Depois da queda: o que fazer após a deposição de Dilma?

"Eu acho que quem tem que bater o martelo é a presidente. A conversa é em torno de cinco", disse o vice-presidente eleito Michel Temer, do PMDB, sobre a partilha ministerial do governo Dilma Rousseff. 11/10/10 REUTERS/Ueslei MarcelinoEm junho de 2014 publiquei um texto no blog com o título Dez razões porque o PSDB não pode voltar à presidência. Na época, não sabíamos o que hoje sabemos a partir das investigações da Lava Jato e o Brasil estava perto do pleno emprego, que foi um dos elementos que enfatizei no apoio à reeleição de Dilma. O texto teve mais de 200 mil visualizações em poucos dias. Teimei em deixá-lo em 2015, esperei alguns meses, observei atentamente o que acontecia e depois tive que deletar. Não fazia sentido deixá-lo aqui depois do golpe eleitoral de consequências tão desastrosas que o PT deu no país e das revelações da Lava Jato que mostraram a quadrilha em que o partido se transformou.

Poucas pessoas conseguem ser ousadas o suficiente para reavaliar criticamente suas posições diante de novos fatos. Para muitos, pensar a partir de categorias ideológicas é mais confortável porque os desobriga de ter que fazer avaliações de caso continuamente e lhes deixa na posição de repetir sempre os mesmos enunciados, as mesmas verdades, os mesmos significados ou a mesma retórica maniqueísta, como agora tem sido amplamente utilizada.

Quando Kruschev denunciou os crimes de Stálin em 1956, vários intelectuais marxistas ainda preferiram acreditar na propaganda oficial do Stálin herói. Existe um defeito na esquerda de acreditar que fazer algo pelos pobres justifica moralmente qualquer crime e desvio de conduta por um partido e um líder. Se existe o ideal maior de que o que é feito é em favor dos pobres, então não importa como é feito.

O socialismo construiu a noção de que o proletariado tinha uma missão histórica a cumprir: destruir a burguesia e pôr fim à sociedade de classes. O proletariado seria o agente construtor do novo homem, do progresso, do comunismo. Stálin acreditava que isso era inexorável. Isso criou uma visão dualista da vida social: nós lutamos pela justiça, a igualdade; os outros, inimigos de classe, partem de uma falsa consciência para perpetuar seus privilégios e as desigualdades.

Quando ocorreu o mensalão, muitos perdoaram o PT porque foi feito para aprovar os projetos do governo, que iriam beneficiar os pobres. Quando Dilma foi acusada das pedaladas, logo pulularam na rede discursos de que isso foi feito para pagar programas sociais, para beneficiar os pobres, portanto. Para justificar as pedaladas, a crise, o ajuste fiscal, buscou-se algo maior: os pobres.

Há ainda outra característica intrínseca na esquerda: a de que aqueles que fazem algo pelos pobres ou lutam por eles são mártires e heróis, cuja memória é conservada como algo próximo a super-humanos. Isso vem do Cristianismo e da laicização do messianismo cristão realizada pelas doutrinas socialistas do século 19.

A noção de luta de classes substituiu de certa forma a doutrina cristã de guerra espiritual entre o bem e o mal. O proletariado e o partido substituíram a Igreja no caminho para o reino dos céus e seus líderes se tornaram os equivalentes dos santos nessa marcha para o futuro. Um exemplo recente foi a rememoração dos trinta anos da morte de padre Josimo. Josimo é celebrado como mártir da luta no campo, da luta pelos pobres e foi essa mensagem transmitida por postagens sobre ele nas redes sociais e mesmo por eventos em diversos espaços. A Teologia da Libertação (TL) e a CPT, ao fundirem marxismo e cristianismo, levaram essa visão messiânica ao paroxismo.

Na origem do PT também estão setores da Igreja Católica e da TL. Lula, por ter sido metalúrgico, foi blindado por muito tempo no PT como uma figura icônica, um representante do proletariado, um líder que poderia levar o país a uma nova era de mudanças sociais. O próprio Lula passou a acreditar nisso. É possível que Lula realmente acredite que a confusão entre público e privado que ele e seu partido fizeram foi legítima em sua busca para melhorar as condições de vida dos pobres.

