O que é ser ateu

PrometheusProvavelmente nenhum grupo sofre tanta troça e preconceito no Brasil como os ateus. Não, não se trata de um discurso de vitimização, há estatísticas que o comprovam. Mas também é preciso dizer que muitas pessoas que se dizem ateias não têm muita clareza do que isso significa. Dessa incompreensão advém a iniciativa de alguns pela busca de reconhecimento social o que, mesmo em um estado laico, pode ser um erro. O ateísmo nasceu como uma postura negativa: não define uma minoria sociológica, não define um credo, nem mesmo é importante pra definir um indivíduo ou sua posição na sociedade.

Recentemente, um estudante da UFAC (Universidade Federal do Acre) ganhou notoriedade porque, sendo ateu, queimou uma bíblia em uma manifestação na universidade. Inicialmente animado com a repercussão de seu ato, ele afirmou que não se arrependia e pretendia repeti-lo. Após ler a carta aberta de um padre que chamou a atenção para a importância da tolerância e do respeito à diversidade religiosa, o estudante respondeu dizendo que repensou sua ação e se arrependia dela. Pressionado pela possibilidade de responder judicialmente pelo gesto, ele declinou de outra tentativa de queimar uma bíblia.

O gesto do estudante de queimar a bíblia traz à superfície um elemento alarmante em nossa sociedade: parte considerável da juventude que se diz ateia não tem referenciais fora de uma denegação pueril da religião e de um conjunto de leituras redutivas e desconexas. Basta ver os fóruns de discussão  na internet onde se reúnem para perceber que a ignorância tomou o lugar de discussões inteligentes e a razão, se é que um dia a cultivaram, foi reduzida a um materialismo cientificista risivelmente prosaico. Exemplos poderiam ser citados à exaustão, mas não vêm ao caso.

Uma das questões para se entender isso é que essa juventude se beneficia de um ambiente político de ampla liberdade de expressão somado uma cascata inesgotável de informações e publicações com as quais, ou em contato com as quais, não sabe o que fazer, então absorve frases ou pensamentos sem compreender o que quer criticar.

Dawkins esteve no Brasil recentemente. Em uma entrevista à Revista Galileu, ele se sentiu incomodado com  perguntas que não conseguiu responder e, para disfarçar, tentou fugir ao assunto. Um exemplo: o entrevistador lhe pergunta se ele consegue imaginar uma religião que não fosse cega pelo dogma, ao que Dawkins titubeia, demonstra não saber o que significa religião e arremata: “Eu realmente não sei, apenas não tenho interesse por religião. Isso é uma revista de ciência, não vamos falar de ciência?”. A pergunta foi interessante e a resposta tão inesperada quanto ríspida.

Logo depois o entrevistador lhe pergunta sobre mitos e sua opinião sobre o papel dos mitos no passado e no presente, ao que ele responde: “Nunca entendi muito bem o que é um mito, quer dizer, ele é uma história, e eu suponho que seja uma história com algum significado antropológico. Uma tribo terá histórias tribais sobre a origem das coisas. Estou ciente delas, não acho que sejam muito interessantes sob meu ponto de vista, eu sou um cientista”. É muito curioso que Richard Dawkins, que precisa afirmar diariamente que Deus não existe, não saiba o que é religião ou mito e ache que nada disso tem a ver com ciência. Quando diz “eu sou um cientista”, Dawkins quer fugir de perguntas que expõem suas deficiências intelectuais, como se o que ignora não tivesse relação com a ciência e se esconde sob um título como em uma torre de marfim. Vendo sua fala, é impossível não sentir falta de um Carl Sagan, que conseguia estabelecer pontes com outras áreas do conhecimento fora de sua especialidade e isso refletia em seus vídeos e livros brilhantes e enxutos de dogmatismos.

