Como vamos lidar com o Islamismo?

mulher-muçulmanaA Europa vive um clima de tensão constante. A entrada massiva de imigrantes muçulmanos tem levado ao recrudescimento do choque de culturas entre estes e os nativos. E não é só isso. Os atentados terroristas nos últimos anos têm aumentado a xenofobia e o discurso nacionalista de alguns partidos. Esse inclusive foi um motivo apontado por alguns analistas para a saída do Reino Unido da União Europeia. Esses elementos parecem formar o fermento de algo muito desagradável prestes a surgir.

O islã ainda não é um problema para nós, no Brasil, embora seja uma religião que tem crescido no país nos últimos anos. Mas por que deveríamos nos preocupar com o islã mais do que com outros credos ou, não deveríamos nos preocupar apenas com o radicalismo islâmico? Já escrevi outros textos aqui sobre as origens do radicalismo islâmico (confira link ao final) e a questão que pretendo levantar aqui é de outra ordem.

Não há como fazer uma distinção clara entre o radicalismo islâmico e o islã enquanto fé religiosa. É claro que nem todos os muçulmanos são homens-bomba ou terroristas, a questão não é essa. A questão está no fato de que o islã não conhece separação entre vida civil e política e vida religiosa e isso o coloca em posição de confronto com os valores da civilização ocidental.

A doutrina islâmica contém preceitos que regulam toda a vida do fiel: sua conduta em casa, na empresa, na rua, suas convicções políticas, seu modo de vestir, sua percepção sobre outras religiões e outras filosofias de vida, sua forma de se relacionar com outras pessoas, dentro e fora da fé; ela regula as relações entre homens e mulheres, a poligamia, que atitudes devem tomar para com os fiéis de outras religiões, há regras para testamento, cobrança de juros – nada foge à regulação da religião. Além disso, a doutrina islâmica só reconhece a legitimidade de um estado teocrático: suas noções de igualdade, comunidade, participação política estão todas relacionadas a isso.

Então, que riscos a religião islâmica pode oferecer ao Ocidente? Alguns exemplo que podemos mencionar: o Alcorão diz (Sura 2, versículo 228) que as mulheres divorciadas devem observar o prazo de três menstruações e que “seus maridos podem retomá-las de volta se desejarem a reconciliação”. Além disso, o livro afirma a superioridade dos homens sobre as mulheres e recomenda que os maridos podem bater nelas se temerem sua rebelião (Sura 4, versículo 34). O Alcorão também permite a poligamia, desde que o homem tenha condições de sustentar as mulheres (Sura 4, versículo 02). Tudo isso pode vir a representar um problema para mulheres muçulmanas que vivem sob nossa Constituição, uma vez que para permanecerem na comunidade (ummah) e não se tornarem infiéis, devem se submeter a essas leis. Seu silêncio, portanto, torna difícil a punição para casos de violência doméstica. Além disso, homossexuais, descrentes e minorias religiosas sofrem forte discriminação na maior parte do mundo muçulmano. Nossas discussões e avanços em temas como direitos das mulheres e dos homossexuais e liberdade de consciência são estranhos à doutrina islâmica.

Nossas leis civis garantem a liberdade de culto desde que eles não atentem contra a vida. O islã não é a única religião que tem problemas com isso. Outro exemplo são as Testemunhas de Jeová. Sua religião não permite transfusão de sangue. Já houve casos em que juízes ordenaram a transfusão para crianças em risco de morte e que são filhas de testemunhas de Jeová sob o princípio de que o direito à vida está acima da liberdade religiosa.

Em relação ao islã, há muitas questões que precisam ser pontuadas. Algumas delas vêm da perspectiva multiculturalista que considera problemática a imposição de valores ocidentais para outras culturas e grupos minoritários em nossas sociedades. As políticas imperialistas dos séculos XIX e XX e as guerras do Ocidente em países orientais jamais levaram em conta princípios de direito à vida, autonomia, respeito ao outro, etc. Em muitos casos, a religião se tornou um elemento de reforço de uma identidade frente à violência e às políticas desagregadoras dos conquistadores europeus. Essas práticas de sujeição política e moral da alteridade foram muito bem abordadas por autores como Edward Said, Homi Bhabha e Stuart Hall.

