O último ato de Dilma

dilma-aecio-senadoNão há dúvida de que nos últimos meses vivemos momentos históricos no Brasil. E nunca antes na história desse país a História foi tão evocada como nesses momentos decisivos do impeachment, por todos os lados. Pessoas tentando antecipar o juízo dos historiadores no futuro ou apelando ao passado, à ditadura e às perseguições políticas.

E assim as narrativas do golpe e não golpe continuam se confrontando. Já publicaram até livros sobre assunto. Em mais um momento histórico, Dilma foi ao Senado se defender num último ato para tentar barrar sua deposição. Embora tenha ficado cerca de treze horas respondendo perguntas, toda a sua fala pode ser resumida em algumas poucas frases, como a afirmação de que os créditos suplementares não configuram crime de responsabilidade. No mais, foram mais tergiversações do que outra coisa.

É natural que Dilma não tenha convencido os senadores, que já estavam decididos acerca de como votar. Mas é sintomático que não tenha convencido a sociedade de sua inocência. Na última peça do ato final, no discurso após a votação que confirmou seu afastamento definitivo, neste 31 de Agosto de 2016, ela voltou a falar em golpe e evocou os 54,5 milhões de votos que a elegeram.

Mas quantos desses eleitores foram às ruas defender seu voto e lutar contra o que Dilma chama de golpe? Tirando a militância paga não sobra praticamente ninguém. O ato final de Dilma foi inglório, tanto quanto a renúncia de Jânio Quadros em 1961. E o que aconteceu com esses 54 milhões de eleitores?

Um voto não é um cheque em branco que a sociedade dá a um candidato, especialmente um presidente. As pessoas não votaram somente na pessoa de Dilma, mas em seu programa de governo. Dilma prometeu continuar os programas sociais, a geração de empregos, prometeu não fazer ajuste fiscal e garantiu que as contas do país estavam equilibradas e sob controle. Além disso, preparou sua própria forca política ao pintar a oposição com cores maniqueístas, como aqueles que iriam surrupiar o emprego, a renda, o prato de comida e as conquistas sociais de milhões de brasileiros. A campanha de Dilma deu o tom aguerrido de um pleito marcado por uma guerra ideológica na qual apenas ela, o “coração valente”, poderia dar continuidade ao crescimento do país.

A vitória final em outubro de 2014 consolidou a divisão ideológica que a campanha havia traçado. Mas o que era para ter cessado no domingo das eleições (ao menos no plano dos petistas) continuou após aquele dia. Reempossada em janeiro de 2015, logo depois o país parece ter passado do sonho para o pesadelo. O ajuste fiscal veio como um machado no tronco da árvore, ou melhor, da expectativa dos que acreditaram que seria um bom governo, um governo progressista, como prometido.

Magoada não apenas com a derrota, mas com a retórica ideológica inflamada da campanha, a oposição logo acusou acertadamente Dilma de ter cometido estelionato eleitoral. O ajuste era pra ser rápido, mas foi mais demorado e doloroso do que o governo esperava. Em pouco mais de um ano, milhares de empresas fecharam, milhões de pessoas perderam seus empregos, impostos aumentaram exorbitantemente e continuamente, muitos estudantes universitários perderam as bolsas que financiavam seus cursos, obras pararam em todo o país, o PIB e a qualidade de vida caíram, e a inflação disparou junto com o preço da cesta básica.

Enquanto isso, as pessoas assistiam estupefatas as revelações judiciais sobre o petrolão que não atingiram apenas o PT, mas demonstraram que foi um esquema arquitetado e comandado pelo PT que sangrou em bilhões de reais a principal empresa pública do país, levando o governo a escamotear a real situação econômica do país deixando de repassar recursos aos bancos públicos para pagamento de programas sociais e outras despesas, além de tentativas de obstrução da justiça para evitar investigações contra Lula.

Em março de 2016, o que contava para Dilma não era mais 54,5 milhões de votos, mas um percentual de mais de sessenta por cento de insatisfação com seu governo que levou parte expressiva da sociedade a pedir ou pelo menos não se opor ao seu afastamento, começando pelas classes médias, as mais afetadas por seu ajuste fiscal.

