O fim do PT

PTNo filme “A Queda do Império Romano”, de 1964, com foco nos reinados de Marco Aurélio e Cômodo e que termina com a morte deste, um narrador diz ao final: “E esse foi o início do fim do Império Romano. Uma grande civilização não é conquistada por fora se não tiver se desintegrado por dentro”. Há algo aqui que podemos trazer para nossa atual conjuntura política. O PT, decerto, não representa um Império, mas quando chegou ao poder em 2003, trazia na bandeira uma história de luta social e oposição impecáveis e reuniu importantes nomes e legendas de esquerda em torno de seu projeto. Mas levou apenas uma década para desconstruir tudo isso e assinar seu próprio atestado de óbito.

É possível que o registro de partido do PT não seja cassado, como uma parte da oposição quer. Mas se for, também não devemos nos admirar: seus erros se amontoam de forma tão tonitruante que não seria muito difícil a oposição conseguir isso. Mas é claro que o PT e seus tesoureiros não foram os únicos a se corromper, nem são os únicos envolvidos na lava-jato. A questão não é essa. A questão é que a direita sempre esteve no poder, sempre desviou dinheiro público, sempre sugou as instituições e os trabalhadores. A direita corromper-se não é novidade, é sua natureza.

Mas a esquerda chegou efetivamente ao poder pela primeira vez em 2003 sob olhares temerosos. Não tinha o direito de errar. Desde sua fundação, o PT amalgamou grupos e indivíduos progressistas de diferentes segmentos, dos movimentos sociais à intelligentsia uspiana, passando pela Igreja Católica, centrais sindicais e aglutinou lideranças e outros grandes partidos de esquerda. A esquerda tinha a faca e o queijo na mão quando subiu ao poder na figura de Lula. Tinha um país economicamente estável, mas com números de desemprego e exclusão social astronômicos.

Lula conseguiu sopesar o falso rótulo de comunista que a classe média e o empresariado colocavam sobre ele desde 1989 e encetou uma política de conciliação. Beneficiou-se, de fato, de uma estabilidade econômica que havia sido deixada por FHC, mas uma estabilidade que esmagava o poder aquisitivo dos trabalhadores e que nem FHC nem seu partido tinham a intenção de mudar. Lula pegou os exíguos programas sociais de seu antecessor e criou o Bolsa Família, um programa consistente de redistribuição direta de renda que, em parte, alavancou o crescimento da economia e a ascensão social nos anos seguintes.

Lula sabia as dificuldades que enfrentaria, sabia o quanto foi difícil chegar ao poder e também que não podia confundir o seu partido com o estado, o que de fato não fez. Mas nem todos dentro do PT pensavam assim. A unidade do partido não demorou a ser rompida e nomes importantes foram expulsos ou se evadiram. Alguns que ficaram confundiram o partido com o estado e transformaram a ladroagem em norma de governabilidade. O mensalão enfraqueceu o partido, mas não o suficiente para comprometer sua continuidade no poder. Afinal, a conciliação beneficiou empresários, industriais, banqueiros e trabalhadores.

Dilma manteve o crescimento econômico na primeira metade do primeiro mandato, mas também esqueceu que a esquerda não pode errar. Os estádios da Copa do Mundo custaram duas, três vezes mais do que os orçamentos originais. Em junho de 2013, a farra com o dinheiro público levou as pessoas a tomarem as ruas do país em manifestações apartidárias e explicitando o clima geral de insatisfação. O governo federal não era o alvo dos protestos, mas todos os partidos, os poderes instituídos e sua passividade diante da corrupção. Contudo, a exposição da corrupção na Petrobrás mudaria esse foco. O escândalo da Lava-jato quase comprometeu a reeleição, mas a militância ainda conseguiu se mobilizar para evitar uma derrota eleitoral quando, durante a campanha, dois projetos de país tomaram a tônica dos debates e discursos e se confrontaram de forma acirrada.

