Existe doutrinação ideológica nas escolas?

saladeaulaUma das acusações que parte da direita faz a muitos professores, tanto na escola básica como nas universidades,  é que estes não são apenas educadores, mas também doutrinadores políticos, usando apenas conceitos e referenciais marxistas em suas aulas. Até criaram um grupo chamado Escola sem partido e o assunto ganhou uma audiência na Câmara, no final do último mês de março, na qual participaram vários professores que falaram em “contaminação de pensamentos de ordem política, ideológica e religiosa em todas as etapas da educação brasileira” (Leia aqui sobre a audiência na Câmara).  

E quando essas pessoas falam de “contaminação ideológica”, se referem especificamente a ação de professores de esquerda em todos os níveis de ensino, basta ver os seus blogues e os grupos dos quais fazem parte nas redes sociais. A isso cabe perguntar: existe fundamento nessa acusação que justifique uma audiência na Comissão de Educação da Câmara?

Primeiro, é importante observar que o Congresso brasileiro eleito em 2014 é considerado o mais conservador em décadas. Segundo, um deputado até chegou a propor um projeto de lei que, segundo essa matéria, “prevê a adoção de medidas eficazes para prevenir a prática da doutrinação política e ideológica nas escolas”. Isso quer dizer que haverá uma vigilância, um patrulhamento de professores? Ao que tudo indica, o tal projeto está mais próximo de um cerceamento pernicioso da liberdade de expressão do que propriamente de uma preocupação com a qualidade do ensino no país. E quem definirá o que é “doutrinação política e ideológica?” Alguém também falou nessa audiência que o “ensino deve ser neutro” e “se ater aos fatos”. Ora, esse pensamento já demonstra uma profunda ingenuidade em relação ao ensino, não apenas de humanidades, mas de qualquer disciplina.

O autor dessa frase não compreende que qualquer currículo é sempre seletivo e está voltado para a formação de um tipo de ser humano, que nenhuma teoria é neutra mas envolve sempre relações de poder, que organizam e estruturam a realidade com base em critérios específicos de compreensão do mundo. Numa sociedade democrática como a nossa, o professor tem autonomia para desconstruir com seus alunos significados que considere equivocados, seja no livro didático, seja em outros meios sociais. O que essas pessoas de direita parecem querer, na verdade, é organizar um currículo com base no que consideram a visão correta do mundo e impedir que outras interpretações estejam presentes em sala de aula. A partir desse projeto de lei, qualquer professor que tentar argumentar, por exemplo, a favor de políticas sociais como o bolsa família ou de cotas para negros nas universidades pode ser criminosamente rotulado de “doutrinador”.

Lembro que quando estudava o Ensino Médio em uma escola pública, um professor de Física, católico devoto, costumava dizer, enquanto explicava alguns conteúdos: “isso é uma prova de que Deus existe”. É óbvio que esse professor não estava “se atendo aos fatos”, mas expondo sua opinião religiosa em sala. É óbvio também que isso não era doutrinação, mas uma ação de sua posição como formador de opinião. Se um professor diz em sala de aula que o socialismo é a melhor saída para nossa civilização, isso seria considerado doutrinação? Por outro lado, dizer que o PT é um partido comunista que pretende acabar com a democracia também não é doutrinação?

Um professor que defende o comunismo em sala de aula é no mínimo mal informado, mas isso não o torna necessariamente um doutrinador. Ademais, o uso do substantivo “doutrinação” para qualificar a metodologia de ensino de milhares de professores em todo o Brasil, desconsiderando diversas diferenças entre eles, não passa de um termo capcioso que pode ser usado ilimitadamente para criminalizar posições políticas e pessoas. A partir disso, podemos facilmente inferir que o projeto de lei 867/15 do deputado Izalci, se aprovado, demoliria facilmente a liberdade de opinião.

O que acontece, infelizmente, é que tanto o deputado quanto os professores que participaram da audiência não estão preocupados com qualidade do ensino. E isso nos leva à pergunta inicial: existe fundamento em sua reivindicação? Não se pode negar que existem professores dogmáticos em todos os níveis de ensino. Mas é necessário ressaltar que educar não é apenas repassar conteúdos, como se o jovem fosse uma sacola que você enche com coisas. Não, o jovem também traz para a sala de aula sua experiência social, sua vivência numa comunidade, cidade, bairro, país. Também faz parte do ato de educar posicionar-se politicamente a respeito de questões relevantes na própria sociedade, problematizar a vida coletiva, as expectativas individuais, as crenças e as narrativas sobre o mundo que essas pessoas receberam.

A direita que critica dogmatismos de esquerda também comete erros crassos. Eles querem que autores como Edmund Burke, Hayek, Friedman e outros também sejam lidos. Até aí tudo bem. O problema é que essa direita consegue ser pior do que os marxistas dogmáticos que criticam. E podemos enumerar os motivos. Primeiro, por seu apelo a expedientes conspiratórios. Responsabilizam Gramsci pela “hegemonia cultural” da esquerda no país e Paulo Freire pelo baixo nível de aprendizado em nossa educação básica. Mas a esquerda não tem hegemonia cultural; os principais meios de comunicação do Brasil não são de esquerda e questões como aborto, casamento homossexual, legalização da maconha, entre outras questões, não são pautas exclusivamente de esquerda. Outro ponto é que Gramsci atualmente é pouco lido nas universidades. Foi lido por alguns intelectuais especialmente na década de 1980, mas não tem mais a mesma influência daquele contexto. O fato de esse segmento apelar a teorias conspiratórias os impede de analisar com acuidade essas questões e os torna reféns de uma paranoia anticomunista completamente fora de tempo.

Essa paranoia se manifesta em sua crença de que o PT é um partido comunista. Para isso, usam os estatutos do partido, que fala em “socialismo”, como prova de sua conspiração para transformar o Brasil em um país comunista. No entanto, qualquer pessoa com o juízo no lugar sabe que o PT, no que pese seus escândalos de corrupção, nada tem de socialista, nem Lula ou Dilma, que impulsionaram o capitalismo brasileiro mais do que seus antecessores. Socialismo, definitivamente, não é projeto de governabilidade do PT, que só está há doze anos no poder porque conseguiu casar a realização de projetos sociais com demandas de variados segmentos, banqueiros, industriais, empresários e trabalhadores.

Em parte, a própria esquerda é responsável pelas acusações que a direita faz contra ela. Esta, pode se valer de dados verdadeiros, como os elogios que muitos desses professores fazem à ditadura cubana ou norte-coreana para hiperbolizar seu discurso anunciando uma doutrinação comunista universal nas escolas. Mas, e o que dizer daqueles que elogiam as ditaduras militares na América Latina ou até o fascismo e silenciam em relação às violações dos direitos humanos que cometeram porque evitaram o “mal maior” do comunismo?

Não ser petista não torna alguém, necessariamente, um agente defensor de conspirações e de intervenção militar. Mas uma parte da direita que fala de “doutrinação” nas escolas também quer intervenção militar. E aí talvez esteja o maior de seus defeitos: ela não se importa com democracia e possivelmente até creia que com os militares o ensino será “neutro” e se aterá “aos fatos”. Por que, ao invés de defender essas pautas, a direita não reivindica melhorias salariais e plano de carreira aos professores? Por que também não reivindicam condições dignas de trabalho, sem salas de aula superlotadas e com condições adequadas para o exercício da atividade docente? Ora, a implantação de políticas voltadas para a valorização salarial e profissional do professor certamente atrairia profissionais mais críticos para a docência porque tornaria os cursos de licenciatura mais valorizados. A baixa qualidade de nossa educação reflete até mesmo nas vergonhosas discussões em nosso Congresso Nacional  e na incoerência e irrelevância de muitos projetos de lei que seus membros elaboram.

Acontece que nossos problemas educacionais são históricos e, se existe uma proliferação de professores dogmáticos na educação básica, não apenas em questões políticas, mas religiosas também (mas não são todos, é importante que se diga), isso se deve em grande parte à permanente desvalorização da carreira docente que tem desviado dos cursos de licenciatura muitos bons alunos que concluem o Ensino Médio. É importante reiterar que a audiência na Câmara e as ações do grupo Escola sem Partido não são pautadas pela preocupação com qualidade do ensino mas com seu conteúdo e, nesse sentido, o que querem é homogeneizar o que é ensinado, criminalizando posições políticas.

Qualquer iniciativa que queira cercear liberdade de expressão de docentes em sala de aula é espúria, anti-democrática, arbitrária. Quando o debate é substituído por projetos de lei que impõem o silêncio, a democracia já está ameaçada. O que vemos acontecer no Brasil nos últimos anos é o recrudescimento de um pensamento proto-fascista que quer banir do ensino livros, autores e professores que não se enquadram em uma visão de mundo de direita. Essa narrativa escamoteia seu autoritarismo sob o mote de uma falsa ameaça comunista mas, na prática, o que ela ameaça mesmo são liberdades individuais.

Texto editado em 23/02/2016.

Leia também: 

Para quem é a História?

Para compreender Marx

Além da esquerda e da direita

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87 thoughts on “Existe doutrinação ideológica nas escolas?

    • Robson Freitas 28/05/2015 / 14:42

      Professor Bertone, tudo bem?

      Por felicidade , cheguei a esse blog, por causa do Olavo de Carvalho, alias foi unica coisa que esse sujeito fez de bom para mim !!!! rsrs

      Adorei o texto, como a maioria das coisas que você escreve aqui.Nunca poderia imaginar que,acharia alguém para contextualizar de forma tão brilhante, minha visão de mundo é semelhante a sua,compartilho cada virgula , parabéns !!!!!

      Certa vez , escutei de uma pessoa próxima , inclusive uma pessoa engajada politicamente de que ,o PT nunca foi “ESQUERDA”´, mas sim , OPOSIÇÃO .