No texto sobre neoateísmo escrevi que Dawkins não é um intelectual de se jogar fora. Ele publicou bons livros e quando critica as pretensões de cientificidade do criacionismo ou do Design Inteligente, se mostra judicioso. Mas sua abordagem da religião falha por sua falta de conhecimento histórico, como quando disse, em uma dessas conferências no Brasil, que a religião é como um vírus para a mente humana ou ao comparar Deus com o monstro do espaguete voador, dois entes, se é que podemos chamar o monstro do espaguete assim, que não possuem nenhuma relação ou ponto em comum, nem mesmo a não-existência. Não que Deus ou o monstro do espaguete existam como existe esta mesa, este computador ou este lápis e é isso o que escapa a seu pensamento reducionista.

Não há dúvida de que a ciência, através da astrofísica, da genética e da neurociência tem nos ajudado a compreender questões que antes pertenciam ao domínio da metafísica ou da teologia, hoje reduzidas a pó, mas o ateísmo professado por alguns de seus expoentes pode se tornar problemático por uma razão essencial: as ciências naturais tornaram Deus dispensável para explicar a origem da vida e até mesmo do cosmo, assim como a neurociência tem contribuído para compreender os efeitos da meditação e da oração na mente, mas não podem explicar a função social das religiões. Mas há um contraponto que podemos incluir: Foi nos Estados Unidos que o neoateísmo (como é conhecido o movimento de crítica e combate à religião que aproxima cientistas e intelectuais de várias áreas) ganhou força, porque lá, diferentemente do que ocorreu na Europa ocidental, a secularização não implicou um afastamento da religião da esfera pública, ou uma desfiliação religiosa significativa e isso também reflete na área científica, onde pululam concepções pseudo-científicas que buscam aproximar religião de ciência, das quais o Design Inteligente talvez seja o mais notável.

Enquanto o ateísmo crescia na Europa no século 19, nos Estados Unidos movimentos de despertar religioso combatiam os valores racionalistas oriundos da Revolução Francesa, ao mesmo tempo em que valorizavam o planejamento e a eficiência econômica, a educação, os direitos individuais, o avanço tecnológico, a urbanização e o aperfeiçoamento moral. Um movimento conhecido como “evangelicalismo” ou “evangelicismo” combateu o deísmo até torná-lo marginal na sociedade e empreendeu um amplo projeto de evangelização do país. Pregadores como Jonathan Edwards, John Wesley (ambos no século 18), Charles Grandison Finney e Dwight Lyman Moody (século 19) se tornaram líderes de movimentos religiosos avivalistas anti-deístas e anti-materialistas com ampla penetração na sociedade norte-americana.

Essa tensão ganhou notoriedade internacional pelo menos desde 1925, quando John Scopes, um professor de Biologia no Estado do Tennessee, foi julgado e condenado por ensinar o evolucionismo em uma escola pública estadual, o que era proibido por lei naquele estado. Embora o veredito tenha sido revogado depois, o caso Scopes expôs a dificuldade que as autoridades e a sociedade norte-americana tinham com as descobertas da ciência moderna que contrariavam a narrativa da criação no Gênesis. Hoje, quase cem anos depois, o ensino do evolucionismo não é mais proibido nos Estados Unidos, mas ainda há uma forte resistência daquela sociedade de aceitar que o Gênesis não é um relato científico. Esse cenário contribui para a popularidade, naquela sociedade, de excentricidades teológicas como William Lane Craig.

Isso torna compreensível e em vários aspectos também importante as críticas e ataques que Dawkins, Sam Harris, Daniel Dennett e outros acadêmicos fazem à religião e à pseudo-ciência. Mas também é preciso admitir que o ataque frontal pode produzir resultados opostos ao que desejam, na medida em que a denegação combativa da religião leve a um reforço do sentimento fundamentalista de muitos religiosos. Nesse sentido, o esclarecimento é mais importante do que o ataque e, nesse caso, esclarecer implica começar a fazer as pessoas entenderem a diferença entre mito e ciência.

