Conservadorismo à brasileira

rachel4Uma pesquisa CNT/MDA mostrou que as duas instituições em que os brasileiros mais confiam são a Igreja (sem especificação de segmentos) e as Forças Armadas, com 53,5% e 15,5% das preferências, respectivamente. Por outro lado, o governo, o Congresso Nacional e os Partidos políticos são apontados como os agentes menos confiáveis pela sociedade. Essa pesquisa revela uma questão histórica, de longa duração.

Mas talvez o aspecto mais interessante disso seja o fato de que a corrupção oceânica em que nossas instituições republicanas estão mergulhadas projeta no imaginário social a crença na integridade e seriedade das duas instituições que mais exerceram a hegemonia no país: a Igreja, desde a Colônia até o fim do Império e as Forças Armadas, do fim do Império a meados dos anos 1980. Essas duas instituições carregam consigo os anacronismos da sociedade escravocrata, aristocrática, patriarcal, do autoritarismo e golpismo sempre evocado em nome da segurança nacional e contra um inimigo externo e ou interno que atenta contra os valores morais da família e da religião.

Um século e duas décadas depois da proclamação da República e da separação entre Igreja e Estado, a República não conseguiu sedimentar e expandir os valores que nortearam sua criação, expressos na bandeira mas não na mentalidade nem no cotidiano de seus cidadãos e permaneceu atrelada ao universo das práticas e da mentalidade do modelo socioeconômico que a precedeu.

Em nosso mundo hipermoderno, a Igreja, qualquer igreja, não deveria ser mais do que uma grande peça de museu a céu aberto, para serem fotografadas por turistas e, quiçá, até receberem as preces e confissões de meia dúzia de devotos. Nadando na contramão do pensamento moderno, o Brasil das últimas décadas se destacou pela construção de megatemplos, obras faraônicas que projetam a imagem e o ego de poderosos líderes religiosos, que ainda desfrutam de estreitas ligações com o campo político, com o qual barganham em pé de igualdade.

Fato é que dos megatemplos, passando pelas igrejinhas que se abrem diariamente em garagens e botecos falidos de esquinas, até o cultivo de uma pseudociência espírita pelas classes médias cultas, vivemos numa sociedade onde o encantamento nunca perdeu força. A República brasileira não tornou a sociedade laica porque nunca teve um projeto de sociedade. O Iluminismo e o Positivismo, que acreditavam na força da razão e da ciência em substituição à autoridade religiosa, ficaram restritos a um grupo minúsculo de intelectuais que não pensaram, ou não levaram adiante qualquer iniciativa de expandir esses ideais ao conjunto da sociedade.

Uma sociedade laica não pretende a abolição da religião, mas é o tipo de sociedade que passa a depender cada vez menos da autoridade religiosa, porque essa autoridade perde a competência para interferir em questões de interesse público, que ficam a cargo das instituições representativas.

Por outro lado, nossa República nunca foi uma coisa pública. Em um sentido, ela foi instituída para atender às demandas de alguns grupos sociais em ascensão no fim do Império que buscavam mais espaço político, como as camadas médias urbanas, os militares e os cafeicultores paulistas e permitiu a ascensão de várias oligarquias locais ao poder, que assumiram a máquina administrativa em suas regiões de influência, criando mecanismos para se eternizarem no poder. Nosso primeiro período republicano (1889-1930) foi marcado pela ação de poderosos grupos familiares e grandes latifundiários que utilizaram a máquina do Estado como instrumento de distribuição de favores. O nepotismo e o clientelismo que marcaram esse período transformaram o cidadão em coadjuvante da vida política; ausente, ele se tornava o legitimador das decisões dessas oligarquias.

Nas décadas seguintes, o país industrializou-se, houve um crescimento acentuado do operariado urbano e, embora as oligarquias regionais tenham perdido poder em alguns lugares, os partidos progressistas e os movimentos sociais não conseguiram emplacar importantes mudanças na sociedade, que aceitou com naturalidade o golpe de 1964. Mesmo com a redemocratização, o fim da Guerra Fria, o fim do comunismo, da União Soviética, a diluição dos movimentos sociais e o desaparecimento da luta de classes, a sociedade brasileira ainda não saiu da dependência de uma autoridade salvadora; como crianças que dependem de uma autoridade paterna para impor regras em seus próprios lares, um número expressivo de pessoas não apenas confia nas Forças Armadas, mas gostaria que tomassem novamente o poder; fala-se da ditadura como de uma época idílica em que a criminalidade e a corrupção estavam ausentes.

