos XV e XVI), a religião e a criação foram tema de importantes obras que se imortalizaram, como uma das pinturas de Michelangelo na Capela Sistina, A Criação do Sol, da Lua e dos Planetas, que ilustra esse artigo.

Embora os grandes representantes da ciência ao longo da história tenham sido pessoas profundamente envolvidas em crenças religiosas, como Galileu, Pascal, Newton, entre outros,  esses homens devem ser compreendidos pelo tempo em que estavam inseridos e a nós cabe compreender que uma coisa eram suas convicções pessoais e outra as leis da natureza que descobriram.

Na modernidade, especialmente nos séculos XVII e XVIII, o método científico foi desenvolvido como resultado dos esforços de diversos pesquisadores para compreender a natureza. Naquele contexto, para muitas pessoas a ciência era tanto uma forma de compreensão da natureza como também da obra divina. Não havia uma clara separação entre ciência e religião. Foi somente na segunda metade do século XIX e especialmente no XX que o conhecimento científico ganhou autonomia, com a divisão das áreas de conhecimento e o fim de sua dependência da Teologia. Einstein,  por exemplo, embora fosse bastante espirituoso, era um grande crítico das religiões institucionalizadas, especialmente o monoteísmo. Sua espiritualidade, no entanto, não era no sentido religioso, o que o tornava praticamente um ateu.

Um fato importante que o avanço da ciência nos últimos séculos demonstrou é que quanto mais conhecemos de menos Deus(es) precisamos, ou seja, quanto mais explicamos o universo, menos precisamos recorrer à intervenção de qualquer ser ou força sobrenatural. Como dizia Carl Sagan, há mais de quinhentos anos não se apresenta novos argumentos a favor da existência de Deus, permanecendo ainda as questões colocadas por Tomás de Aquino e os demais teólogos da Escolástica. O que geralmente os religiosos argumentam é que a ordem no universo aponta para um criador, uma visão mecanicista hoje superada, conforme demonstrou o físico Marcelo Gleiser em seu livro Criação Imperfeita.

Muitas pessoas que ignoram a forma como se faz ciência dizem que o fato de ela não postular verdades absolutas a torna vulnerável perante a religião, ou a torna um conhecimento incerto. Geralmente as pessoas que pensam assim querem se reportar ao fato de a ciência não oferecer um sentido para a morte, um significado final para a vida. Isso não está errado, mas a argumentação que sustenta isso mistura alhos com bugalhos. Pois é justamente na incerteza que resulta o mérito do conhecimento científico.

Diferentemente da religião, a ciência não está firmada em absolutos, não tem nenhuma autoridade acima de qualquer crítica e nenhum princípio que não seja passível de revisão ou contestação. O conhecimento que temos de um fenômeno só pode ser chamado de científico pela nossa capacidade de medi-lo e qualquer pesquisa pode demonstrar equívocos em uma teoria anterior.

O avanço da ciência nos últimos cinco séculos colocou Deus em um espaço cada vez mais reduzido e hoje ele se confina à vida particular, a ser uma alternativa para a morte, uma explicação ou consolo para o caos, mas não mais a causa incriada de tudo o que existe.

Certamente o conhecimento científico não invalida a religião e ambos não estão, necessariamente, em polos opostos. Mas quando a segunda intervém no primeiro, aí poderemos ter grandes problemas. Como a religião está fundamentada em dogmas, verdades eternas tidas como reveladas, é embaraçoso para os teólogos abrir mão de alguns deles, o que representaria a possível deserção de muitos fiéis.

Galileu representa um divisor de águas na história do pensamento científico por pelo menos três motivos: a confirmação da teoria copernicana (o que o colocou em posição de confronto com a Igreja), a compreensão de que a Bíblia não pode ser tomada como parâmetro para a compreensão do funcionamento do universo e a consolidação da matemática como método de investigação da natureza.

No século XVII, quando Galileu explicou ao papa Urbano VIII que podia provar a teoria de Copérnico, o papa o interrompeu e questionou sua intenção de provar o heliocentrismo. Disse ainda que Galileu deveria falar desse assunto como uma hipótese, mas não tentar prová-lo, porque a prova anula a fé e sem fé não há religião. Naquele contexto, quando a Igreja via sua hegemonia ser subtraída pelo avanço protestante, era preciso impedir que cientistas curiosos se tornassem outra pedra no sapato de Roma. Desde 1616, o livro de Copérnico e todas as obras que afirmavam o movimento da Terra foram incluídos no Índex de livros proibidos da Igreja. Quando Galileu publicou seu Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo, ficou claro que ridicularizava a posição da Igreja e enaltecia Copérnico. Urbano VIII considerou a obra uma afronta ao papado e levou suas divergências pessoais com Galileu às última consequências. Por sua insistência, o florentino foi intimado pelo Santo Ofício a abjurar a tese que defendia, foi proibido de ensiná-la, divulgá-la e penalizado com prisão domiciliar.

O caso de Galileu se tornou uma das disputas mais emblemáticas entre ciência e religião na história moderna e evidenciou até que ponto a Igreja estava disposta a ir para impedir o avanço de um conhecimento que ia de encontro à sua cosmologia. De toda forma, o papa tinha muitas razões para se preocupar com a questão de que a prova anula a fé e sem fé não há religião. À medida que a modernidade avançou, a religião foi perdendo sua condição privilegiada de explicação do mundo, em um processo que o sociólogo alemão Max Weber chamou de desencantamento do mundo.

