Quem ganha e quem perde com o impeachment

brazil_impeachment-intervencao-militarNos últimos treze anos o PT exerceu o protagonismo na política brasileira. Por isso, em certo sentido, a queda de Dilma não representa apenas a queda de uma presidente, mas também de um partido. Amado ou odiado, o PT mexeu com a cabeça e o modo de vida da maior parte dos brasileiros.

Foi o primeiro partido a chegar ao poder com um projeto de país. A economia cresceu durante o governo Lula não apenas por causa dos ares favoráveis no cenário internacional, mas pela ampliação e execução de programas sociais, como o Bolsa Família, voltados para a redução da pobreza. O programa deu tão certo que se tornou modelo em outros países. Os investimentos na educação pública expandiram o ensino superior de forma inédita, assim como a expansão dos institutos federais, modelos na educação básica nacional.

Agora com Dilma fora do poder, muitas questões ficam no ar para quem tem uma posição mais à esquerda. A principal delas é a incerteza acerca do futuro dos programas sociais e até mesmo do ensino público superior e gratuito. Apesar de todos os erros que o PT cometeu, e não foram poucos, é compreensível que muitos ainda o defendam por causa do legado social.

Mas há um grave problema na postura das pessoas que amam e odeiam o PT: os conservadores o detestam por causa de algo que o partido não é e nunca foi: um partido comunista. Os discursos dos conservadores variam de uma grosseira ignorância histórica ao ódio e ressentimento incontidos. Já os progressistas defendem o PT por causa de algo que ele já foi e não é mais: um partido com um projeto de país e de inclusão social. O PT, especialmente Lula, fez política social, mas utilizou isso para fazer também populismo. Foi nesse ponto que o partido se perdeu em sua própria grandeza: não conseguiu se desvincular de vícios históricos da política brasileira. E levou tudo isso ao paroxismo.

A política é urdida como um jogo: nele se constroem alianças, conspirações, chantagens, disputas de egos, estratégias contra inimigos e adversários, não raramente contra aliados também. Todos sabem o quanto o fisiologismo e o presidencialismo de coalizão no Brasil tolhem a renovação, a visão para o social e o desmonte do poder dos aristocratas que se perpetuam no Senado.

Se alguém ganha com o impeachment são os vencedores de sempre: o grande empresariado e os grandes proprietários de terras. Ao verem Dilma perder as condições de governabilidade, pularam fora da aliança com o PT e se aliaram a Temer para costurar uma alternativa ao caos político ao qual o PT se enfiou e enfiou o país. Não por acaso, houve quem propusesse até jornada de trabalho de oitenta horas semanais. Isso demonstra o quanto o empresariado brasileiro tem um pé no capitalismo e outro na escravidão. Mesmo que ele viaje para o exterior e conheça a importância das leis trabalhistas e até da redução da jornada de trabalho para melhorar a produtividade, em sua própria empresa e país ele quer mão de obra escrava ou semi-escrava. Não consegue pensar o desenvolvimento com responsabilidade social. Ainda pensa como se estivesse no século 19 ou início do 20.

Além da corrupção que levou o PT a ter dois tesoureiros presos, assim como José Dirceu e alguns empresários envolvidos nos esquemas das empreiteiras, Dilma também falhou por ter feito um segundo mandato com uma política de direita, e com isso perdeu apoio em seu próprio eleitorado que, mesmo não conhecendo em sua maior parte a distinção entre esquerda e direita, viu sua qualidade de vida se deteriorar.

Quem perde com o impeachment são principalmente as esquerdas. Não apenas por causa do impeachment em si, mas pela forma como se entrelaçaram com o PT. Elas se comprometeram tanto com o lulismo (que se tornou uma forma de populismo de esquerda) que não conseguem mais aventar uma existência política independente dele. O neopopulismo petista corrompeu virtualmente todo o campo das esquerdas, que sem o PT se mostram fragmentadas, sem entendimento e sem um programa comum. O PSOL tem se destacado por uma postura aguerrida contra uma política econômica que objetiva cortar prioritariamente em direitos trabalhistas e programas sociais. Contudo, em outros aspectos o PSOL deixa a desejar, como no apoio a ditaduras e pela doutrina extemporânea que defende.

