O impeachment e o golpe de 64: existem paralelos?

Tanques em frente ao Congresso Nacional (1964 )Foto Arquivo Público do DF
Tanques em frente ao Congresso Nacional (1964 ) Foto Arquivo Público do DF

Uma prática que se tornou comum em alguns portais de esquerda e nas redes sociais nas últimas semanas é a comparação do processo de impeachment de Dilma com o golpe militar que depôs João Goulart em 1964. Vamos analisar brevemente se existem paralelos entre os dois eventos.

Pra falar claramente: não há como comparar o que estamos vivendo com 1964. Existe tensão social, disputas ideológicas, sim, mas as diferenças são maiores. Aliás, até mesmo as brigas ideológicas que presenciamos são extemporâneas e não condizem com as especificidades de nosso contexto. Em 64 o discurso de corrupção também estava presente, mas não com a mesma ênfase e o mesmo teor de hoje, de aparelhamento do Estado para benefício eleitoral de um presidente e de seu partido, por exemplo.

E não foi a corrupção que levou as classes médias a se manifestarem contra o governo. Goulart propunha uma série de medidas conhecidas como reformas de base que desagradavam as elites, eram medidas progressistas que iriam no sentido oposto ao programa de austeridade fiscal do governo Dilma, que retrocedeu em termos de avanços sociais. E a proposta de reforma de Jango não desagradou da mesma forma que as políticas sociais realizadas pelo PT desagradaram nos últimos anos.

O PT fez política social através de um pacto de conciliação, em determinado momento teve maioria favorável no Congresso, algo que Goulart não tinha e logo de início teve de aceitar o parlamentarismo. Além disso, Goulart não tinha uma base sólida de apoio social como o PT teve, quando Lula alcançou mais de setenta por cento de aprovação ao final de seu governo. No Brasil da década de 1960, não havia um sistema judiciário forte como hoje, nem as principais forças políticas em disputa estavam com seus principais nomes acusados de envolvimento em escândalos de corrupção. Ao contrário de Dilma, Jango não sofreu um processo de afastamento pautado na Constituição, não teve amplo direito à defesa nem tempo para negociar uma base de apoio que impedisse sua deposição. Ele foi deposto pelas armas, de madrugada, sem qualquer possibilidade de defesa.

 A Guerra Fria estava no auge e a lembrança da Revolução Cubana, ocorrida cinco anos antes, atemorizava a classe média e as elites com a possibilidade de uma guinada mais à esquerda por parte do governo. O que levou o PT ao descrédito histórico desses dias não foi uma ideologia, mesmo imaginária, mas suas práticas corruptoras. Os militares de nossa época já rechaçaram várias vezes a possibilidade de intervenção, mesmo a constitucional, evocada com frequência por manifestantes de direita. Não existe mais comunismo, a política externa dos Estados Unidos não está mais voltada para o apoio a golpes militares no continente, nem a golpes de qualquer espécie. Também não existe, hoje, qualquer ameaça à democracia como em 64.

Cuba, por outro lado, não inspira nem atemoriza mais ninguém e a reaproximação da ilha com os Estados Unidos é um marco histórico que estamos presenciando. A distinção entre direita e esquerda, embora ainda permaneça, não é a mesma de meio século atrás. Os pedidos de deposição da presidente estão ancorados na Constituição e mesmo o oportunismo do PMDB, a única coisa que pode remeter a uma tentativa de golpe, em nada lembra 64. Paranoias ideológicas à parte, o pensamento de que a história se repete como farsa (Marx) não se aplica ao que estamos vivendo.

Cabe agora algumas ponderações sobre nosso contexto.

Dilma tem mais de sessenta por cento de rejeição. Principal motivo: ela mentiu, traiu seus eleitores, adotou o programa de governo de seu adversário. O governo aumentou a prestação mínima do programa Minha casa minha vida de R$ 25,00 para R$ 80,00, aumentou os juros da Caixa para financiamento habitacional, retirou direitos trabalhistas, está fazendo um ajuste fiscal que dobrou o desemprego em dois anos. Mais de três bilhões da reforma agrária foi desviado para beneficiar empresários, políticos e pessoas já falecidas.

