O comunismo fossilizado de Mauro Iasi

mauroiasiMauro Iasi, professor da UFRJ, membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e que já foi candidato a presidente, pode não acreditar que cometeu um grande deslize, pra dizer o mínimo, no 2° Congresso Nacional do CSP Conlutas no ano de 2015 ao citar um poema de Bertold Bretcht que fala de fuzilamento dos inimigos;  mas foi uma citação infeliz que serviu apenas para exacerbar ainda mais os ânimos da polarização ideológica que o Brasil está vivendo. Talvez essa tenha sido até a intenção de Iasi, e se for o caso, foi leviana.

O poema de Bretcht, poeta e dramaturgo alemão que faleceu em 1956, intitulado “Perguntas a um homem bom”, diz o seguinte:

Avança: ouvimos
dizer que és um homem bom.
Não te deixas comprar, mas o raio
que incendeia a casa, também não
pode ser comprado.

Manténs a tua palavra.
Mas que palavra disseste?
És honesto, dás a tua opinião.
Mas que opinião?
És corajoso.
Mas contra quem?
És sábio.
Mas para quem?
Não tens em conta os teus interesses pessoais.
Que interesses consideras, então?
És um bom amigo.
Mas serás também um bom amigo de gente boa?

Agora escuta: sabemos
que és nosso inimigo. Por isso
vamos encostar-te ao paredão. Mas tendo em conta os teus méritos
e boas qualidades
vamos encostar-te a um bom paredão e matar-te
com uma boa bala de uma boa espingarda e enterrar-te
com uma boa pá na boa terra.

Alguns defensores de Iasi dizem que ele não teve a intenção de defender fuzilamentos, pois citava apenas um poema e um poema é uma metáfora. Acontece que nada ali era uma metáfora, nem o poema, nem o discurso de Iasi, que começa dizendo que não se deve dialogar com conservadores. E onde não há diálogo sobra espaço apenas para a violência. Sua postura  não é melhor que a daqueles que defendem o retorno da ditadura, ou lamentam que os militares não mataram todos os militantes de esquerda.

Ora, posso não ser conservador e não gostar de muitos valores que os conservadores defendem, mas não é uma postura democrática a rejeição total ao diálogo. Existem conservadores intransigentes e intolerantes, que também não querem diálogo mas a imposição de sua visão de mundo e a criminalização das esquerdas. Esses, contudo, são minoria em nossa sociedade e, embora tenham na internet uma claque de seguidores que vociferam insultos contra seus desafetos, estes também não representam a maior parte do segmento social que defende princípios conservadores. Desde que se respeite os limites da liberdade de expressão, a democracia deve conviver com posições diferentes. É isso que possibilita que numa mesma sociedade até pessoas ridiculamente toscas como um Lobão e uma “socialista morena” possam expressar livremente suas ideias. É esse princípio elementar que os extremistas de esquerda e direita não conseguem tolerar, pois não suportam viver em um mundo em que suas ideias não sejam universalmente aceitas.

Vivemos um momento de polarização ideológica muito perigosa no Brasil. Temos hoje o Congresso mais conservador desde 1964, vivemos uma crise moral das esquerdas democráticas  e isso deixou o caminho aberto para a ascensão de indivíduos que querem mudar a legislação para incluir nela princípios religiosos e outros que defendem abertamente ideias nacionalistas e xenófobas, como Bolsonaro. Isso já começa a ter consequências sociais nefastas: apenas alguns dias depois de Bolsonaro dizer que os haitianos são escória do mundo, um imigrante haitiano foi assassinado em Santa Catarina.

O remédio pra isso não é combater a intolerância com outra, mas insistir para que nossas instituições democráticas funcionem no sentido de impedir que essas ideias e essas ações continuem a ser defendidas e praticadas no Brasil. Isso é o espírito do fascismo e um alerta de que algo muito errado e antidemocrático está avançando no plano da ação social. Antes de tudo é preciso reconhecer que a atual onda conservadora é em grande parte resultado dos erros cometidos pela esquerda no poder e que uma reorganização das esquerdas se faz necessário para manter as políticas sociais (que a direita continua a odiar) e avançar em pautas progressistas, como direitos civis e trabalhistas – questões nas quais o PT avançou e das quais o governo Dilma 2 agora começa a recuar como tentativa de manter-se desesperadamente no poder.

