Lançamento do livro “Fé e Dinheiro”

capaUma das características mais marcantes do Brasil nas últimas décadas tem sido o crescimento das Igrejas com discurso focado na prosperidade ou Teologia da Prosperidade (TL). Essa teologia nasceu nos Estados Unidos no início do século XX e chegou ao Brasil na década de 1970, embalada pelo “Milagre econômico” da era Médici e voltada para uma classe média urbana em ascensão. Com o surgimento da Igreja Universal do Reino de Deus no final daquela década, mudanças doutrinárias, comportamentais e organizacionais importantes redefiniram, em algumas décadas, o ethos do protestantismo pentecostal no Brasil.

Esse é o tema de um livro que estou lançando pela Paco Editorial (CLIQUE AQUI para ver o livro no site da editora), intitulado Fé e Dinheiro: o Pentecostalismo da Prosperidade e a redefinição do protestantismo no Brasil. Essa obra é resultado de minha pesquisa de doutorado em História realizada na UFG. O estudo aborda as igrejas que ainda são conhecidas no Brasil pela designação “neopentecostais”. O termo é anacrônico e, para fins de pesquisa histórica e social, é cheio de imprecisões. Por isso, parto de uma proposta de nova periodização do pentecostalismo no Brasil, uma proposta que busca tornar mais compreensíveis mudanças e permanências no interior de segmentos que nem sempre possuem distinções muito claras uns dos outros.

As Igrejas do Evangelho da Prosperidade, como as chamo neste livro, se expandiram em um contexto marcado por demandas por ascensão social, individualização e busca por bem-estar pessoal. Organizadas a partir de uma estrutura empresarial, elas disputam adesões e secundarizam discursos acerca da salvação em outro mundo, assim como a pregação apocalíptica, duas características centrais do pentecostalismo desde seu surgimento no Brasil em 1910 até a década de 1970. Muitos de seus líderes emergiram e ainda emergem desse segmento, o que impossibilita abordar essas instituições a partir de classificações estanques. Há trocas de práticas e significados entre elas, assim como há trocas com outros cultos como os de matriz africana, mesmo que no campo do discurso religioso essas religiões sejam rivais.

Por isso, realizei uma pesquisa de campo no sentido de também compreender o crescimento dessas igrejas no interior do país, como isso se articula com o que ocorre nas capitais e grandes centros urbanos e como os discursos de suas lideranças se adaptam para públicos diferenciados. Os fiéis, por outro lado, não são apenas massa de manobra, um contingente sugestionável. Eles formam públicos heterogêneos e exigentes que em geral buscam integração e ascensão social sem abrir mão de elementos mágicos e do sagrado em sua vida cotidiana, embora com frequência sua busca seja mediada numa relação de dependência da autoridade religiosa.

A ênfase no consumo também se mostra como outra característica importante dessas igrejas e isso não ocorre por acaso; seu surgimento também se relaciona à difusão do modelo econômico e de consumo norte-americano e utilizam elementos que já estão presentes no imaginário social brasileiro, relacionado à busca de superação da pobreza através de fórmulas mágico-religiosas, a crença no poder curativo de líderes religiosos e a dualidade bem x mal interferindo diretamente no cotidiano.

Por outro lado, há uma materialização  da relação com o divino através de uma parceria econômica intermediada pela igreja, em o que indivíduo assume um papel proeminente ao adjudicar-se o direito de conclamar o sobrenatural a conceder-lhe posses e bens materiais na medida em que cumpre dois papéis: o de contribuinte fiel à instituição religiosa e ao aprender a usar palavras, fórmulas de efeitos mágicos numa cosmovisão em que a pobreza e a estagnação econômica são vistas como ações espirituais do mal.

Todos esses elementos já estavam presentes quando a Igreja Universal surgiu e ganharam contornos mais claros à medida que outras agências religiosas do mesmo segmento foram surgindo. Por isso, analiso ainda a importância que líderes como Edir Macedo, R.R. Soares, Valdemiro Santiago e Silas Malafaia exercem na difusão da TL no Brasil contemporâneo, assim como as ações de outros líderes menores e de igrejas autóctones que surgem no interior do país e o alinhamento ou distanciamento dessas igrejas em relação aos discursos dessas lideranças. A visão de mundo desses líderes em relação a questões como sexualidade e política também são abordadas, assim como estratégias de crescimento como o modelo conhecido como “igreja em células”.

Fé e Dinheiro é uma pesquisa histórica que lança mão do diálogo interdisciplinar e de conceitos-chave das ciências sociais para interpretar os discursos, ações, diálogos e conflitos que as igrejas da prosperidade travam umas com as outras, com a cultura secular e sua relação com eventos importantes de nossa história recente, marcados pela redemocratização, crises e períodos de crescimento econômico, seu lugar na cultura brasileira e seus caminhos em busca de legitimação social e política.

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13 thoughts on “Lançamento do livro “Fé e Dinheiro”

  1. Márcio 23/10/2015 / 7:06

    Parabéns professor, com certeza será um sucesso editorial. Já vou reservar o meu.

  2. Carlos 23/10/2015 / 8:43

    Bom dia professor, parabéns pelo lançamento. Fico muito feliz em existir uma abordagem histórica sobre esse fenômeno social religioso que vivemos em nosso país. Faço votos que as massar acordem para a realidade.

