O que é fundamentalismo

fundamentalismo[5]Fundamentalismo se tornou uma forma de insulto. Quando não se gosta de alguém ou de um movimento, é comum chamá-lo(a) de fundamentalista. Assim fazem, por exemplo, representantes do movimento GLBT com a bancada evangélica no Congresso e vice-versa. Há quem fale de ateus fundamentalistas, de feministas fundamentalistas e por aí vai. No fim, uma questão fica em aberto: quem realmente é fundamentalista?

O termo se origina de um conjunto de doze documentos publicados com o título The Fundamentals, a Testimony to the Truth no início do século passado por lideranças protestantes norte-americanas. O documento é uma afirmação contundente da literalidade de algumas narrativas da Bíblia, além de expressar a ideia de que a Bíblia não contém erros: afirma que a criação ocorreu como descrita no Gênesis, que Jesus Cristo nasceu de uma virgem,  ressuscitou fisicamente,  assim como os milagres por ele realizados relatados nos evangelhos são todos autênticos e que sua deidade é real.

O fundamentalismo não advoga a literalidade de toda a Bíblia, apenas de algumas partes dela e isso está relacionado ao contexto de seu surgimento. O movimento surgiu como reação a importantes tendências do século 19: o evolucionismo darwinista, a física moderna e a crítica superior da Bíblia (a crítica literária e histórica dos textos bíblicos). O pano de fundo que ocasionou o nascimento do movimento fundamentalista foi o afastamento da explicação religiosa da origem da vida e dos fenômenos naturais e os estudos históricos da Bíblia iniciados na Teologia alemã. Todos eles tinham em comum a rejeição da revelação como verdade atemporal e inconteste.

A crítica superior da Bíblia teve no filósofo holandês Baruch Espinosa um de seus precursores. Para ele, a Bíblia deveria ser lida como qualquer texto e não como uma revelação divina. Ele foi um dos primeiros a examinar suas características históricas e literárias, assim como as ideias políticas que nortearam sua escrita. Mas foi apenas no século 19 que a crítica superior ganhou forma. O termo “superior” é uma referência à iniciativa de seus representantes de tentar identificar os autores e as fontes que inspiraram os livros da Bíblia, assim como as tradições religiosas ligadas a ela; superior remete à noção de ser uma crítica explicativa, em oposição à explicação literal, que seria inferior.

Também conhecido como método histórico-crítico, os representantes dessa vertente descobriram, por exemplo, que os cinco primeiros livros da Bíblia não foram escritos por Moisés, nem os Salmos por Davi, que as narrativas de milagres são tropos literários e os Evangelhos não são integralmente verdadeiros. Hoje também sabemos que nenhum dos evangelhos foi escrito pelos autores que lhes são atribuídos, assim como muitas cartas de Paulo também não foram redigidas por ele. Por outro lado, graças ao avanço da geologia, o Dilúvio passou a ser interpretado como uma enchente local, isto é, que não inundou todo o planeta, assim como a descoberta de rochas com centenas de milhares de anos proporcionou o entendimento de que o mundo não poderia ter menos de dez mil anos, como se acreditava com base no relato da criação.

Foi entre presbiterianos de Princeton, em 1910, que a doutrina da infalibilidade da Bíblia foi formulada. Nos cinco anos seguintes, os panfletos The Fundamentals foram elaborados por alguns teólogos conservadores; nesses documentos, eles refutavam a crítica superior da Bíblia e o darwinismo; eles também distribuíram cerca de três milhões de exemplares desses panfletos pelos Estados Unidos. Ainda em 1908, o importante seminário Bible College foi fundado por magnatas do petróleo para ser um centro de educação dos fiéis nos princípios centrais da fé cristã e para fazer frente às abordagens oriundas do método histórico-crítico.  Embora os panfletos tenham causado pouco impacto na época de sua publicação, o movimento fundamentalista ganhou força nos Estados Unidos nas décadas seguintes, se expandiu juntamente com o pentecostalismo, que ainda dava seus primeiros passos e foi usado para reforçar a Doutrina do Destino Manifesto, da escolha divina dos Estados Unidos para expandir o cristianismo.