O processo de impeachment tem menos a ver com as pedaladas, que é uma questão técnica, do que com a perda de legitimidade de Dilma. Nem mesmo dentro de seu partido Dilma teve unanimidade neste segundo mandato. O impeachment ganhou força nas ruas e isso não é mérito de movimentos de direita como o MBL e o Vem pra rua. Isso se relaciona com o descrédito crescente do governo que empurrou todas as camadas sociais para uma insatisfação inédita na histórica republicana recente.

Dilma deu um golpe em seus eleitores e em toda a sociedade, cuja insatisfação crescente é resultado direto da deterioração da qualidade de vida e da percepção de que o aumento escorchante de impostos é resultado do rombo causado pelas pedaladas e de que sua campanha foi financiada com dinheiro desviado da Petrobrás. A rejeição a Dilma tem dois pontos principais: é uma insatisfação com a crise e uma decepção com a corrupção da qual ela, seu governo e seu partido se beneficiaram diretamente. As políticas sociais feitas por Lula não contam mais, foram suplantadas pelo roubo do partido e seu apetite ensandecido de poder. A oposição, é claro, também está envolvida nos mesmos escândalos, mas Dilma vendeu a esperança de continuidade das políticas sociais, do pleno emprego e desavergonhadamente jogou seu programa de governo no lixo logo que reassumiu o poder para massacrar a classe média e as pessoas de baixa renda com seu programa de ajuste fiscal.

Dilma está acabada politicamente porque fez uma campanha eleitoral inteiramente baseada em mentiras que ela sabia que não ia cumprir. Vendeu ilusões e está colhendo tempestade. Com sessenta por cento de rejeição vai entregar um país mergulhado em inflação e desemprego, com milhões de pessoas desiludidas que sofreram o golpe de um estelionato eleitoral.

Já a esquerda, ou parte significativa dela, continua pensando pela lógica binária do século 19. Seu vocabulário é pobre, “burguesia”, “fascista”, “golpista”, “manipulação” e é usado apenas para rotular, não explicar. Diante desse cenário complexo, ela conseguiu voltar à dicotomia burgueses e proletários, quando não existe mais proletariado nem luta de classes. Na falta de repertório para explicar o mundo, a ideologia com seus ranços e anacronismos cumpre esse papel com explicações reducionistas. O estalinismo ainda parasita o pensamento de esquerda no Brasil, como um hóspede que insiste em não morrer. É somente por meio desse pensamento anacrônico, extemporâneo, que se estabelecem paralelos entre 2016 e 1964. Nada, porém, que tenha um fundamento histórico consistente.

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9 comentários sobre “O impeachment e o golpe de 64: existem paralelos?

  1. Cesar 15/04/2016 / 22:30

    Bertone Sousa, ontem e hoje eu li ‘A queda moral e política do PT’ e ‘O impeachment e o golpe de 64: existem paralelos?’, e confesso: defendo Dilma, e não porque gosto dela, ao contrário, tenho várias críticas em respeito a ela. Mas assim como muitos, creio eu, vemos algo bem pior nos que querem a tirar. E o medo de seus opositores é tanto, a desconfiança na justiça é tanta, que não queremos, ao menos neste momento, largarmos de defendê-la. Veja bem