      Baseado no que vejo , referente as politicas sociais , que de fato , foi extremamente importante, mas que foram abandonadas com o tempo e ,os meios que levaram ao poder como alianças espúrias com o PMDB e partidos com tinturas ideológicas totalmente oposta ao manifesto do partido , faz realmente pensar que, somados ao acontecimentos sobre os escândalos de corrupção ,o PT usou um discurso de “esquerda” mas acabou se caracterizando um partido somente de oposição . O que acha disso ?

      Grande abraço

      • Bertone de Oliveira Sousa 28/05/2015 / 22:35

        Olá Robson, seja bem-vindo ao blog. Isso tem sim um fundo de verdade e o PT corre o risco de cometer o erro do PSDB. O PSDB traiu a social-democracia quando chegou ao poder e pôs em prática as políticas econômicas da direita. Fiz uma breve análise dessa situação do PT em outro texto, não sei se você já leu, que é esse:

        https://bertonesousa.wordpress.com/2015/04/18/o-fim-do-pt/

        Abraço.

    • Silas Albuquerque 23/07/2016 / 22:00

      Estão usando as salas de aulas para impor ideologias política e religiosa, as quais muitas vezes vão de encontro às dos pais. O projeto escolas Sem Partido não visa impedir que o professor ensine, mas sim que ele doutrine, ou seja, apresente um ponto de vista singular, o dele, de forma tendenciosa, à levar seus alunos a adotarem seus pontos de vista particulares, não dando a opção de comparar com outras ideologias e definirem a qual julga mais coerente. O professor deve expor as ideologias políticas de forma imparcial.
      Eu estudei em escola privada, e graças à Deus os professores eram profissionais, não doutrinavam, porém o Livro adotado pelo MEC do Mario Schmidt era bastante tendencioso, o que me fez adotar suas ideologias políticas, mas ao decorrer do tempo, tive que estudar mais aprofundadamente o assunto, e quando posto tudo na balança, mudei radicalmente minha ideologia.
      Doutrinação é típico de regimes autoritários, ou tentativas de implantá-los.

  1. João Paulo 16/05/2015 / 20:47

    Prezado prof. Bertone, na sua fala:

    ¨Primeiro, é importante observar que o Congresso brasileiro eleito em 2014 é considerado o mais conservador em décadas. Segundo, um deputado até chegou a propor um projeto de lei que, segundo essa matéria, “prevê a adoção de medidas eficazes para prevenir a prática da doutrinação política e ideológica nas escolas”. Isso quer dizer que haverá uma vigilância, um patrulhamento de professores? Ao que tudo indica, o tal projeto está mais próximo de um cerceamento pernicioso da liberdade de expressão do que propriamente de uma preocupação com a qualidade do ensino no país.¨

    Eu lembrei de um caso que ate veio para no seu blog de uma professora que foi ¨denunciada¨ porque usava um livro do Hobsbawm como uma de suas referências para dar aula… se eu bem me lembro o Tribunal de justiça de causa ganha para a professora.

    Realmente já esta um saco dos infernos principalmente em redes sócias esse negocio de tudo culpa do PT, o PT isso o PT aquilo é também o uso da palavra fascista usado irresponsavelmente por algumas pessoas mais a esquerda juntamente com a gíria virtual ¨coxinha¨. Parecem crianças brigando ganham quem xinga mais é quem cria teorias malucas. Isso de doutrinação ideológica para mim é mais uma piada. Pelo menos nunca vi isso em sala de aula. Parece que as pessoas que fazem esse tipo de acusação no fundo no fundo querem fazer censura como ocorreu nas universidades na ditadura militar. Se me permite, apesar de ser um tema mais da sociologia, um tema interessante para discussão seria: ¨As redes sociais é o ódio político como aprendizagem¨ mas daria um certo trabalho. No mas um abraço e desde já agradeço a atenção.

    • Bertone de Oliveira Sousa 17/05/2015 / 1:21

      João, sim, outro leitor levantou em um texto sobre Hobsbawn essa questão da professora da Fatec, que alguém quis denunciá-la por causa de seu programa de disciplina, acusando-a de doutrinação, o que não era o caso e a professora teve sua autonomia reconhecida pela justiça. E essas rotulações de “coxinha” e “petralha” enchem o saco mesmo e por isso já dá pra entender o nível de debate a que muitos da direita e da esquerda chegaram. Abs.

  2. Saul Ramos 16/05/2015 / 22:47

    Professor Bertone, boa noite e parabéns pelo texto! você explicou bem a náusea que sinto pela esquerda brasileira, como também escancarou a realidade da direita vazia e golpista que cresce cada vez mais no Brasil. Penso que o regime educacional tem que ser igual ao regime democrático político, os vários pensamentos convivendo de forma harmoniosa. Acredito que educação neutra e pura utópia, assim como um política e uma justiça, em todos esse casos haverá interpretações e julgamentos de suas ciências e questões de acordo com suas ideologias e pensamentos, formados, de acordo com a leitura e vivência de cada um, então, posso até me enganar, mas na educação não vejo de forma negativas essa questão, pois cada professor tem suas proprias idéias e tendem a transmitir isso a seus alunos e orientados. Recentemente meu orientador de Mestrado teve um pequeno embate com outro professor meu, sobre uma questão de minha área, fiquei do lado do meu orientador, mas não pelo fato dele ser meu orientador e sim pela leitura e estudos que acumulei sobre o tema sobre orientação dele, então pergunto, fui doutrinado? claro que não! tive minha interpretação de acordo com minhas experiências e de acordo com a fundamentação científica que me apego. Todos tem diversas maneiras de observar os fatos, e é justamente a liberdade para isso que chamamos de democracia, agora, a sobreposição de um interpretação sobre outra de forma autoritária ai sim e negativo, mas acredito que isso não ocorre no Brasil. Em relação a suposta doutrinação comunista nas escolas que a direita prega e algo totalmente ridículo, minha namorada e professora do ensino público e converso muito com ela, e segundo o que ela me fala, os professores das áreas de humanas veem temas como, revolução russa e cubana, comunismo/capitalismo apenas como mais um conteúdo da ementa a serem dados e não da forma de doutrinação tanto para direita ou esquerda. No setor privado ai que esses malucos de direita demostram sua insanidade, professores do setor privado ensinam de forma doutrinadora sim, mais não é de esquerda ou direita e sim da doutrinação de passar no VESTIBULAR! fiz meu ensino média no setor privado e lembro que a única preocupação que os professores tinham, eram se destacar como bons professores em suas escolas, feito isso a escola aprovava mais no vestibular e com isso seus nomes se destacavam no mercado aumentando seus salários, e sendo contratados em cursinho pré vestibulares, e os alunos se preocupavam apenas com uma coisa: passar no vestibular e ser alguém na vida!

    • Bertone de Oliveira Sousa 17/05/2015 / 1:27

      Saul, infelizmente as escolas privadas e cursinhos pré-vestibulares se tornaram instituições mercenárias da educação. Já trabalhei em ambos e posso afirmar isso. Neles, já se tornou comum até professores de ciências naturais inventarem todo tipo de “macetes” para alunos decorarem fórmulas para um exame, enquanto nossos estudantes tiram notas baixas em exames internacionais e o país ocupa o sexagésimo lugar no ranking internacional de educação. Você tem razão, isso também é uma forma de doutrinação, mas não é denunciada porque muita gente lucra com esse pseudo-ensino.

  3. Rafael 16/05/2015 / 23:00

    Professor, como sempre ótimo ler seus textos, eles me trazem um grande alivio, porque questões como essa as vezes não entram na pauta de discussão do curso, parece que a universidade é um templo isolado onde não se pode abordar temas como esse(esses temas que crescem na internet, e como o senhor já disse temos poucos professores de historia atuando na grande rede). Eu comecei a ver pessoas falando disso(da “doutrinação”) desde de 2014, quando tudo aqui no Brasil se polarizou, e sempre vi com muita preocupação, porque por mais que seja uma critica valida(embora eu só tenha tido um professor dito marxista no cursinho, muitas pessoas próximas relatam que o seu professor era de esquerda e exagerava no discurso), sempre vi isso como uma tentativa de “impor um modo de ver o mundo”. Creio que uma das minhas maiores indagações como estudante de historia sempre foi qual perspectiva vou usar em sala de aula? Não quero ser um ditador, mas não quero também deixar de abordar alguns temas que geralmente são deixados de lado pela mídia e as pessoas(a questão indígena, por exemplo) . Estou indo para o quarto semestre, espero que antes de me formar já saiba o que fazer em sala de aula.E engraçado que quem diz que um é doutrinador, que quer o ensino neutro, tem uma posição politica bem definida, espero que isso nõ der em nada .Para deixar uma pequena contribuição ao tema, vou colocar a citação que usei no resumo que fiz do livro A historia depois do fim da historia de Josep Fontana.