Ao ser reempossada, no dia seguinte as ações de Dilma explicitaram que ela mentiu descaradamente na campanha, fez seus eleitores de trouxas e assinou virtualmente todas as medidas que disse que não tomaria. O custo de vida e a inflação subiram absurdamente em três meses, o desemprego voltou a subir e a economia desacelerou. O “ajuste”, como os economistas chamam as tais medidas, deve fazer o país retomar o crescimento até 2017, dizem eles, ao que cabe a pergunta: um crescimento de quanto tempo até que outro ajuste seja cobrado dos trabalhadores? Então vamos viver de pequenos ciclos de crescimento e, quando a economia estagnar, vamos aumentar o custo de vida e cobrar a conta da sociedade? E vamos fazer isso enquanto o dinheiro público é escoado para financiamentos espúrios ou contas no exterior? E o que dizer da imensa maioria de nossos gestores, cujos bens não correspondem a seus ganhos salariais?

Onde está o PT que vociferava contra a inflação e a corrupção e se colocava como arauto na defesa da ampliação do poder aquisitivo dos trabalhadores? Com mais um tesoureiro preso o PT mostra que não aprendeu com os erros do passado, não se importa com a justiça que mandou figuras importantes do partido pra cadeia e que abandonou os projetos sociais. Há mais de doze anos, ele representava uma única oportunidade de acerto da esquerda e em questão de meses a jogou fora. O partido se destruiu por dentro e, ao fazê-lo, deu vazão para a ascensão de uma direita tosca e enviesada e que retirou das esquerdas a prerrogativa das manifestações de rua.

Enquanto isso, os veículos de comunicação de esquerda culpam a mídia, os juízes, a parcialidade dos julgamentos, a “perseguição” política. É claro que ver o PT na lama e a esquerda fora do poder é o desejo de muitos agentes políticos e econômicos nesse momento. Mas não é por causa deles que o partido está em crise, mas por causa de seus próprios erros. Isso já compromete a visão positiva que a sociedade tinha de Lula quando ele deixou o poder e consequentemente qualquer eventual projeto de seu retorno para 2018. O futuro de PT é a autoextinção ou, na melhor das hipóteses, a completa desmoralização eleitoral e impotência política. Se a esquerda inteira não quiser seguir o mesmo caminho, deve entender que precisa formar uma nova coalizão sem ele. Não precisamos fingir que o PT não afundou na corrupção para defender políticas sociais inclusivas, para nos colocar contra a terceirização e advogar a importância da atuação do estado na economia. As políticas progressistas não são apanágio do PT e devem sobreviver a ele. Mas importante também é a esquerda, ou pelo menos uma parte dela, não perder a capacidade de autocrítica a ponto de fechar os olhos e ouvidos para a produção em larga escala de mentiras e divagações que vêm dos teclados de alguns dos que falam em seu nome.

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Da Social-democracia ao Neoliberalismo

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31 thoughts on “O fim do PT

  1. João Paulo 18/04/2015 / 9:49

    Boa critica prof. Bertone

    Realmente o PT ao longo dos mandatos, principalmente de 2010 para cá, se desgastou muito repetiu erros, escolheu pessoas de outros partidos mais de centro direita para as pastas ministeriais. Me parece que o Lula (2003-2010) tinha mais jeito de negociar e dialogar com a coligação e com o mercado externo. Só um detalhe que eu queria colocar para refletir, nos casos de corrupção me parece haver mais transparência, no sentido de não esconder nomes ou tentar abafar. Vejo e leio casos de outros partidos que também se envolvem em corrupção mais não a tanto alvoroço, ate o valor da corrupção é maior. O senhor acredita que mesmo com todo esse desgaste essa, vamos dizer assim, ¨auto destruição¨ que o PT esta se fazendo chegamos ao ponto de que pensar, quais são as outras opções para o pais? Ou melhor com um congresso mais conservador do que em 1964, podemos dizer que o conservadorismo esta em crescimento e ate que ponto isso pode afetar os mais pobres se por ventura em 2018 houver uma guinada de verdade para o conservadorismo? Obrigado pela atenção, prezado prof. Bertone

    • Bertone de Oliveira Sousa 18/04/2015 / 12:21

      João, Luciana Genro poderia ser uma opção para as esquerdas; mas algumas pautas que ela defende abertamente afastam votos, são “radicais” demais pra sociedade. Flavio Dino, do PC do B, que se elegeu governador pelo Maranhão, tem um discurso mais moderado, foi deputado federal e sabe lidar melhor com essa questão da conciliação. Mas ainda está no primeiro mandato e fica difícil saber se poderá se projetar como uma liderança nacional, o que certamente ainda não ocorreria para a próxima eleição. O PT está acabado e Lula ainda é o único nome elegível no partido, mas isso vai depender muito do cenário nos próximos anos.