Nosso trabalho não deve ser defender fuzilamentos, mas levar esclarecimentos à sociedade, no sentido que Paulo Sérgio Rouanet aborda em “As Razões do Iluminismo”, isto é, combater com as armas da razão o irracionalismo que se nutre da ignorância e que alimenta o racismo, a xenofobia e até a aversão à democracia; manter do Iluminismo (como consciência trans-epocal) a noção de que somente a razão é crítica e rejeitar qualquer discurso que acene para a redução de liberdades individuais.

Se quisermos problematizar a democracia é importante entendermos não faz mais sentido falar em “democracia burguesa”; falamos genericamente em democracia e da expansão de direitos e promoção da inclusão e ascensão social sem sacrifício a liberdades ou, para usar uma expressão de John Rawls, defender uma democracia de proprietários voltada para a eliminação do problema da exclusão social e em que as diferenças entre classes não permitam a subsistência da miséria social. Não precisamos abrir mão da utopia nem jogar fora as liberdades individuais para pensar o mundo.

Quem tem um histórico de militância na esquerda radical como Mauro Iasi tem dificuldade de aceitar a luta democrática pelo poder por considerar a “democracia burguesa” uma falha que precisa ser eliminada. Essa mentalidade deveria ter desaparecido com o fim da União Soviética, mas permanece incrustada em parte da esquerda que se recusa a aceitar a falência do projeto de revolução social. Não é por acaso que esse segmento não tem expressividade social, não tem apoio dos trabalhadores em nome dos quais pensa falar e seus discursos radicais não encontram eco entre os mais pobres, o que reflete em seus pífios resultados eleitorais.

O problema da menção ao poema de Brecht foi sua recitação por uma figura pública, docente de uma instituição de ensino superior pública. O modelo de democracia que pessoas como Iasi defendem é o centralismo democrático leninista, onde as massas são guiadas pelo partido dirigente, que em tese representa seus interesses; o partido se outorga o monopólio da interpretação do mundo e da condução da vida social. Na prática, esse princípio abriu o caminho para a emergência do Estado totalitário, promotor de uma perseguição brutal a inimigos reais e imaginários e do culto à personalidade, que tiveram em Stalin e Mao Tsé-Tung seus principais expoentes. No poder, a ideologia comunista se transmutou em ditadura atroz, transformou virtualmente toda a humanidade em inimiga de classe e, no afã de cumprir leis da história, soterrou dezenas de milhões de pessoas. Onde quer que o comunismo tenha chegado ao poder, os versos finais do poema de Brecht se tornaram rotina.

Por isso, no contexto em que vivemos, seria de esperar que pessoas com boa formação considerassem esse poema não apenas indizível como imoral. O comunismo está morto, não existem mais movimentos, grupos ou partidos que tenham qualquer possibilidade tomar o poder pela via revolucionária, nem indivíduos que exerçam influências decisivas sobre governos. O que sobrou do comunismo foi uma militância cabeça-oca, que ainda admira Fidel Castro, Che Guevara, às vezes até Lênin; uma militância fora de época e que Mauro Iasi, apesar da boa formação, dá apenas mais um exemplo.

Leia também: 

As Razões do Iluminismo

O que foi o comunismo

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23 comentários sobre “O comunismo fossilizado de Mauro Iasi

  1. Roni 21/10/2015 / 0:43

    Muito bom! Só dá um ajeitada nesta parte, está confusa: “É isso que possibilidade que numa mesma sociedade…”. Abs.