Em grande parte, as migrações que hoje vemos para a Europa são resultado desses conflitos e da destruição provocadas por eles no Oriente Médio. Isso tem levado muitos intelectuais ocidentais a adotarem uma posição de cautela antes de tecerem qualquer crítica a formas de violência ligadas ao islã. Nesses casos, uma questão fica sempre no ar: qual o limite entre uma visão de mundo eurocêntrica e ocidentalizante e a construção de uma crítica que possa ser pertinente sobre o islã?

Alguém que pode nos ajudar a pensar isso vem uma sociedade não europeia e não cristã: Ayaan Hirsi Ali. Ayaan é somali, foi criada como muçulmana, saiu ainda jovem de sua terra natal, viveu um tempo na Holanda, onde estudou e hoje mora nos Estados Unidos, onde é professora em Harvard. Antes de ir para a Europa, ela ainda viveu em Meca e foi estudante e professora da doutrina islâmica. Ayaan teve uma vasta experiência como muçulmana, o que lhe dá um importante cabedal para criticar a religião que professou por quase toda a vida. Em uma autobiografia, relatou sua dolorosa trajetória pessoal e intelectual, até o momento em que teve coragem de abandonar sua fé. Ela tem se destacado como uma das vozes mais críticas ao Islamismo, ao termo islamofobia e à intolerância subjacente a essa religião.

Em um de seus livros, Herege: por que o islã precisa de uma reforma imediata (editora Companhia das Letras, 2015), ela começa afirmando que o islã não é uma religião pacífica, não porque transforme todos os seus adeptos em pessoas violentas, o que obviamente não acontece, mas porque sanciona e legitima a violência em nome de Deus, algo que ela chama de uma “licença teológica” para a intolerância e a violência presente nos textos religiosos.

Ela compara o islã hoje com o que fora a religião hebraica na Antiguidade e o Cristianismo na Idade Média e era moderna, contextos em que essas religiões também permitiam a violência em nome de Deus. Ela argumenta como o Ocidente desconstruiu isso através da Reforma, do Iluminismo e outros movimentos, e afirma que o maior desafio para o islã hoje é debater e rejeitar os elementos violentos da religião.

Ayaan identificou pelo menos cinco elementos que tornaram o islã resistente à mudança histórica e à adaptação: (1) a crença na infalibilidade de Maomé; (2) a supervalorização da vida após a morte em detrimento desta; (3) a sharia (lei sagrada) e o hadith (palavra que significa “tradição: são os relatos documentados dos ensinamentos e ações de Maomé não constam no Alcorão); (4) a prática de ordenar o certo e proibir o errado e (5) a jihad. Ela diz enfaticamente que esses princípios devem ser reformados ou descartados, que temos que parar de pensar que o exame crítico do islã é apenas “racista” e deixar bem claro para os muçulmanos que as liberdades democráticas que defendemos no Ocidente não são opcionais.

Depois ela disserta como, ao dividir a humanidade em crentes e descrentes, o islã não deixa espaço cognitivo para outras formas de pensamento, como o agnosticismo, e que qualquer iniciativa para relativizar a fé é considerada um pecado tão grave como assassinato e apostasia. Quando um clérigo defende a separação entre Mesquita e Estado é neutralizado declarado como herege e seus livros tirados de circulação.

Ayaan passa pela história da religião para mostrar como as reformas sempre foram evitadas e que a base disso está na crença de que a geração de Maomé foi a melhor que existiu. Por conseguinte, como todas as gerações posteriores seriam piores, a única mudança possível para o islã seria um retorno aos princípios do século VII, à época do Profeta. Para ela, os movimentos de fermentação política dos últimos anos, como a Primavera Árabe, não eram apenas movimentos contra o despotismo, mas o seu fracasso expressa principalmente a incompatibilidade do islã com a modernidade e que isso não poderá ser mudado enquanto os muçulmanos não aprenderem a ver Maomé como um personagem histórico e seu livro sagrado como livro historicamente construído, um livro humano, ao invés de um manual divino com regras atemporais.