O impeachment é ao mesmo tempo um mecanismo político e jurídico. Foi usado contra Collor em 1992 e o PT atuou ativamente no processo que levou à sua deposição. Todos os processos legais previstos no rito do impeachment foram rigorosamente cumpridos no caso de Dilma. Se ela e seu partido realmente acreditassem que se tratava de um golpe, poderiam convocar as Forças Armadas para barrar os golpistas ou, se isso não desse certo, buscar exílio político.

Ao invés disso, Dilma continuou residindo em Brasília, tendo garantidos todos os seus direitos como presidente afastada. Escrevia no facebook, recebia a imprensa, amigos, pessoas do partido. Falava abertamente sobre o que pensava acerca de tudo o que ocorria, jamais foi cerceada e jamais teve um direito constitucional revogado, como sempre acontece em golpes políticos. Dilma ainda colaborou e cumpriu voluntariamente todos os ritos do impeachment: seu advogado apresentou sua defesa no Congresso e no Senado, levaram testemunhas e ela mesma exerceu seu direito de defesa no Senado. Golpe na democracia? Tão pouco.

Cinquenta e quatro milhões e meio de pessoas que votaram em Dilma também votaram em seu programa de governo. Uma vez que esse programa foi completamente abandonado com repercussões muito negativas na economia e a concomitante exposição de crimes cometidos por sua gestão e seu partido, a sociedade retirou seu apoio ao governo dando base para a oposição efetivar o impeachment. O ato final de Dilma foi inglório e também marcou um divórcio entre a sociedade e o PT, que agora se encontra esfacelado e desacreditado por causa da corrupção.

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14 thoughts on “O último ato de Dilma

  1. Éderson Cássio 31/08/2016 / 21:48

    “Se ela e seu partido realmente acreditassem que se tratava de um golpe, poderiam convocar as Forças Armadas para barrar os golpistas ou, se isso não desse certo, buscar exílio político.”

    Deu-me um certo susto ler isto. Quer dizer que, mesmo em circunstâncias como esta, em que todas as formalidades legais são rigorosamente cumpridas, um governo poderia convenientemente considerar que foi golpe e convocar as Forças Armadas?

    • Bertone Sousa 31/08/2016 / 21:52

      A atitude seria no mínimo um contrassenso, Éderson. Não havia razão para convocar Forças Armadas se a Constituição estava sendo cumprida. Mesmo com a oposição cheia de gente também envolvida em corrupção, uma coisa não invalida a outra. Dilma sabia disso, o advogado e o partido também. Então foi melhor ficar apenas no campo da retórica sobre o golpe. Por isso coloquei esse trecho.

    • Latino 01/09/2016 / 14:58

      Forças ocultas… aniquila a questão ?

  2. César 31/08/2016 / 23:05

    “Tirando a militância paga não sobra praticamente ninguém. O ato final de Dilma foi inglório, tanto quanto a renúncia de Jânio Quadros em 1961. ” Já não posso mais seguir seus posts, caro Bertone. Pois você afirma coisas que tenho certeza absoluta não ser verdades. Haja dinheiro para pagar tanta gente protestantdo, e eu conheço algumas viu.

    • Bertone Sousa 31/08/2016 / 23:59

      César, faz tempo que o PT não tem militância que não seja paga. Quanto a esses que estão enfrentando a polícia nas ruas em algumas capitais, boa parte são estudantes desmiolados. Agem por impulso e de forma descoordenada. Agora, a única coisa que peço para quem me acompanha é que pense fora de cartilhas ou ideologias partidárias. Minha escrita é independente e quem também não consegue pensar de forma independente não vai se encaixar aqui. A rede está cheia de blogs chapa branca cujas publicações nunca destoam de suas certezas absolutas. Não faltarão opções para você.

      • ce 01/09/2016 / 14:35

        eu sempre busco pensar fora das ideologias partidárias. Não à toa que sempre leio seus textos. Mas tem muita militância petista sem ser paga, sim. E também tem militância que não é petista mas foi contra o que aconteceu, e eu me incluo nela.
        Então desculpa, mas vc tá falando uma inverdade. Sua percepção tá diferente do real. E na manifestação contra o impeachment de que participei na Av. Atlântica tinha estudantes desmiolados e militantes pagos sim, mas o que mais encontrei foram pessoas “normais”, inclusive com suas famílias.
        Então repense bem.