    O autor também segue falando sobre as teorias que tentam ser imparcial, elas são classificadas como simplistas e ingênuas. Fontana faz a seguinte critica:
    “À primeira vista, por exemplo, pode parecer inocente uma proposta como a de Gertrud Himmelfarb de escrever «uma história feita de grandeza e miséria, de heroísmo e maldade, de acontecimentos protagonizados por homens e mulheres extraordinários mais que por forças sociais impessoais». Tão inocente como a que figurava no início do manual oficial de história que o franquismo impôs à Espanha em 1939, e que dizia: “A história é como um conto maravilhoso, mas um conto em que tudo é verdade, em que são verdadeiros os fatos grandiosos, heróicos e emocionantes que refere… Pela história se sabe o que ocorreu em cada país e como foram seus reis, seus governantes e seus personagens mais ilustres… A História nos fala, enfim, de todos aqueles que fizeram na sua vida algo notável e importante”35. O mal é que sabemos que esse texto serviu para legitimaros fuzilamentos dos professores republicanos que se atreveram a sustentar que todos fazem a história, e em especial o povo, e o que deve ser ensinado às crianças não são as guerras mas as conquistas que os homens alcançam por meio da solidariedade.”(FONTANA;1998,p.27-28)

    • Bertone de Oliveira Sousa 17/05/2015 / 1:35

      Rafael, bem pertinente essa citação sobre o caso espanhol e principalmente porque as ditaduras fazem isso com a educação: impõem uma visão de mundo sob a máscara da neutralidade, do patriotismo ou do combate a um inimigo poderoso. Por isso a democracia e a liberdade de expressão não tem preço e os que pedem o seu fim por qualquer intervenção militar precisam mesmo ser denunciados. Toda pretensão de neutralidade esconde um projeto político e intenções espúrias de quem profere esse tipo de discurso. Mas posicionar-se em sala não é ser necessariamente um ditador, por isso chamei a atenção para a importância das análises de caso, porque isso afasta o vício do pensamento único e consequentemente os reducionismos.

  4. marcos louiz xaviher 17/05/2015 / 0:14

    No Brasil não existe educação, existe adestramento.

  5. Wagner 17/05/2015 / 0:26

    Com relação a nossa situação politica atual, fazia tempo que não lia algo tão lúcido.

    Obrigado por produzir um texto tão bom

  6. Felipe 17/05/2015 / 12:16

    Novamente, um bom texto. Entretanto eu tenho que concordar e discordar de um mesmo ponto.
    Primeiramente, eu estou falando como um aluno de ciências sociais e eu não faço as minhas análises com base no marxismo, embora respeito-o.
    Segundo, em relaçao ao pós-modernismo é verdade que há marxistas ortodoxos (que é diferente do dogmático, segundo Lukács) que detestam aquela abordagem por se afastar aos paradigmas clássicos do marxismo. Porém, quando uma pessoa que não é marxista critica o pós-modernismo (isso inclui Foucault, teoria queer e grande parte da filosofia continental) está argumentando que os defensores dessa análise o fazem de maneira pseudocientífica e até mesmo anticientífica. Um exemplo disso são as besteiras de Irigaray falando que E=MC2 é uma equação sexista e que os princípios de Newton são um verdadeiro manual de estupro. Em relação ao Foucault, grande parte do pessoal que eu converso diz que ele errou feio na hora de atribuir ao gênero o caráter de construção social. Isso se baseia muito mais nas hipóteses ininteligíveis da psicanálise lacaniana ou freudiana.
    É realmente lamentável chegar na academia e ver gente defendendo Cuba e Coréia do Norte. Mais lamentável ainda é a influência do pós-modernismo e do pós-estruturalismo que reduz tudo a jargões como construção social, apropriação cultural etc. Embora eu rejeite a análise marxista tenho que fazer uma ressalva em relação ao David Harvey que é um grande intelectual e crítico do pós-modernismo. Não só ele como também Habermas que, embora não seja mais marxista, é fundamental a sua obra na compreensão do conceito da esfera pública na participação política. Vale destacar também o papel fundamental de Bauman que não é marxista, mas é também um dos críticos do pós-modernismo.

    • Bertone de Oliveira Sousa 17/05/2015 / 15:30

      Felipe, realmente há exceções. Harvey é um bom autor, mas suas críticas ao pós-modernismo estão superadas. Kumar e, mais recentemente, Lipovetsky, são um corretivo a ele. Mas também não se pode esperar que um autor acerte sempre ou esteja isento de críticas. Independente do que se diga sobre Foucault, isso não anula a importância de suas abordagens. Mas esses exemplos de Newton e da equação são apenas exceções isoladas que dispensam comentários. Mas o discurso pós-modernista não se reduz a jargões, aliás, é um dos que menos se utilizam de jargões, até porque também não é homogêneo e somente numa leitura muito apressada e redutiva se pode atribuir isso a ele. E Bauman não é crítico do pós-modernismo, é um de seus principais teóricos hoje.

      • Bertone de Oliveira Sousa 17/05/2015 / 18:36

        Ele parte de um sentido restrito de pós-modernista para não se definir como tal. Mas suas obras se destacam entre os que realizam análises do fenômeno, o que o torna um de seus principais teóricos, já que seus conceitos como modernidade líquida, sociedade individualizada entre outros apontam todos para constatações das mudanças comportamentais e paradigmáticas na fase recente da modernidade. É importante não interpretar textos assim literalmente e cotejar com as obras do autor ajuda melhor a entender seus posicionamentos diante do que teoriza e critica.

    • Pedro Henrique F. 18/05/2015 / 1:18

      Felipe, eu não espero não estar parecendo preguiçoso, mas que história são essas sobre a formula do E=MC2 e das teorias de newton serem sexistas e manuais de estupro?

  7. Felipe 17/05/2015 / 12:32

    Só mais um detalhe. O Demétrio Magnoli não é de direita, só olha a última entrevista dele no Roda Viva.

    • Bertone de Oliveira Sousa 17/05/2015 / 15:19

      Magnoli tem adotado várias críticas notadamente de direita, contra cotas e outras posturas de esquerda. Seus livros didáticos também seguem esse viés. Ele não é um extremista, mas também não é de esquerda. Mesmo que ele não se declare como tal, sua inclusão nesse espectro se deve menos a um enquadramento definitivo do que a uma constatação de onde seus discursos se encaixam no contexto em que ele fala.

      • Felipe 17/05/2015 / 17:21

        Bem, se for assim então eu sou de direita também. Os maiores alvos deles são as ideologias mais influentes da esquerda latino-americana, como o bolivarianismo, o capitalismo de Estado, o neocorporativismo, o relativismo cultural e claro as ações afirmativas. Ele se autodefine como esquerda no sentido europeu da palavra, que luta por educação, saúde e transporte público de qualidade.

      • Bertone de Oliveira Sousa 17/05/2015 / 18:43

        As políticas afirmativas vêm da esquerda norte-americana, não europeia. Corporativismo e Capitalismo de Estado também não são especificidades de esquerda. Relativismo cultural se define como um conjunto de perspectivas sociais e não de políticas públicas ou de classe, assim como o bolivarianismo foi uma invenção peculiar e chauvinista de Hugo Chavez que não saiu da Venezuela. Defender educação e transporte público de qualidade não define ninguém como esquerda, a direita também pode fazer isso. A própria esquerda europeia vivencia uma crise de valores e de práticas políticas há décadas. Por isso, dentro de nosso contexto, Magnoli pode sim ser definido como um representante da direita.

  8. Matheus 18/05/2015 / 9:26

    Bertone, você conhece um filósofo chamado Mario Bunge ? Caso conheça, o que acha dele ?

  9. Marcio Garrit 18/05/2015 / 12:08

    Gostei da sua linha de pensamento. Realmente a direita nao tem um grande nome hoje e a esquerda, como voce mesmo falou, esta coberta de erros em geral. A unica coisa que ainda tenho duvidas é sobre essas teorias conspiratorias. Realmente acho que algumas nao sao. Dessa forma, lhe sugiro um artigo bem honesto e tecnico sobre essas teorias que voce acreditar ser conspiratoria e porque.
    Grande abraço do seu colega de profissão.

    • Bertone de Oliveira Sousa 18/05/2015 / 13:45

      Marcio, nem precisa sugerir. A esquerda também pode sugerir artigos “honestos” e “técnicos” de que a CIA está por trás das manifestações contra o governo. Não há limites para se ser limítrofe nesse campo.

  10. Marco Túlio de Carvalho Rocha 18/05/2015 / 16:29

    Prezado Prof. Bertone,
    mais uma vez o senhor descreve bem o choque ideológico que move o pobre e histriônico diálogo político nacional. A quase totalidade das disputas que testemunho giram em torno do marxismo e das teses liberais. Marx x Hayek. Pobre Brasil. Pobre País que ainda não foi capaz de virar o Cabo da Esperança do século XXI.
    Pobre País cujos intelectuais ainda se preocupam em defender ou atacar textos escritos no século XIX.
    Sobre o mundo real, que nos cerca no Século XXI, os ideólogos nada dizem. Quantos exaltam a Constituição social-democrática de 1988? Quantos são capazes de identificar que a Europa, toda ela, é social-democrata? Quantos são capazes de reconhecer que a social-democracia mostrou e mostra, há um século, que igualdade e liberdade são plenamente conciliáveis e que uma somente é possível com a outra? Quantos são capazes de reconhecer que os EUA elegeram um presidente visando à criação de programas sociais que, naquele país, avançam?
    A Constituição da República de 1988 adotou a social-democracia como ideologia de Estado. Não se trata de uma escolha qualquer. É a escolha inspirada nas nações que apresentam os melhores índices de desenvolvimento econômico e social do mundo.
    A Constituição não quer que sejam cultivados nos alunos os defuntos do socialismo real ou do liberalismo. A Constituição manda que os professores ensinem os valores da social-democracia. É uma ordem constitucional que, se cumprida, facilitaria a compreensão que os alunos terão do mundo.
    Mas como ordenar a professores que não sabem nem o que é social-democracia que a ensinem a seus alunos?

    P.S.: Há muita gente séria, inteligente e produtiva. São tão sérios que parecem acanhados de se meter nesse paupérrimo debate ideológico. Fixam-se em questões concretas.

    • Bertone de Oliveira Sousa 19/05/2015 / 13:57

      Roni, a página está indisponível, mas pelo que você falou é o tipo de coisa que a extrema esquerda adora fazer.

