Jesus ressuscitou? Para o conhecimento histórico, não

como-jesus-se-tornou-deusPara o conhecimento histórico, não é possível estabelecer nenhuma evidência acerca disso. E isso independe da fé ou descrença de qualquer pesquisador. A ressurreição “é uma questão fé, não de conhecimento histórico”, como diz Bart Ehrman no livro Como Jesus se tornou Deus

Bart Ehrman já foi apresentado aqui duas vezes, uma delas foi quando postei para os leitores uma transcrição de seu debate com o teólogo fundamentalista William Lane Craig, sobre o mesmo tema. Seu livro “Como Jesus se tornou Deus” (Editora Leya, 2014) é uma discussão histórica mais aprofundada sobre vários aspectos dos evangelhos e da produção da imagem divina de Cristo. É um trabalho importante para se compreender o processo de fabricação do Jesus que até hoje os cristãos cultuam.

Para qualquer cristão, a ressurreição não foi apenas um milagre, mas uma intervenção direta de Deus na história, a partir da qual o projeto divino de redenção para a humanidade estaria consolidado. Portanto, a crença na ressurreição não é apenas a crença em um evento, mas um enredo sobrenatural que requer que se acredite também em todo um conjunto de princípios religiosos e teológicos meticulosamente formulados ao longo de séculos que envolvem desde a queda de Adão no Éden até a segunda vinda do próprio Cristo.

Nessa obra, Ehrman mostra que a divindade de Jesus foi uma construção dos primeiros séculos do Cristianismo, concluída por volta do século IV. Através de um estudo minucioso dos evangelhos e do Novo Testamento, ele mostra que Jesus nunca se declarou Deus. Ele analisa o significado de expressões como messias e Filho do Homem e argumenta como naquele contexto esses termos se distinguiam do que posteriormente veio a ser compreendido como a divindade de Cristo.

Ehrman também argumenta sobre o quanto as narrativas dos evangelhos sobre a ressurreição são discrepantes, por exemplo:

Quem foi a primeira pessoa a ir até o túmulo? Maria Madalena sozinha (João)? Ou Maria com outra Maria (Mateus)? Ou Maria com outra Maria e Salomé (Marcos)? Ou Maria, Maria, Joana e um grupo de outras mulheres (Lucas)? A pedra já estava afastada quando chegaram ao túmulo (Marcos, Lucas e João) ou explicitamente não (Mateus)? Quem foi visto lá? Um anjo (Mateus), um homem (Marcos), ou dois homens (Lucas)? Elas saíram imediatamente para contar a alguns dos discípulos o que tinham visto (João), ou não (Mateus, Marcos e Lucas)? O que a pessoa ou as pessoas que estavam no túmulo mandaram as mulheres fazer? Dizer aos discípulos que Jesus se encontraria com eles na Galileia (Mateus e Marcos)? Ou lembrar o que Jesus havia lhes dito anteriormente, quanto eles estiveram na Galileia (Lucas)? As mulheres então foram contar aos discípulos o que foram instruídas a dizer (Mateus e Lucas), ou não (Marcos)? Os discípulos viram Jesus (Mateus, Lucas e João), ou não (Marcos)? Onde o viram – apenas na Galileia (Mateus), ou apenas em Jerusalém (Lucas)? (p. 181-182)

Em suas obras, Bart Ehrman argumenta a respeito do quanto os evangelhos discordam uns dos outros quando tratam dos mesmos assuntos, como a genealogia de Cristo, as circunstâncias de seu nascimento, de sua paixão e, no exemplo acima, da ressurreição. Na maior parte dos casos, não são discordâncias pontuais, mas discrepâncias enormes e por isso a necessidade de submetê-los à crítica histórica e textual, como a crítica superior da Bíblia vem fazendo desde o século 19 – um método de estudo cujas descobertas ainda são ignoradas pela maior parte das pessoas que frequentam igrejas cristãs.

