Nem Ustra, nem Marighella

ustraAinda ecoa na sociedade as manifestações que marcaram a votação do impeachment na Câmara em 17 de Abril deste ano. Enquanto Bolsonaro votou contra o comunismo, contra o Foro de São e em homenagem ao coronel e torturador da ditadura Carlos Alberto Brilhante Ustra, outro deputado, Glauber Braga (do PSOL, RJ), juntou em seu voto uma homenagem a Carlos Marighella, Luís Carlos Prestes e Olga Benário. Essas homenagens dizem muito sobre os militantes de esquerda e direita no Brasil e trazem consigo um olhar voltado para uma forma de militância que não tem mais lugar em nossa época.

Bolsonaro tem negado frequentemente que Ustra foi torturador. Sua homenagem ao coronel levou as vendas de seu livro a dispararem na Livraria Cultura e bolsonaristas começaram a expressar sua incultura crassa adotando o torturador como herói. Para aqueles que se colocam em posições limítrofes, seja à esquerda ou à direita, cabe sempre pensar a história por uma dicotomia maniqueísta.

Escolher torturadores e ditadores como heróis é sempre uma postura deletéria a qualquer democracia e nesse ponto a esquerda também deixa a desejar. Luís Carlos Prestes foi um líder comunista que, apenas alguns anos após Getúlio Vargas enviar sua mulher para ser executada na Alemanha nazista, apoiou o mesmo Vargas por uma questão de estratégia. Prestes representa um passado que morreu junto com a queda do muro de Berlim.

Marighella e Ustra, por outro lado, são dois personagens que precisam ser compreendidos historicamente, não como ídolos, como a esquerda e a direita os consideram. Nada, porém, justifica a tortura nem a homenagem a torturadores. Contudo, Ustra morreu sem jamais ter sido julgado e condenado pelas barbaridades que cometeu durante a ditadura.

Se Ustra foi torturador de um regime autoritário que perseguia comunistas, Marighella tampouco lutava por democracia e suas causas estão muito distantes de nós para terem algum valor. Sabemos que não havia ameaça real de tomada do poder por comunistas quando os militares chegaram ao poder e também sabemos no que resultaram as experiências chinesa e cubana das quais Marighella era admirador.

Aquilo que para os guerrilheiros era exemplo de luta contra o imperialismo, com a pesquisa histórica disponível hoje não faz mais qualquer sentido enaltecer aquelas experiências se não for por um gesto de profunda ignorância histórica ou desonestidade intelectual. Não existe mais comunismo nem comunistas, isso torna o anticomunismo de Bolsonaro uma caricatura grotesca de um gesto extemporâneo, tanto quanto a atitude da esquerda de ainda fazer loas a Guevara, a Fidel e ao próprio Marighella como heróis.

A história vista pela ótica dos heróis é sempre ideológica. Aqueles que adotam ídolos políticos tomam a atitude equivocada de negar a discussão histórica pelo olhar romântico da ideologia. Bolsonaro é em parte o produto de uma esquerda que age dessa forma, uma esquerda que ainda não cultivou o hábito do apreço à democracia, está intelectualmente presa ao antiamericanismo da Guerra Fria e a clichês ideológicos que toma por saberes.

As pessoas torturadas pela ditadura que estavam envolvidas com a guerrilha ou movimentos de esquerda não lutavam por democracia, lutavam por outra ditadura, socialista. Isso porque para muitos deles o socialismo era a única democracia necessária. Para muitos socialistas do passado, democracia sem igualdade era uma farsa. A construção de um mundo melhor passava pela luta armada e a subsequente derrubada do capitalismo.

A democracia liberal simplesmente não estava em seu horizonte. Seus exemplos vinham principalmente de Cuba e da China maoista. Se tivessem vencido provavelmente não teriam agido de forma muito diferente de seus algozes. Não são mártires, são apenas militantes que se engajaram em uma luta, perderam e sofreram. Hoje nós sabemos que socialismo e democracia não são compatíveis e a expressão “democracia burguesa”, usada comumente de forma pejorativa outrora, não é mais um termo que tenha valor em nosso vocabulário político num mundo onde o socialismo não é mais uma alternativa. A esquerda no Brasil ainda tem um desprezo pela democracia que vem dessa militância, seu antiamericanismo e sua simpatia com as ditaduras soviética, cubana ou chinesa do passado ainda estão presentes.

Se a extrema direita ainda fala em comunismo, ignorando o significado histórico da queda do muro de Berlim, uma parte da esquerda diz que a deposição de Dilma foi um golpe arquitetado com a ajuda dos Estados Unidos para se apropriar do pré-sal. Essa narrativa ignora o quanto a gestão petista criou as condições políticas e legais que levaram ao impeachment. As duas visões são limítrofes e elas estão presentes nas homenagens feitas na Câmara. Com o olhar voltado apenas para a idealização de um passado, esquece-se de pensar novas perspectivas de futuro. Essas visões representam uma esquerda e uma direita conspiracionistas e das quais é importante manter distância.

Mas na vida política, ideologias contam menos. O PSC, partido de Bolsonaro e da bancada evangélica, apoia um governo do PC do B no Maranhão, que apoia Dilma; o mesmo governo também é aliado do PSDB. Ideologias também não contam quando o assunto é fisiologismo, neopopulismo, nepotismo, patrimonialismo: vícios presentes em todas as legendas no Brasil.