      • Valdir Antunes 21/10/2015 / 10:47

        Bortone aprecio suas analises, porém tenho dificuldade em aceitar que o governo Lula representou a “esquerda”, por conta de promover um certo apaziguamento entre pobres e ricos, isso vale para o desastroso governo Dilma. As eleições demonstraram que a maior parte da sociedade é conservadora e outros radicais, salvaguardando alguns e boa parte da elite são radicais e intolerantes. (PSDB causou-me asco)
        Sem preconceito, boa parte daqueles que você intitulou de pobres talvez não saibam os resultados das diversas posturas ideológicas que são regurgitadas por essas minorias e pelos veículos de comunicação igualmente radicais e conservadores. Ouvi e ouço fundamentalmente nesse tempo de radicalização o medo e receio de um avanço comunista (absurdo, pois o comunismo está morto) ou usam esse velho jargão para radicalizações de toda sorte como nos tempos que antecedeu o golpe de 1964.Temos uma direita anacrônica, oportunista, golpista por conta de uma “esquerda” que não soube sustentar-se no poder como ratos magros que diante do pote de açúcar se chafurdam e afogam-se.
        Ouço velhas mazelas, palavras feitas, senso comum fazendo alusão a nomes como Ernesto Guevara por conta dos fuzilamentos como mecanismo de eliminar opositores, mas vale lembrar que no Brasil se mata milhares de pessoas nas filas dos hospitais, no trânsito, assaltos seguidos de mortes (homicídios), a falência da justiça que coloca nas ruas milhares de presos por conta de o Estado não dar conta de recuperá-los em um sistema carcerário vergonho. Da mesma justiça morosa que promove o aumento da violência e ainda volto a repetir coloca nos ombros da sociedade criminosos de volta as ruas; que nome daremos a isso? Terrorismo do estado? Você quer mais radicalismo que isso? E as políticas econômicas ao longo das décadas? Acaso não promoveram uma espécie de ditadura criando estratos sociais vergonhosos? Onde esta´o radicalismo no Brasil?

      • Bertone de Oliveira Sousa 21/10/2015 / 13:16

        Valdir você está misturando coisas muito diferentes. É claro que essas situaçoes que você mencionou também são revoltantes mas é preciso tomar cuidado com essas “análises” compostas mais de paixão do que de compreensão. Não vivemos nenhuma ditadura e nossos problemas são históricos e resultado de má administração dos recursos públicos. E terrorismo é outra coisa. Se usarmos os conceitos de forma errada não vamos entender coisa alguma.

  2. Luiz Antonio Borges 21/10/2015 / 5:57

    Não concordo, acho que não houve incitação a violência, aquilo é uma metáfora. Talvez para alguns que não entenderam o sentido ou fizeram mal uso das palavras do Mauro Iasi ao ler o poema de Brecthc Muitas pessoas que se dizem intelectuais não sabem o que é metáfora e nem analogia…

    • Carvalho 20/11/2015 / 5:23

      Metáfora é quando uma coisa significa outra coisa, por exemplo o leão significa o Sol ou o Sol significa o rei. Entre o signo e o significado há uma diferença de espécie. Quando o sr. Iasi explica que “não se trata de uma pessoa e outra conversando, muito menos uma posição pessoal” e sim de “uma metáfora de um encontro de classes numa situação dramática”, ele só prova que não sabe o que é metáfora.
      Na figura de linguagem que ele emprega, o proletário e o burguês não significam coisas de outras espécies, mas sim as espécies respectivas a que eles realmente pertencem: o proletário significa o proletariado, o burguês a burguesia. Isso não é uma metáfora de maneira alguma, é uma METONÍMIA – não uma relação analógica entre coisas especificamente distintas, mas a relação lógica entre a parte e o todo. O sentido do trecho citado não é portanto o de uma ameaça de homicídio, mas de GENOCÍDIO: não é este proletário que deve matar este burguês em particular, mas o proletariado como um todo que deve exterminar a burguesia inteira.
      Já é uma palhaçada deprimente que um sujeito que ignora a distinção elementar entre metáfora e metonímia pose de grande conhecedor da literatura e se dirija aos seus leitores como a um bando de iletrados que “não são muito afeitos a poemas”. Porém mais grotesco ainda é que, ao tentar dar à sua convocação truculenta os ares inofensivos de uma “metáfora poética”, ele não percebesse que, com a ajuda de Brecht, estava confessando seu desejo de saltar da escala do homicídio para a do genocídio.