Mas as reações a isso não pararam no século XVII. No início do século XX, o fundamentalismo surgiu como uma vertente teológica do protestantismo norte-americano reafirmando a literalidade da Bíblia, para fazer frente ao evolucionismo darwinista e à teologia liberal de matriz alemã que se utilizou da pesquisa histórica para investigar a veracidade das narrativas bíblicas.

Por isso, é preciso esclarecer às pessoas que a Bíblia é um livro normativo e não explicativo, ou seja, foi escrita com o objetivo de estabelecer normas de conduta e não descrever o funcionamento do cosmos, como Galileu de certa forma já havia compreendido no século XVII. Suas narrativas são alegorias e não eventos históricos ou descrições científicas.

Se não considerarmos suas narrativas alegóricas, teremos que perguntar, por exemplo, por que Deus teve receio de que os homens que construíram a Torre de Babel pudessem chegar aos céus se eles nem mesmo podiam atravessar a atmosfera? Como Deus poderia não saber disso? E quanto aos Salmos 93 e 103 que dizem ser a Terra fixa e imóvel? Quantas explicações esdrúxulas os teólogos têm dado para justificar a passagem do livro de Josué de que o sol parou apenas para não abrir mão do princípio de que um livro divinamente inspirado não pode errar? Nem todos os teólogos pensam assim, mas os fundamentalistas ainda insistem na postura de transformar a Bíblia em um manual de ciência. Por isso é importante lutarmos pela educação laica, não controlada ou cerceada pela religião.

Quando Hawking diz que podemos explicar o universo sem a necessidade de um criador não quer dizer que a religião tenha perdido completamente seu valor como fenômeno social e cultural. A religião pode ser um importante meio cultural para se ensinar as pessoas a se tornarem melhores, ajudá-las a recuperar-se de vícios e até adquirir autoestima para construir uma nova vida, fornecendo-lhes motivação e esperança.

A ciência, por outro lado, não pode fazer o mesmo, porque não é normativa, mas explicativa. Somente quando reconhecemos essas diferenças podemos estabelecer que os dois campos não sejam necessariamente antagônicos. Reconhecer essa diferença e os limites de cada uma dessas áreas é o primeiro passo para não cometermos erros como fez a religião com Miguel Servet, Giordano Bruno e Galileu, nem incorrermos nos erros alguns regimes políticos que tentaram abolir a religião em nome do que entendiam como ciência.

Leia também:

A inutilidade da Teologia

Criação e Evolução: notas sobre um debate sem fim

Uma análise do livro “A Linguagem de Deus”

Genética e espiritualidade

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5 comentários sobre “Ciência e religião: do conflito à coexistência possível

  1. Rogério Tosta Batista 15/01/2017 / 16:32

    Perfeito… gostei muito dessa explicação….e portanto.. postagem… Parabéns aos Autores…venho à um tempo… querendo me LIBERTAR do jugo da religião…e realmente me identifiquei muito com matéria…. até a próxima… abraços.

  2. JOSE ROBERTO DE LIMA MACHADO 15/01/2017 / 16:33

    Muito Bom Professor!…mais uma vez parabéns.A sua capacidade de simplificação e objetividade, torna fácil o entendimento. Viabiliza, a percepção do real propósito dos primitivos textos/compêndios.Uma ferramenta para os que desejarem compreender as “razões” e “propósitos”,legados.A construção do CONHECIMENTO,sob uma plataforma inconclusa,mas evolutiva, iterativa e auto-corretiva, em detrimento do FANATISMO fácil e estéril.

  3. Marcus Canesqui 16/01/2017 / 11:37

    Parabéns professor, mais uma vez.
    Infelizmente vivemos em um país em que é muito mais fácil entender que um deus criou tudo do que entender o criacionismo ou as teorias de Hawking. Só o ensino pode tirar-nos do limbo da ignorância e ficar a mercê de charlatões e aproveitadores de toda espécie.
    Obrigado por mais uma aula, professor Bertone.

  4. Germano 16/02/2017 / 9:54

    “por que Deus teve receio de que os homens que construíram a Torre de Babel pudessem chegar aos céus se eles nem mesmo podiam atravessar a atmosfera”

    Ninrode, o designer da Torre de Babel, o “portão de deus, um gigante da raça dos Nephilim autorizou o plano para a torre… que estava associado ao mito de Nergal … um Nephilim é a cria de cientistas genéticos extraterrestres (anjos)

    Então Ninrode não era apenas um Nephilim, ele não só projetou a Torre de Babel (“portão de deus”), e não apenas se associou a Marte e construiu a torre de Babel para o planeta prisão rebelde, mas ele, como os outros gigantes, era daimonic (demoníaco) em sua origem. O significado disso não pode ser deixado de lado. Babel era um portal Nephilim, e está profetizado para ser a futura localização por onde os “portões” se abrirão e os “gigantes” retornarão.

    Será que os Nephilim, os descendentes dos anjos caídos, sabem de algo sobre a periferia do Kosmos ?

    Professor tu acredita em vida extraterrestre ? estamos falando de Ets aqui, uma historia Biblica

  5. RONALDO DA SILVA THOME JUNIOR 10/05/2017 / 23:15

    Olá, prof. Bertone, tudo bem? Sou cristão, membro de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. É interessante que apesar de não concordar com alguns autores, como Gleiser, Pierre Levy e Sartre, entendo que deve haver um equilíbrio entre todas as coisas. Eu creio nas Escrituras, por exemplo, mas não julgo as pessoas que não crêem. E assim acho que é bem melhor do que quando eu podia ser queimado vivo por ter uma crença que não era da maioria.

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