O Brasil de hoje: ideologias no liquidificador

operacao-lava-jatoSe algo ficará marcado no ano de 2016 será a completa capitulação de todo o campo das esquerdas no Brasil. Ninguém é responsável por isso exceto elas mesmas: criaram para si um caleidoscópio de ilusões cujo rápido desmanche não deixou nada além de clichês e centrais de mentiras.

Não se trata apenas do PT e do populismo. As raízes dessa crise ideológica vão além e está intrinsecamente ligada à incapacidade dos militantes (e isso não é apenas na esquerda, obviamente) de mudar de avaliação e de posicionamento diante de novos eventos. A mente adestrada para pensar apenas ideologicamente não consegue compreender a mudança quando esta lhe é desfavorável, não consegue perceber seus próprios erros de raciocínio. O pensar ideológico jamais aceita o próprio erro.

Embora a esquerda jamais tenha sido um campo homogêneo, sua história pode ser dividida em duas fases: a primeira, com raízes na Revolução Francesa, define a esquerda como o Terceiro Estado, que ocupava um lugar à esquerda do Rei na Assembleia dos Estados Gerais na França. Nesse momento a esquerda representava os grupos que queriam o fim dos privilégios de nascimento e levantava as bandeiras da razão, da liberdade e da igualdade. Sem abandonar totalmente essa característica, ela assumiu outro matiz a partir de 1848: o anticapitalismo. Na esteira do fracasso das revoluções europeias daquele ano, o socialismo se transformou na ideologia por excelência dos movimentos trabalhistas na luta contra as injustiças sociais.

Um século e meio depois, com a queda do muro de Berlim e o fracasso do projeto socialista, o anticapitalismo perdeu a razão de existir, as transformações na classe trabalhadora afastaram qualquer possibilidade revolucionária e a esquerda entrou em aguda crise de identidade que reverbera até nossos dias.

As últimas décadas não foram as melhores para as certezas dos militantes de esquerda. O fim do comunismo não deixou alternativa favorável para se resolver os problemas da sociedade fora da democracia liberal. Sem conseguir aceitá-la no todo, a esquerda se acomodou ao jogo democrático mas manteve os olhos e os desejos nas ditaduras das quais se tornou saudosista, sendo a principal delas a cubana. O antiamericanismo ajudou a manter os pés fixos no passado, impossibilitando à esquerda latino-americana abandonar a visão terceiro-mundista tão nociva a uma compreensão dos novos tempos. Uma vez no poder, não conseguiu superar os próprios vícios: degringolou para autocracia em alguns lugares, como a Venezuela, e para propinocracia no Brasil.

No mundo desenvolvido houve uma diluição das forças ideológicas do século XIX pela melhoria geral da qualidade de vida da população ao longo do século passado. Aqui, por outro lado, essa diluição não ocorreu por causa de uma sociedade de bem-estar, mas porque direita e esquerda se nivelaram na defesa de regimes autoritários, no populismo despolitizante e na corrupção desenfreada.

O PT, por sua vez, incorreu em um erro homérico quando passou a financiar sites e blogs para falar apenas bem do governo. Quando a Lava Jato desnudou uma rede imensa de esquemas de propinas centradas na Petrobras e cujos fios se estendiam para muito mais longe, incluindo o financiamento dessas páginas, os ataques de seus colunistas às investigações, juízes e outros agentes se tornaram uma constante.

Muito dinheiro público foi usado no financiamento desse jornalismo marrom para que se escrevesse apenas bem do PT, mas o problema foi que o partido e seus militantes passaram a acreditar nisso. Com a Lava Jato, os sites ligados ao partido se tornaram poderosas centrais de mentiras e boatos e até calúnias, em detrimento de qualquer ética jornalística. Milhares de leitores no país todo, talvez milhões, ideologicamente de esquerda, passaram a tomar essas manchetes como verdadeiras de tal forma que, mesmo diante das denúncias e das fraudes jornalísticas escandalosas, essas pessoas não conseguiram se desvincular do que esses veículos publicavam.

A mentira e o engodo se tornam doces aos ouvidos de quem se acostuma a ouvi-los.

Apoiada por esses veículos, a esquerda travou uma guerra semântica atroz em torno do impeachment. A narrativa do golpe ganhou ares de uma teologia, aliada à insistência de uma manipulação da “grande mídia” sobre as massas passivas e humildes, incapazes de resistir ao efeito Globo de alienação. Enquanto todo esse discurso destoava do que as pessoas pensavam, de como se informavam e do que sentiam, a esquerda se condenou a um diálogo se surdos e a um apartheid semântico entre seu repertório de sentidos e o que acontecia na vida social.

