A aposta de Pascal

blaise-pascal-15A religião é uma das mais poderosas forças culturais em toda a história. A crença em Deus ou deuses pode ser explicada por vários fatores e algo que a torna particularmente atraente é a necessidade de um pai, um vigia, um juiz e justiceiro, um vingador, um amigo benevolente. Deus pode assumir algumas ou todas essas características dependendo do contexto e das crenças assimiladas por um indivíduo desde a infância ou após um processo de conversão.

O sentimento de impotência e medo frente ao desconhecido, especialmente a morte, garante que a crença em Deus e as religiões não desapareçam da vida social. Alguém que retratou bem isso foi o matemático e filósofo do século XVII Blaise Pascal. Ele fez uma abordagem sobre Deus que levou o nome de aposta de Pascal.

Sua aposta parte do seguinte raciocínio: como posso decidir entre acreditar ou não em Deus? Pascal respondeu da seguinte maneira: mesmo que as chances de Deus existir sejam pequenas, se uma pessoa decide acreditar nele e no final está certa, então ela ganha uma recompensa extraordinária, como a oportunidade da vida eterna, e se descobrir que estava errada, então não perde nada. Por outro lado, alguém que decide não crer e descobre depois que estava certo não pode esperar nenhuma recompensa; mas se estiver errado, estará em apuros. Então, para Pascal, é muito mais vantajoso acreditar em Deus do que não acreditar.

Sua aposta é muito usada até hoje por teólogos e lideranças religiosas para justificar a fé. Contudo, há problemas nessa perspectiva que a maior parte dos crentes ignora. Alguém que falou sobre isso foi Bart Ehrman. Reproduzo a seguir suas considerações a respeito:

Na superfície, isso pode soar convincente, mas acho necessário colocar em uma perspectiva mais ampla. O problema é que decidir a favor ou contra um ponto de vista religioso específico não é como lançar uma moeda, quando existem apenas duas opções e consequências possíveis. Existem centenas de religiões no mundo. Você não pode escolher todas elas, pois algumas são exclusivistas e requerem um comprometimento total da pessoa. De modo que não se trata de uma proposição ou/ou, como os que defendem a aposta de Pascal às vezes imaginam.

Para colocar em termos simples, optar pelo cristianismo significa escolher contra o islamismo (para dar um exemplo). Contudo, e se a visão muçulmana de Deus e da salvação é a certa e a visão cristã é a errada? Aí não adianta ter feito a aposta de Pascal e escolhido o cristianismo.

Há tempos o cristianismo é uma religião exclusivista – o que significa que, historicamente, uma pessoa que decide ser seguidora de Cristo não pode ser também muçulmana, hindu ou pagã. Esse exclusivismo não impede uma pessoa apenas de ser cristã e algo mais, impede também que a pessoa seja um tipo de cristão diferente com um tipo de crença cristã diferente. Existem muitos tipos diferentes de cristãos, e alguns deles afirmam que não se pode ser salvo se não adotar a visão específica de fé deles. […] Existe uma enorme quantidade de opções, e qualquer uma delas poderia ser “a certa”[1].

Outro que fez uma crítica parecida à aposta de Pascal foi Richard Dawkins. Ele disse:

Suponha que o deus que o confrontar quando você morrer seja Baal, e suponha que Baal seja tão invejoso quanto disseram que era seu velho rival Javé. Não seria melhor que Pascal não tivesse apostado em deus nenhum, em vez de apostar no deus errado? O próprio número de deuses e deusas em potencial que se poderia apostar não corrompe toda a lógica de Pascal? Pascal estava provavelmente brincando quando promoveu sua aposta, assim como estou brincando para descartá-la. Mas já encontrei gente, por exemplo na sessão de perguntas depois de uma palestra, que apresentou seriamente a aposta de Pascal como um argumento a favor da crença em Deus, por isso tive motivos para dar a ela um breve espaço aqui[2].

As duas abordagens são irretocáveis no sentido de mostrarem bem a fragilidade da aposta de Pascal.