E aqui voltamos a Dawkins. Se ele não sabe o que é religião, mito  e dogma e mesmo assim se considera apto a dizer que a religião é como um vírus de computador, além de isso não explicar a religião, não se torna admirável que, sob o mote de um pretenso ateísmo, jovens comecem a queimar bíblias em universidades. Isso não chega a ser pior do que os Grupos de Oração Universitários, que tentam trazer suas igrejas para dentro da universidade e nos dois casos temos a exacerbação do dogmatismo, em campos opostos. Um ateu que queima bíblias não é mais inteligente do que um cristão que acredita na literalidade do Gênesis.

O ateísmo moderno é filho do Iluminismo do século 18, do anticlericalismo que vicejou na França daquele contexto e se desenvolveu no século seguinte na Europa ocidental na esteira do avanço das ciências da natureza. Embora poucos intelectuais iluministas fossem ateus, como Diderot e D’Holbach, a concepção predominante no movimento foi o deísmo, que aceitava a existência de Deus, a criação e o governo do mundo por ele, mas rejeitava a revelação (por isso o deísmo foi fortemente combatido pelos movimentos avivalistas nos Estados Unidos).  O ateísmo é produto da moderna sociedade industrial e do avanço ciências e da luta por direitos e liberdades em um contexto de consolidação e expansão do sistema econômico capitalista.

Ainda no século 19, a crítica superior da bíblia, originada na Alemanha, afastou os milagres e intervenções sobrenaturais dos eventos ali narrados para compreender sua historicidade. Foi a partir daí, por exemplo, que nasceu a figura do Jesus histórico, isto é, o Jesus que não nasceu de uma virgem, não ressuscitou e fez milagres, mas existiu historicamente e que cabe entender sua existência e ação como personagem histórico. Hoje sabemos que os autores da bíblia não pretendiam escrever relatos históricos e, como a Ilíada e Odisseia, é um livro fundador da cultura ocidental. Um estudante universitário que compreenda isso, mesmo sendo ateu, saberá que não faz sentido queimar uma bíblia. Mas pra isso ele também precisa entender que religião não é vírus de computador e que Deus e o monstro do Espaguete voador, mesmo que se queira negar a existência de ambos, não são a mesma coisa.

Não compreendemos mais a religião a partir de alguns sentidos pelos quais eram abordadas até o início do século 20, como ópio do povo (Marx), platonismo para o povo (no caso do cristianismo, Nietzsche) ou neurose universal (Freud). Essas abordagens eram metáforas, não explicações da religião. A diferença é que quando Dawkins fala da religião como vírus, não fala como metáfora, mas literalmente. Se não usasse um discurso tão simplório talvez não tivesse se tornado uma celebridade. Ele é, de longe, o mais midiático do movimento neoateu e talvez graças a ele ateus se reúnam em templos aos domingos como uma paródia mambembe das religiões.

Aí alguns religiosos podem dizer: “Ah, não existem ateus, quando o avião está caindo todos eles chamam por Deus”. Não, não é bem assim. Eu disse no início que o ateísmo não é um credo no sentido que as religiões o são, então é preciso defini-lo: é uma postura diante da vida; ser ateu não é repetir todos os dias que Deus não existe, é viver como se Deus não existisse. O ateu é alguém que encontrou estabilidade em sua vida emocional e social sem precisar de valores religiosos (uma postura que a maior parte da sociedade não pode adquirir). Isso só pode ser resultado de muitos anos de estudos e reflexões e da aquisição de uma cultura histórica e científica a partir da qual o indivíduo adota referenciais de vida e de conduta que prescindem da experiência e dos dogmas religiosos. Isso não torna o ateu necessariamente mais inteligente, mas deve torná-lo apto a entender que não é viável e talvez nem mesmo desejável que as crenças religiosas desapareçam.

A existência humana é frágil, efêmera e caótica; as doenças e a morte são traumáticas e a vida é carente de sentidos. A religião atribui significados a esse estado de coisas, explica, a partir do mito, o sofrimento e a morte elaborando compensadores para ambos e confere estabilidade emocional e social. Apelar à história para argumentar que as religiões podem se tornar perseguidoras e assassinas não anula o seu papel como agências produtoras de sentidos e de cultura. Somente em condições econômicas, políticas e sociais muito específicas o ateísmo pode ganhar terreno. O que pode se tornar um problema é que, para muitas pessoas, o ateísmo está relacionado à ausência de moralidade e de ética, como no pensamento de Dostoievski de que “se Deus não existe, então tudo é permitido”. Essa visão parte da incapacidade de dissociação de moralidade e ética de religião. Durante milênios, as religiões foram as fontes inspiradoras dos valores morais e somente na modernidade, especialmente no Ocidente, essa relação se rompeu.