Desse modo, os fundamentalistas pretendiam retornar ao que consideravam as verdades “fundamentais” da Bíblia e passaram a apelar para a exatidão científica de seus relatos. Ao fazer isso criaram enormes problemas para si mesmos, pois tentaram casar linguagens e estilos narrativos tão diferentes quanto inconciliáveis, que é a diferença entre a narrativa mítica, isto é, poética e que não pretende evocar questões empíricas e cronológicas, campo onde se situa a Bíblia e o logos, que é onde se situa o pensamento científico. Este último é empírico, demonstrativo, racional no sentido de propor enunciados (verdades) que correspondam ao mundo físico e natural; é um pensamento que busca origens, encadeamento de eventos, argumento causal. O logos é o pensamento que deve ser capaz de provar, demonstrar e garantir a veracidade empírica do que é dito.

Nada disso diz respeito ao mito. O mito não usa argumentações racionais, mas intuitivas. Seu objetivo não é explicar o mundo, mas sustentar um conjunto de rituais e cerimônias de um determinado culto religioso. E esse é um dos aspectos sociais mais relevantes do mito: ele está sempre associado a um tipo de culto e à observação de determinados ritos religiosos. Por isso, quando uma religião desaparece, seus mitos também perdem sustentação social.

Quando o pensamento moderno deixou claro que é a matemática e a pesquisa empírica que podem explicar o mundo, não a fé, isso representou um duro golpe naqueles que não conseguiram aceitar que a linguagem da Bíblia não é a linguagem da ciência, que suas narrativas não objetivam ser verdades no sentido que o pensamento racional moderno se apresenta e nem poderiam pois o pensamento pré-moderno se preocupa com sentidos, não com explicações causais. Nesse passo, a Bíblia trata de significados, não de narrativas históricas como nós entendemos narrativa histórica hoje.

Mas há outro aspecto do fundamentalismo que precisa ser enfatizado: as religiões monoteístas, devido à sua crença em um Deus, chegam facilmente à noção de que a verdade é única e está revelada em determinados textos sagrados. Por isso, o fundamentalismo nasceu para se contrapor à noção de que as verdades são construções provisórias e sua interpretação dos textos sagrados rejeita a distinção entre tipos diferentes de linguagens que expus acima (e em outros textos, que o leitor pode conferir nos links ao final deste artigo).

O fundamentalismo não é anti-moderno, ele não rejeita toda a ciência nem o seu método; rejeita apenas as teorias científicas que contrariam sua interpretação literal de textos sagrados. Ele nasce como uma tendência da modernidade para se contrapor a outras tendências da própria modernidade e não apela apenas à autoridade religiosa para afirmar seus enunciados como verdadeiros, mas frequentemente tenta dar a esses enunciados uma casca, uma aparência científica, como é o caso da teoria do Design Inteligente (ou ID, Intelligent Design, em inglês).

O fundamentalismo é essencialmente antirrelativista, por isso não pode existir fora de uma cosmovisão monoteísta. Nenhuma religião politeísta pode ser fundamentalista, uma vez que a aceitação de vários deuses implica a aceitação da validade de outros credos, além do fato de que disputam de forma permanente a hegemonia e a imposição de alguns desígnios. Por outro lado, tendências seculares como o feminismo, o ateísmo, movimentos de minorias ou ideologias políticas também não podem ser fundamentalistas porque não possuem um livro sagrado a partir do qual poderiam extrair uma verdade revelada de natureza universal.

Embora o termo fundamentalismo tenha nascido no protestantismo, também é usado para caracterizar movimentos análogos no Judaísmo e no Islamismo. No primeiro, possui uma dimensão essencialmente étnica (isto é, não universal) e relacionada à valorização da identidade do povo judeu como povo escolhido. No Islamismo está relacionado à crença de que seu livro sagrado foi gerado diretamente por Deus, ao invés de ter sido apenas revelado e os valores que norteiam a sociedade, seu poder político e seu direito devem ser extraídos diretamente do Alcorão de forma direta e literal.

O fundamentalismo tem como uma de suas características centrais ser uma religiosidade beligerante, interpreta o mundo a partir da luta entre o bem e o mal, vê os defensores de posições diferentes como inimigos potenciais, daí sua impossibilidade de aceitação do diferente e sua permanente propensão à imposição de seus ideais. O estilo de vida pluralista e tolerante das democracias seculares ocidentais é o oposto do que pregam os fundamentalistas e frequentemente usam dos direitos por elas concedidos para derrubá-las, ou pelo menos torná-las menos tolerantes.