Alimentados por esse personalismo, populismo e patrimonialismo, este último muito presente em nossa história e também no socialismo, a militância de esquerda e governista, com seus intelectuais à frente, continua na visão messiânica e dualista que marcou os movimentos socialistas do século passado. A esquerda inteira está contaminada por isso.

Mas o PT jamais buscou o socialismo e Francisco Weffort, em uma entrevista, afirmou que Lula nem sabe o que é socialismo. Para chegar ao poder, o PT teve que deixar um discurso mais à esquerda para buscar uma conciliação com setores que outrora o rejeitavam, especialmente o empresariado. Uma vez no poder, foi um passo para aderir à política fisiológica do PMDB (de onde veio a aliança com Sarney e companhia) e ao presidencialismo de coalizão, que levou à aliança e fortalecimento de outros segmentos, como a bancada evangélica, cujo peso na votação do impeachment na Câmara foi enorme.

Contudo, dentro do partido, a liderança centralizadora de Lula e José Dirceu afastou intelectuais e nomes de peso (muitos dos quais fundaram o PSOL). Depois disso, o PT ficou ao sabor de um neopopulismo despolitizante, para usar um termo de Carlos Guilherme Mota, que degringolou para a corrupção sistêmica que culminou com a perda de apoio social do governo e sua deposição.

A polarização política dos últimos meses encurralou parte expressiva das esquerdas para um culto à personalidade de Lula e para uma idolatria desmedida ao PT por conta dos programas sociais, no que ficaram presas a uma incapacidade total de autocrítica. A catarse anti-petista, que começou com pequenos setores da classe média alta e depois se espraiou para o restante da sociedade em decorrência da crise econômica e das revelações da Lava Jato, ganhou a tônica do debate político e levou ao recrudescimento de um radicalismo religioso que agora tem na Câmara um grupo bem consolidado.

Tudo o que as esquerdas não poderiam fazer agora seria insistir na mitificação da figura de Lula e dos ganhos sociais de seu governo como estratégia retórica. Esse personalismo e neopopulismo é tão nocivo a uma visão laica da política quanto a postura da bancada evangélica no Congresso. E é justo isso o que muitos têm feito e que tem sido absolutamente contraproducente.

Por causa dos pobres, fecha-se os olhos para roubos, desvios, desmandos e até outras ações piores. Talvez a melhor forma de evitar isso seria agregar as ideias liberais ao pensamento de esquerda, mas a resistência que a esquerda brasileira tem ao liberalismo (que erroneamente associa apenas ao neoliberalismo) cria uma muralha que ainda a isola do século 21 e a deixa presa aos anacronismos da militância da Guerra Fria. É assim que estão organizados os partidos de esquerda que sobraram, como PSOL e PSTU: inteiramente voltados para o passado. Toda a sua crítica está condicionada pelo velho: o capitalismo, a burguesia, as lutas de classes, etc. Permanecer nisso é continuar nos velhos discursos ideológicos para os quais tudo se justifica em nome dos pobres.

Leia também: 

O fim do PT

O erro de Lula e a resignação das esquerdas

A queda moral e política do PT

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12 comentários sobre “Depois da queda: o que fazer após a deposição de Dilma?

  1. Carlos Seixas 16/05/2016 / 9:04

    Bom dia professor, excelente texto. A maior grandeza de um homem reside na autocritica, serenidade, honradez e verdade.

    Realmente hoje não cabe mais velhos discursos tanto para a direita como para a esquerda, se é que ainda se pode definir a realidade dos pensamentos políticos atuais como direita e esquerda.

    Minha percepção é que os avanços sociais promovidos pelo PT devem ser aperfeiçoados e aliados a uma formação educacional e profissional, seguidos de politicas para gerar empregos de modo a absorver esse contingente.

    É aí que o papel do empresariado e dos investimentos estrangeiros podem cooperar com um novo quadro para a população menos favorecida.

    Uma vez que dinheiro for injetado nas massas e o consumo naturalmente acompanhar o poder de compra o efeito de crescimento econômico será o resultado.