Se existe algo para o que os ateus devem atentar em nossa época é para a importância de manter a religião afastada do controle do poder político, assim como vigiar pelas liberdades individuais e contra a intervenção de princípios religiosos na legislação. Ser ateu é ser, acima de tudo, secularista – o ateísmo não pode vicejar em um ambiente onde a religião tenha o controle do Estado, assim como a própria liberdade de consciência fica seriamente ameaçada nesse contexto.. Isso não significa anular a voz dos religiosos na política e mesmo que queiramos pensar mudanças na legislação que envolvem questões morais, não podemos deixar de dialogar com as religiões.

O ateísmo contemporâneo somente pode ser eficaz se se afirmar como secularista, enfatizando as liberdades individuais, a tolerância e o esclarecimento (pautas que não são exclusivamente ateístas) em lugar dos reducionismos e de uma militância que por vezes pode atrair mais rejeição do que resultados positivos. Na área da ciência, cabe a reafirmação do ateísmo metodológico, isto é, o reconhecimento de que a ciência não prova Deus e é indiferente a crenças e valores religiosos. O ateísmo metodológico postula que um pesquisador não deve incluir a ação de Deus ou entes sobrenaturais na explicação de fenômenos naturais ou mesmo históricos. Esse princípio foi usado, por exemplo, por Bart Ehrman no debate com William Lane Craig sobre o tema da existência ou não de evidências da ressurreição de Jesus Cristo (clique aqui para ler) e é amplamente aceito no meio científico.

Leia também: 

Por que não é possível acabar com a religião?

Religiões alienam e são irracionais? 

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24 comentários sobre “O que é ser ateu

  1. Ricieri 02/06/2015 / 23:23

    Perfeito professor ! Não tenho nada a acrescentar, mas como ateu acho o fenômeno religioso um tanto quanto mais complicado do que tratamos, acho complicado trata lo sem uma boa dose de debate e conversa dentro das capacidades intelectuais de cada indivíduos.

    Professor, porque na europa as pessoas esvaziam os templos, na França já ocorre a Laicização da morte, Organizações humanistas já realizam casamentos humanistas, cerimonias de morte humanistas e etc ? Será que isso tem alguma explicação sociológica ?

    Texto excelente

    • Bertone de Oliveira Sousa 02/06/2015 / 23:31

      Ricieri, foi Weber quem explicou esse fenômeno. Tem um livro do sociólogo brasileiro Antonio Flavio Pierucci chamado “O Desencantamento do Mundo: todos os passos do conceito em Max Weber” que é uma boa referência. Na Filosofia, as obras de Gilles Lipovetsky também abordam esse fenômeno.

      • Ricieri 02/06/2015 / 23:36

        Vou procurar em PDF para estudar essas sugestões, aproveito e deixo a dica professor para você publicar uma lista com, sei lá 30 sugestões de leitura ou livros que o senhor use para lecionar.

      • Cesar Marques - RJ 03/06/2015 / 1:54

        Eu acabei de adquirir esse livro do professor Flavio Pierucci, e fiquei muito triste ao saber que ele havia morrido a algum tempo.

  2. Cesar Marques - RJ 03/06/2015 / 1:53

    Ótimo texto, mas acho que outro tema seria mais pertinente, tipo: “Por que o brasileiro-cristão é exasperadamente homofóbico”, vide a reação irracional de grande contingente brasileiro contra a novela Babilônia da Globo e o comercial inclusivo da Boticário. Afinal, cristandade deveria ser sinônimo de solidariedade, irmandade, etc.