Foto: Classe média conservadora, que não entende nada de história e democracia, pede intervenção militar em manifestação em 2015. O PT não tinha adversários. Caiu por seus próprios erros.

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Notas políticas

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13 thoughts on “Quem ganha e quem perde com o impeachment

  1. Pedro Sousa 05/09/2016 / 22:07

    É , professor, se no artigo anterior eu discordei de muitas coisas , nesse concordo inteiramente.
    O centro-esquerda está órfão. Até FHC, em um artigo anterior, disse que os tucanos deveriam voltar a suas raízes, abraçando bandeiras sociais-democratas.
    O tombo foi grande , ea esquerda como um todo , vai demorar para se reerguer.

  2. Fabricio Farias 05/09/2016 / 23:37

    Resumindo a situação é essa Bertone. Vamos aguardar o que vem pela frente se teremos a reimplantação de um neoliberalismo puro sangue por um bom tempo, ou se essas mudanças sociais dos últimos anos produzirá a médio prazo algum fenômeno em nossa cultura política. Você concorda com a tese do fim da nova republica professor? Abraços

    • Bertone Sousa 05/09/2016 / 23:46

      Fabricio, a noção de nova República tem um sentido mais cronológico do que propriamente histórico, no sentido de ser uma mudança real em relação a períodos anteriores. A nova república tem muitas semelhanças com a velha: o coronelismo, por exemplo. O Brasil ainda tem clãs que governam seus estados como se fossem monarcas absolutistas e estão praticamente todos no Senado, ou representados lá. O populismo e o udenismo, um tipo de direita que fala muito mas não tem proposta nenhuma, ainda existem. Algumas coisas mudaram, principalmente na legislação, mas é uma República que ainda tem muito de velha.

  3. Reny Guerra 06/09/2016 / 8:44

    O Pt destruído a moral, respeito, ética, disciplina, vergonha, qualidade de vida e a honra dos brasileiros.

  4. luiz fernando antonio 06/09/2016 / 10:38

    Eu deixei a faculdade ha muitos anos e nos momentos atuais eu precisaria entender melhor o que vem a ser esquerda ou direita, comunismo, ou capitalismo; quem no mundo atual é comunista? ou capitalista? o que vem a ser na atual conjuntura cada um destes regimes? Sera que não é muito pueril e defasado ficar tentando identificar esta diferença simplesmente binaria? Entre o preto e o branco existem infinitas cores, sera que entre um regime e o outro não exitem milhares de situações diferentes?

  5. henry 06/09/2016 / 19:50

    É oq já havia comentado em alguns posts anteriores seus, assim como também muitos historiadores e cientistas politicos afirmavam, mas vc não enxergava: o excesso de ideologias de esquerda q estão atravessando algumas instituições, onde muitas destas acabam vinculando-se a partidos de esquerda menores, porém, estes com o intuíto de espalhar desesperadamente a atual retórica petista. Isto levou a esquerda brasileira à ruína. Mas ainda temos de conviver com militontos de esquerda, mesmo q agora mais dispersos.

  6. Roberto TK 11/09/2016 / 17:29

    Eu solicito que o senhor me explique qual o digno projeto de país que o PT exercia, porque ao analisar a economia brasileira vê-se que este país está prestes a se tornar um “Estado Falido” tendo em vista que a união necessita, todos os anos, aumentar a dívida para cumprir com seu orçamento (fora a taxa de juros impagável de 14%), logo eu concluo: não há projeto, política pública ou “legado social” correto quando feito com base em dívidas que podem deteriorar uma nação, levando-a ao fundo da miséria e aumentando a concentração da riqueza, que é o que irá acontecer, portanto veja bem o que você escreve, já que um verdadeiro projeto de país visa em primeiro lugar construir uma economia sólida e autônoma, como acontece em todos os países “fortes” do mundo, esse é o primeiro passo, qualquer coisa além disso, dívidas e má governabilidade, é ignorância e imbecilidade.