      • Daniel 14/04/2016 / 21:03

        Professor, o senhor tirou aquele seu post no qual alegava ser mais interessante votar no PT ao invés de votarmos no PSDB?

      • Bertone Sousa 14/04/2016 / 21:38

        Sim, Daniel, diante do atual contexto aquele texto não fazia mais sentido.

  2. Gustavo Leite 18/04/2015 / 10:32

    Mais um bom texto.
    Eu só acrescentaria de que para boa parte – talvez maioria – dos que votaram em Dilma não negam a podridão que tomou conta do PT, mas entendem que a direita (PSDB sim inclusive) não é alternativa, não basta ter vivido os anos 90 como trabalhador como eu vivi, mas os votos dos deputados petistas e psdbistas seguindo orientação de seus partidos na PL4330 apenas mais uma vez demonstram que fiz a coisa certa votando em Dilma e não votando nulo como pensei em fazer e deixando Aécio e o PSDB vencerem. Meu voto em Dilma foi o sapo que deu pra engolir, mesmo que quase engasgando.

  3. Ana 18/04/2015 / 14:00

    Estranho… Banaliza a corrupção da direita enquanto sinaliza o fim do PT por conta da corrupção, desconsiderando a desconstrução do partido pela mídia durante anos.

    • Bertone de Oliveira Sousa 18/04/2015 / 15:09

      Ana, o tema central do meu texto é que a desconstrução do PT não foi feita de fora (mídia), mas de dentro. Seu comentário apenas comprova o que diz meu último parágrafo, sobre a condição mental deplorável de parte significativa da esquerda que faz de tudo para escamotear os erros do partido jogando toda a culpa num inimigo imaginário, o PIG.

  4. georgia 18/04/2015 / 15:20

    certeiro e cirúrgico Bertone! Saul Leblon e Emir Sader comungam desse pensamento, Sou petista, mas infelizmente o lulopetismo chegou ao seu fim, e além disso não há nenhum partido organizado que levante uma bandeira que valha a pena lutar. O Brasil nunca deixará de ser um país corrupto pois está estruturado para ser. O feito é entregar o Brasil para os índios e pedir desculpas. Vou compartilhar o texto.

  5. Ferdnando Ornellas 18/04/2015 / 19:35

    Exatamente, professor Bertone! O PT uniu-se à turba corruptora, mentindo na campanha sobre promessas que não se concretizaram, além de acender uma vela para Deus e outra para o diabo, levando em banho Maria muitas questões, como a reforma agrária. Mas não sei se é seguro levar adiante essa premissa de que o partido já está acabado, gostaria que pontuasse isso melhor para mim. Abraços

  6. Saul Ramos 18/04/2015 / 22:19

    Professor Bertone boa noite! também vejo o cenário atual do PT dessa maneira, o PT não só se desfigurou por dentro como também deixou um grande vazio na esquerda brasileira, pois não simboliza mais suas antigas bandeiras, além de ajudar a sociedade a desacreditar de uma esuquerda de modo geral, o que sobrou foi partidos nanicos que ainda falam de bolchevismo, com discursos muito radicais totalmente fora da realidade, me sinto muito desiludido com a esquerda que sobrou no Brasil. Mas o que mais me preocupa e a extrema direita crescendo cada vez mais, e de uma certa forma fazendo o que a esquerda deveria fazer, que é protestar se organizar e cooptar pessoas. Diante disso professor lhe pergunto se seria possível em sua visão de uma revitalização da esquerda, não somente no sentido partidário, mas como de revisão de suas teses, bem como a direita brasileira deixar de ser tão reacionária, ao ponto de ainda manterem os dircuroso manjados como: meritocracia, todos podem é so questão de vontade, e etc, como exemplo essa semana tivemos Rachel shehehazade, no programa Pânico, falando que as crianças do Brasil tem acesso a mesma educação das da Noruegua, além de suas comparação grotescas da pobreza rural com a urbana, ainda hoje também me deparei com um texto https://www.facebook.com/CanalGeracaodeValor/posts/859634390782843, onde o autor um empresário por sinal, advoga a total extinção da CLT. Então é isso? temos que escolher entre os extremos? onde fica a social democracia dentro disso? acredito que o Brasil se distância cada vez mais dela..