  3. Edson Almeida 03/06/2015 / 12:05

    Parabéns, professor!
    Mais um excelente texto.
    Inclusive adorei a definição de ser ateu: “ser ateu não é repetir todos os dias que Deus não existe, é viver como se Deus não existisse.”
    Foi a melhor conceituação que já li sobre o assunto.

  4. A população de um modo geral não sabe identificar o que é ateísmo. Eu mesmo sou visto como ateu em meus círculos sociais, pra isso bastando eu compartilhar alguma crítica sobre posturas fundamentalistas na política, embora eu fique atualmente dentro dos espectros do agnosticismo e do deísmo.

  5. Donatien Alphonse François 03/06/2015 / 18:22

    Queimar um livro, seja ele qual for, somente demostra o quão ignorante uma pessoa é, particularmente eu gosto de ler a bíblia, tem muitas histórias interessantes que valem a leitura. Obrigado por mais esse excelente texto Professor Bertone!

  6. Pedro Henrique F. 03/06/2015 / 18:52

    Bertone, sabe um assunto que me deixa curioso? Como se aborda a teologia? Eu tenho tentado estudar a teologia e sinto-me um pouco perdido ao tentar descobrir por onde começar. Pensava em começar a estudar a teologia católica, pois essa é a da maioria do Brasil, ai pretendia partir para outros grupos como islã, judaísmo, etc. Alguma sugestão de onde começar? Eu já perguntei a alguns de meus professores e ex-professores que são religiosos e um deles me indicou até um livro chamado “Cristianismo Puro e Simples”.
    PS: não sei se você já tratou desse assunto, mas ja pensou em formular um texto sobre a ” formação do pensamento brasileiro”? Pois uma das coisas que mais ladram por ai é que o brasileiro não é liberal o suficiente, socialista o suficiente, não tem valores conservadores, etc. Li em varias vezes (em textos lucido, pois os mais populares pareciam um delirio) que a sociedade brasileira é conservadora, e por isso dos vários problemas as minorias. Outros menos lúcidos dizem que o brasileiro é “tudo vagabundo” pois fica “dependendo do estado pra tudo”, dizendo que isso é comunista. Alguma ideia de como entender isso?

    • Bertone de Oliveira Sousa 03/06/2015 / 21:06

      Pedro, o mais indicado é que você tente ingressar em uma faculdade de Teologia.Já a questão do pensamento social brasileiro é um tema muito amplo para um blog e tem bons livros no mercado sobre que abrangem esse assunto. Agora a questão do conservadorismo político do brasileiro já abordei em diversas ocasiões aqui.

      • Pedro Henrique F. 06/06/2015 / 9:17

        Entendo, obrigado pelo esclarecimento.

  7. Felipe 04/06/2015 / 0:08

    Esse texto me lembrou um pouco de um dos livros do André Comte-Sponville “O Espírito do Ateísmo”. Talvez seja por conta da referência a Dostoiéivski.Enfim, eu gostaria de perguntar se o Estado deve ser laico por não realizar nenhum tipo de concessão a nenhuma religião (nem prejudicando uma, nem privilegiando outras), ou deve ser laico mas permitir certos tipos de “privilégios” como em relação à isenção do serviço militar obrigatório para os Testemunhos de Jeová.

    • Bertone de Oliveira Sousa 04/06/2015 / 0:30

      Felipe, na verdade uma coisa não invalida a outra, ou seja, um estado é laico quando não professa nenhuma religião e garante a liberdade de culto. Ao mesmo tempo o estado precisa garantir que as crenças religiosas sejam respeitadas, desde que não interfiram em direitos de terceiros, como a liberdade de expressão ou mesmo o direito à vida. Isso significa que a isenção do serviço militar obrigatório para Testemunhas de Jeová não se encaixa como privilégio, mas como cessão pela não violação da consciência religiosa de um grupo. O mesmo pode ser dito em relação aos adventistas do sétimo dia, que não realizam provas entre as 18 horas de sexta-feita e 18 horas do sábado, por exemplo. Nesse caso os estabelecimentos de ensino são obrigados a realizar os exames em outra ocasião.Há ainda o caso de religiões que proíbem que mulheres usem calças compridas, por exemplo.