      • Roni 19/05/2015 / 16:56

        Você tem razão. O sujeito escreveu isso: “Luciana Genro e o partido do solzinho libertário atacaram novamente. E dessa vez ela nem foi no programa do Danilo Gentili para dizer que Stalin era um horror. Descascou Kin Jong-un nas redes sociais mesmo, e ainda apontou os coleguinhas que defendem o terrível monarca. Qual será a próxima “falsa experiência socialista” a ser desmascarada por Lulu? Allende? Mao? Castro? Façam suas apostas.”

        Felizmente há alguns comentários sensatos que criticam essa postagem.

  11. Francisco de Assis Dorneles 19/05/2015 / 6:51

    Bom dia Bertone, mais um belo texto. Engraçado quando faço parte de algum debate pela internet os assuntos acabam desembocando no tema Educação.
    E a acuação é esta tão bem colocada por você, sobre a doutrinação esquerdista dos professores. O que me deixa mais triste é ver pais e alunos assimilarem esta ideia direitista e começarem a odiar e desmerecer o professor.
    Mesmo não estando mais em sala de aula, sinto na pela estas acusações quando revelo que já fui professor, e principalmente, quando revelo que tenho formação em História kkk.
    Por afinidade com a social democracia quase sempre voto no P.T e na posse da senhora Dilma fiquei espantado com a coragem, ou talvez loucura da presidente Dilma e adotar o lema : “Brasil Pátria Educadora”. Reformulado pela direita como : “Brasil Pátria Doutrinadora”.
    Esta para mim foi a maior mentira contada pelo P.T , queria que calassem a minha boca e provasse o contrário.
    Todos nós sabemos que este projeto a médio prazo não é viável. E não pode ser apenas um projeto de Estado. Muito mais que isto deve ser um projeto de Nação.
    Todos os brasileiros devem abraçá-lo. Se os governos estaduais e federal proporem um imposto para Educação ou aumento de algum já existe para se tirar uma parte para Educação.
    Tenho certeza que a maioria do povo se negaria a aceitar. Ou seja, no falta abraçar esta causa como nossa e não somente do Estado.
    Podemos colocar neste bolo os empresários, grandes e pequenos, a classe política e jurídica abrindo parte de seus vultosos salários num pequeno percentual para Educação.
    Estamos protos para este projeto ?
    Sobre professores universitários quando passei pela UFG tive alguns professores marxistas ortodoxos , não tive problemas com eles. Alguns achei até engraçado. Acho que grande parte dos estudantes sabem separar as coisas. Apenas os mais jovens acabam tenho uma maior influencia. Acabam levando aquele momento como um modismo, depois tudo passa.
    Não vejo os professores como doutrinados ao marxismo, vejo os professores lutando por seus direitos. E nem sempre são conscientes disto.
    Quando deixam a universidade formam família, ingressam novamente num templo religioso, passam a se preocupar com contas, questões escolares etc.
    Nem sempre desenvolvem a consciência politizada, o exemplo mais claro desta afirmação são as greves onde muitos furam ou não aderem.
    Professores são vitimas e agora alvo predileto da direita, infelizmente.

    • Bertone de Oliveira Sousa 19/05/2015 / 14:03

      Francisco, o pior é que essa visão depreciativa do professor como doutrinador já se espalhou por praticamente todo o país. Sobre os professores dogmáticos nas universidades, como falei esses felizmente são poucos e alguns alunos até podem ir nessa onda por modismo, como você falou, mas a tendência é que seja uma fase passageira. Mas não é o caso da maioria.

      • Francisco de Assis Dorneles 19/05/2015 / 22:15

        Realmente para muitos universitários é um mero rito de passagem. Tem toda razão Bertone esta depreciação em relação a figura do professor se espalhou.
        O brasileiro em geral tem uma terrível preguiça de pensar, sai comprado todo tipo de ideia. É muito burro para pouco capim.

  12. Lúcio Júnior Espírito Santo 19/05/2015 / 16:27

    Bertone: outro dia houve um debate no revista cidade sol a propósito disso, devido a um vídeo onde o professor Grover Furr polemizava com alguns liberais. Não existe neutralidade, mas existe objetividade. Eu busco ser objetivo, Furr tb, pelo que noto. Nunca vi nenhum professor defendendo Coreia do Norte ou mesmo Cuba na UFMG e nem na UNICAMP, universidades onde estudei.

    Outro dia a aluna me perguntou se o nazismo matou mais do que o comunismo. Eu disse que isso é polêmico. Ela me perguntou: “e na sua opinião? “Na minha opinião, não. O comunismo nos livrou de Hitler e com isso salvou milhões de vidas”. Eu creio que isso é ser objetivo. Não foi a tão cantada social-democracia quem nos salvou de Hitler. Os social-democratas ingleses censuravam o filme O Grande Ditador pois “poderia ofender” Hitler. Ou seja, agiam como os liberais agem até hoje.

    • Bertone de Oliveira Sousa 19/05/2015 / 20:54

      O antissemitismo e o preconceito racial eram praticamente onipresentes na Europa do entre-guerras, mas só Hitler o transformou numa política de Estado. Mas quando ele levou a guerra às últimas consequências, William Beveridge propôs a noção de “Estado de Bem-estar social” em oposição ao estado de guerra nazista, que foi o modelo de estado que predominou no pós-guerra e que superava a ausência de preocupação com inclusão social do liberalismo. Além disso, poucas pessoas no exterior compreendiam o que exatamente ocorria na Alemanha até a guerra expor os verdadeiros objetivos de Hitler e sua ideologia como um programa genocida. E a União Soviética não derrotou sozinha a Alemanha; a ajuda militar e tecnológica de Estados Unidos e Grã-Bretanha foram fundamentais para a virada na guerra. Agora que a derrota da Alemanha salvou milhões de vidas não é questão de objetividade, é um truísmo. Caso vencesse a guerra, Hitler planejava fazer uma limpeza étnica em todo o leste europeu para transformar a região em colônia alemã; alguns sobreviventes seriam usados como escravos. E Grover Furr é apenas um stalinista que escreve como se o mundo estivesse no auge da propaganda anticomunista da Guerra Fria. Já demonstrei aqui os erros crassos de sua perspectiva a partir de importantes abordagens da historiografia recente sobre Stalin, no texto “Kruschev não mentiu sobre Stálin”.

  13. Lúcio Júnior Espírito Santo 19/05/2015 / 16:29

    Eu creio que existem, porém, muitos bons argumentos a favor da Coreia do Norte e de Cuba. O que é um vexame é ver Luciana Genro falar do socialismo puro no Danilo Gentili e depois ser denunciada por ter posado em Cuba e na Venezuela numa posição favorável a Guevara, ao falso socialismo de Chávez, etc. Essa eleitoreira só quer votos.

    • Bertone de Oliveira Sousa 19/05/2015 / 20:59

      Bons argumentos a favor das ditaduras de Cuba e Coreia do Norte só existem para os comunistas toddynho da internet, que falam confortavelmente de uma democracia. Meus textos “Cuba, o paraíso socialista” e “O totalitarismo nacionalista da Coreia do Norte” são bons contrapontos a isso.

  14. Lúcio Júnior Espírito Santo 20/05/2015 / 14:17

    “Fala confortavelmente de uma democracia”. Nossa democracia não é nada confortável, pois nela a maior parte da população vive na escravidão assalariada. Há inclusive assassinatos no campo de líderes e militantes na luta pela terra e prisões políticas como a de Igor Mendes.

    Cuba e Coreia são países onde o comunismo foi a forma que os patriotas encontraram de enfrentar invasões estrangeiras. Alguma coisa em comum com o Brasil? Creio que sim.

      • Lúcio Júnior Espírito Santo 21/05/2015 / 14:57

        Toda democracia é de uma classe social, não há democracia acima das classes. Mesmo na democracia capitalista, com liberdades formais (se vc é pobre, vc não tem direitos, nemliberdades), há uma classe buscando hegemonia.

      • Bertone de Oliveira Sousa 21/05/2015 / 22:52

        Por isso a importância de se pensar a questão da inserção das minorias e das políticas sociais nas atuais democracias como forma de ampliação de direitos dos pobres e ou grupos excluídos de determinados espaços, que são as pautas em que a esquerda ainda pode e deve insistir. Essa questão de que pobre não tem direitos e que é preciso abolir o capitalismo por uma revolução e a “democracia burguesa” pela ação revolucionária conjunta de “classes exploradas”, não é mais ponto de discussão, só da extrema esquerda que, como eu disse, é política e socialmente insignificante.

  15. Lúcio Júnior Espírito Santo 20/05/2015 / 14:21

    O ponto de Furr –e o meu–é justamente esse, Bertone. Com ou sem Guerra Fria, o comunismo é uma ameaça para o imperialismo e a mesma história mentirosa dos anos 40 e 50 continua sendo repetida.

    • Bertone de Oliveira Sousa 20/05/2015 / 15:41

      O comunismo foi um projeto que fracassou, Lúcio. Está acabado e ninguém é mais comunista hoje, exceto alguns estudantes e militantes limítrofes e líderes de partidos insignificantes. Os intelectuais que optaram por continuar essa forma de militância, como Grover Furr, não escrevem mais história, mas fábulas, e só falam a crentes.

      • Lúcio Júnior Espírito Santo 21/05/2015 / 14:51

        Na web só se fala em comunismo a propósito do PT, da China, Venezuela, etc. Nunca vi o assunto tão aceso. Fui a um debate na câmara dos vereadores aqui e teve o vereador que disse que o prefeito é comunista!

        Furr escreve regularmente para a seção de cartas de jornais norte-americanos rebatendo argumentos. Ele naõ fala para crentes, pelo contrário, ele pretende debater com quem busca a verdade.