  2. Cesar 15/04/2016 / 22:48

    Bertone Sousa, boa noite. Ontem e hoje eu li ‘A queda moral e política do PT’ e ‘O Impeachment e o golpe de 64: existem paralelos?’, respectivamente. Confesso para ti que defendo Dilma, mesmo tendo várias e parece que as mesmas críticas quais citou. Mas, defendo-a por dois motivos: aqueles que a querem tirar, e, ao meu ver, o fato de existir uma justiça ‘caolha’ ou mais empenhada em balançar para um lado. Vejamos: o mensalão do PSDB, o mensalão do DEM, a lista de Furnas, o helicoca [que é do Zezé Perrela, a conta de Aécio em Liechtenstein, a Privataria Tucana, a Máfia da Merenda, etc… Porque parece que existe tanto esforço em pegar o PT e pouco ou quase nada em pegar os outros? Veja quem quer tirar Dilma! Eduardo Cunha, talvez o rei dos corruptos! Esbanjou, ele e sua família, no luxo, e com dinheiro de propina! E quais os crimes de Dilma? Além de incompetência? Eu sei que ela é incompetente. Eu sinto muitíssimo em dizer isso, mas agora Dilma precisa de um puxão de orelha, um ‘vai fazer direito agora’; e muitos dos que estão a julgando lá no Congresso, merecem sim xilindró. Até os inimigos de Dilma dizem que ela é honesta, por exemplo: Fernando Henrique Cardoso, Maluf, Roberto Jefferson. Além do mais, esses grupos de direita, esses fascistas que saíram do armário de 2014 para cá não merecem sentir o gosto da vitória. Eu não tenho certeza de nada Bertone Sousa, eu tenho é medo, é desconfiança, mais que tudo.

    Eu gostaria que você outro momento escrevesse sobre porque as acusações sobre Aécio foram arquivadas; sobre o caso Globo; e sobre Ciro Gomes, gostaria muito que escrevesse sobre Ciro Gomes, pois Ciro Gomes também critica muito o PT, mas ele disse: Dilma é honesta, e Lula, até que se prove o contrário, não cometeu crime, mas foi sim leniente com os corruptos.

    Eu gosto de ler os seus texto, eu não discordo deles, fico chateado de pensar em estar errado, mas estou a montar o quebra-cabeça político na minha cabeça, e espero que entenda.
    Abraço.

    • Bertone Sousa 15/04/2016 / 22:55

      Cesar, Ciro é impopular, não consegue chegar a dez por cento das intenções de votos, embora seja inteligente e bem preparado. Já o PT traiu os ideais de esquerda como o PSDB traiu a social-democracia. Ninguém se importa com a direita porque ela sempre roubou. Mas o PT não tinha o direito de fazer isso. A esquerda levou quase um século pra chegar ao poder e, quando chegou, fez política da forma errada. O presidencialismo de coalizão não pode servir para justificar o roubo, como muitos estão fazendo. O PT não representa mais os ideais de esquerda, de políticas social-democratas, inclusão de minorias, pleno emprego, etc. O mais importante é buscar uma renovação.

      • Magali Parreira 18/04/2016 / 16:01

        Bertone, quando era mais nova acreditava na esquerda. Estudei minha infância e juventude no período militar e noto que muitas pessoas como eu que se desencantaram com o PT, estão se voltando para partidos de direita. O restante que ainda idolatram Lula e Dilma, nos chamam de golpistas safados, como se estivéssemos a favor da corrupção. Mas isto não é verdade, porque na realidade todo mundo sabe que a corrupção sempre existiu e continua existindo. Agora com esta questão da saída de Dilma, sei nitidamente que todos nós vamos pagar pelos abusos cometidos no governo. Estive nas ruas brigando pelo (Impeachment/Intervenção Militar/Até Mandinga…) para tirar esta mulher do poder e acredito muito em uma renovação. Não sou a favor de Temer, muito menos de Cunha. O PT traiu o trabalhador, traiu a confiança de um povo que acreditou e agora experimenta do próprio veneno. Abraços

  3. Thiago Bastos 20/04/2016 / 13:01

    Prezado professor, seus textos têm me ajudado a pensar fora desse binarismo ‘golpe-contra-o-bondoso-PT’ x ‘purgação-desses-comunas-safados’. Pergunto se vocês vê nos partidos de centro-esquerda que se posicionaram a favor do impeachment – mais especificamente PSB e PPS, fora REDE – a tal alternativa de esquerda democrática. Converso com alguns simpatizantes desses partidos , basicamente, afirmam exatamente que concordam com as políticas social-democratas mas rejeitam o ‘modo PT de operar’. Será que é por aí? Será que figuras que têm aparecido com independentes da centro-esquerda, como Cristovam Buarque, Reguffe e Marina poderiam vir a merecer um voto de confiança?