Acostumada a ser a porta-voz do povo, a falar em seu nome, a esquerda não entende mais por que esse povo não lhe dá mais ouvidos. Como se não bastasse, começaram a apelar a teorias de conspiração: a mídia manipuladora, Moro treinado pela CIA, os Estados Unidos de olho no pré-sal. Qualquer devaneio serve para continuar a dar suporte à narrativa do golpe. Tudo, menos reconhecer que o PT se tornou uma quadrilha.

A perda do monopólio das manifestações de rua foi apenas um dos sintomas mais evidentes desse divórcio entre esquerda e sociedade. Enquanto as esquerdas foram arrastadas pelo petismo para a defesa intransigente do banditismo e da ladroagem, as redes sociais passaram a dar o tom do descontentamento social que tomou as ruas do país. Movimentos de centro-direita puxaram as principais reivindicações políticas no ano. O MBL e o Vem pra Rua se tornaram a ponta de lança desses movimentos. Ao convocar manifestações, levaram milhões de pessoas às ruas contra a corrupção. Sem unidade ideológica e vinculação partidária, chamados de “fascistas” e “coxinhas” por seus desafetos apaixonados pelo petismo, as classes médias que formam o grosso dessas manifestações foram responsáveis pela queda de Dilma, de Cunha e por fim por uma oposição ferrenha a Renan Calheiros.

Mas um movimento como o MBL tem grandes defeitos: num país com as desigualdades gritantes como o Brasil, se limitam a defender um liberalismo econômico novecentista, além da incapacidade de seus expoentes de análises estruturais sérias da realidade brasileira e sua insistência em se colocar contra programas sociais e políticas de redistribuição de renda. Intoxicados por um anti-esquerdismo estéril, os autoproclamados liberais no Brasil são liberais coxos: leem Mises mas não leem Rawls.

O Brasil que a Lava Jato trouxe a público, a leniência na condenação de réus e investigados no Congresso e no Senado desvelaram apenas o imenso fracasso que o país se tornou, para usar uma expressão de Clóvis Rossi em editorial na Folha (08/12/2016). Com uma Suprema Corte que delibera para que um réu continue a presidir o Senado, com instituições e virtualmente toda a classe política desmoralizada pela propinocracia, a democracia no Brasil se revelou um fracasso estrepitoso. Por outro lado, ditadura de qualquer viés é incogitável para quem tem um mínimo de escolarização e bom senso.

Toda a crise moral e institucional que vivemos tem uma causa central: a falta de honestidade na condução da coisa pública. No reino da propinocracia brasileira, fisiologismo fala mais alto que fidelidades ideológicas. É o PC do B aliado do PSC e PSDB no Maranhão, o PT aliado do PMDB em várias campanhas municipais de 2016, a Globo que preferiu apoiar Marcelo Freixo do PSOL  a Crivella no Rio, é o PT e PC do B votando a favor da distorção do pacote anticorrupção na Câmara na calada da noite.

Esquerda e direita se tornaram impotentes para responder às necessidades de uma sociedade desacreditada e massacrada por más políticas. A esquerda perdeu mais ao longo do ano porque a confiança depositada nela pela sociedade foi muito maior nos últimos treze anos. O fracasso dos candidatos de esquerda e centro-esquerda nas eleições municipais de 2016 foi resultado de um sentimento geral de traição e decepção por parte de uma sociedade penalizada por uma crise que fora escondida embaixo do tapete.

Não há que se esperar autocrítica de quem quer que seja. Ideologias e convicções políticas foram trituradas no liquidificador das mudanças políticas e das investigações judiciais ao longo do ano. Caciques de partidos perderam credibilidade. Os militantes não perceberão o quanto sua retórica não corresponde a essas mudanças. Continuarão seu diálogo de surdos. Mas a Lava Jato representa uma importante sinalização da transformação que o país precisa. A sociedade já compreende que fora da democracia não há alternativa favorável. As manifestações já refletem isso, sua horizontalidade é um ponto positivo que merece ser destacado, embora uma minoria continue a clamar por intervenção militar. Mas a democracia brasileira deve avançar e se fortalecer.