      • Bertone de Oliveira Sousa 21/05/2015 / 22:44

        Falar em quem “busca a verdade” é sempre se reportar à verdade de um grupo ou aos usos da história por um grupo para contrapor outro e penso aqui particularmente na abordagem da Margaret MacMillan no livro “Usos e abusos da história”. Furr polariza o discurso em nome de uma ideologia e o ideólogo pensa que todos que não concordam com ele também conspiram por uma ideologia, no caso o anticomunismo, por isso ele só fala a crentes.

  16. Lima 21/05/2015 / 1:40

    Professor, embora pense, com a devida vênia, que um ponto ou outro de sua postagem mereceria uma discussão maior, lhe parabenizo pela coragem em colocar as discussões nesses termos; pelo esforço em esclarecer questões tão complexas para os dias atuais. têm muita gente por aí precisando ler esse texto!

  17. Gustavo Leite 21/05/2015 / 8:06

    Isso mesmo acabem com a ‘doutrinação’ marxista nas aulas de história! Vamos banir Hobsbawn! Vamos adotar Mises, Hayek e Friedman!

    Ei, mas peraí?! Mises, Hayek e Friedman são economistas! (não sou contra lê-los. eu mesmo estou lendo “o caminho da servidão” do Hayek)

    Gostaria de saber se algum desses deputados beócios e paranoicos – que devem entender pra caramba de educação e historiografia – propõe a adoção de livros de Jacques Le Goff, Fernand Blaudel, Marc Bloch?

    Mas não sou ingênuo a ponto de achar que existe sem uma tendência marxista, mais nos livros didáticos do que nos professores propriamente. Me lembro de os livros didáticos de história e geografia geral no segundo grau lá nos anos 80 (muito antes do PT), nenhum falava do Pacto Ribbentrop Molotov, da consequente invasão da Polônia pela URSS ao mesmo tempo que os Nazistas, dos Gulags ou dos expurgos de Stalin. Mas enfatizavam os planos quinquenais soviéticos, os kolkhozes e sovkhozes, etc.

    Eu acho que a doutrinação começa não quando se diz o que “se deve” ser lido mas o que “não se deve” .

    • Lúcio Júnior Espírito Santo 21/05/2015 / 14:54

      Furr tem um artigo extenso a respeito da suposta invasão da Polônia pela URSS. Primeiro que o pacto possibilitou à URSS defender-se da agressão japonesa sem lutar em duas frentes (essa guerra de 39 entre Japão e URSS sim, nunca é mencionada nos livros de história).

      O pacto estabeleceu zonas de influência. E saiu no NYTimes. Na zona de influência soviética na Polonia, as tropas nazis naõ poderia entrar, ou seja, o governo polonês poderia lutar ali, mas eles não quiseram. A URSS só entrou no dia 17 de setembro, dia em que o governo polonês fugiu para a Romênia e ficou internado lá. Invadir um país sem governo não é invasão, essa suposta invasão simplesmente não aconteceu.

      • gustavo leite (@gustavorfleite) 22/05/2015 / 15:40

        Pergunte a qualquer polonês que tenha vivido na época se a invasão não aconteceu. O massacre de Katyn pelos russos também não aconteceu?

  18. Artur 22/05/2015 / 16:53

    Na minha opinião como estudante de ensino médio, se existe algum tipo de doutrinação na educação brasileira ela tende muito mais para a direita do que para a esquerda. O atual sistema molda o estudante unicamente nas perspectivas do trabalho, do lucro, do consumismo. Discussões mais abrangentes nos campos sociológico, filosófico político e cultural são praticamente inexistentes no Ensino Básico (as disciplinas de Filosofia e Sociologia se limitam a uma abordagem histórica, ausentando-se de toda e qualquer discussão que possa gerar polêmicas). Assim, é praticamente hegemônico o pensamento entre os jovens: “Vou estudar, passar no vestibular, cursar uma boa faculdade para conquistar um bom emprego e ganhar muito dinheiro.” Os jovens são condicionados a pensar assim. Deste modo, não é equivocado falar que o sistema educacional atual está totalmente submisso ao sistema capitalista dominador. Mesmo professores ou alunos que tenham uma visão mais abrangente ou mais questionadora acabam sendo condicionados a pensar como a maioria, mesmo que a contragosto, para terem chances de sobreviver dentro desse sistema.

  19. Lúcio Júnior Espírito Santo 23/05/2015 / 16:50

    O fato, Gustavo, é que Furr colige DOCUMENTOS e há um documentos do presidente polonês ordenando ao exército combater os alemães e não os russos. Igualmente, a Liga das Nações condenou o ataque da URSS à Finlândia, mas não a entrada das tropas na Polonia. A fronteira da URSS e da Polònia definida pela Liga era a linha curzon, a atual fronteira da Polonia atual.

    Sobre os fuzilamentos ocorridos em Katyn, há enorme debate acadêmico, polêmica intensa. O que se pode dizer é que os soviéticos e alemães fuzilaram poloneses em Katyn por motivos diversos, em tempos diversos, Mas grande parte do massacre, segundo escavações recentes, foi cometido por ucranianos que colaboravam com os nazis.

    As províncias que a URSS tomou em 1939 continuam sendo parte da Ucrânia e da Bielorússia. Por um simples motivo: são povoadas por bielorussos e ucranianos.

    • Gustavo Leite 24/05/2015 / 1:41

      Vc traz informações interessantes que eu desconhecia e despertaram minha curiosidade, contudo eu entendo que vc admite então que a invasão aconteceu de fato e que estava prescrita no pacto Ribbenetrop-Molotov. Assinado 8 dias antes da invasão da Polônia que veio a fazer a Guerra ecoldir de fato. E por que absolutamente nada consta nem sobre o pacto nem sobre a invasão nos nosso livros didáticos?

    • Bertone de Oliveira Sousa 24/05/2015 / 14:57

      Na verdade, o massacre de Katyn foi sim obra dos soviéticos. Archie Brown, autor de “Ascensão e queda do comunismo”, cita um documento importante que comprova isso. É uma carta de Beria a Stálin de 5 de março de 1940 que propunha a execução de mais de 25 mil prisioneiros poloneses, a maioria oficiais, e também fazia distinção das pessoas mantidas presas na Ucrânia e na Bielorrússia (entre aqueles que foram deslocados para os campos de trabalho forçado orientais), das quais mais de dez mil eram polonesas. Segundo Brown, Stálin aprovou pessoalmente a proposta e o documento foi assinado por ele, Voroshilov, Vyacheslav Molotov e Anastas Mikoyan, todos membros do Politburo. As vítimas eram chamadas por Beria de ex-espiões da política, espiões e sabotadores que ainda eram atuantes, ex-proprietários de terras e burocratas. As autoridades soviéticas não precisavam de provas para incriminar pessoas, a simples acusação era suficiente. As prisões no Gulag e o Grande Terror dos anos 1930 são os casos mais conhecidos.

      Durante a Guerra Fria, as autoridades soviéticas insistiram na falsa informação de que os massacres foram cometidos pelos alemães ou por ucranianos que colaboravam com eles. Apenas em 1990 um presidente polonês foi informado da existência do documento que comprova que o massacre foi perpetrado pela NKVD. Os assassinatos ocorreram pouco tempo depois da partilha do território polonês pelo pacto Molotov-Ribbentrop. Depois da guerra, o ministério do exterior da Grã-Bretanha sabia que os assassinatos tinham sido cometidos pela NKVD, mas impediu que a notícia viesse a público por causa do papel da URSS ao lado dos aliados na derrota da Alemanha. Boris Yeltsin também admitiu a responsabilidade soviética no massacre em 1991. O massacre de Katyn pelos soviéticos é um ponto consolidado na historiografia.

      Já o pacto Ribbenetrop-Molotov dividia a Polônia numa área que passava pelos rios Vístula, San e Bug. Foi o governo soviético que justificou a invasão dizendo se apropriar de um território que historicamente lhe pertencia e que o Estado polonês já não existia, mas a resistência ainda estava atuante e vários exércitos poloneses ainda combatiam. Na verdade, a URSS estava motivada por uma revanche pela derrota que sofreu em 1920 e Molotov até declarou, em 31 de outubro, quando a Polônia já estava derrotada, que a URSS lutava junto com a Alemanha para desfazer o Tratado de Versalhes. O acordo e a subsequente divisão do leste europeu foi só uma forma de os dois Estados ganharem tempo e espaço.

      • Lúcio Júnior Espírito Santo 24/05/2015 / 17:52

        Embora autoridades russas do tempo de Yeltsin tenham realmente aceitado Katyn como sendo obra exclusiva da URSS, o assunto ainda rende discussões acadêmicas, assim como ocorreram escavações recentes demonstrando a responsabilidade dos nazis ucranianos.
        O tal documento que funcionava como prova estilo pistola fumegante, com as assinaturas da autoridades foi denunciado pelo deputado Viktor Illyukin na Duma, em 2011. A seguir, o deputado morreu de ataque do coração, o que é suspeito.
        Os nazistas ao tomarem o campo em 1940 praticaram massacres, sim. O primeiro governo a publicizar isso foi o governo polonês no exílio em 1940, lançando esse tipo de crítica de forma a abalar a relação entre Stálin e o Ocidente. Esse governo polonês foi inúmeras vezes acusado de conivente com os nazis, como quando, em 39, colocou tropas na fronteira da vizinha Lituânia quando os nazis queriam o porto de Memel ou participaram da partilha da Tchecoslováquia junto a eles em 38.
        O massacre dos nazis em Katyn foi notícia até no NYTimes –e no Times, em 45, a notícia foi que os nazis buscaram inculpar os russos. A notícia escaneada está no site de Furr.
        É muito comum falsificar o passado soviético e Gorbachev e Walesa foram cúmplices de falsificações.
        A ideia da URSS era manter um estado polonês entre ela e a Alemanha a qualquer custo, pois a Polônia, ao ser atacada, tinha acordos com França e Inglaterra.A existência de um estado polonês era crucial para a URSS. Se a Alemanha invadisse os territórios do leste da Polonia, a URSS teria um estado ucraniano nazi ao lado da Ucrânia soviética.