Em uma passagem marcante, ela afirma: “Não é de modo algum convincente pôr a culpa no imperialismo ocidental por essa estagnação; afinal de contas, o mundo islâmico teve seus próprios impérios, o Mughal, o Otomano e o Safávida. Embora não seja de bom-tom mencionar, o fatalismo islâmico é uma explicação mais plausível para a falta de inovação no mundo muçulmano” (p. 129).

A abordagem de Ayaan é importante para qualquer discussão histórica que queiramos levantar sobre o tema. Longe de se limitar a uma perspectiva ocidentalizante, ela levanta questões pertinentes para se pensar a integração dos muçulmanos em nossas sociedades, e terrorismo e a difícil relação do islã com a modernidade. Um ponto na obra a que podemos fazer objeção é sua insistência de que o mundo muçulmano precisa de algo como foi a Reforma Protestante no Ocidente. Talvez essas sociedades não precisem de uma mudança no sentido do protestantismo, mas do Iluminismo. Embora o protestantismo tenha contribuído para o surgimento do pensamento liberal no Ocidente, essa, contudo, foi uma consequência tardia e não planejada da Reforma. Por outro lado, vem do Iluminismo nossos ideais de separação entre Igreja e Estado, direitos individuais e direitos humanos.

O islã ainda não é um problema político para nós e não sabemos se um dia virá a ser. Mas pensar sua doutrina, seus valores, sua história é algo que não podemos nos furtar de fazer.

Para acessar outros textos neste blog sobre o Islamismo, clique aqui.

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7 comentários sobre “Como vamos lidar com o Islamismo?

  1. André 15/07/2016 / 13:58

    Nossa, eu havia pensado e concluído da mesma maneira, só não havia escrito um texto, mas apenas falado com meus parentes. Não tem para onde fugir, TODA religião tradicional (pré -moderna) não tem como se coadunar com os valores modernos, pois estes defendem justamente o alargamento do pensamento, o ceticismo e o respeito às diferenças, ou seja, o conflito é inevitável. A menos que se relativizem os dogmas e a fé, como o fazem os católicos não praticantes. O islã ainda não invadiu o Brasil, mas os evangélicos sim, que seguem a mesma prática dos muçulmanos, apenas crendo em outro Deus e outro messias. Para um moderno, eh um problema gigantesco não separar Estado da religião. Oxalá não voltemos nunca mais a fase medievalista da humanidade.
    Abraço

    • Agata Global 18/07/2016 / 15:46

      Oi André. Respeito sua opinião, mas discordo por uma razão muito simples: você já viu algum evangélico explodir pessoas e a si mesmo? Ou atirar em multidões? Ou promover decapitações em série de prostitutas ou homossexuais? No livro sagrado do evangélico (Bíblia) tem alguma coisa do tipo “deves matar teus inimigos”? Poxa André, com todo respeito que lhe devo, jogar cristãos na mesma vala em que se encontram aqueles que crêem que, morrendo, terão 72 virgens esperando-os no céu, é sem dúvida um ato de desconhecimento ou ignorância. Faço votos de que você reflita sobre o que escreveu. Um grande abraço!

  2. Edson Silva 01/08/2016 / 17:51

    Ágata, você tem que estudar a Bíblia como fonte histórica e não lê-la como uma crente. A Bíblia tem sim passagens horrorosas. Como exemplos: leia: Salmo 137:9, Malaquias 2:3, Oseias 13:16, Deuteronômio 28:26, I Samuel 15:3, II Reis 2:23-24, Levíticos 20:13, Jeremias 5:6, Eclesiásticos 25:26, Jeremias 19:9, Oseias 9:11, Oséias 10:14, e por favor, não venha me dizer que estão fora do contexto e blá, blá blá, blá blá blá…

  3. Márcio 22/10/2016 / 18:24

    O fato é que as pessoas convivem bem em sociedades cristãs, as imigrações se dão para estas sociedades e não para as islamitas ou comunistas. Eu vivo no Brasil não vejo apedrejamentos, gays sendo atirados de prédios, estupros coletivos e etc. em que pese a grande impunidade reinante, quer para estupradores, políticos, em que pese existir estupros. A Ágata citou cristianismo e o Edson citou judaísmo, ou velho testamento. Nas leituras marxistas encontraremos vários incentivos a violência. Não são livros religiosos, e são bem contemporâneos. Enfim, vivamos em paz e aprendamos a ter os olhos abertos, para a necessidade de autoconhecimento. Não se pode impedir que militantes de esquerda ou direita, ajam com violência. O que se pode é evitar ser violento.

