O que houve com a alternativa de esquerda na América Latina?

maduroHugo Chávez tinha vontade de ser comunista. Não podia. Num mundo onde não há mais comunismo, não pode mais haver comunistas. Teve de se conformar com o que tinha à mão: um caudilhismo recauchutado que ele queria chamar de socialismo e batizou de bolivarianismo.

Chávez representava bem o vazio ideológico de uma esquerda que não tinha muito o que dizer. Uma vez, no Brasil, em companhia de Lula (então presidente), falou que o capitalismo não era de Bush (então presidente americano) nem de ninguém, era do diabo. O capitalismo é do diabo. Em outra ocasião, ao discursar na ONU, arrancou risos de vários líderes mundiais ao dizer que o ambiente estava fedendo a enxofre. Bush havia discursado logo antes dele.

Chávez era um provocador, um falastrão sem conteúdo, uma figura grotesca de língua afiada e camisa vermelha de manga comprida. Num encontro da Cúpula das Américas, em 2009, deu para Obama de presente um exemplar do livro “As Veias Abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano, um livro que o próprio autor renegou há alguns anos.

Fora da Venezuela, ninguém jamais levou a sério o bolivarianismo chavista. E de repente Chávez morreu. Deixou como sucessor outro caudilho ainda mais autoritário, sem conteúdo e inapto que ele. É possível que Chávez queria transformar a Venezuela em um novo farol ideológico para a América Latina, como Cuba foi por muito tempo. Contudo, a Venezuela é hoje um lugar onde seus cidadãos têm que comprar comida na vizinha Colômbia porque o Estado decidiu impor um rígido controle sobre os preços e isso afundou a economia. É um país que não tem nada de socialista, mas também não é uma democracia: há censura e repressão a movimentos de oposição ao governo.

O Brasil parecia seguir um caminho diferente, e de fato seguiu, mas não por muito tempo. Com o PT pela primeira vez parecíamos caminhar para uma política socialdemocrata voltada para políticas de inclusão e de redistribuição de renda. Deu certo por alguns anos. Em meados de 2014 tínhamos cerca de quatro milhões de desempregados, caminhávamos para o pleno emprego quando as coisas começaram a dar para trás de forma muito rápida. Apenas dois anos depois, o desemprego havia triplicado, chegando a doze milhões.

O legado do PT foi construído como um castelo de cartas e nem todas estavam visíveis. Quando a carta do petrolão começou a ser mostrada, tudo ruiu como num passe de mágica. Então vieram a público as alianças espúrias com as empreiteiras, tentativas de obstrução da justiça, bilhões de reais torrados em esquemas de corrupção. Com um líder e dois tesoureiros presos, além de um empresário e uma presidente afastada, não foi possível salvar nada. Essa derrocada rápida e estrondosa só possível por causa da única oposição que o PT poderia ter:  de si mesmo. O PT foi o maior responsável pela crise em que enfiou o Brasil e se enfiou.

Na Argentina e na Bolívia, a esquerda também não construiu algo muito sólido e duradouro. O Mercosul ficou para trás. Enquanto definhamos, os Estados Unidos sob outra esquerda, representada por Obama, saía da crise e avançou em questões sociais importantes. Mesmo assim, parte da nossa intelligentsia ainda não conseguiu entender como se constrói democracia com ampliação de direitos sociais. A melhor legenda de esquerda que sobrou hoje no Brasil, o PSOL, faz uma oposição positiva aos neoconservadores do Congresso, mas ainda parte de uma doutrina extemporânea e falida.

O fracasso do populismo de esquerda na América Latina escancarou para o mundo que não tínhamos uma alternativa para nada, mas antes que nos perdemos em velhos discursos ideológicos embebidos de caudilhismo, neopopulismo, ressentimento terceiro-mundista e práticas políticas viciadas pela corrupção. E agora que não deram certo, ainda insistimos em outro velho erro: culpar os Estados Unidos por nosso fracasso, como se não tivéssemos nenhuma responsabilidade por nada. Esse vitimismo expressa a menoridade intelectual de parte considerável de nossa dita esquerda e sua incapacidade de crítica.

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6 thoughts on “O que houve com a alternativa de esquerda na América Latina?

  1. Pedro Sousa 29/08/2016 / 1:15

    Professor, concordo que a esquerda latino-americana perdeu o norte, principalmente quando dá asas a um anti-americanismo ilusório.Mas pior ainda é certa direita conservadora brasileira chamar toda e qualquer esquerda de “bolivariana”. É tanta indigencia intelectual , que na verdade estamos sem opções para qualquer lado.
    Abraços.