  3. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 24/10/2015 / 19:39

    Parabéns pelo livro professor Bertone Sousa,irei comprá-lo,e certamente aprenderei muito sobre a religião protestante e seu desenvolvimento no Brasil lendo seu livro,o senhor mencionou no texto que Silas Malafaia é um líder neopentecostal,ele pode ser considerado assim mesmo sendo um membro da AD,que é uma igreja pentecostal,inclusive a primeira a chegar ao Brasil em Belém do Pará no ano de 1911,mas o senhor acredita que o fato dele ter saído da CGADB(Convenção Geral das Assembléias de Deus Brasileiras),e ter aberto o Ministério Vitória em Cristo de forma independente,faz dele um líder neopentecostal,que rompeu com o pentecostalismo clássico ao sair da CGADB?

  4. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 24/10/2015 / 19:44

    E é certo que o pentecostalismo clássico da Assembléia de Deus da CGADB,ou do Ministério de Madureira,e de igrejas como Congregação Cristã do Brasil,Deus É Amor,essas se opõem a Teologia da Prosperidade?Se sim,isso tem algo a ver com a saída de Silas Malafaia da CGADB?

    • Bertone de Oliveira Sousa 24/10/2015 / 20:36

      Gabriel, sim, Malafaia pode ser considerado um líder neopentecostal. Até ministérios ligados à CGAD possuem pastores que adotaram a Teologia da Prosperidade. A Assembleia de Deus também tem sido muito influenciada por essa vertente. Essa é uma questão que discuto no livro.

  5. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 06/11/2015 / 19:47

    Professor Bertone Sousa,e o senhor considera o protestantismo histórico muito diferente do protestantismo pentecostal e neopentecostal,aliás igrejas como Universal,Mundial,e AD Vitória em Cristo podem ser consideradas protestantes?Ou são um fenômeno a parte do protestantismo?E gostaria de perguntar ao senhor tbm uma dúvida que tenho em relação aos trabalhos sociais feito por essas igrejas,o senhor disse em um outro post sobre protestantismo,não me lembro exatamente qual,que as igrejas históricas fazem um trabalho social muito melhor que as pentecostais e neopentecostais,que só fazem ações assistencialistas,e qual seria a diferença nesses trabalhos sociais?Eu já vi em programas de TV da Universal,eles distribuindo comida para mendigos,e ajudando dependentes químicos,e o Silas Malafaia já mostrou trabalhos sociais tbm em seu programa de TV,como um projeto para as crianças aprenderem informática,e uma instituição que oferece assistência a mulheres grávidas de baixa renda,para que elas não precisem abortar,eu não compreendi bem qual é a diferença de trabalho social para assistencialismo.

  6. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 06/11/2015 / 20:12

    Ah lembrei!Não foi em nenhuma postagem do blog que o senhor fez a afirmação que as igrejas pentecostais não fazem trabalho social,mas apenas assistencialistas,foi em um outro texto em que o senhor analisa diversas revistas de escola dominical da CPAD,e sua leitura fundamentalista da Bíblia,sempre negando a pós-modernidade,e o senhor menciona tbm o fato de nunca condenarem a pobreza,e a fome,mas somente o humanismo secular.
    ´´Essas representações de mundo voltadas para a desqualificação do mundanismo
    e de outras religiões são uma forma de o grupo canalizar sua agressividade para os que
    estão de fora (MARIANO, 2005, p. 116-117). Paralelamente, nenhuma revista da
    CPAD faz objeções à pobreza, à miséria, à fome, ao desemprego, ao analfabetismo, à
    exclusão social, à má distribuição de renda e outros problemas sociais, o que mostra que
    Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Ano III, n. 7, Mai. 2010 – ISSN 1983-2850
    http://www.dhi.uem.br/gtreligiao – Artigos
    245
    essas questões não preocupam a instituição como preocupam, por exemplo, algumas
    igrejas do protestantismo histórico engajadas em projetos sociais. As iniciativas da AD
    são totalmente voltadas para o proselitismo religioso e a apologética. No tocante à
    questão social, desenvolve obras de caráter essencialmente assistencialistas.´´

    http://www.dhi.uem.br/gtreligiao/pdf6/10Bertone.pdf

    Qual seria a diferença de um trabalho social e um assistencialista?E no caso as igrejas neopentecostais são melhores que a AD no sentido de trabalho social?

  7. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 06/11/2015 / 20:31

    E as igrejas pentecostais e neopentecostais podem ser chamadas de igrejas protestantes?Tenho dúvida em relação a isso tbm,se podem ou se o termo protestantismo é de uso exclusivo das igrejas que surgiram logo após a reforma:Como a luterana,presbiteriana,batista,metodista,as chamadas protestantes históricas.

  8. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 06/11/2015 / 20:34

    Tenho dúvidas também em relação ao uso do termo ´´protestante´´,se esse termo é para designar exclusivamente os seguidores de igreja que surgiram logo após a reforma,logo podem ser consideradas ´´filhas´´ dela,como a luterana,fundada pelo próprio autor dessa reforma,Martinho Lutero,e as que se seguiram:presbiteriana,batista,metodista,ou esse termo pode ser usado para designar as igrejas mais atuais que surgiram no século XX,como as pentecostais e neopentecostais?Mesmo que muitos protestantes históricos considerem que esses deturparam a reforma,ao se aproximar de uma espiritualidade mágica e mais apegada ao dinheiro,poder,como eram os católicos medievais,que os protestantes originais combatiam

      • Gabriel Tavares 07/11/2015 / 2:51

        Mas como o senhor vê essa diferença entre trabalho social e assistencialismo?

      • Bertone de Oliveira Sousa 07/11/2015 / 15:10

        Existem projetos sociais de caráter duradouro, como quando algumas igrejas mantêm centros de recuperação de viciados em drogas, por exemplo, ou creches e orfanatos. Já o assistencialismo é um trabalho efêmero e de pouco impacto, como distribuir roupas e comida a pessoas necessitadas sem que elas deixem a condição de mendicância ou pobreza extrema.

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