    Creio ser esse o caminho para um novo Brasil, os velhos termos já não se aplicam mais.

    Deixo meu abraço ao ilustre professor, gostaria de ver pessoas como o professor na politica.

  2. Gustavo Leite 16/05/2016 / 13:09

    Excelente texto. Me ajudou um pouquinho com a voz de minha consciência ainda indulgente tentando dizer a mim mesmo que não tive escolha por ter votado em Dilma em 2014 e pelo puro pretexto de não deixar o outro lado vencer, e assim não me dar ao luxo de arrependimentos.
    Só que não é tão simples assim. Obrigado por lembrar.
    Abs.

  3. Edson Silva 16/05/2016 / 14:12

    Caro professor Bertone, no meu entender, nenhum modo de produção, além do capitalismo pode dar certo neste planeta! Explico: o homem, que de forma arrogante se intitula racional, devemos lembrar que este conceito, racionalidade, é antropocêntrico, é extremamente ambicioso, egoísta e como diz o ditado popular: “farinha pouca, meu pirão primeiro”. O que me deixa intrigado, é que intelectuais de direita ou de esquerda, padres, pastores, políticos etc, não sei se por má fé ou ignorância mesmo, vivem prometendo o céu na Terra para os miseráveis. Isso é impossível, devemos lembrar que quem manda hoje no mundo não são mais os governos, mesmo os eleitos, quem manda no mundo são as grandes corporações e seus agentes de negócios. E o mais importante, segundo pesquisa que fiz, para todo o habitante do planeta ter um estilo de vida de um estadunidense médio, precisaríamos de 5 planetas Terra. Impossível, o que resta? A resignação, cada um por si, e Deus, se é que ele existe, por todos!

  4. Vinícius SK 16/05/2016 / 17:34

    Caro Bertone, sempre penso que o melhor (ou menos pior) modelo econômico a ser adotado é sempre aquele que esteja entre a social-democracia e o liberalismo econômico, sendo necessário inclusive alternar entre períodos de maior e menor intervenção do poder público. E isso é o que grande parcela dos intelectuais brasileiros não percebe. Temos uma direita e uma esquerda igualmente retrógradas. inclusive os textos de diversos autores de ambos os lados possuem o mesmo tom conspiranóico, mudando apenas alguns chavões.

  5. SEP Palmeiras 17/05/2016 / 14:19

    Professor concordo com todas as críticas ao PT, mas e o que dizer dos outros partidos? O partido campeão de investigados na Lava Jato é o PP, que votou em peso a favor do impeachment e logo em seguida o PMDB. O estrago promovido na economia e a roubalheira na Petrobrás não foram obras de uma quadrilha só. Os que há pouco tempo eram aliados na corrupção hoje se apresentam cinicamente como salvadores da pátria. Ao mesmo tempo que o PT perdeu a legitimidade de governar os que assumiram não tem moral nenhuma para fazê-lo. Não à toa está se dicutindo também o impeachment do Temer, que obviamente não vai dar em nada.
    E quanto ao PSDB um motivos apenas basta para continuar não votando: Qual é o compromisso do partido com a social-democracia, com o liberalismo político: zero, nenhum.

    • Bertone Sousa 17/05/2016 / 17:49

      Sep, o PSDB traiu a social-democracia e provavelmente nunca mais voltará a defendê-la. Já os partidos pequenos como PP existem exclusivamente em função de interesses fisiológicos. Onde houver uma oportunidade de se aproximarem do poder para buscar interesses pessoais, esses partidos irão . Um exemplo é o PSC, que votou em peso a favor do impeachment mas no Maranhão se aliou a um governo do PC do B, aliado de Dilma. Se não for feita uma reforma política profunda, esse fisiologismo carcomido nunca vai definhar.