    • Bertone Sousa 22/10/2016 / 20:33

      Márcio, não necessariamente em sociedades cristãs, mas em sociedades laicas. Enquanto, no Ocidente, religião e Estado estavam unidos, não havia muita diferença entre a violência que se praticava em sociedades cristãs e a violência que vemos hoje em alguns países muçulmanos.

  4. Renata 20/02/2017 / 21:20

    Parabéns pelo texto. Achei ótimas as colocações! Pra ser sincera não gosto das religiões católica, nem evangélica e nem do Islã! Acho que tem pregações muito machistas e que visam o tempo todo regular o comportamento humano no intuito de colocar o ser humano numa aréola de ” bondade” inexistente e querer impedir que o individuo seja ele mesmo. Alias não gosto de nenhuma, nem de budismo, espiritismo…Nenhuma delas. Mas enfim isso é questão de escolha pessoal, falo isto pra não parecer que tenho implicância com o Islã somente.

    Em relação ao Islã, acho que fazem interpretações muito ao pé da letra e a vida religiosa domina todos os aspectos da vida da pessoa e politica. Outra coisa que considero absurdo, pois prezo e muitooooo o estado laico! A maioria dos países Árabes, vivem em ditaduras teocráticas sem direito a nenhuma liberdade e pouquíssimos ou zero direitos humanos! Tenho visto alguns embates a respeito da rejeição que alguns muçulmanos estão causando na sociedade Europeia, apos a ida de milhares de refugiados, o fato parece que gera em torno de que simplesmente alguns querem impor sua religião, cultura e seus dogmas, no pais dos outros, sendo ele refugiados, então quem tem se adaptar são eles. Sem contar, o extremo machismo que os homens islâmicos são criados, influindo diretamente no comportamento que eles tem em relação as mulheres Europeias. Se muitos deles são criados acreditando que mulher é propriedade do homem, imagina como eles estão lidando com isto num pais onde as mulheres costumam ter independência e não ser propriedade de ninguém?

    Sao frequentes os relatos de que alguns deles estão atacando sexualmente as Europeias e não falo do estupro propriamente dito e sim que alguns na rua, saem passando a mão nelas ou até mesmo perseguindo e ofendendo pq eles não conseguem se adaptar ao fato de que na Europa a mulher veste a roupa que quiser e isto não significa estar provocando o homem. Outro fato importante, é que alguns vão com família e como eles estão acostumados a tratar a mulher do jeito que bem entendem, existem casos do homem bater na esposa no meio da rua e isto tem causado um choque nos Europeus. Sem contar alguns mais radicais que estão pregando cartazes nos bairros onde vivem dizendo” aqui vale a lei da Sharia”, sendo que nestes bairros moram Europeus também, que obviamente não estão afim de seguir a Sharia mas se sentem acoados e até ameçados, pois são frequentes as ofensas que recebem dizendo que eles são pecadores, infiéis, enfim. Já algumas mulheres muçulmanas implicam com a forma das Europeias se vestirem e existem relatos de xingamentos contra as Europeias por isto. É um choque cultural muito grande. Obvio que não estou generalizando, mas tem acontecido relatos.

    Hoje em dia é difícil falar sobre o tema pois o Brasil e o mundo está radical e qualquer critica em relação aos muçulmanos muitas vezes é encarada como xenofobia, o que empobrece o debate.As pessoas sentem medo de falar e ser mal interpretadas! Que bom que tocou no assunto neste blog de forma equilibrada e realista. Parabens!

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