Leia também:

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Criação e Evolução: notas sobre um debate sem fim

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26 comentários sobre “O que é fundamentalismo

  1. Cesar Marques - RJ 20/08/2015 / 23:25

    Professor Bertone, o Deputado Jean Wyllys fez um comentário de assunto mais ou menos semelhante a esse que foi abordado pelo senhor. Eu gostaria que se fosse possível, o senhor fizesse uma apreciação sobre o conteúdo de sua fala: https://www.facebook.com/jean.wyllys/videos/942455209135820/

    P.S.: Se não foi Moisés que escreveu o Pentateuco, então, quem o escreveu?

    • Bertone de Oliveira Sousa 21/08/2015 / 3:33

      Cesar, Jean Willys é uma das poucas vozes no Congresso que defendem uma democracia pluralista e direitos de minorias. A fala dele foi bem colocada mas conhecimento de história e antropologia é o que menos se valoriza naquela casa.

      Sobre o pentateuco não se sabe exatamente quem foram seus autores. O que se sabe é que foram vários, devido aos diferentes estilos literários que contêm, como no Gênesis em que os estudiosos distinguem entre os relatos eloísta e javeísta. Esses livros foram escritos por escribas ao longo de cerca de seis séculos. O primeiro capítulo do Gênesis, por exemplo, foi redigido durante o exílio babilônico por volta do século VII a.C.

      • Cesar Marques - RJ 21/08/2015 / 4:15

        Eu achei impressionante como essa intervenção do Jean Wyllys na Câmara convergiu com muito do que o senhor colocou nesse texto, sobre religiões monoteístas tenderem a ser fundamentalistas, ao contrário do politeísmo, que seria imune ao fundamentalismo por naturalmente ser um tipo de religiosidade plural.

        Obrigado pela resposta, professor Bertone.

        Abraços.

      • Cornelio A.Dias 21/02/2016 / 11:53

        Gostaria de emitir o meu parecer teológico referente à segunda parte desta, não do artigo em si: apenas para dar somente uma opinião, não precisa postar se quiser. Para se determinar a autoria de um Livro Bíblico à teologia recorre à expressão alemã “Sitz im Leben” que é utilizada na exegese de textos bíblicos; traduzida comumente por “contexto vital” [Gênero Literário na teologia moderna] que é empregada no estudo da análise do gênero literário do livro ou parte dele. De uma forma mais simples o Sitz im Leben descreve em que ocasião uma determinada passagem da Bíblia foi escrita, ou seja, qual foi o fato que motivou o surgimento de um determinado gênero literário bíblico; se Javista ou Eloísta. Este estudo é necessário para se chegar a uma conclusão aproximada do autor do livro. Isto porque um livro pode ser escrito em parte pelo autor e ou em parte transcrito por um dos seus escribas. E os conflitos entre os teólogos são milenares. Porque os gêneros literários predominantes eram o Javista e o Eloísta, conforme o período em que se referia a Deus como Yahweh ou como Elohym, daí a influencia destes dois gêneros literários nos textos e indicação do seu ou dos seus autores. Eu mesmo tive um conflito sério com a banca julgadora porque defendi na minha tese que o gênero literário em Oséias foi produzido no período que data entre os séculos VIII e VI a.C, época em que a fonte literária era denominada Eloísta. Quanto ao autor do Pentateuco à fonte literária confirma ser Eloísta, e o que assegura que Moisés é o autor dos cincos livros da Tora, tem por base o Livro de Josué Capitulo I verso 7, onde o próprio Deus [Elohym] adverte que o sucessor de Moisés deve seguir estritamente a Lei de Moisés e instruir a nova geração de hebreus ou judeus, conforme dita as suas regras. Por isto é quase unânime entre os teólogos que todo o Pentateuco é de autoria de Moisés. Grato