  6. Ronan José Gomes 18/05/2016 / 2:27

    Bertone, desconfio de que, da mesma forma que você se arrependeu de um texto do passado, pode se arrepender das coisas que anda escrevendo. Não pelas críticas ao PT, até porque nada está acima da crítica, mas pela radicalização. Cobrar perfeição de um partido imerso no contexto político brasileiro parece até piada. Se observar o ranking da corrupção, nada ainda superou o caso Banestado (e nem sabemos tudo sobre as privatizações); PMDB e PP ainda são os partidos que mais aparecem no escândalo da vez; o Brasil não é dos mais corruptos do mundo (69º posição), mas é o 2º em sonegação fiscal que lhe rouba aproximadamente 20% do PIB (a corrupção não chega a 1%). Os governos petistas foram dos que mais combateram esse mal, que é sério, mas não é o principal problema nacional. Reestruturação da PF com novos concursos para servidores, respeito à escolha interna dos procuradores da PGR, escolha republicana dos ministros do STF e autonomia investigativa desses órgãos são exemplos elogiados nas gestões petistas. Será que noutro governo a Lava Jato iria tão longe? A realidade é mais complexa do que pensamos, sobretudo a brasileira. Não temos acesso pleno a ela. Nenhuma ideologia, religião ou ciência tem a verdade absoluta. Precisamos de tempo para avaliações mais aprofundadas. Esse papo de governo/partido mais corrupto da história parece coisa do Marco Antônio Villa. Não embarque nessa. Luis Felipe de Alencastro, Boris Fausto (dito tucano) ou Leandro Karnal têm muito mais valor intelectual. Gostaria de vê-lo nesse rol. Além disso, nada pode ser pior do que os primeiros dias de Temer no governo. Só ignorantes e fanáticos podem elogiar o fim do Minc, a ascensão de Malafaias, Felicianos e Bolsonaros, o retrocesso diplomático, a desvinculação constitucional de verbas para educação e saúde, a terceirização, o machistério corrupto, etc., etc., etc. Se o motivo do golpe é corrupção ou pedaladas, como aceitar um presidente investigado, auxiliado pelo maior dos bandidos (Cunha) e com uma equipe igualmente suspeita? Afinal, que preço estamos dispostos a pagar para destituir um governo?

  7. Mateus Roger 19/05/2016 / 18:29

    Professor, sobre o ministério da igualdade racial, novamente, recomendo a leitura dos livros de Thomas Sowell sobre políticas de ação afirmativa, e, apresentando um dos argumentos de Walter Williams sobre o assunto: nunca existiu igualdade étnica em qualquer lugar do mundo, e ela nem sempre é contra os negros. 65% dos jogadores de basquete e 85% dos jogadores de futebol americano são negros ou pardos(uma vez que mestiços nos EUA são sempre colocados no grupo dos negros), mesmo eles sendo apenas 13% da população, deveríamos também colocar cotas para caucasianos nos esportes?

    Gosto do seu trabalho, mas se o tema do racialismo será abordado nos seus textos, esperaria maior profundidade.

    • Bertone Sousa 19/05/2016 / 19:30

      Mateus, na verdade é você quem está precisando de profundidade. Você nunca entendeu a questão das cotas nem de integração racial, embora eu mesmo já tenha explicado aqui. O que você fala está fora de contexto.

  8. Thiago Bastos 22/05/2016 / 13:49

    Professor, só um adendo que me parece fundamental: o governo Dilma perpetrou uma fraude, isto é, as coisas não estavam indo realmente bem até final de 2014/ início de 2015 e degringolaram: já estávamos indo ladeira abaixo e o governo Dilma maquiou vergonhosamente a realidade para se reeleger. ‘Tarifaços’ e desemprego alto, por exemplo, seriam consequências inevitáveis das más políticas adotadas e inclusive da gestão tenebrosa da Petrobrás. Mesmo muitos economistas de visão social-democrata já alertavam para uma ‘bomba-relógio’ que explodiria após as eleições…e estavam certos. Levy foi uma tentativa (frustrada) de fazer ajustes para tentar reverter a bagunça.

  9. Michel Goulart (@profmichel) 08/06/2016 / 15:15

    “Existe um defeito na esquerda de acreditar que fazer algo pelos pobres justifica moralmente qualquer crime e desvio de conduta por um partido e um líder.”

    Parabéns, professor! Posicionar-se de esquerda e ter a humildade para denunciar vícios ideológicos é privilégio de poucos. Ganhou o meu respeito, ainda que eu, particularmente, não seja de esquerda.

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