Nem Ustra, nem Marighella. A democracia requer que tenhamos maturidade de pensar seu aperfeiçoamento continuamente. Hoje, isso requer manter as liberdades democráticas, buscar a ética na política que viabilize no Brasil um modelo social de redução das desigualdades e do fosso que ainda separa ricos e pobres, ter foco nos direitos humanos e de minorias, com a busca de integração racial e ampliação de direitos civis. Essas pautas não são exclusivamente de direita nem de esquerda, algumas têm um viés socialdemocrata e outras estão mais no campo liberal. E curiosamente o liberalismo é odiado tanto por bolsonaristas quanto pela esquerda radical, dois grupos com pensamento pré-1989.

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5 comentários sobre “Nem Ustra, nem Marighella

  1. Carlos Seixas 17/06/2016 / 9:34

    Bom dia professor, lindo testo, equilibrado honesto e imparcial como deveria ser toda a imprensa.

    Minha opinião é que o Bolsonaro tira proveito do alarde que a própria esquerda faz sobre sua figura, ele me parece clara de ovo, quanto mais bate mais cresce.

    Como o professor deve se lembrar minha posição sempre foi moderada e possuo convicção que qualquer forma de extremismo é nociva. Seja de direita ou esquerda.

    Meu desejo mais intimo seria uma forma de organização social semelhante a anarquia embora reconheça que seja uma utopia. Mais vamos sonhar….Imagine um grau intelectual tal abrangente nos indivíduos e o respeito pelo próximo fossem tão reais que o estado e forças policiais fossem desnecessárias.

    Bom, mais voltando a realidade um governo que promovesse ações sociais e de integração com inteligencia e responsabilidade com o objetivo macro de retirar todos os brasileiros da ignorância e de faze-los produzir para si mesmos e para a economia seria a forma honesta e justa com o país.

    Da mesma maneira estar atendo ao mercado internacional e não se restringir a um bloco único ou seguimento, o livre comercio trará riquezas e benefícios ao nosso país. O empresariado e o capital estrangeiro também são bem vindos desde que sejam evitados os abusos e a exploração. Outra utopia minha? Não sei…Mais seria as propostas que teriam meu voto se alguém as defendessem.

    A pergunta é quem possui esse perfil ou semelhante? A falta de liderança e boas propostas me leva a repudiar Marinas e Bolsonaros se esses continuarem a defender somente suas ideologias pessoais desgastadas historicamente como o professor escreveu acertadamente.

    O emburrecimento intelectual da direita e da esquerda nos deixa reféns de uma politicagem de interesses escusos cuja a principal característica é a corrupção, restando de fora poucos indivíduos que a inda lutam para manter resquícios de caráter em um meio que já se encontra apodrecido a décadas.

    Um forte abraço professor, e uma vez mais obrigado pelo testo.

  2. Edson Silva 17/06/2016 / 14:06

    Pra mim Bobo – solnaro é um GAY enrustido, vive pegando no pé do Deputado Jean do Psol, acredito que o sonho do Bobo -solnaro é ter um caso com o Jean!

  3. Daniel 17/06/2016 / 16:10

    Ok, mas qual base tem-se peremptoriamente comprovada que haveria um golpe socialista no Brasil? Não há fontes históricas credíveis que provem isso professor, de qualquer forma, bom texto, e salvo algumas generalidades retrata a verdade da atual situação sócio-politica do país.

  4. Lúcio Júnior Espírito Santo 23/06/2016 / 23:33

    Bertone, a direita fascista e´coerente em apoiar Ustra, Bolsonaro representa isso mesmo, a continuidade entre democracia liberal e a ditadura militar.

    Já a teoria e prática do PSOl e de Dilma nada têm de revolucionário. Renegam e emporcalham os nomes que citam. O nome de Marighella foi enunciado entre apoio fervoroso a corruptos e cusparadas políticas em nome de supostos golpes.

    E olha, Brizola, por exemplo, apoiou a guerrilha por um tempo e nunca foi comunista. Há outros depoimentos de pessoas que não eram comunistas e sim nacionalistas e trabalhistas e fizeram parte da esquerda armada.

    O fato é que ninguém quer morrer para instalar uma democracia onde se vota em oligarquias que são o sujo falando mal lavado como agora. Eles lutaram para instalar algo melhor, uma democracia popular, uma democracia onde o povo trabalhador ditasse as normas, queriam realizar a democracia e não uma democracia oligárquica como sempre é a democracia liberal.

  5. Alan 24/02/2017 / 17:08

    Só uma correção, dizer que não existia ameaça comunista ao mesmo tempo que diz que existia uma ameaça de uma ditadura socialista na época da ditadura militar, é contraditório. Mas de fato não existia ameaça comunista para o golpe de 64, e não, nenhum torturado, exilado, morto pela ditadura era um militante a favor da ditadura socialista e sim a favor da liberdade, do presidencialismo, etc, embora alguns fossem admiradores de Che Guevarra.

    Até hoje vemos discursos de ódio contra Ezorg, Niemayer, Evaristo Arns, por conta dessa desinformação de que todos anti-ditadura ou a favor da liberdade eram a favor de uma subistituição de ditadura por ditadura. NÃO! NÃO Á DITADURAS! sejam de esquerda ou direita. Mesmo eu sendo admirador de Malcolm X, não compactuo com várias opiniões dele na época da “the nation of Islam”, isso se chama admiração lúcida.

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