Eventos que envolvem milagres ou crença no sobrenatural não fazem parte das evidências nem estão dentro das probabilidades com que os historiadores trabalham. Por mais que os apologistas cristãos falem e escrevam, não existe qualquer evidência material que aponte pra isso sem envolver a crença em um Deus pessoal e específico, o Deus judaico-cristão. Esse é um dos pontos centrais que Bart Ehrman desenvolve no livro para indicar porque os historiadores não podem corroborar essas crenças. A questão, diz o autor, não é que os historiadores tenham que ser céticos ou descrentes, mas que as evidências históricas com as quais os historiadores trabalham devem estar acessíveis a todos e não podem se basear em suposições religiosas e teológicas que apenas algumas pessoas compartilham. Segundo ele:

[…] não é adequado um historiador supor uma perspectiva ou visão de mundo que não seja aceita de forma geral. “Historiadores” que tentem explicar a fundação dos Estados Unidos ou o resultado da Primeira Guerra Mundial invocando a visita de marcianos como um fator de causalidade principal não vão obter a ampla atenção dos outros historiadores – e, na verdade, não será considerado que eles estejam empenhados em historiografia séria. Uma perspectiva dessas pressupõe noções que não são aceitas de modo geral – de que existem formas avançadas de vida além de nossa experiência, de que algumas delas vivem em outro planeta dentro do nosso sistema solar, de que esses outros seres visitaram a terra algumas vezes e de que suas visitas determinaram o resultado de acontecimentos históricos significativos. Todas essas suposições de fato podem ser verdadeiras – não há como os historiadores saberem se são ou não usando a abordagem histórica para estabelecer o que aconteceu no passado. Porém, visto que são pressupostos que a vasta maioria de nós não compartilha, a reconstrução histórica não pode se basear neles. Qualquer um que defenda essas pressuposições precisa calá-las, sentar em cima delas ou então esmagá-las ao se engajar em investigações históricas.

Isso também é válido para todas as crenças religiosas e teológicas que um historiador tenha: essas crenças não podem determinar o resultado de uma investigação histórica, pois não são compartilhadas de modo generalizado.  Isso significa que um historiador não pode estabelecer que Morôni fez revelações a Joseph Smith, conforme a tradição mórmom. Tal ponto de vista pressupõe que anjos existem, que Morôni é um deles e que Joseph Smith foi especialmente escolhido para receber uma revelação das alturas. Isso são crenças teológicas, não se baseia em evidência histórica […]. A evidência histórica tem de estar aberta ao exame por qualquer um de qualquer crença religiosa.

A crença de que um milagre cristão – qualquer milagre cristão – aconteceu no passado tem raízes em um conjunto particular de crenças teológicas (o mesmo é válido para milagres judaicos, milagres muçulmanos, milagres hindus e assim por diante). Sem tais crenças, os milagres não podem ser estabelecidos como algo que aconteceu. Uma vez que historiadores não podem estabelecer tais crenças, não podem demonstrar historicamente que tais milagres aconteceram. […]

Além disso, é possível se apresentar em outras soluções perfeitamente sensatas sobre porque um túmulo antes ocupado pode ter ficado vazio: alguém roubou o corpo, alguém inocentemente decidiu levar o corpo para outro túmulo, a história toda de fato é uma lenda, ou seja, o sepultamento e a descoberta de um túmulo vazio eram fábulas que cristãos posteriores inventaram para persuadir outros de que a ressurreição realmente aconteceu.

[…]

O que não é uma conclusão histórica plausível é que Deus ressuscitou Jesus em um corpo imortal e o levou para os céus, onde ele se senta em um trono à sua direita. Essa conclusão tem raízes em todo tipo de noções teológicas que não são amplamente aceitas por historiadores, e por isso é uma questão de fé, não de conhecimento histórico.  (p. 198-203)

Com uma argumentação tão clara e lúcida, Bart Ehrman dá um xeque-mate na tradição apologética cristã que ainda insiste em transmutar a crença religiosa em um milagre em evento histórico. É compreensível que para um historiador cristão seja difícil assimilar isso, separar suas crenças religiosas pessoais do método histórico. Talvez por isso a maior parte dos profissionais de história cristãos que conheço prefira simplesmente não pensar no assunto, nunca escrevem, não estudam e nunca falam abertamente sobre isso. Mas vale a pena ignorar o estudo sobre uma questão histórica tão relevante apenas para manter a aparência da fé?