        O acordo não foi oito dias antes da invasão, foi algum tempo antes. E ele definia zonas de influência, ele não previa invasão.
        De fato, os acontecimentos de 1920 são decisivos. Nessa época, Trotsky comandou uma invasão à Polonia com o objetivo de exportar a revolução para o resto da Europa e fracassou redondamente, de onde perdeu, internamente, o prestígio quanto à revoluçaõ permanente. Daí que a Rùssia perdeu 20 000 prisioneiros dos quais não mais se ouviu falar –e que os russos sempre cobram o paradeiro ao serem cobrados por Katyn. Perdeu tb territórios, perda com a qual a Sociedade das Nações não concordou, definindo a linha Curzon como fronteira.

      • Bertone de Oliveira Sousa 24/05/2015 / 18:55

        Não existe qualquer prova de que o documento seja falso. É fato que os alemães também promoveram massacres na Polônia, mas o caso dos oficiais em Katyn não foi eles; Ian Kershaw, em sua biografia de Hitler, confirma que a descoberta de uma cova com milhares de corpos desses oficiais em 43 perto de Smolensk pelos alemães é verdadeira. Não é mais possível negar esses eventos a menos que se apele ao expediente da conspiração, o que foge à discussão histórica; mas a abertura dos arquivos de Moscou desde o fim da URSS e as publicações de obras de fôlego sobre aquele período por renomados historiadores já derrubam por terra os argumentos sobre falsificações do passado soviético. Isso podia ser usado na Guerra Fria, quando o acesso a fontes ainda era restrito e havia muita contra-informação circulando até em meios acadêmicos, mas não hoje em que há bem mais acesso a documentos, a guerra fria já está há mais de duas décadas de distância e essa distância epocal garante uma qualidade maior da produção histórica que tem vindo a público, especialmente nos últimos dez a quinze anos.

        O fato de o NY Times ter dito isso em 45 apenas evidencia como os países aliados e sua opinião pública decidiram apoiar a versão soviética. Além disso, Anne Applebaum informa que um dos oficiais soviéticos que participou do massacre concedeu uma entrevista à KGB no início dos anos 90 explicando como os homicídios foram cometidos.

      • Lúcio Júnior Espírito Santo 24/05/2015 / 21:34

        A Rússia trabalha com referências bem diferentes a respeito de sua história. Gorbachev defendeu, no livro Perestroika, que o pacto de não agressão foi justo, que a coletivização dos anos 30 acabou com a fome, etc. Igualmente, ele não diz nem que os Processos de Moscou foram justos e nem injustos.

        É bem estranho não reconhecer que houve massacre nazi em Katyn e simplesmente adotar a versão nazista de 43, que aliás o governo polonês no exílio também adotou.

        O Dr Zhukov, da Academia de História e Ciências da Rússia, postula hipóteses semelhantes às que estou apresentando para vcs. Ele afirma, por exemplo, que noventa por cento dos prisioneiros do gulag eram criminosos comuns, não políticos.

        Aqui um linque para uma americana que vive na Rússia debatendo indignada um texto de Zhukov (que Furr utiliza em russo) chamado “É a hora de defender nossa história”.

        https://cathyyoung.wordpress.com/2009/05/15/what-russias-battle-against-wwii-revisionism-is-really-about/

  20. Jair F 27/05/2015 / 23:02

    Caro Prof. Bertone,

    Por acaso cheguei ao seu blog e resolvi ler o presente texto.
    Sou um humilde “internauta”, e quero apenas registrar que a leitura do texto provocou em minha pessoa reflexão do assunto abordado.

    Um forte abraço.

  21. Lúcio Júnior Espírito Santo 29/05/2015 / 21:19

    Eu uso o Pondé nas minhas aulas, assim como algumas charges que a direita produz. Eu apresento essas opiniões e problematizo.

    No entanto, quando os alunos demonstram curiosidade sobre a China, eu falo que eu também partilho de interesse, inclusive acho que não há mais marxismo fora do maoísmo.

  22. Marcus 07/06/2015 / 12:13

    Ótimo texto, acho que dificilmente esse projeto chegará longe por estar mais para um atentando à liberdade de expressão e pensamento do que uma busca pela “parcialidade” na educação, além de que, como já sabemos, os grupos que “denunciam uma suposta “doutrinação ideológica” estão todos ligados à direita (coincidência?), o blog Escola “sem partido” já chegou ao cúmulo de dizer que durante a ditadura 50 milhões sairam da miséria quando na verdade a desigualdade no país apenas aumentou e reclamar de “doutrinação” um livro que mencionava que as ditaduras militares na América do Sul deixaram milhares de mortos e desaparecidos (nada além da verdade). Também é válido lembrar que há alguns anos a Veja perdeu um processo judicial contra um professor o qual ela havia acusado de “doutrinar” os estudantes.

  23. Vagner 08/06/2015 / 21:40

    O capitalismo enfrenta uma gravíssima crise que vai muito além do estouro da bolha imobiliária americana, em 2007/8. O período de expansão que se seguiu logo após a segunda guerra mundial e terminou na década de 70 parece ter anunciado que o sistema encontrou os seus limites pois nem as reformas neoliberais nem as medidas keynesianas foram capazes de recuperar o crescimento nas mesmas taxas registradas nas trés décadas dos pós guerra, embora a concentração de renda tenha crescido como nunca antes conforme demonstra estudos de economistas nada suspeitos como Piketty em seu, “Capital do século XXI”. Não é possível expandir a economia indefinidamente, não obstante, não é possível expandir a economia sem agredir o meio ambiente e gerar conflitos militares, pois o planeta é finito mas a voracidade do capital não reconhece nenhum limite. Até que alguém me prove o contrário, estou certo que Marx permanece insuperável, apesar da necessidade constante de atualizar a leitura da sua obra conforme o desenvolvimento da história. Para aqueles que rejeitam parcial ou totalmente o pensamento deste autor, infelizmente os fatos e a matemática parecem não estar a seu favor.

    • Bertone de Oliveira Sousa 08/06/2015 / 21:46

      Vagner, com a diferença de que meu texto não é sobre capitalismo nem sobre Marx. Ademais, Marx é um clássico mas não é um autor para se entender o século XXI, já escrevi sobre isso em outra ocasião.

  24. Pedro Henrique F. 11/06/2015 / 2:21

    Bertone não sei se você tem conhecimento aprofundado sobre o assunto, porém acredito que você (e outros que possam vir a saber melhor do que pessoas como eu) poderia fazer um tópico sobre o pensamento de Gramsci. Isso pois se você digitar Gramsci no google ou youtube, quase que de cara você se depara com os textos paranoicos de Olavo e cia.
    E não sei se você soube, mas parece que as aventuras deste tem ido longe, chegando a ser mencionado em jornal americano, um tal “Americans Survival” a qual Olavo serve de referencia para dizer que “o marxismo está se infiltrando na “AMÉRICA” (e digo América com aspas dentro das aspas pois ele desconsidera o fato de a América ser além dos USA)”.
    Não sei se você já fez algo do tipo ou se o tem conhecimento técnico necessário para tal, mas acredito que você mais do que essa turma poderia jogar um pouco de luz onde cada dia mais está se manifestando a histeria e as teorias da conspiração. Lhe juro que se você jogar Gramsci no youtube, uma das coisas que aparece de primeira mão é “Gramsci e a Conspiração Mundial”.
    É deprimente o quanto esse tipo de delírio (para falarmos o português mais correto) está se espalhando enquanto textos sérios são deixados na obscuridade.

    • Bertone de Oliveira Sousa 11/06/2015 / 2:58

      Pedro, os teóricos da conspiração precisam de um ou alguns bodes expiatórios para colocar em sua conta a responsabilidade por virtualmente todas as mazelas do mundo. Alguns radicais religiosos fazem isso com Illuminatis, maçonaria, entre outros; Hitler fez com os judeus e os comunistas com a figura amorfa dos inimigos do povo. O que esses indivíduos de extrema direita fazem com Gramsci e o PT é apenas um exemplo regional. Já pensei em escrever sobre Gramsci aqui no blog, mas ele praticamente nem é mais lido nas universidades. Você praticamente não o encontra como bibliografia de programas de pós-graduação, seus livros são pouco vendidos e ministros e outros nomes importantes do governo nem o tem como principal referência em suas biografias. As redes sociais e o Youtube apenas se tornaram espaços abertos para essas pessoas jogarem caminhões de sujeira para incautos.

      • Pedro Henrique F. 11/06/2015 / 3:26

        Obrigado pelo esclarecimento. De fato Gramsci é pouco estudado (não sei se por terem “superado” suas teorias ou pouco interesse), mas meu ponto é que está cansativo procurar algo sério e cairmos nos delírios conspiracionistas de certos grupos. Gostaria de ressaltar que nesse momento estava olhando blogs aleatoriamente e me deparei com um blog chamado “Prometheo Liberto”, a qual o autor tem várias postagens alegando que Olavo e seus seguidores tem cometidos atos (criminosos) difamatórios e de falsidade ideológica. Supostamente teriam criado perfis fakes no Facebook e espalhado mentiras para denegrir o blog e o blogueiro. Se você procurar, ele tem uma trilogia (até o momento [e as quais não assisti]) intitulada “Desconstruindo Olavo de Carvalho Part. X”. Não só esse blog como outros parece terem tido aparições de nosso aventureiro (todos carregados com a velha saraivada de raiva costumeira).
        Também gostaria de dizer que caso eu esteja lhe aporrinhando com perguntas que as vezes me parecem “mais militantes que puramente teóricas” (se é que isso lhe faz sentido) eu sinto muito. Gosto muito de seu blog e de suas opiniões, por isso tenho o costume de as vezes lhe perguntar assuntos um pouco “militantizantes” ou “politizados” demais, até porque, esse é um dos poucos blogs aos quais sigo com regularidade (entre eles a coluna do Delfim Neto na Carta Capital, apesar de eu te-la evitado por estar um pouco “vejista”, se é que o senhor me entende) e que trata assuntos com lucidez, sem deixar de tecer as críticas necessárias.
        Por isso gostaria de pedir ao senhor que caso essa “conduta” tenha lhe causado desconforto, por favor avise, tentarei maneirar nas perguntas desse tipo.