      Agora existem questões em que a justiça tem de intervir. Uma vez li sobre o caso de uma criança, filha de uma Testemunha de Jeová, que corria risco de morte e precisava urgentemente de uma transfusão de sangue. Como nessa seita as pessoas também são proibidas de fazer isso, os pais recusaram. Funcionários do hospital então apelaram à justiça que ordenou que fosse feita a transfusão; o juiz, respaldado pela constituição, alegou que o direito à vida está acima de doutrinas religiosas. O estado também pode intervir em casos de poluição sonora vinda de templos religiosos. Agora podemos argumentar que um privilégio que as instituições religiosas desfrutam é a isenção de impostos, o que justificam se apresentando como sem fins lucrativos e isso precisa ser revisto.

  8. Kléber Cordeiro 08/06/2015 / 10:34

    Bertone,

    Estou lendo o livro de Dawkins, Deus um Delírio, e provavelmente as referências que ele fez sobre a semelhança de Deus a um vírus e o caso do Mostro do Espaguete Voador levantadas na palestra citada foram superficiais; prejudicando uma avaliação dele sobre essas ideias.

    Apesar de todo empenho dele em professar o ateísmo, nota-se no livro um cuidado científico com suas alegações. Ele procura amparar suas ideias em seus conhecimentos e métodos como biólogo, mostrando cuidado e respeito quando “passeia” por outras campos da ciência, buscando referências na imensa maioria das vezes.

    No mais, concordo com toda a preocupação quanto à esse novo perfil de ateu, tão dogmático, radical e arrebanhador, tão peculiar às religiões que se que critica.

    • Bertone de Oliveira Sousa 08/06/2015 / 16:25

      Kléber, de fato, os livros dele são melhores do que suas palestras e entrevistas. O problema dessas últimas é que falta a ele mais acuidade nas colocações, que muitas vezes se resumem a manifestações de desprezo pela religião.

  9. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 28/09/2015 / 22:06

    Professor Bertone Sousa,o senhor sabe onde posso encontrar disponível por favor,o debate entre Bart Ehrman e William Lane Craig?Há tempos que quero assisti-lo,porém só encontrei textos desse debate disponíveis em inglês,língua que não domino com fluência,o senhor sabe se este debate está disponível em português?E quem é esse William Lane Craig?O Bart eu o conheço bem,inclusive comprei dois livros dele por indicação sua aqui no blog,´´Jesus Existiu ou não´´? e ´´Como Jesus se tornou Deus´´,depois escutei falar desse debate dele com o Wiliam Lane Craig,e fiquei interessado,mas esse autor é um filósofo cristão?É universitário,sabe se expressar bem?O William Lane Craig pode ser considerado um intelectual?

    • Bertone de Oliveira Sousa 29/09/2015 / 0:10

      Gabriel, se não me engano há uma versão legendada desse debate no Vimeo; pelo menos há algum tempo havia, não sei se foi removido. Outros livros de Bart Ehrman muito bons são: “O que Jesus disse, O que Jesus não disse?”, “Quem Jesus foi, quem Jesus não foi?” e “Quem escreveu a Bíblia?”.

      Criag não é um intelectual acadêmico, mas um teólogo fundamentalista, por isso os protestantes fundamentalistas gostam tanto dele.