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6 thoughts on “O Brasil de hoje: ideologias no liquidificador

  1. Francisco Robson 08/12/2016 / 19:05

    Olá caro Bertone, como de praxe você nos brinda com mais um artigo equilibrado, honesto e efetivamente apartidário, do qual tenho somente à agradece-lo pela iniciativa. Compreendo este desencanto não somente com o PT , mas com um formato de politização que a esquerda brasileira não se ateve à constatar que esta defasado, levando-a à um descompasso entre aquilo que ela pensa em ser vital para à classe que diz representar, e o que a classe trabalhadora de fato demanda nos dias atuais. Creio que o PT destruiu toda uma projeção de futuros governos progressistas ( independentemente de agremiações), e a tônica da austeridade econômica e baixo investimento social serão constantes doravante. Se me permite destoar de sua observação sobre os movimentos de direita como “MBL” e “vem pra rua”; não os enxergo como células de um fenômeno social que se organiza para combater a corrupção sistêmica do país, muito em virtude de suas pautas de protesto sintetizarem um amálgama hermético entre PT + corrupção + Foro de São Paulo = comunismo, ao passo que integrantes de tais movimentos não vêem a antinomia de bradar contra o banditismo que o PT praticou, e tirarem selfies com figuras como Eduardo Cunha por exemplo. Agora em se tratando das medidas anti corrupção que tramita, penso que é o momento mais errôneo de se aprovar, exatamente pelo instante das crises éticas e institucionais que atravessamos, das quais você versou.Mas entendo que houve excessos normativos por parte do judiciário em algumas medidas e temor e afã do legislativo em transformar a gerência da administração pública em uma cleptocracia, por destacarem alguns dispositivos que os blindam de investigações.

  2. Eu deixei de seguir os veículos como carta capital face a grande previsibilidade dos seus editoriais, mas acho que boa parte dos interlocutores supervaloriza essa questão dos blogs sujos. A quantidade de recursos captada por Brasil 247, conversa afiada e outros, é ínfima se comparado com os gastos da união em veículos de grande circulação da imprensa tradicional. Claro que financiar jornalistas é uma prática espúria, entretanto, não sei se estou pronto a pedir a cabeça do PT por causa disso, e digo isso considerando as posições recorrentes na imprensa, como o último episódio contracenado entre presidente Michel e o programa roda viva. Então aqui me deparo com a questão que se afasta do julgamento puro e simples para arguir, se, na praxe, havia outro caminho possível de se percorrer quando vencer as eleições faz parte do ideal de qualquer partido. Sou bastante crítico ao PT, e nem votei em Dilma nas últimas eleições, porém ainda não cheguei a uma conclusão definitiva sobre o quanto o modus operandi corrompido do PT era inerente ao jogo político, e quanto disso se deve ao que se possa denominar como pecado do partido.

  3. Marcus Canesqui 09/12/2016 / 15:00

    Manda o link pro Nando Moura, ele precisa aprender um pouco.

  4. Marcus Canesqui 09/12/2016 / 15:09

    Fica cada dia mais claro que os únicos que se importam com ideologia são os “trouxas” (povo), pois os “espertos” (políticos), não estão nem aí para isso. Para eles o que importa são os INTERE$$E$ pessoais.

  5. Marcus Canesqui 09/12/2016 / 15:19

    É lamentável ver como blogueiros e pseudo-intelectuais se aproveitam do baixo nível de discernimento por parte da maioria para disseminar ideologias, mentiras históricas, divulgar trabalhos de pessoas mais que suspeitas, desinformação, etc. Os jovens, principalmente, por que são mais sugestionáveis, ficam a mercê desse tipo informação já que não procuram por fontes seguras e abraçam em meio a facilidade e comodismo dos blogs e sites disseminadores de inverdades como o próprio Facebook, rede Globo, etc acreditam em tudo que essas pessoas vomitam.

  6. Vinicius 26/02/2017 / 20:26

    Se vermos o desenho do esquema de corrupção na Petrobrás, envolvendo empreiteiras que formavam o cartel para viabilizar as propinas aos agentes políticos que compunham a base aliada PT-PMDB-PP, e com provas recolhidas, inclusive a partir das delações premiadas, então faz sentido a conclusão proferida pelo procurador Dallagnol: temos a propinocracia, ou seja, um governo regido pelas propinas com a finalidade principal a perpetuação do PT no poder. É gozado como essas questões passam incólumes para militantes petistas ou somente simpatizantes à esquerda, e não notam a gravidade. Os fatos desnudados ali já engolem qualquer retórica viciada dos discursos ideológicos e nos permitem então avançarmos à compreensão do que levou a esquerda cometer esses delitos. Mas não. Preferem ir na contra-mão, se lançando à uma empreitada insana contra àqueles que investigam e apontam evidências. E contra inclusive pessoas concursadas e competentes, que fazem o seu trabalho digno como exigem os encargos de seus ofícios.

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