Além disso, podemos acrescentar algo ao pensamento de Bart Ehrman. Na maior parte dos segmentos cristãos, não basta apenas acreditar em Deus. Você deve ainda seguir um conjunto de regras estéticas e morais para conseguir a salvação, deve passar por privações (como não ter relações sexuais antes do casamento, não frequentar determinadas festas seculares, não namorar ou casar com pessoas fora de seu círculo religioso), usar determinado tipo de roupa, pagar obrigatoriamente dízimos (algumas igrejas dizem que você vai para o inferno se não o fizer) e seguir padrões de santidade sempre utópicos.

Pascal era um homem do século XVII e sua aposta reflete a mentalidade de sua época. Chamamos de mentalidade as estruturas de comportamentos e crenças que os indivíduos têm em comum com outras pessoas de seu tempo. A mentalidade diz respeito ao inconsciente coletivo, por isso é impessoal, e seu conteúdo em geral não é apreendido pelos sujeitos particulares. Fenômenos relativos ao comportamento social, vida cotidiana, assim como crenças relacionadas à morte, ao nascimento, ritos de passagem, ao corpo, etc., constituem o arcabouço da mentalidade de uma determinada coletividade.

A era moderna (séculos XV-XVIII) foi marcada pela Renascença, o individualismo, a ascensão do comércio, dos Estados Nacionais europeus, pelas inovações trazidas pela imprensa e a unificação da Terra com as Grandes Navegações. Mas também foi marcada pela continuidade dos medos oriundos do período medieval e a disseminação de outros temores coletivos.

Desse modo, a aposta de Pascal é uma aposta no medo. O medo foi tema da obra de dois importantes historiadores do século passado: Georges Duby[3] e Jean Delumeau[4]. O segundo aborda os medos coletivos da sociedade europeia no período que abarca do fim da Idade Média ao final do século XVIII.

Delumeau demonstra que o medo era algo onipresente naquele mundo, como a licantropoia, adivinhação, eclipses, cometas, fetos mortos e abortados, crianças não batizadas, mulheres que morriam durante o parto ou noivos antes do casamento, suicidas, enforcados, afogados e pessoas que faleciam de morte não natural ou violenta e, especialmente nas regiões mais fortemente protestantes, o medo do Juízo Final e da proximidade do milênio.

A era moderna também se caracterizou pelo medo escatológico, a crença na onipresença do Anticristo e também em demônios, assim como o medo de Satã e seus agentes no mundo: o idólatra, o muçulmano, o judeu, o herege. A aposta de Pascal também ilustra uma época em que religião e ciência estavam muito próximas e não se concebia a vida e o universo sem a existência de um criador. Era uma época em que as crenças religiosas compensavam o sentimento de fraqueza no mundo mesmo para algumas mentes mais brilhantes.

Hoje muitas pessoas que vão à igreja não necessariamente a frequentam por medo do inferno, mas por seguirem uma tradição familiar, ou em busca de sociabilidade ou em busca de significados que não estão relacionados ao terror psicológico do deus vingador e punitivo.

As sociedades seculares contemporâneas relativizaram os absolutos da religião e abriram um leque de possibilidades de estilos de vida que prescindem da crença em divindades. Com isso, também dirimiram ou redirecionaram os medos voltados para questões religiosas e mágicas para questões do mundo secular: o medo do desemprego, da guerra, da violência urbana, do abandono, sem, contudo, abolir os medos oriundos das religiões.

De uma mesma Bíblia já se criaram inúmeras doutrinas, a maior parte delas reivindicando filiação à tradição apostólica e a exclusividade da interpretação correta das escrituras; cada uma recria deus ao gosto de uma nova liderança e contemporiza dogmas de acordo com formações culturais e tendências pessoais. Outras pessoas se sentem muito confortáveis acreditando no deus cristão e fazendo tudo o que gostam porque pensam que deus será bom o suficiente para não condená-las ao inferno.