    Abraço

    Thiago/RJ

    • Bertone Sousa 20/04/2016 / 13:43

      Thiago, considero Marina muito incoerente com os ideais que defende. Apoiou Aécio no segundo turno em 2014 e como ambientalista nunca se manifestou a favor das vítimas do desastre em Mariana, por exemplo. Na falta de alternativa, a última pesquisa do Datafolha, algumas semanas, ela à frente nas intenções de votos. Não digo que ela não faria um bom governo, mas não sinto firmeza nas posturas dela.

  4. Ariel (@Ariel_Morais) 21/04/2016 / 18:31

    Texto muito bom! Quero fazer apenas um pequeno adendo: a principal causa do desemprego ter aumentado exponencialmente não é o “ajuste fiscal”. O desemprego cresceu porque muitos empresários perderam a confiança no governo Dilma. Eles perceberam que não haveria um ajuste fiscal que verdadeiramente reduzisse o tamanho do Estado e simplesmente pararam de investir.

  5. andersonzabrocki 24/04/2016 / 19:11

    Ótimo texto, parabéns pela honestidade! Isso tem feito muita falta nos comentários da internet sobre esse momento político (As pessoas têm preferido ser antes de esquerda do que ser honestas). Só leio delírios de todas as partes “golpe”, “comunistas”, “fascistas” etc. Eu sou mais um que votou no PT e se sente traído. Tem sido nauseante acompanhar o contorcionismo dos governistas e a militância ” iluminada ou não manipulada” usando todo seu poder de argumentação e invenção para defender a quadrilha que o Lula estruturou nas últimas décadas e todas as peripécias que realizaram nesses anos.

  6. Gustavo Leite 29/04/2016 / 12:04

    Gostei muito de seus dois últimos textos, contudo, não atribuo o patrimonialismo petista a qualquer resquício do Leninismo que ainda contamine a esquerda, e sim na própria herança política brasileira.
    Não chamaria de “golpe” o impeachment de Dilma somente por ela ter cavado sua própria cova politicamente, como vc bem expôs aqui, muito pouco a ver com o moralismo hipócrita da classe média que historicamente sempre votaram e figuras como Paulo Maluf e Antônio Carlos Magalhães. Os colegas que ainda acreditam na idoneidade pessoal de Dilma, peço que revisitem o episódio da refinaria de Pasadena.

    A peça processual de Helio Bicudo e Janaina Pascoal é brilhante. Conseguindo associar as “pedaladas fiscais” (fraude à prestação de contas) a situação econômica que vivemos hoje.
    O que me constrange é – ao ver nossos deputados votarem – que tais questões não foram apreciadas para justificar o voto a favor do impeachment, e sim entre outras aberrações, o proselitismo religioso, e todos os seus preconceitos, que perigosamente vem ganhando cada vez mais espaço na política.

    Detalhe importantíssimo, ontem Janaina Paschoal lembrou que a peça entregue por Ela e Helio Bicudo a Cunha também incluía a Lava Jato, Cunha excluiu a parte referente a Lava Jato, no processo que foi aprovado pela câmara. Por que há citações tanto a ele quanto a Temer no processo.

    Eu não acho que seja Golpe a queda de Dilma. Mas é sim a ascenção de Temer, sua aliança com o PSDB – derrotado na urnas – e sobretudo a permanência de Cunha.

    Como pode ver o processo está cheio de anomalias, não dá para comparar com 64, mas também não dá para comparar, por exemplo com o Impeachment de Collor em 92.

    É a história, muito mais abrangente do que qualquer análise técnico-jurídica quem vai julgar esse processo que vivemos hoje e dar a ele seus devidos adjetivos.

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