      • Bertone de Oliveira Sousa 21/02/2016 / 16:22

        Cornélio,

        acredito que você precisa rever sua posição de que “é quase unânime entre os teólogos que todo o Pentateuco é de autoria de Moisés”. A edição pastoral da Bíblia, da editora Paulus, na introdução ao Pentateuco, diz que as leis pertencem a várias épocas da história do povo hebreu. No Gênesis, é enfatizado que a narrativa da criação no capítulo primeiro foi escrita durante o Exílio babilônico no século VI a.C. e o segundo capítulo, na época de Salomão, no século X a.C. No Êxodo, é explicado que os capítulos 25-31 e 35-40 “foram acrescentados por sacerdotes após o exílio na Babilônia. Eles procuravam com isso dar uma identidade religiosa ao povo que não tinha identidade política nenhuma durante a dominação persa”. O Levítico também foi escrito depois do exílio na Babilônia e o Deuteronômio também também foi escrito muito depois de Moisés. Sua parte central, por exemplo, data do século VIII a.C. A tradição atribui a autoria da Torá a Moisés, mas a pesquisa histórica e arqueológica tem mostrado que não e o fato de uma edição da bíblia compilada por teólogos ratificar isso mostra a importância dessas descobertas. Nem mesmo a historicidade de Moisés é consenso entre os pesquisadores. Um seminário teológico que não ensina coisas tão básicas comete um erro crasso.

      • Cornelio A.Dias 23/02/2016 / 19:25

        Bertone, somente para concluir! Não discutirei pontos de vista contigo, na teologia não se discute isto é para a filosofia, somente pesquisa, este é o meu caso. A teologia como ciência primeira, por sinal a mais antiga depois da filosofia, tem um método cientifico de pesquisa específico, e utilizamos várias ferramentas de estudo e a primeira delas são os textos em hebraico quando se trata do A.T. e grego para o N.T e uma definição teológica pode durar até séculos de estudo nos Concílios, para se chegar a um conceito aproximado. Digo isto porque sempre nos reunimos numa mesa formada por teólogos, hebraístas, especialistas em antigo testamento, NT,arqueólogos e filósofos. Na teologia não existe uma linha A ou B de pensamento, não se aplica a indução ou dedução, precisamos estudar o contexto histórico, político, social e religioso de cada época da civilização antiga, nos caso os hebreus, através do método histórico-crítico e as ferramentas exegéticas. Não trabalhamos com uma Bíblia traduzida ela não serve como material de estudo, nós é que a traduzimos a partir do original. Fiquei surpreso como você define tão categórico! Nós os pesquisadores teológicos não temos esta facilidade. Parabéns. Valeu pela troca de idéias. Té outra oportunidade! Abraço.

      • Bertone de Oliveira Sousa 23/02/2016 / 19:40

        Cornelio, estou ciente das ferramentas metodológicas que são utilizadas pelos pesquisadores bíblicos. E se você traduziu a Bíblia a partir do original deveria saber coisas tão básicas. Deveria saber também que nela existem muitas fraudes literárias, como demonstrou Bart Ehrman em seu livro “Quem Escreveu a bíblia?” Ehrman é teólogo e historiador, um pesquisador renomado na área que você deveria ler.
        Você falou anteriormente que o autor do pentateuco foi seguramente Moisés, citando um versículo de Josué. O fato de eu ter citado pra você uma tradução da bíblia que explica que o pentateuco não foi escrito por Moisés e isso ser observação de teólogos é algo que deveria pelo menos te deixar preocupado com o tipo de conhecimento equivocado que você anda repassando sobre ela ou pelo menos com a qualidade da sua formação que foi incapaz de te ensinar isso. Essa informação vem justamente do estudo do “contexto histórico, político, social e religioso de cada época da civilização antiga, nos caso os hebreus, através do método histórico-crítico e as ferramentas exegéticas”. Fui enfático porque não tenho como esconder o quanto vi que você é fraco como teólogo por não dominar esses conhecimentos.

  2. Adão Lincon 21/08/2015 / 0:42

    Olá Bertone.

    Sou um colega seu (da UFT, do curso de eng. civil – Campus de Palmas). Gosto de ler seus textos. Embora não compartilhe de todas as suas opiniões, considero a contraposição de ideias produtiva e valiosa na construção de novos conceitos. Permita destacar um pequeno trecho do seu texto: “Este último é empírico, demonstrativo, racional no sentido de propor enunciados (verdades) que correspondam ao mundo físico e natural”. Eu gostaria de, respeitosamente, discordar sobre o empirismo da ciência. Sou químico e, como você bem deve saber, a química é uma das mais empíricas entre as ciências. Mas, mesmo na química, hoje, devido aos avanços de teorias quânticas e da computação, temos toda uma área de química teórica baseada em simulação computacional. Estas modelagens já são tão avançadas que permitem prever até mesmo compostos que nunca foram sintetizados. Só para citar um caso interessante: o estaneno (http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/do-laboratorio-para-a-fabrica/o-estaneno-vem-ai). Há vários outros exemplos no desenvolvimento de fármacos, na descobertas de novos materiais, produção de energia etc. Nas outras ciências (física, biologia, astronomia, etc) modelagens teóricas também ganharam muito espaço (na verdade, a teoria da relatividade geral e a teoria da relatividade restrita de Einstein foram desenvolvidas com muita base lógico-matemática e com bem menos do tradicional empirismo) de forma que considero equivocado considerar a ciência atual apenas empírica. A dedução lógica e os modelos computacionais têm hoje o mesmo peso que o experimento e a observação em muitas ciências.