Por que então as pessoas não raciocinam em torno de algo tão simples: que Deus, deuses e religiões são criações humanas e culturais, mudam continuamente de acordo com os gostos, vontades e empáfias humanas, que os livros sagrados são todos muito humanos e  tudo o que chamam de coisas divinas não passam de interpretações humanas? A vontade e necessidade de acreditar frequentemente se impõe sobre a vontade de conhecer, de saber, de compreender os fundamentos históricos da própria crença.

O primeiro passo para a descrença é o indivíduo compreender que as demais religiões são tão válidas quanto a sua. Mas a relativização da religião não traz necessariamente a descrença. Ela pode trazer também uma visão mais tolerante, um olhar mais valorativo para a vida, a busca por bem-estar pessoal, o ímpeto para ajudar outras pessoas sem usar isso como meio para convertê-las a um credo.

No entanto, o medo do inferno ou de um Deus punitivo e ciumento ainda mantém muitos fiéis nas igrejas. A inculcação do medo também garante o prestígio e o estilo de vida de muitos líderes religiosos. A relativização dos absolutos da religião também pode não levar necessariamente ao desaparecimento da religião, mas, como argumentou Don Cupitt[5], à emergência de religiões sem deuses, sem pretensões de atingir uma ordem objetiva transcendente e mais voltadas para assuntos humanitários.

Mas, para as religiões exclusivistas, a aposta de Pascal continuará a ser um poderoso instrumento de dissuasão.

Leia também: 

Por que não é possível acabar com a religião? 

Por que a crença no inferno ainda importa? 

Notas

[1] EHRMAN, Bart. Como Jesus se Tornou Deus. São Paulo: Leya, 2014, p. 380-381. Grifos do autor.

[2] DAWKINS, Richard. Deus, um delírio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 147.

[3] DUBY, Georges. Ano 1000 ano 2000: na pista de nossos medos. São Paulo: Editora UNESP/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1999.

[4] DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente: 1300-1800. São Paulo: Companhia da Letras, 1989.

[5] CUPITT, Don. Depois de Deus: o futuro da religião. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. Veja uma apresentação dessa obra no link a seguir: https://bertonesousa.wordpress.com/2013/07/11/pos-teismo/

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5 thoughts on “A aposta de Pascal

  1. Edson Silva 19/12/2016 / 12:14

    Pois é, enquanto tivermos um pseudo Estado laico, onde política e religião se imiscuem, com pastores deputados e senadores devotos, defendendo absurdos na tribuna do congresso, isso aqui não vai passar de uma república das bananas!

    • Rogério Tosta Batista 15/01/2017 / 16:43

      É isso. Aeee… ótima colocação…. Lamentável….esse Estado Laico… é uma tremenda…. enganação…

      • Alan 22/02/2017 / 14:10

        Falou tudo amigo. A falsa laicidade do estado brasileiro é um câncer para a integridade da população e para a instabilidade estatal. Se vemos mais de 40 mil mulheres anualmente morrendo vítimas de abortos clandestinos não é porque o estado considera o aborto crime doloso, é porque a Igreja considera o aborto crime doloso e como o estado brasileiro nunca se desprendeu das correntes cristãs hoje, como vemos, está piorando e só tende a piorar, enquanto isso HOLANDA caminha a passos largos.

  2. Paulo Santoro 19/12/2016 / 17:22

    A frase “Pascal era um homem do século XVII e sua aposta reflete a mentalidade de sua época” resume toda a questão. Nem eram necessárias as observações de Ehrman e Dawkins, porque atualmente é claro que a aposta de Pascal não tem mais sentido. Hoje já temos uma visão mais abrangente sobre toda a religiosidade no mundo.

  3. Daniel 09/01/2017 / 20:37

    Olá Bertone,gostaria de saber,o que você diria sobre a afirmação da direita conservadora que a sociedade ocidental é baseada nos valores cristãos?
    Nando moura sempre diz que a moral é baseada,além do cristianismo,no direito romano e na filosofia grega,se não me engano.

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