      • Bertone de Oliveira Sousa 11/06/2015 / 13:46

        Pedro, de forma alguma. Suas colocações são pertinentes e sempre bem-vindas e o objetivo do blog é esse mesmo, dialogar, buscar trazer esclarecimentos às pessoas a partir da discussão histórica, sem a militância ideológica que muitas vezes bloqueia o pensamento crítico.

        Já vi o blog Prometheo Liberto, não me identifico com a linha ideológica que seu autor segue, mas as denúncias são importantes. O Olavo já cometeu estelionato e já foi processado por isso. No final do texto “um filósofo para racistas e idiotas” anexei um documento que trata disso.

        Sobre a Carta Capital, essa também é minha crítica a ela, é a “Veja” da esquerda; tem bons intelectuais que escrevem lá, mas o posicionamento sempre governista se torna entendiante.

  25. Carlos Wilker 26/07/2015 / 18:47

    Meu caro Bertone, estou cursando História e toda essa história de direita e esquerda tem me inquietado bastante e gostaria que me ajudasse.
    Alguns temas abordados nos livros didáticos são alvos constantes de debates entre direitistas e esquerdistas. Cito como exemplos o papel da Igreja Católica na Idade Média e a Ditadura Militar no Brasil.

    Todos os livros didáticos que vi apresenta basicamente o mesmo sobre esses dois temas. No entanto, alguns apontam que os livros didáticos não acompanham novos estudos, novas descobertas, novas visões apresentadas por grandes estudiosos. Alegam que o que os livros didáticos apresentam sobre a Igreja Católica na Idade Média está ultrapassado, que é falta de conhecimento, ingenuidade, etc. No que se refere a Ditadura Militar, acontece o mesmo. Facilmente você encontra livros de historiadores apresentando visões totalmente diferentes do que se apresenta nos livros didáticos!

    Eu fico me perguntando: o que vou ensinar para meus alunos? Se existem visões diferentes fora dos livros didáticos, devo ignorar por que elas produzidas por direitistas? São eles historiadores incompetentes? Na visão de alguns colegas, um historiador que diz que a Igreja Católica não causou os males que os livros didáticos mostram, são conservadores, direitistas, loucos, incompetentes. Um historiador que tiver um visão destoante sobre Ditadura Militar é constantemente alvo dos mesmos adjetivos.

    Quero fazer três perguntas, desde já torcendo que você um dia poste um texto aqui sobre esse assunto.

    1ª) Na sua opinião, enquanto historiador, o que já está superado ou que tem sido coerentemente repensado quando o assunto é Igreja Católica na Idade e Ditadura Militar no Brasil?

    2ª) Existem muitos historiadores com visões totalmente antagônicas. Como um professor de História deve lidar com isso, já que os livros didáticos são bem parecidos?

    3ª) Quem determina o que deve está contido nos livros didáticos? Isso não deve ser também alvo de contestação, sem que para isso sejamos acusados de tudo que não presta?

    Obrigado e parabéns pelo texto.

    • Bertone de Oliveira Sousa 26/07/2015 / 20:52

      Olá Carlos,

      suas questões são pertinentes e responder satisfatoriamente a cada uma delas renderia um texto maior do que esse em que você comentou. Mas veja: concepções divergentes existem em torno de vários temas históricos, não apenas desses que você falou, por exemplo: a Revolução Francesa foi ou não uma revolução burguesa? A tomada do poder na Rússia pelos bolcheviques em 1917 foi uma Revolução ou um golpe? A História é ou não uma ciência? Para cada um desses temas há historiadores com posicionamentos bem distintos. Lembre ainda que a tomada do poder pelos militares no Brasil em 1964 foi considerada por eles uma revolução e os professores eram obrigados a ensinar dessa forma na escola.

      Considere também o que coloquei no início do texto: o currículo é sempre um elemento de disputa entre grupos e tendências que buscam inculcar determinada visão de mundo e de sociedade. Você precisa entender o que são as “novas visões” e “novas descobertas” a que algumas pessoas se referem e posicionar-se em relação a elas. Como falei no texto: não existe ensino neutro de história; cada profissional leva para a sala de aula significados sociais e culturais e situa-se em determinada vertente de pensamento que norteia sua atividade docente. Isso inclui também os autores dos livros didáticos. Por falta de leituras, muitos professores apenas se atêm ao que está no livro, mas ele também deve ser analisado criticamente. E aí entra a importância de você não cair no vício do pensamento único, outra postura que critiquei no texto, isto é, se um cara for de direita ele tende a idealizar a ditadura militar porque acha que nos livrou do comunismo. Se for de esquerda, pode cometer erros semelhantes. Você precisa dominar o estado da arte (a bibliografia) referente a temas importantes como esse e mostrar, por exemplo, que não havia uma ameaça real de uma revolução socialista no Brasil, que o próprio Goulart não era comunista, mas que algumas de suas medidas foram interpretadas como de cunho socialista e mal vistas pelas elites do país que foram às ruas contra o governo na Marcha da Família com Deus pela liberdade. Por outro lado, seu governo não tinha uma base de apoio social significativa, o que facilitou a consolidação do golpe. E é importante também saber distinguir os historiadores sérios dos que fazem apenas militância, como é o caso de um Marco Antonio Villa, por exemplo. Quando falo de seriedade não me refiro à neutralidade que, como disse, não existe, mas ao distanciamento que compete ao profissional na investigação que faz. Boris Fausto, por exemplo, não é de esquerda, mas suas obras são boas referências. À esquerda você tem um Carlos Fico, uma Emilia Viotti, um Teixeira da Silva, um Daniel Aarão, que também são bons autores. Em muitos casos, a direita que critica a perspectiva desses autores sequer os leu ou critica por inveja, mas não tem nada de importante a dizer e quase sempre não tem mesmo. A diferença básica entre esquerda e direita nesses aspectos, é que a esquerda estuda mais, embora também tenha seus vícios

      Em relação à Igreja Católica, é importante evitar os anacronismos, que é analisar uma época a partir de significados do presente, emitindo juízos de valor que não se aplicam a determinado contexto. Por exemplo: vemos a Inquisição hoje como um ato de intolerância, mas a noção de tolerância não existia antes do século 18, assim como as noções de direitos humanos e liberdades individuais. Por isso, o período que se estende do final da Idade Média e por toda a era moderna foi marcado por perseguições religiosas e guerras de religião em virtualmente toda a Europa. É importante mostrar aos alunos que a Igreja de fato em muito contribuiu para a construção da cultura ocidental, mas também perseguiu, torturou e condenou pessoas à morte quando sentiu que sua hegemonia era ameaçada por indivíduos e grupos dissidentes. Em alguns casos, como na Península Ibérica, a Inquisição atuou muito em favor dos Estados nacionais numa época em que não havia separação entre religião e Estado. Lembre de Hobbes, quando dizia que a religião dos súditos deveria ser a do soberano. Ensinar história também é mostrar as peculiaridades do universo mental de uma determinada sociedade e determinado contexto. O professor que apenas faz militância não consegue entender isso e o processo de ensino-aprendizagem escorre pelo ralo.

      Por fim, veja que também existem livros que ensinam coisas erradas, como é o caso dos manuais politicamente incorretos; é importante alertar os jovens sobre isso. Quanto aos livros didáticos, eles condensam períodos muito longos em poucas páginas e por isso em muitos casos podem ser redutivos; cabe ao professor saber problematizar. História não é ideologia, nem socialismo, nem capitalismo; a História é compreensiva. Pra você que está no curso, é importante um bom domínio de Teoria da história, isso é essencial.

  26. Carlos Wilker 27/07/2015 / 8:56

    Antes de mais nada, obrigado por sua resposta.

    Uma dúvida: o Daniel Aarão defende que a Ditadura terminou em 79, não é?

    • Bertone de Oliveira Sousa 27/07/2015 / 12:19

      Sim, ele argumenta que o período de transição, que inicia em 79 e termina em 88, em seu início naturalmente ainda não é uma democracia, mas não se apresenta mais como uma ditadura, no sentido de que não há mais o predomínio de um estado exceção, com a prevalência da vontade arbitrária dos governantes, que antes podiam fazer e desfazer leis,além de outros elementos que sobressaem como liberdade de imprensa, pluralismo partidário, ações de movimentos sociais, etc.

  27. Carlos Wilker 29/07/2015 / 16:49

    Professor, você poderia me indicar alguns livros sobre Teoria da História?

    Confesso que ainda não parei para estudar sobre isso, portanto, que sejam livros introdutórios e com uma escrita mais simples e de fácil compreensão.

    Grato.

    • Bertone de Oliveira Sousa 29/07/2015 / 21:18

      Quatro livros introdutórios que considero essenciais são “Apologia da História ou o ofício de historiador” de Marc Bloch, “Doze lições sobre a história” de Antoine Prost, “Do conhecimento histórico” de Henri-Irinée Marrou e “Escola dos Annales: a Revolução Francesa da historiografia” de Peter Burke.

      O Livro do Marrou é uma edição esgotada, você pode encontrar em bibliotecas ou sebos virtuais, mas é uma leitura essencial. Os outros três ainda estão disponíveis no mercado.