Mas existe também um profundo ressentimento moral em tudo isso: a dificuldade de lidar com a pluralidade de ideias, com a ampliação de direitos civis, com o recuo da moralidade cristã e patriarcal, em última análise com a própria democracia. Vemos um pensamento que quer afirmar-se de direita ganhar notoriedade, mas é um pensamento que não tem forma, não tem referenciais, nem substancialidade; é um pensamento infantil, confuso, que quer apenas ser do contra; quer ser contra a corrupção e encarná-la em apenas um partido; quer falar em diminuição da pobreza e melhoria das escolas, mas tem um fundo revoltantemente racista; um pensamento que quer afirmar-se liberal mas quer um Estado autoritário; é homofóbico e anti-abortista mas quer colocar adolescentes na cadeia e, se possível, condená-los à morte; quer falar em nome do amor cristão, mas não tolera a pluralidade e a irreligiosidade; um pensamento que quer ser culto e despreza o saber acadêmico; quer celebrar a liberdade mas é refém do pensamento único e associa-se ao radicalismo religioso, que começa a sair dos templos para ocupar os poderes legislativos e executivos em todas as unidades da federação.

Essa tendência e o resultado da pesquisa CNT/MDA evidenciam que a sociedade brasileira ainda está na menoridade. Não consegue pensar historicamente e, ao invés de preconizar mudanças estruturais, condenar a corrupção e manter a agenda progressista, pretende um retorno ao passado; não sendo capaz de pressionar por essas mudanças e até mesmo não as desejando, pede que as Forças Armadas intervenham, mesmo que isso custe o confisco das liberdades individuais.

Ainda há um ranço de continuísmo da República Velha e da dependência do Estado, de um Estado autoritário. A República brasileira continua não sendo uma coisa pública e isso põe em xeque a própria subsistência da democracia, não pela ameaça de uma “nova” ditadura, mas pelo recuo e obstrução de agendas positivas. Afirmar-se conservador ou mesmo de direita em um país historicamente marcado por desigualdades sociais e regionais profundas é no mínimo um contrassenso.

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O conservadorismo e a História

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23 comentários sobre “Conservadorismo à brasileira

  1. Samuel P. da Silva 23/07/2015 / 0:51

    Muito bom o seu texto, como os outros também. Sou cristão e reconheço, que tais megatemplos evangélicos se assemelham aos megatemplos católicos do passado, que a ligação estado e igreja sempre estará fadado ao fracasso os séculos anteriores mostram isso, mais infelizmente o Brasil nunca está na vanguarda de um pensamento político, econômico, cultural e social, pois enquanto o PT e o PSDB nos últimos anos tentaram transformar o Brasil numa suécia tropical como dizia Mangabeira Unger, agora outras forças dentro de um emaranhado de partidos sofrem influências do reaganismo, uma mesclagem de liberalismo com conservadorismo, ou seja, a igreja atrelada ao estado tentando ditar os costumes da massa. O Brasil e o complexo de vira latas como dizia Nelson Rodrigues.

  2. Pedro Henrique F. 23/07/2015 / 4:05

    E diga-se de passagem Bertone, gostaria de ressaltar que a grande maioria desses “conservadores” são mais uma paródia tropical da Tea Party dos Republicanos. Falam do comunismo como se este fosse uma ameaça real e espalham suas mentiras em massa, deturpando história e ameaçando os “dissidentes”. Também tem flertado com a islamofobia além da homofobia. Eu não sou muito de usar isso como forma de ofensa, mas se eu tivesse algum adjetivo negativo para chama-los, diria que essa turma está mais próxima do fascismo que do conservadorismo.

  3. Morais 23/07/2015 / 10:50

    Parabéns! Cuba, Argentina, Grécia (Europa), Venezuela entre outros países da América Latina estão a um bom tempo sendo governados pelos “progressistas”. De que maneira eles reduziram as desigualdades sociais e regionais? Em Cuba todos estão na miséria (bem igualitária), a Argentina é um dos países que possui uma das populações mais revoltadas do mundo. Grécia está quebrada. Na Venezuela o povo sofre com a escassez de itens básicos. A consequência natural da “agenda positiva” é a miséria generalizada.