  3. Gabriel Pezzini 21/10/2015 / 9:08

    Veja que tanto Iasi quanto Brecht, por meio de seu poema, transformam tudo em interesse de classe: é o nós contra eles, e isso só pode levar ao derramamento de sangue.

    Conservadores, ao menos os de bom senso, não defendem suas ideias por interesse próprio, mas por achar que elas são melhores para a sociedade, e o mesmo vale para liberais e esquerdistas. E o debate só existe porque ninguém sabe de fato qual o caminho correto: a tendência é que nenhum lado esteja certo em tudo, ainda mais num embate político que já dura quase 2 séculos.

    Ter a honestidade e a humildade para admitir que não se conhece a verdade absoluta e universal é a condição primeira para que as diferentes partes possam se enfrentar numa discussão democrática. Diante de problemas para os quais a solução é inexistente ou desconhecida (como o de conciliar eficiência e igualdade, por exemplo), é válido lançar conjecturas teóricas que acabam se estruturando em ideologias. E cada lado que respeite o achismo alheio.

    É claro que cada facção política recebe o apoio de organizações e sujeitos que se beneficiariam com a implantação no Estado de ideais daquele grupo, o que se trata de outro fenômeno. Reduzir as posições dos adversários – ou pior, as suas próprias – a isso é dar um poder descomunal aos indivíduos que deturpam o sistema político perseguindo seu próprio benefício. É perder a esperança que necessariamente deve existir como combustível do debate republicano, e deixar o caminho livre para um mero confronto entre oligarquias mais ou menos totalitárias.

  4. Barrett 21/10/2015 / 11:23

    Não vejo no Brasil nenhum movimento de esquerda realmente disposto a reorganizar a sua luta no plano metapolítico, que é em definitiva o X da questão capaz de explicar o recente avanço da direita sobre a esquerda, com uma frente ideológica incomum, que driblou o neoliberalismo e se trasvestiu de economia austríaca, que criou um ponto para o ecumenismo cristão na política de direita, e que conciliou interesses de distintas classes sociais na ideia de nação e promessa de democratização da oferta.
    Ao igual que no seu texto, caro Bretone, identifico estes avanços da direita com o engessamento ideológico das organizações de esquerda, em que seus quadros ideológicos usam ainda as armas metapolíticas da velha esquerda da primeira metade do século XX, assim como seus quadros técnicos se encastelam em universidades, sindicatos, ou instituições tais como o IBGE. Como resultado, a ideologia dos trabalhadores no Brasil ganhou outra forma, converteu-se na ideologia dos comentaristas do mundo do trabalho. Com os trabalhadores de fato construíram poucos elos ideológicos, limitados a setores do sindicalismo e de movimentos sociais cuja fidelidade é sinuosa em função do caráter alienado altivo e técnico da esquerda, tanto aquela no poder como aquela na sociedade civil.
    Dentro do grupo disperso de esquerdistas que tentam fazer a diferença através da internet, também percebo pouco comprometimento com uma real contribuição para uma fórmula metapolítica que seja capaz de frear e reverter o avanço ideológico da direita.
    Aprecio alguns de seus textos que vão nesse sentido Bretone, porém por vezes percebo que a boa intenção da sua crítica nem sempre é coerente com o sistema de ideias que você poderia apresentar como uma alternativa viável. Se a ideia de uma proposta socialista nos moldes do leninismo, do stalinismo, ou do castrismo, que ainda causa um gradiente de fascínio dentro da esquerda brasileira atual, não representa uma ponta de lança viável para a penetração de uma política popular revolucionária: o que irá fazer a substituição? A renascença da renascença? Vamos destilar o que houve de mais perfeito no iluminismo, vamos ao frente da batalha ideológica com o ativismo ateu, para combater as trevas medievais em um dos países mais cristãos do planeta?
    Vejo aqui a mesma dissociação entre intelectualidade técnica e classe operária, assim como o mesmo tipo de ânimo que pode passar por pretensiosamente pedagogo.
    A esquerda brasileira necessita de uma reformulação profunda, muito mais profunda do que aquilo que, aqueles que estão dispostos a realizá-la, estão dispostos a perceber.