  2. JOSÉ ROBERTO DE LIMA MACHADO 29/08/2016 / 8:26

    Esquerda/Direita,a meu ver são conceitos ultrapassados.Uma reação ao capitalismo selvagem praticado no início do século XX.Um contraditório necessário a época. Mas o capitalismo,pela sua dinâmica, evolui.A maioria das “conquistas sociais”,por mais paradoxal que seja,foram conseguidas sob o Capitalismo.Na necessidade de valorizar o trabalhador para a obtenção de mais lucros. Não pode existir nada fora do “Mercado”,que se sustente, A Civilização é filha do mesmo. O Socialismo, tanto de Direita (Fascismo,Nazismo),quanto de Esquerda(Comunismo),quando assumiram governos(na prática),resultaram em totalitarismos devastadores.Só restou o discurso, adaptado sobremaneira.Na realidade um Capitalismo de Estado que favorece minorias.Muito pior que em regimes capitalistas capengas.A meu ver, um Estado mínimo com o empreendedorismo da população, que premie a competência,competição, o trabalho e esforço pessoal, incentivado e sustentável. Com escopo global,é o modelo a ser perseguido.

  3. Marcus Caneschi 26/09/2016 / 12:08

    Belo texto professor.

    Só não concordo com a parte em que os EUA conseguiram avanços significativos com Obama. O maior projeto de Obama (Obama Care) não foi aprovado, ele renomeou os mesmos responsáveis pela quebradeira de 2008 para os cargos mais altos do Federal Reserve e o Tesouro, Vários empresários que criticam o regime chinês, mas amam a mão-de-obra barata que aquele país oferece, fecharam fabricas nos EUA e levaram para o país do oriente, deixando milhares de desempregados. A classe média dos EUA vem perdendo poder econômico desde o governo Reagan e as grandes corporações multiplicaram seus lucros a custa dessa perda força dos trabalhadores. Sem dizer estatizar um banco nos EUA é a mesma coisa que evocar o diabo, mas pedir dinheiro para o governo para salvar bancos privados que quebraram devido a ganancia e incompetência, aí é legal. Sem falar que nenhum deles foi preso. Enfim, os EUA não são um modelo tão bom assim.

    • Bertone Sousa 26/09/2016 / 12:42

      Marcus, Obama liderou uma das maiores intervenções estatais na economia desde 1929, e também injetou dinheiro em companhias privadas. Ele termina o mandato com mais empregos, recuperação econômica, reduzindo a distância entre ricos e pobres. Em menos de dez anos ele conseguiu reestruturar a economia americana, algo que quase ninguém acreditava que ocorreria em tão curto prazo. Nos Estados Unidos, liberalismo não é só “mão invisível”, e Obama soube administrar bem para recuperar o país.

  4. HIDERALDO 22/11/2016 / 22:14

    Esses ditadores latinos são uns verdadeiros palhaços… é uma pena que esta “palhaçada” custe a liberdade e a vida de tantos inocentes, não fosse isso, seria cômico. Aquele Fidel Castro tomou Cuba com seus guerrilheiros e condenou seu povo a mais de meio século de MISÉRIA TOTAL. E não venham com ESSE PAPO FURADO de que cuba tem a melhor saúde e a melhor educação, por que NÃO TEM. Isso é comprovado por dezenas de depoimentos de fugitivos da ilha-prisão dos irmãos Castro. O Maduro, com certeza inspirado no Fidel quer fazer a mesma coisa na Venezuela. E, aqui no Brasil uma alcateia de “intelectuais” aplaudem orgiásticamente esses assassinos. Infelizmente temos um monte de “comunistas capitalizados” usando NIKE e i-phone que saem as ruas tremulando bandeirinha com foice e martelo numa demonstração TOTAL de cultura e bom senso. Parece que só enxergam a ponta da bagana de maconha em frente ao seu nariz e mais nada. Nem param para pensar que seu NIKE e seu I-PHONE são produtos pagos, com certeza, por um salário proveniente de um emprego CAPITALISTA.

  5. HIDERALDO 22/11/2016 / 22:16

    Esses chefes de estado bolivarianos não são capazes nem de vencer uma partida de xadrez contra um velho chimpanzé reumático com alzheimer…

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