      • ce 01/09/2016 / 14:39

        Ah, e devo salientar que não votei na Dilma, mas as articulações que levaram ao seu impeachment foram de dar nojo.

  3. Roberto 01/09/2016 / 8:45

    Bertone, respeito muito tuas posições e realmente voce confirma, em tua preleção, que o impedimento prosperou por causa do conjunto da obra. Assumamos então que desejamos as benesses do parlamentarismo e não gostamos dos rigores do presidencialismo.

  4. Reny Guerra 01/09/2016 / 9:18

    STF E O SENADO DESCUMPRIRAM OU RASGARAM A CONSTITUIÇÃO EM JULGAR FATIADO

  5. Marcos Fernandes Gonçalves 01/09/2016 / 11:35

    “…a oposição logo acusou acertadamente Dilma de ter cometido estelionato eleitoral. O ajuste era pra ser rápido, mas foi mais demorado e doloroso do que o governo esperava. Em pouco mais de um ano, milhares de empresas fecharam, milhões de pessoas perderam seus empregos, impostos aumentaram exorbitantemente e continuamente, muitos estudantes universitários perderam as bolsas que financiavam seus cursos, obras pararam em todo o país, o PIB e a qualidade de vida caíram, e a inflação disparou junto com o preço da cesta básica….”

    “Acertadamente”? “Dilma de ter cometido estelionato eleitoral”? Menos, hein?

    Faltou você comentar que a crise (com queda de empregos, etc. etc. etc.) não superada por Dilma se deve, principalmente, a dois fatores:

    Crise internacional, que redundou em menor arrecadação de impostos por nosso governo, já que o preço das comodities (soja, por exemplo) caiu consideravelmente (queda da demanda); assim sendo, consequência foi queda de caixa, daí os três decretos para arrecadar dinheiro e bancar projetos sociais;

    Segundo (na verdade, esse o mais relevante), que você simplesmente esqueceu – ou desconhece -, foram as pautas bombas que Cunha ordenou para boicotar todos os projetos que a Presidenta levou à votação para amenizar a crise.

    Bertone, gosto muito dos seus posts – sou leitor do seu blog -, mas tem hora que você se esforça sobremaneira para parecer “isentão”. Acho que o efeito é o contrário, hein?

  6. ce 01/09/2016 / 14:40

    Não encaro como um golpe, encaro como uma traição

  7. André 01/09/2016 / 21:43

    Não sei até aonde aqueles que votaram em Dilma abraçaram a oposição por ela ter cometido o estelionato ou por influencia dos meios de comunicação. Parece um contrassenso eles abraçarem a oposição que promete aprofundar os ajustes fiscais que eles votaram contra.

    Compartilho da opinião do jornalista Bob Fernandes. Não é um golpe, mas, sim, uma farsa.

  8. Allan 02/09/2016 / 16:05

    O ajuste fiscal da Dilma foi brincadeira de criança perto do que ta vindo aí. E igualmente não foi o que o povo escolheu nas urnas. E igualmente o povo também não quer o Temer. E mais, obviamente terá o apoio da máfia midiática. Não eximindo o PT das suas responsabilidades, mas esse impeachment foi uma eleição indireta apoiada e patrocinada pelos patos da Fiesp e outros setores da elite empresarial, tudo para levar adiante um projeto de governo neoliberal, um projeto não eleito. Será uma machadada mais profunda. Além é claro, de uma vez no governo, acabar com a Lava Jato, como Jucá nos “revelou”. Nenhuma novidade, pois as intenções peemedebistas com a operação vinham sendo bradadas há tempos por jornalistas sérios. Já que a machadada nos direitos trabalhistas, nos gastos socias e na previdência são irreversíveis que pelo menos deixem o Moro trabalhar em paz.

    • ce 05/09/2016 / 10:41

      eles não vão deixar, infelizmente

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