    • Bertone de Oliveira Sousa 21/10/2015 / 13:23

      Barret, é preciso ter cuidado para que reformulação não se torne a retomada de velhas fórmulas autoritárias. As respostas a essas questões precisam partir de análises de caso em níveis locais e no caso do Brasil, de uma crítica contundente de um patrimonialismo de esquerda e direita que devora recursos públicos e estrangula o poder aquisitivo dos mais pobres. Sem uma problematização histórica dos nossos problemas vamos apenas andar em círculos.

  5. Henrique 21/10/2015 / 14:15

    Não gosto das esquerdas pq a maioria é ignorante; vêem o mundo dividido entre “burguesia” e “proletário” – como se só existissem duas classes sociais. Esquecem q marx não imaginava o surgimento de uma classe média e de suas ramificações. Parece q vivem no século xlx. Todos os q não estão nos seus interesses, jogam para o lado da dita “burguesia”.

    • Diego 22/10/2015 / 15:06

      “Não gosto das esquerdas pq a maioria é ignorante”, e com qual base você afirma isso? sem generalizar cara, pelo visto você faz parte do mesmo pessoal que o Bertone citou.

      • Henrique 24/10/2015 / 1:41

        qual pessoal? e vc, com q base afirma isso? são fatos. O próprio autor do texto, mesmo com uma inclinada para a esquerda, já escreveu em muitos textos sobre a burrice tanto da esquerda quanto da direita no contexto brasileiro. Isso tudo, principalmente, pela carência de um conhecimento e aprofundamento histórico por parte destas.

      • diegoassis10 26/10/2015 / 17:06

        Henrique, concordo que há muita desinformação e ideais nada condizentes com a atualidade, mas dizer que a maioria é ignorante não é o certo a se dizer, eu diria a esquerda que acredita e Stalin, Che Guevara e esses outros personagens da história comunista. Mas de resto tem muita gente de esquerda consciente que talvez você não conheça por te tido contato apenas com essa parte. Da mesma forma que estou esperando conhecer alguém da direita que não seja tão intolerante e que não leia Olavo de Carvalho, porque com esses nunca consegui conversar.

  6. Valdir Antunes 21/10/2015 / 14:50

    Caro Bertone aprecio suas publicações e não acredito que sejam movidas por “paixão” como mencionou a minha simples posição, pois repudio toda forma de radicalismo, aliás, ao contrário das muitas posições radicais pós eleições pude depreender o quanto boa parte da sociedade é conservadora muitas vezes guiadas por parte da mídia anacrônica e oportunista.
    Citei uma série de fatores concretos, gênese de muitas mazelas igualmente vergonhosas que deveriam sim nos causar espanto. Se você observar bem, são concretamente causas de milhares de mortes implicando no futuro do nosso país, pois os que morrem são em sua maioria jovens e pobres. Há uma guerra urbana sem possibilidade de passar despercebida por nós, isso sim é perigoso, não afirmações exaladas no âmbito das ideias. Me parece que podemos conviver e aceitar políticas que excluem, matam, comprometem o futuro, mas temos horror, ou melhor pavor de posições tidas como de esquerda, um medo histórico como o mesmo do período que antecedeu o golpe de 1964.
    Repito, opiniões sem radicalismo , pois só assim haveremos de construir um país democrático.