Anúncios

12 comentários sobre “Jesus ressuscitou? Para o conhecimento histórico, não

  1. Mauro Penedo 27/03/2016 / 19:40

    Achei seu texto muito pertinente, Bertone. Deve ser difícil para um profissional, não só de história, como de qualquer outra área de conhecimento se declarar ateu ou cético, perante uma sociedade que só pensa pelo senso-comum. A sociedade é implacável contra quem nega Deus ou se propõe a questionar sua existência. Não sou professor, mas conheço muitos que ficam desarmados quando inquiridos por alunos sobre suas crenças. Um professor certa vez me confidenciou o quanto sofre com os comentários irônicos e até preconceituosos de alunos, bem como pela pressão psicológica que são submetidos por parte de alguns colegas.Não é de se estranhar que muitos fingem acreditar em tudo que é sobrenatural só para não terem de pagar o preço de suas convicções. Se até políticos agem assim para não perderem votos, quanto mais um professor que já não tem mais o mesmo respeito das pessoas.

    • Bertone Sousa 27/03/2016 / 19:44

      Mauro, é verdade. Há uma barbárie estabelecida na sociedade contra a descrença e que muitas vezes é fomentada por algumas lideranças religiosas. Para um professor descrente, que atua na educação básica, é difícil dissertar sobre isso. Mas nas últimas linhas do texto me referi aos historiadores e professores de história cristãos que evitam o assunto por medo de perder a fé ou apenas por dogmatismo. Obrigado pela contribuição.

      • Michel Goulart (@profmichel) 08/06/2016 / 15:27

        Mas também vejo um movimento contrário, ou seja, um movimento ateísta militante cujo objetivo é confrontar a fé alheia e dessacralizar o que é considerado, para alguns, sagrado. Quem quer, afinal, convencer quem?

        Eu sou cristão, professor de História, acredito na ressurreição de Cristo e no mesmo como o filho de Deus e Salvador. A existência de Cristo como pessoa está documentada, mas o seu aspecto divino é questão de fé, especialmente a ressurreição.

        Assim não fosse, não teria o mesmo sido crucificado pois, imposta sua divindade aos homens, subjugaria a tudo e a todos. Mas não foi o que ocorreu, não é mesmo?

      • Bertone Sousa 08/06/2016 / 16:00

        Sim, Michel, inclusive tenho criticado essa militância ateísta inculta aqui no blog, veja os textos mais recentes no tema. Esse texto é uma abordagem para as pessoas compreenderem a distinção entre fé e conhecimento histórico, como você bem entendeu.

  2. Roberto 27/03/2016 / 21:07

    obrigado Professor pela argumentação bem estabelecida sobre o que é fato histórico, que pode ser corroborado e sobre o que só pode ser aceito pela fé. E ainda achei muito pertinente e instigante a ultima pergunta … fechar os olhos para manter as aparências da fé? Desse estudo, que até o momento da confirmação cientifica fica restrita á fé e a aplicação dogmática por toda sorte de charlatães, torna-se porta de entrada para as grandes descobertas tais como a teoria evolucionalista de Darwin, a genética de Mendel e a inexistência da geração espontânea de Pasteur o que permitiram o grande salto para a medicina moderna.

  3. RENATO RAFAEL 28/03/2016 / 8:25

    Excelente texto prof. Bertone ! De onde será que provém essa capacidade de alguns seres misturarem fatos miraculosos como a ressurreição de Jesus, como sendo um fato de ordem histórica peremptório, comprovada?

    • Bertone Sousa 28/03/2016 / 9:13

      Renato, isso vem da própria teologia. Só o método das ciências modernas separou essas coisas.