    Att.;

    • Bertone de Oliveira Sousa 21/08/2015 / 1:09

      Olá Adão,

      primeiro gostaria de dizer que é bom saber que um colega da UFT acompanha o blog, especialmente de outro curso, e agradeço sua contribuição.

      Sei que a teoria quântica colocou em xeque a noção de objetividade, como era compreendida no século XIX por alguns intelectuais, das ciências da natureza. Mas quando falo do empirismo, me refiro ao desdobramento histórico-filosófico do conceito de logos que encontrou na revolução científica dos séculos XVII e XVIII um modelo de compreensão da natureza a partir da matemática, especialmente com Galileu, Descartes e Newton. Não pretendi colocar toda a ciência como apenas empírica e nesse ponto não me fiz compreender corretamente. Os desdobramentos da teoria da relatividade de Einstein implicaram mudanças nesse modelo novecentista, de fato, mas quando falo do empirismo me refiro ao modelo elementar das ciências naturais de usar a experimentação para estabelecer a comprovação de alguns fatos, como quando você quer provar que, em água morna, uma barra de ferro afunda e uma barra de sabão flutua, por exemplo e no sentido de mostrar como essa forma de compreender o mundo que emergiu na modernidade se diferenciou das narrativas pré-modernas. Não levantei essas questões contemporâneas porque isso fugiria ao objetivo do texto, que tem como eixo as noções de mythos e logos. Abs.

      • Adão Lincon 21/08/2015 / 16:43

        Perfeito Bertone!

        Sobre o fundamentalismo, sou evangélico presbiteriano e posso te dizer que o grupo chamado de “evangélico” atualmente é bem heterogêneo. Alguns dos líderes considerados “fundamentalistas” hoje são considerados ‘hereges’ para outras igrejas. Por exemplo, a teologia da prosperidade é mal vista entre muitos evangélicos. A interpretação literal da Bíblia também é um ponto polêmico e mesmo entre os literalistas (os defensores de que os primeiros livros da Bíblia descrevem de forma exata o surgimento do Universo) há defensores da necessidade de interpretação ao longo do texto. Imagina, por exemplo, se alguém tentasse aplicar literalmente o trecho “E, se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que vá todo o teu corpo para o inferno.”(Mateus 5:30). No caso do ‘criacionismo’, há muitas vertentes: alguns acreditam no “criacionismo da Terra Jovem” (a ideia de que o planeta de uns 10.000 anos), alguns acreditam no “criacionismo da Terra antiga” (a ideia de que os dias da semana da criação correspondem a “eras”) e os que acreditam que o texto é alegórico. Minha experiência pessoal é que os defensores do criacionismo da Terra Jovem não leram o Gênesis com muita atenção. Veja um exemplo: em Gen 1:1 é criado os céus e a terra. Mas em Gen 2:7-10 os Céus e a terra são criados novamente. Alguns tentam conciliar esta aparente redundância afirmando que o primeiro versículo (Gen1:1) é somente um título. Mas isso colocaria o início do texto em Gen1:2 no qual a terra já aparece “vazia e sem forma” mas com água (”
        …o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas…” Gen 1:2). Detalhe: se tomado literalmente, o texto deste versículo afirma que já havia água antes mesmo do primeiro dia da semana da Criação! Os problemas de interpretação não param por aí: o sol é criado apenas no quarto dia (Gen1:14-19, qual seria a duração de um dia sem o Sol?) e alguns detalhes confusos quanto a cronologia (o homem é criado depois das plantas em Gênesis 1 e antes das plantas em Gen 2). São apenas alguns exemplos, mas é o que leva muitos a considerarem o texto alegórico.
        De qualquer maneira, este comentário é apenas uma contribuição. Seu texto apresenta um ponto de vista bem elaborado.