  7. Adão 21/10/2015 / 15:48

    Olá Bertone;

    Eu conheci esta semana uma senhora polonesa de 70 anos de idade. Defensora apaixonada do comunismo. Um fato raro de se ver: um defensor do comunismo que, de fato, viveu em um país comunista. Ela alegou que há muito propaganda mentirosa sobre os regimes do leste europeu (antes da queda do muro de Berlim) e que os poloneses sente um certo “arrependimento” de terem abraçado a “democracia ocidental”. Ela disse que teve aulas de religião na escola (em meio ao governo comunista) e disse que é mentira a história da perseguição religiosa. Ela viveu infância no período do pós-guerra na Europa, acha que o ocidente descontroi “a família” e ela detesta o Lech Walesa…
    Eu gostaria de saber sua opinião sobre a liberdade religiosa nos países da Europa oriental durante o “comunismo”. Você acha a nossa visão sobre os regimes comunistas terem sido muito opressores pode ser exagerada ou será que a população que viveu nestes regimes foi muito doutrinada a pensar assim? Há algum estudo sobre o nível de liberdade religiosa neste regimes?

    • Bertone de Oliveira Sousa 21/10/2015 / 20:50

      Adão, a Polônia foi um dos países que mais resistiram à imposição da ideologia soviética e o catolicismo foi uma forma de manter a identidade frente à ocupação. A postura dessa senhora é muito comum entre as pessoas mais idosas até na própria Rússia, pois com o fim da União Soviética o Estado de proteção social também foi desmontado. A adesão repentina ao capitalismo sem amparo do Estado foi traumática pra muita gente que perdeu emprego e benefícios sociais. Um autor americano que pesquisou nos arquivos soviéticos nos anos 90 chamado Jonathan Brent falou de pessoas que vendiam até suas próprias escovas de dentes nas ruas de Moscou pra conseguir algum dinheiro. Enquanto a sociedade empobrecia, uma minoria enriquecia com o espólio da URSS. As pessoas mais velhas foram as mais atingidas por essas mudanças. Então, a questão não é apenas a doutrinação por si só, mas a própria perda de referenciais sociais com o desmonte do Estado de proteção.

      Sobre a religião, a constituição soviética garantia a liberdade de culto, mas entre a letra da lei e o que realmente ocorria havia um grande abismo. A perseguição religiosa diminuiu depois da era Kruschev. As igrejas não desapareceram, mas as pessoas eram desestimuladas a seguirem qualquer religião. Você encontra abordagens sobre isso nos manuais mais densos de história do comunismo, como “Ascensão e queda do comunismo” de Archie Brown e “Camaradas” de Robert Service.

  8. Gabriel Tavares 24/10/2015 / 19:29

    Professor a que o senhor atribui essa postura do Mauro Iasi e de muitos outros esquerdistas contemporâneos de seguirem uma retórica agressiva de Guerra Fria?De ´´nós´´ contra ´´eles´´,ele ao pedir o fuzilamento de conservadores,se torna una versão esquerdista de Bolsonaro,que pensa a mesma coisa em relação aos esquerdistas,qual sua explicação professor para esse extremismo que mantêm uma mentalidade de Guerra Fria ainda,tanto por parte da esquerda como da direita?

  9. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 24/10/2015 / 19:34

    Mauro Iasi ao pedir o fuzilamento dos conservadores,se torna uma versão esquerdista de Bolsonaro,que deseja o mesmo para a esquerda,fuzilar,agredir,ambos mantêm uma retórica de Guerra Fria´´nós contra eles´´,Mauro Iasi ainda acredita na luta de classes,na revolução como forma de implantar o socialismo,já Bolsonaro deseja livrar o país dos ´´comunistas comedores de criancinhas´´,a que o senhor atribui esse extremismo tanto de esquerda como direita?Por que essas pessoas desejam viver ainda na Guerra Fria?