      • RENATO RAFAEL 28/03/2016 / 15:11

        Prof. então é possível afirmar que hodiernamente a Teologia não tem mais um papel relevante, como em outros tempos bem remotos ?

      • Bertone Sousa 28/03/2016 / 15:16

        Exato, com o fim da metafísica clássica a teologia perdeu lugar de destaque entre os saberes e para alguns ela se tornou até um não saber, como para o físico Lawrence Krauss. Comentei isso no texto “A inutilidade da teologia”.

  4. Daniel Faleiros 28/03/2016 / 11:32

    Muito bom texto professor, obrigado por suas ótimas contribuições, sou estudante de história e também ateu, não sofro por discriminações, se o fizesse assumiria assim fraqueza em meus conceitos formulados após muito estudo e leituras gerais acerca do tema, no mais, agradeço fortemente por seus textos que me faz seguir firme nos princípios de moral, ética e empatia, obrigado de coração…Forte abraço…

  5. Flavio Aguiar 29/01/2017 / 18:41

    Olá professor, muito interessante seu texto. Gostei demais.
    Gostaria de saber sua opinião como pesquisador de História sobre uma argumentação que, para mim, faz toda a diferença sobre a questão da ressurreição de Jesus.
    Comprovar historicamente a ressurreição é um trabalho realmente improvável, nos moldes como Lane Craig tenta fazer.
    Entretanto, para além das conclusões “possíveis” que Bart Ehrman nos traz no seu livro, que para mim (e para muitos professores dos EUA, companheiros dele) são sensatas, não é muita arrogância ignorar o fato de que os discípulos de Jesus, dentro dos textos que temos, acreditavam que ele tinha ressuscitado?
    – Quer dizer, não podemos provar que Jesus ressuscitou, fato! Porém, podemos provar que os discipulos realmente acreditavam que ele havia ressuscitado, não é?
    Creio que ignorar o que a primeira geração de seguidores dizia sobre o ocorrido é muita arrogância intelectual moderna. Bart é muito criticado nos EUA, por colegadas de profissão como Dan Wallace, por ignorar questões que um crítico textual como ele deveria dar valor, como por exemplo o fato de acontecimentos existirem aos montes e com variação, como o numero de mulheres que aparece no tumulo de Jesus, não nega o ocorrido, mas apenas reforça. Pois afinal as tradições sobre Jesus foram transmitidas de maneira oral por muito tempo, o que significa que o impacto do ocorrido pode ter afetado de maneira diferente quem presenciou*, ou quem ouviu as histórias sobre. Seria como pedir para três pessoas narrarem o por do Sol. Cada uma poderia descrever o por do sol de maneira diferente, entretanto, o Sol, esse apareceria em todos os relatos. – Sendo assim, temos as várias narrativas do encontro com o sepulcro aberto, e elas possuem diferenças, mas poderiam ser as diferenças que marcaram cada uma das experiências sobre o ocorrido, e no meio delas, em todas o Sepulcro estava vazio.

    Abraços!

    • Bertone Sousa 29/01/2017 / 20:02

      Flavio, não sei se você já viu o debate entre Ehrman e Craig, mas eu postei aqui uma transcrição dele e fiz uma breve introdução ao assunto:
      https://bertonesousa.wordpress.com/2012/11/03/existem-evidencias-historicas-para-a-ressurreicao-de-jesus/

      Sobre seu comentário, a argumentação de Bart Ehrman gira em torno de como o historiador pode abordar os eventos relacionados à morte de Jesus e os dias seguintes a ela. Nesse sentido, o fato de várias pessoas terem encontrado o túmulo aberto em diferentes ocasiões não prova a ressurreição, que, por ser um ato atribuído a uma intervenção sobrenatural, não pode ser considerado um evento histórico pelos motivos que foram colocados no texto, e que ele detalha de forma mais aprofundada no livro. Bart Ehrman argumenta que milagres de qualquer espécie não fazem parte do repertório de explicações que os historiadores podem levantar. O que foge disso está no campo da fé pessoal. Por isso, nesse ponto as críticas a ele são irrelevantes.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s