        Grato pela resposta;

  3. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 21/08/2015 / 22:31

    Professor Bertone,quando que se pode dizer que o fundamentalismo evangélico surgiu no Brasil?Porque há 20 anos atrás,não existia esse número grande de pastores com espaço na mídia não,e um dos poucos pastores que tinham programa na TV aberta,caso de Caio Fábio,na ocasião um presbiteriano,nunca pregou um fundamentalismo,inclusive,te comentei sobre Caio Fábio em outro post,´´Encruzilhadas do Protestantismo Brasileiro ´´porque queria saber se o senhor considera ele,um bom contraponto,ao fundamentalismo evangélico?por mais que Caio Fábio hoje não se considere mais evangélico,mais ao menos no Brasil,os protestantes históricos nunca foram fundamentalistas,apenas os pentecostais e neopentecostais o foram não,diferente dos EUA,onde existe um forte fundamentalismo entre os batistas do sul da região do ´´Bible Belt ´´ não.

    • Bertone de Oliveira Sousa 22/08/2015 / 1:53

      Gabriel, Caio Fábio não tem mais importância como liderança evangélica até porque há anos elpapel consegue mais exercer esse papel.

      • Gabriel Ramos Tavares de Pinho 22/08/2015 / 2:36

        Mas mesmo quando ele exercia um papel de liderança evangélica,ele nunca foi fundamentalista não?Talvez se ele seguisse como um líder da AEVB,poderia ser que os fundamentalistas tivessem menos poder hoje.

  4. Ricieri 21/08/2015 / 23:48

    Professor mais uma vez excelente texto. Gostaria de sugerir um texto sobre friedrich nietzsche e seu legado no século 19, 20 e 21. É meio triste que um grande filósofo como ele seja tão mal interpretado e sirva de palanque para Comunistas,Pós Modernos e até Conservadores.

  5. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 22/08/2015 / 2:32

    Mesmo que Caio Fábio não tenha mais um papel importante como liderança evangélica,venho notado que existem pastores com uma opinião moderada,sem fundamentalismos,e que respeitam o estado laico e as liberdades individuais,e até mesmo defendem questões que são tabus para fundamentalistas.
    Ricardo Gondim por exemplo é a favor da união civil entre homossexuais
    http://noticias.gospelmais.com.br/pastor-ricardo-gondim-favor-uniao-civil-gay-19123.html
    E a Revista Carta Capital fez uma reportagem,msotrando que existem diversos nichos e opiniões distintas,e que os evangélicos não se constituem apenas de um grupo de fundamentalistas
    http://www.cartacapital.com.br/sociedade/afinal-quem-sao-201cos-evangelicos201d-2053.html

    E existem até mesmo igrejas gays,onde a homossexualidade não é condenada como pecado,e mesmo os pastores líderes da igreja são homossexuais assumidos e casados um com o outro
    http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2013/04/28/evangelicos-lotam-primeira-igreja-gay-de-sao-paulo-em-inauguracao-de-templo.htm

    Agora porque esses pastores não tem espaço tanto na mídia como os fundamentalistas?Porque a Rede Globo quando realizou o programa Na Moral para tratar da questão de personagens de novela,inclusive os gays,chamou o pastor Silas Malafaia e não chamou o Ricardo Gondim,ou Ed Rene Kivitz,Ariovaldo Ramos,que também são moderados,poderia ter chamado também esses da igreja gay.Porque se a grande mídia só dá destaque aos fundamentalistas,a população comum do Brasil,aquela que não frequenta uma universidade,que não lê,pois o brasileiro típico só lê um livro por ano,vai pensar que todos os cristãos evangélicos são fundamentalistas,e pior vai continuar aderindo a igreja deles,infelizmente nesse cenário atual do Brasil,de escolas públicas péssimas,a tendência é os fundamentalistas crescerem cada mais,e terem mais espaço na mídia e na política.

  6. Pedro Henrique F. 26/08/2015 / 9:18

    Bertone, doutrinas como o wahabbismo nesse caso, podem ser consideradas fundamentalistas?