  10. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 24/10/2015 / 19:35

    Eu penso que o Mauro Iasi por sua excelente formação acadêmica poderia ser muito mais que uma versão de esquerda do Bolsonaro,não sei porque em pleno século XXI,ano de 2015,ele insiste em manter um discurso da época da Guerra Fria

    • Bertone de Oliveira Sousa 24/10/2015 / 20:32

      Gabriel, infelizmente ele não é o único a pensar dessa forma. Algumas pessoas com um histórico de militância política se recusam a aceitar que o discurso ideológico com suas verdades universais não explica mais o mundo; então agem como se houvessem exércitos ou milícias do outro lado prontos a tomar o poder e a quem é preciso combater. Isso é análogo ao pessoal que vive falando em ameaça de Foro de São Paulo. Esses extremistas não aceitam a relativização de seus discursos. Ficaram presos a isso, o mundo deles não mudou com o fim da Guerra Fria.

  11. Francisco de Assis Dorneles 02/11/2015 / 7:48

    Bertoni bom dia, temo pelos próximos anos, em especial, a próxima eleição, o seu decorrer e o pós eleição.
    Existe um clima de ódio, de intolerância que não dissipa do ar. No meu setor mesmo convivo com isto quase todos os dias. Durante a eleição defendi a reeleição da presidenta Dilma.
    Colho os frutos até hoje, um senhor que me conhece desde criança hoje me olha com intolerância como se eu fosse um inimigo histórico dele.
    Tem um taxista aposentado amigo meu já me disse que lamentava muito os militares não ter matado a Dilma. Ele acredita em tudo o que falem do P.T.
    E os episódios que vemos todos os dias na na imprensa: racismo contra Thais Araujo, contra Maria Júlia, as ações da P.M matando a bel-prazer, bomba contra o Instituto Lula, agreção verbal a políticos do P.T como o Suplyci,nota na internet pedindo a morte do Stedile, ou comentários toscos de ódios de jovens sem mente contra toda pessoa que se diga da esquerda.
    E a esquerda produzindo algumas pérolas como este professor.
    A realidade é que o Brasil esta dividido e eu não culpo somente os erros do P.T, para mim, os erros do P.T também estão nos outros partidos.
    A intolerância da direita saiu da caixa de pandora e atingiu as mentes ainda ignorantes do povo brasileiro.
    Culpo muito disto a imprensa que nesta guerra de poder não pensou nas consequências de instigar o ódio na sociedade brasileira.
    Tem outro ponto também me parece que a direita quer isto mesmo, acuar a esquerda fazendo que ela passe a agredir também. Posso estar equivocado, mas esta é a minha leitura.
    No fim das contas perdemos todos nós, ainda nos falta um longo caminho para sermos uma nação.
    Abraços.

  12. Carlos Rebello 04/11/2015 / 14:04

    Desculpe discordar, Prof. Bertone, mas no caso do Iasi, quem jamais escondeu o que deseja são os seus adversários, como mostra o tipo de reação que tiveram, segundo o próprio Iasi diz no seu blog: “…entulharam minha página com ameaças, dizendo que gostariam de me fuzilar, me levar para o DOI-Codi para ‘brincar comigo’, […] ameaçaram matar minha família, […] expressaram seu desejo de que eu tivesse tomado um tiro na época da guerrilha […] enviaram a foto do Comandante Guevara morto para dizer que fariam o mesmo comigo, […] afirmaram que eliminariam todos os comunistas da face da terra, que eu quero mesmo ‘é uma piroca’”. Essa gente nunca escondeu o que quer, e se não tentaram ainda algo mais sério é em grande parte por perceberem que o país é mais complicado hoje do que em 1964 e que uma manobra golpista poderia provocar uma reação violenta de intensidade desconhecida. Em certa medida, a estabilidade da Democracia liberal-burguesa no Brasil depende deste medo. Exatamente por isso, abdicar do direito de reagir não seria talvez a melhor coisa a fazer. Citando um autoridade insuspeita de marxismo, o saudoso Leonel de Moura Brizola : não se levanta bandeira branca antes da guerra começar.

    • Bertone de Oliveira Sousa 04/11/2015 / 14:22

      Carlos, ele atiçou o cão com vara curta. Há um monte de fascistinhas por aí e na internet gostam de se mostrar intimidadores. Esse pessoal faz barulho na internet mas não tem força política e são ridicularizados até pelas forças armadas que idolatram.

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