  10. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 29/09/2015 / 3:44

    Professor mto obrigado pela indicacao do video assisti um trecho,e assistirei o restante amanha,pois ja irei dormir,mas ate aonde vi,parei ao final do discurso de introducao do Ehrman ele argumentou mto bem a questao de que o historiador so trabalha com possibilidades logicas e nao com milagres ou intervencao de deuses.E te digo tbm que tentei passar esse seu texto para um amigo meu militante,o compartilhando em sua pagina e fiquei triste com sua reacao ao ler o texto,disse que o texto era conciliador e tendecioso,que trabalha com o medo da possibilidade de ausencia da religiao e como ele esperava coloca o ateu em uma posicao de omissao em relacao aosabusos praticados pela religio e na minha opiniao o senhor disse exatamente o contrario que sim devemos usar a ciencia e educacao para combater o feminismo cpmo fez o professor de biologia dos Eua quw ensinou o evolucionismo apesar deste aer proibido na epoca e o fez arriscando seu trabalho na escola,eu te pergunto prpfessor como agir com ateus militantes?Esse mesmo amigo minutos antes de eu compartilhar o seu texto na pagina dele no face,ele havia compartilhado una imagem satirica de Jesus Cristo dando o dedo do meio com uma satira em relacao a passagem biblica do vinde a mim as criancinhas,dizendo que ele nunca falou issp que os que o inventaram que usaram isso para doutrinar as criancas,e toda discussao se deaenvolveu a partir dos maleficios provocados pelo cristianismo na sociedade,eu tentei dizer que apesar dos papas que fizeram a inquisicao houveram bons exemplos de cristaos como martin luther king que lutou pelp fim do racismo e os padres da teologia da libertacao como leonardo boff que usa o cristianismo para lutar por justica social,mas ele nao entendeu ele disse que eu falei isso para defender a religiao que no fundo eu estava querendo dizer que se nao fosse a religiao eles seriam maus e que religiao nao forma carater,ou seja ele e incapaz de reconhecer algo bom na religiao,e quando alguem o faz e chamado de tendecioso e conciliador,o que faco professor paro de mostrar seus textos a ele?

  11. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 29/09/2015 / 3:54

    Me desculpe pelos erros gramaticais,pois estou escrevendo do meu celuar e meu aparelho e mto pequeno do modelo antigo o que dificulta a escrita,mas como devo agir com os ateus militantes?ignora-los,deixar elea debochar e criticar diariamente a religiao sem tentar uma postura conciliatoria como eles proprios acusaram a mim e ao senhor de propor?

    • Bertone de Oliveira Sousa 29/09/2015 / 12:04

      Gabriel, esse é o tipo de ateu que eu chamo de verdadeiro à toa, é o cara que acha que ser ateu é insultar a religião; é o cara que não quer aprender a pensar a religião como fenômeno histórico e cultural, ele só quer fazer esculhambação gratuita. Ele confunde crítica com insulto. Assim que comecei esse blog um desses veio parar aqui, escrevendo agressividades. Tentei levá-lo a refletir seu posicionamento reducionista, ao que ele se tornou ainda mais agressivo. Ele continuou comentando e bloqueei seus comentários até ele sumir daqui. A melhor forma de agir com essas pessoas é ignorá-las. Não adianta argumentar porque não há racionalidade no que eles falam, só revolta. Eles são revoltados, não propriamente ateus. Eles precisam falar mal de Deus todos os dias pra se convencer de que ele não existe, eles precisam ofender as pessoas religiosas (geralmente cristãs) pra se sentir melhores que elas. São uma nulidade intelectual porque escolheram agir assim. Dar corda pra eles só vai fazer se sentirem importantes, por isso o melhor é ignorar.

  12. Antonio Prestes 12/10/2015 / 12:00

    Acho que as religiões deveriam ser submetidas às mesmas leis de estelionato que o cidadão. A enganação para proveito financeiro é gritante ( literalmente ) em algumas.

  13. nocalabouco 21/11/2015 / 21:24

    Olá.

    Seu texto me fez pensar sobre o caso que ocorreu em Florianópolis que um vereador quis colocar a bíblia como obrigatório nas bibliotecas das escolas municipais. A primeira reação que os ateus tiveram foram de dizer que o estado é laico e que não deveria ter uma Bíblia na escola pois isso feria esse princípio. No caso a única coisa a qual fiz oposição foi que o vereador queria por a bíblia em um local de destaque, mas ter uma Bíblia em uma biblioteca não há problema e não fere o estado laico afinal é um livro sobre uma das maiores religiões que o mundo possui. Quando a pessoa crítica sem refletir o assunto por inteiro me faz pensar que esse tipo de ateu é tão alienado quanto o religioso que ele crítica.

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