    • Bertone de Oliveira Sousa 26/08/2015 / 13:17

      Pedro essa doutrina é do século 18, anterior portanto ao surgimento do próprio termo fundamentalismo. Embora o termo fundamentalismo não exista no Islã, alguns estudiosos o utilizam para identificar os movimentos antissecularistas que surgiram em suas comunidades no século passado. Embora o wahabismo hoje possa estar associado a eles, a origem do fundamentalismo islâmico em geral é associada à fundação da sociedade dos irmãos muçulmanos, na década de 1920.

  7. Gabriel Tavares 09/11/2015 / 21:17

    Professor Bertone,o que senhor acha do historiador Leandro Karnal?Ele desenvolve trabalhos sobre religião e fundamentalismo religião,dê uma olhada nessas palestras dele,eu particularmente achei ambas as opiniões sobre o tema,a sua e a dele bem parecidas

  8. Gabriel Tavares 11/11/2015 / 21:28

    O que achas do trabalho sobre fundamentalismo religioso realizado pelo professor da UNICAMP,Leandro Karnal,ele é de certa forma uma inspiração para o senhor,professor Bertone Sousa?

  9. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 27/01/2016 / 12:46

    Professor parabéns pelo seu texto maravilhoso,o senhor acredita que em se tratando de fiéis ricos e famosos,celebridades,o fundamentalismo é relativizado?Eu li no seu livro “Fé e Dinheiro “que o senhor diz existirem igrejas com perfis aristocráticos, e para as pessoas ricas de fato a doutrina não é tão rígida, houve inúmeros casos de conversão entre celebridades,por exemplo,Monique Evans,ela assumiu viver uma relação homossexual recentemente,e parece continuar a frequentar a igreja,o jogador Neymar tbm é evangélico,e inclusive é dízimista da Igreja Batista Peniel,e inclusive recebeu críticas por parte da FIFA por na final da chamados league quando seu time ganhou o jogo,ajoelhou no gramado para orar e usou uma faixa na cabeça escrito 100%Jesus,o jogo era exibido para todo o mundo,inclusive para países não cristãos,ele demonstrou ser fervoroso nesse momento,mas por outro lado conheco evangelicos que o criticam,por não viver uma “vida tão regrada”para os padrões da religião, ele frequenta baladas,praticou o “pecado da fornicação “tendo um filho fora do casamento,sendo solteiro, o senhor acredita que nesses casos por seremita celebridades deixam de ser fundamentalistas,e o “pecado” é liberado?

  10. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 27/01/2016 / 12:57

    Por outro lado há celebridades que ao se converterem ao protestantismo, adotam um estilo de vida mais secreto,não sei se o senhor escutou o anúncio, mas está por estrear o filme sobre a vida de Arlindo Barreto,que interpretou o palhaço Bozo no SBT,ele dizia que nessa época consumia muitas drogas,leva va uma vida de luxo,muitas mulheres,festas,até que se converteu ao protestantismo e abandonou a carreira,e sé tornou um pastor,lembro tbm do caso de Rodolfo Abrantes,ex vocalista da banda de rock Raimundos,que ao se converter,disse ter abando na do o antigo estilo de vida,e deixou os Raimundos,e passou a cantar só música gospel

  11. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 27/01/2016 / 15:56

    Professor e é apenas o cristianismo fundamentalista que exige uma mudança de vida,no comportamento para quem se converte?Deixar o álcool, consumo de drogas,ainda que seja um baseado de vez em quando,não um vício,o sexo só depois do casamento,só as igrejas fundamentalistas que exigem isso,o senhor acredita que o Bozo e o Rodolfo se tornaram fundamentalistas?Desculpe perguntar,mas pelo texto não ficou claro

  12. RONALDO DA SILVA THOME JUNIOR 05/06/2017 / 21:43

    Bertone, compreendo o que você diz a respeito do fundamentalismo. Sou religioso mas sempre busquei ser equilibrado em relação às idéias de pensadores, teólogos e afins.
    Mas independente disto, creio em Deus e nas escrituras, até porque, de acordo com meu ponto de vista, certas coisas não podem ser explicadas apenas pela mente racional e provas empíricas. A ciência e a filosofia, por exemplo, possuem tantas respostas para o mesmo assunto, e elas estão em constante mudança. Creio que, daqui a alguns anos, não seja impossível que novas descobertas mudem tudo sobre o que falamos aqui sobre a Bíblia e outros textos sagrados.

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