    • Bertone de Oliveira Sousa 23/07/2015 / 12:37

      Morais, os Estados Unidos são governados por um progressista que soube tirar o país da crise sem sacrificar liberdades individuais. A agenda progressista não se limita a ações de governos tresloucados nem a ditaduras, que nem representam mais essas pautas. Aliás, o que esses governos fizeram nem é agenda positiva. Como é que você comenta sobre um conceito que você nem conhece? Nem os argentinos são os mais revoltados do mundo. Esse é o problema de muitos palpiteiros de internet: não entendem noções básicas de sociologia e se acham sabichões pra falar generalidades sem qualquer fundamento.

  4. Alan Kevedo 23/07/2015 / 11:08

    A verdadeira doutrina trinitária pode ser vista da seguinte maneira: Em nome de Jesus, do Estado e do Capital. A religião quer que nosso Deus seja Jesus. O Deus da religião é o Estado. Ao líder religioso, o supremo será sempre o Capital.

  5. Sempre fico abismado com essa necessidade de parte significativa dos indivíduos que escolhem de bom grado curvar a cabeça a qualquer forma de expressão de autoridade, sacerdotes, Estado, ou qualquer outra coisa. Da minha perspectiva, tal configura-se um fenômeno incompreensível. Sei que Freud foi bem negativo quanto a esse fenômeno em meio ao público religioso, mas parece que o Prof Bertone não comunga muito com a avaliação negativa de Freud sobre a religião.

    • Bertone de Oliveira Sousa 24/07/2015 / 23:46

      Rodolfo, não é que eu não comungue, Freud fez críticas importantes à religião e também contribuiu com obras de referência como Moisés e o monoteísmo; mas quando ele falava da religião como neurose, por exemplo, isso é uma metáfora não uma explicação, como quando Marx falava da religião como ópio do povo ou Nietzsche quando falava da morte de Deus. Eram metáforas desvelavam aspectos importantes da modernidade. Mas em termos de compreensão da religião como fenômeno social e cultural, é preciso ir a outros clássicos das ciências sociais.

      • Renan 01/01/2016 / 17:13

        Quais seriam bons clássicos para se consultar e ter essa compreensão?

  6. Gustavo Leite 24/07/2015 / 18:49

    “Em nosso mundo hipermoderno, a Igreja, qualquer igreja, não deveria ser mais do que uma grande peça de museu a céu aberto, para serem fotografadas por turistas e, quiçá, até receberem as preces e confissões de meia dúzia de devotos.”

    Perfeito!

  7. Philipe Antunes 24/07/2015 / 20:03

    Caro Bertone,
    Obrigado por mais um ótimo texto. Tenho sempre recomendado seus textos a pessoas próximas a mim, sendo tanto mais à esquerda, quando mais à direita. E por falar em direita, fiquei um pouco confuso e curioso sobre o sentido de sua ultima frase no texto: “Afirmar-se conservador ou mesmo de direita em um país historicamente marcado por desigualdades sociais e regionais profundas é no mínimo um contrassenso.” Poderia expandir este pensamento? Desde já, sou grato pela atenção!

  8. Rafael sousa 24/07/2015 / 21:49

    Ola professor bertone! Acredito que as instituições sociais tais como:igreja católica e protestantes, empresas, grupos sociais específicos etc, contribuem para o fomento do pensamento conservador no tecido social, e , eles vão transformar este pensamento em uma ideologia, uma forma de se pensar, de comportar-se.
    Gostaria da sua opinião grato!
    Descobri seu blog pela internet, e gostaria de parabeniza-lo.

  9. Rafael sousa 24/07/2015 / 21:55

    Vejo que é algo comum, em época de recessão económica e crise política, a ascensão de agentes políticos, com perfil semelhante aos líderes nazi fascistas, o Bolsonaro Feliciano São exemplos

  10. Pedro Henrique F. 25/07/2015 / 19:17

    Bertone agora me veio uma duvida em mente, você acha que uma saída do PT do poder federal iria causar a freagem desses poderes reacionários? Pois eles se agarram muito nessa ideia de “tirar o PT” como único responsável pela corrupção, você acha que caso ele saísse, esses grupos iriam bater em uma parede? Sem alguem para acusar?