  28. Brito 11/08/2015 / 16:37

    Mas quem disse que a direita denúncia uma doutrinação? Como vc mesmo disse: a direita brasileira não se resume a Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino e seus respectivos seguidores.
    De todos esses anos em sala de aulas do colégio, cursinho pré-vestibular, cursinho pra concurso, graduação, pós-graduação; eu nunca encontrei um professor liberal. Por outro lado, professores militantes marxista, PSOListas, PTistas; encontrei aos monte. Eu sou de direita, mas não da direita Olavista ou “Vejista”(da revista Veja); e a única coisa que me interessa, em relação a isso, é que todas os pontos de vistas sejam considerados. Não só em sala de aula, mas na política. Ainda sonho com um Brasil com partidos políticos de esquerda e de direita; com políticos sociais-democratas, liberais, repulicanos, progressistas; (obs: a bancada evangélica, pra mim, não representa a direita). Enfim, pra mim um Estado democrático tem que ter um esquerda e uma direita fortes e ativas. Pois a pluralidade de ideias é um aspecto fundamental da democracia.

    • Bertone de Oliveira Sousa 12/08/2015 / 1:34

      Brito, não teremos partidos social-democratas, liberais, republicanos e progressistas com os professores ganhando os salários que estão sendo pagos aí e sem qualquer perspectiva de plano de carreira. E, acredite, nem a direita nem a esquerda se importam com isso.

  29. abner 11/08/2015 / 23:19

    Bertone, acredito eu que o problema maior da acusação de parte da direita quanto a existência de uma doutrinação em aula reside no desconhecimento (ou em uma atitude de ignorar conscientemente) da diferença entre proselitismo e parcialidade. Como nós que estudamos humanas sabemos, e você mesmo diz no texto, é impossível ser imparcial, como essas pessoas afirmam que deveríamos ser; afinal, só o fato de a partir de um determinado momento nós escolhermos quais os aportes teórico-metodológicos, fontes visões acerca do conhecimento histórico (visão cultural, econômica, política, etc), já estamos “tomando parte” de um determinado lado da produção do conhecimento; a construção da identidade dos indivíduos é constantemente tomada por escolhas e julgamentos de valor, portanto é impossível ser imparcial no sentido que a direita diz que os educadores deveriam ser. Isso não significa apoiar um proselitismo aberto, pois a imposição de uma verdade absoluta e totalitária vai contra o objetivo plural da sala de aula, e não acredito que algum bom professor concordaria com isso; mas como disse antes, isso não abarca a idéia da impossibilidade de ser imparcial. O que me parece, de fato, é que essas pessoas não estão preocupadas com essa diferença, ou mesmo com o proselitismo em si; parece que o único proselitismo problemático pra eles é o de esquerda, se não for desse tipo parece não ter problema.
    O que você acha dessa perspectiva sobre a diferença entre parcialidade e proselitismo, professor? Um abraço.

    • Bertone de Oliveira Sousa 12/08/2015 / 1:29

      Abner, a questão não é bem essa, isso passa pelo tema de teorias do currículo, que mencionei no início do texto. A direita não tem noção do que isso seja, pois só pensa a questão educacional pela polaridade nós x eles e com isso denega clássicos, pois o pensamento estritamente ideológico não se importa com clássicos. Ninguém precisa ser marxista pra entender por que Marx, Adorno, Lukács, Gramsci e outros são clássicos, como Adam Smith, David Ricardo, Stuart Mill e outros também o são. Sobre o proselitismo, o professor dogmático é rejeitado pelos próprios alunos, que não veem correspondência entre seu discurso militante e a vida social. Os que dão crédito ao dogmatismo, seja de esquerda ou direita, no máximo farão papel de ridículos.

  30. Lúcia Lopes 30/08/2015 / 21:25

    Professor Bertone, adorei o seu artigo.
    Certo dia, li um artigo da “Veja” que me foi indicado por um professor amigo. Fiquei indignada com as acusações que o autor fazia aos professores em geral e aos de História em particular. Achei inacreditável que alguém pudesse publicar um produto de tão baixa qualidade e tão ofensivo. Publiquei em minha página do face o artigo e o critiquei muito, mas não me senti satisfeita, me faltaram as palavras e colocações apropriadas. Hoje, ao ler seu artigo, senti a minha resposta pronta lendo suas colocações, pertinentes, tão claras e objetivas.
    Outra consideração que faço é sobre o Marco Antonio Villa, que falta de profissionalismo. Não tem nenhum distanciamento histórico e sua visão é totalmente parcial para alguém que se pretende jornalista, historiador ou mesmo um simples comentarista dos fatos.

    • Bertone de Oliveira Sousa 30/08/2015 / 22:17

      Oi Lúcia,

      infelizmente a Veja não faz bom jornalismo, pra dizer o mínimo, assim como o Villa tem não agido como um historiador sério. Uma vez o vi dizer na própria Veja que o PT é um “Estado Islâmico”. Criticar um partido governista não tem nenhum problema, mas esse tipo de comparação esdrúxula só mostra que sua obsessão anti-petista o tem levado a falar como militante de rua, não como historiador. Obrigado pela contribuição, se puder passe adiante. Abs.

  31. Marcus Teixeira 20/11/2015 / 17:00

    Parabéns pela sua visão equilibrada dos fatos: surpreendeu-me. Porém, quando falamos (meu grupo de estudos) em doutrinação ideológica nas escolas, estamos nos referindo à propaganda partidária e sindical feita em sala de aula, incitação a uma revolução armada e patrulhamento ideológico, que persegue quem não pensa como o grupo dominante, não importando que lado o faça. Falamos também do ensino das teorias político-econômicas de forma a enfeitar algumas (mentir) e denegrir outras (mentir). É isso que combatemos.

  32. Rafael Ferreira Pinheiro 26/04/2016 / 23:36

    Professor, depois de tempos volto neste seu texto, e ele continua excelente, tanto na contra argumentação e no levantamento de pontos. Infelizmente, volto triste porque essa loucura continua, e na verdade parece ganhar mais espaço, queria saber sua opinião sobre o desenrolar disto.Se nessa situação que vivemos, com o pt saindo, e, provavelmente entrando um partido mais a direita, haverá uma perseguição aos professores(principalmente de humanas) justificada nesses argumentos? Tenho medo dessa questão, a acusação dos professores serem “doutrinadores”, ganhar mais mídia no Brasil pos pt porque nesse momento “sensivel” que vivemos me parece fácil ver uma caça a bruxas sendo formada…

    • Bertone Sousa 27/04/2016 / 19:56

      Rafael, na verdade essa virada à direita já está acontecendo e já estão aprovando projetos de lei que cerceiam professores em sala de aula. É preciso que os docentes estejam atentos pra isso e denunciem a inconstitucionalidade dessas iniciativas.

      • Rafael Ferreira Pinheiro 28/04/2016 / 0:41

        Professor, esqueci de comentar, mas chegou a ver a noticia falando de uma promotoria(não lembro o estado) processando o mec para averiguar “se existe doutrinação” com base num artigo publicado na época?

      • Bertone Sousa 28/04/2016 / 1:09

        Rafael, não vi, mas em Alagoas, se não me engano, aprovaram uma lei proibindo professores de emitir opinião sobre política para influenciar os alunos. Aqui no Tocantins, outra lei foi aprovada proibindo discussão de gênero nas escolas. Estamos caminhando para a barbárie, é preciso resistir a isso.

  33. Mateus Melo 01/03/2017 / 12:12

    Chegamos em 2017 e este assunto ainda provoca muitos debates. Eu particularmente sou a favor do projeto “Escola Sem Partido” da forma como está no papel, no entanto não há garantias que será aplicado da mesma forma na prática [como qualquer outro projeto de lei]. Sou a favor do projeto porque é inegável que há doutrinação nas escolas e universidades. Durante a minha vida estudantil e acadêmica eu fui vítima de professores doutrinadores que não aceitavam o contraditório. Também é verdade que ao longo desses anos, pude encontrar com professores que apesar de discordarem de alguns posicionamentos políticos, permitiam um debate e exploração do tema. Porém, após 13 anos de esquerdismo na política e nas políticas de Estado, os cidadãos brasileiros e, principalmente, os estudantes estão mais vulneráveis à doutrinação. A evidência disso é o apoio incondicional de todas as representações estudantis ao governo do PT e as causas “da esquerda”. Até mesmo em uma coletiva de impressa do ex-presidente Lula, após ser conduzido coercitivamente em processo judicial, líderes desses movimentos marcaram presença. Eu me pergunto: quais estudantes desse país serão beneficiados ou prejudicados com um mandato de condução coercitiva de um ex-presidente? O que isso interfere na Educação? E então por que estavam lá toda a liderança estudantil? E no discurso da ex-presidente Dilma logo após o impeachment? Logo, percebemos que o sistema está todo corrompido e é preciso uma mudança. Concordo com o projeto, pois ele visa um equilíbrio. Eu já vi na prática como um aluno pode sofre por conta da doutrinação, e já vi na história um que uma doutrinação pode fazer a um país. Hitler teve a mesma estratégia. O Terceiro Reich não teve seu êxito devido aos eloquentes discursos do Führer, mas sim devida à doutrinação desde a escola primaria onde crianças e adolescentes aprendiam como a sociedade alemã seria “mais justa”. O argumento é o mesmo, os lados que são opostos. As consequências? Assombrosamente semelhantes. Um professor deve ensinar todo o conteúdo, sem paixões e apologias. Os defeitos de ambos os sistemas devem ser abordados. Assim como a escola pública deve ser laica, da mesma forma não deve ter paixões ideológicas. Afinal, para aqueles que não crêem, a religião não passa de uma ideologia. Estando assim, junto com correntes ideológicas marxistas, capitalistas, libertarianas, etc.

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