    • Bertone Sousa 11/09/2016 / 17:49

      Roberto, o PT esboçava um projeto de país, com crescimento e autonomia, antes de chegar ao poder. Mas ao chegar ao poder, isso se perdeu, especialmente a partir do Mensalão, em 2005. O partido se afogou em alianças com a velharia política em prol da governabilidade. Além disso, escorregou no populismo ao se escorar basicamente em políticas sociais para garantir reeleições, deixando de lado, entre outras coisas, investimentos em infraestrutura que pudessem dar solidez ao crescimento e incorreu na irresponsabilidade fiscal e na corrupção desenfreada que por fim colocou tudo a perder.

      • Roberto TK 11/09/2016 / 18:12

        Nesse sentido, o senhor acredita que é possível que a democracia brasileira resolva a atual situação? eu, sinceramente, tenho em mente que apenas a ligação entre o poder executivo e legislativo será capaz de tomar as medidas necessárias, desde reformas agrárias até tributárias, políticas, caso contrário com o nosso atual congresso é impossível pensar em um futuro próspero, dessa forma acredito que apenas um governo coordenado pelos melhores intelectuais que este país dispõe pode mudar algo, um país em que se gasta 123 bilhões com o executivo e legislativo de todos os municípios e 2 bilhões com um congresso está muito errado!

      • Bertone Sousa 11/09/2016 / 18:29

        Com esse Congresso não vejo perspectiva de que algo mude pra melhor. Creio que a melhor saída seria a sociedade assumir o protagonismo das reivindicações por essas reformas, algo que começou em 2013 e depois definhou. Deixar apenas nas mãos dos partidos e dos políticos dificilmente resultará em outra coisa que não seja fisiologismo.

      • Roberto TK 11/09/2016 / 18:38

        Na minha opinião a sociedade só irá tomar alguma atitude após tudo estar perdido, eu trabalho no TRE e grande parte dos cidadãos ativos não tem conhecimento algum sobre política, história do Brasil e afins, não é de se esperar que existem pessoas que defendem a ditadura militar, logo por mais que a sociedade busque algo, quem irá comandar essa atitude será sempre o mais sábio, o instruído, portanto ainda acredito, e trabalharei na minha carreira acadêmica, a perspectiva do Legislativo + Executivo, ou uma alteração notória no poder legislativo, tendo em vista que a maior parte dos brasileiro não realizam pesquisa a respeito do seu representante. Agradeço sua interação.

  7. marco carvalho 13/09/2016 / 14:27

    Quem ganha são aqueles que sempre ganham, os Treze bancos que controlam o mercado nacional e internacional, quem perde? Os que sempre perdem, o proletário, os trabalhadores liberais (que acham que são burgueses), o pobre que acha que um dia será rico; e tudo sai como sempre é planejado pelos detentores de poder; e mantém-se a ideologia, de que vivemos em democracia, que a riqueza é disponível para todo mundo, e que temos liberdade…A liberdade e a democracia só é real no capitalismo para quem tem dinheiro para pagar por elas.

  8. André 13/09/2016 / 18:21

    Geralmente discordo de muita coisa do que vc escreve, mas aqui concordo quase integralmente. Na minha percepção, a maior parte da esquerda era crítica ao PT, mas o apoiava (e ainda apoia) por falta de perspectiva, por medo de que sem o PT as políticas neoliberais se aprofundassem. Espero que a esquerda consiga se reorganizar e produzir novas perspectivas para além do PT.

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