    • Bertone de Oliveira Sousa 25/07/2015 / 22:03

      Pedro, acredito que com ou sem o PT no poder, esses grupos vão perder fôlego em pouco tempo; eles querem aproveitar uma insatisfação social contra o governo, mas a maioria das pessoas estão insatisfeitas porque seu poder aquisitivo está sendo reduzido, não porque acham que o PT é comunista. As próprias manifestações de rua contra o governo aglutina grupos tão distintos e heterogêneos que é virtualmente impossível alcançarem alguma unidade. A própria falta de clareza de suas lideranças sobre o que querem já impossibilita isso. Além disso, as pessoas que veem a Igreja e as Forças Armadas como entidades íntegras demonstram mais consternação e desapontamento com as instituições e o governo do que convicção ideológica. Um fato é que o PT provavelmente não recupera mais a base de apoio social que vem perdendo.

      • Pedro Henrique F. 26/07/2015 / 5:09

        Também acredito que esses grupos irão perder fôlego, minha real dúvida era se eles perderiam o fôlego mais rapidamente. Acredito que o real problema não é o fato desses grupos estarem se expandindo (ou no minimo, fazendo muito barulho), mas sim desfazer seus estragos. Pego aqui o exemplo do presidente da câmara como exemplo, por passar uma emenda constitucional que permite o financiamento privado de políticos. Isso só ira atenuar a corrupção desse país e criar lobbys a la USA na minha visão.

  11. Carlos Silva 06/08/2015 / 17:38

    Prof. Bertone, serei objetivo e irei direto ao ponto. Que intelectuais de esquerda estudam e criticam com maestria, os problemas do modelo da sociedade ocidental, é fato. Que para isso se valem de desconstruir com argumentos irrefutáveis, seus valores e costumes sociais e religiosos, cooptando as mais diversas classes e até o próprio lumpemproletariado, a princípio, desprezado por Max, mas considerado com grande relevância para Gramsci, deixando, assim, no mínimo, um grande espaço para novos paradigmas, idem.

    Isto posto, pergunto: Qual autor(es), obra(s) definem projeto(s) para o modelo dessa nova ordem social. Qual seria essa sociedade “revolucionada” ? Claro, Marx e derivados contemporâneos não vale, o Prof há de concordar que substituir capitalismo de mercado pelo capitalismo de Estado e a isso, nomear socialismo, apenas por ter substituído o capital de mãos, é mera retórica, afinal, o Estado não é composto por seres mais humanos que os humanos privados, independente da origem de ambos.

    É primordial esse entendimento, pois, como podemos aceitar mudanças em nossos valores e costumes pensados ao longo de 4000 anos, sem efetivamente saber qual modelo ficará de herança para nossos descendentes ? Não vamos desconstruir tudo primeiro, e do caos, ver que bicho dá, ou vamos ?

    Eu só seria defenderia uma causa sabendo claramente dos seus fins. Pensar os meios sem projetar e comprometer-se com o fim, mais que pueril, é irresponsável.

    • Bertone de Oliveira Sousa 06/08/2015 / 21:03

      Carlos, já discuti Marx, o capitalismo e o socialismo em outros textos, mas nenhum desses temas é foco desse texto.

      • Carlos Silva 06/08/2015 / 23:21

        Caro Prof. Bertone, perdoe-me a persistência.

        Minha pergunta foi, sim, relacionada ao seu texto, não especificamente a Marx, o capitalismo e o socialismo, como o Sr disse, embora estes temas e seu texto, de certa forma, se entrelacem, ao criticar o atual modelo ocidental à brasileira e apoiar , segundo o Sr. mesmo disse, “a agenda progressista”. Talvez, eu não tenha sido claro no ensejo da pergunta.

        Existe alguma obra que proponha um contraponto ao modelo milenar ocidental, que não se limite apenas a críticas e argumentos para destruí-lo, uma vez que para isso, já existe farta literatura e autores?

        Se isso já foi discutido em algum de seus textos, peço a gentileza de apontar o link.

      • Bertone de Oliveira Sousa 07/08/2015 / 14:07

        Carlos, esses temas não se entrelaçam com meu texto. A agenda progressista não se limita a autores marxistas nem mesmo está relacionada a Marx. Nem existe “modelo milenar ocidental”, muito menos “à brasileira”.

  12. Pedro Henrique F. 10/08/2015 / 20:55

    Bertone, sabe a mais nova dos ídolos da direita? Olavo falou que estava cansado de ser banido no Facebook e resolveu criar uma rede social para si, é para menos?

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