    • Bertone de Oliveira Sousa 18/04/2015 / 22:37

      Saul, vi a entrevista da Sheherazade na rádio Pânico, eu já tinha até escrito sobre ela aqui no blog. Os argumentos dela são muito prosaicos, rasos, sem consistência sociológica, sem conteúdo algum. Ela se tornou amiga do Lobão que também é outra nulidade intelectual. A direita não estuda pra dizer o que diz, ela fala com base na impulsividade, na retaliação, quando não na agressividade gratuita. Agora a esquerda pode se renovar. O PT surgiu nos anos 80 na esteira da crise do marxismo internacional e da crise soviética; nasceu sob os signos da democracia e do diálogo e com bons intelectuais em seu reduto. Mas isso depende de redefinição de estratégias. Quando o PSB e Marina apoiaram Aécio deram um tiro no pé. Já os partidos radicaloides não têm proposta alguma, falam coisas ao vento. A direita cresce quando fala em valores morais (contra casamento homoafetivo, por exemplo), ou quando prega redução da maioridade penal; mas suas medidas econômicas afastam a sociedade dela, porque a política econômica da direita representa o encolhimento de direitos trabalhistas e das políticas sociais. A PL da terceirização prova isso. Nessas questões a sociedade prefere a esquerda e é enfatizando a importância da atuação do estado na economia, das políticas sociais e dos direitos trabalhistas que as esquerdas podem voltar a ganhar apoio social consistente, mas é preciso haver um alinhamento de discursos e uma confluência de ações estratégicas pra promover essa renovação.

  7. Luiz Antonio Borges 19/04/2015 / 7:24

    Agora todos jogam pedras no PT, não sou a favor da corrupção, seja ela de que partido for, inclusive do PT e de qual meio social.
    Ontem todos elogiavam esse partido, o que vejo agora são os ratos abandonando o navio.
    Não vejo essas mesmas pessoas pedindo que sejam investigadas as corrupções do PSDB e outros partidos.
    Eu acho que quem votou PT, quem já foi PT, tem obrigação de pedir que este partido esclareça para sociedade em que buraco se meteu e ao mesmo tempo devemos parar de querer Justiça partidária contra o PT.
    Devemos lutar para que a justiça seja efetiva a todos aqueles que “meteram a mão na cumbuca”, para que ela não sirva de cortina de fumaça para esconder as canalhices de outros partidos.

    • Bertone de Oliveira Sousa 19/04/2015 / 13:40

      Luiz, não se trata de jogar pedra, apoiar um partido não exime alguém de fazer críticas a ele e tecer críticas também não é jogar pedra. Não é o PT quem tem que esclarecer à sociedade do que faz, porque ele já escolheu não fazer isso. É por isso que um judiciário independente é tão importante na democracia. O que mais existe na internet são pessoas reclamando que o PSDB não é investigado da mesma forma. Meu texto é uma crítica à incapacidade de autocrítica da própria esquerda e da confusão que o PT fez entre partido e estado.

  8. Pedro Henrique F. 19/04/2015 / 13:44

    Bertone, o que você acredita que vai acontecer daqui para a frente? Essa “direita” é muito tosca e é só ver o primeiro projeto que ela criou para terceirizar deus e o mundo. Não gostaria que isso tivessem um som dramático, mas creio que o vá ter, será que estamos perdidos no futuro com os partidos que adoram cortar direitos dos trabalhadores?

    • Bertone de Oliveira Sousa 19/04/2015 / 13:48

      Pedro, Dilma ainda pode vetar a PL da terceirização, embora ela tenha acenado que não vai vetar na íntegra. Pode ser que mude de ideia, mas se ela vetar já enfraquece bastante a direita porque as pessoas vão perceber que Dilma ainda é a única que pode impedir o encolhimento dos direitos trabalhistas e isso pode ser importante pra uma recuperação da imagem da esquerda diante da sociedade.

      • Pedro Henrique F. 19/04/2015 / 16:10

        Hm, entendo. O que você acha que a esquerda deve fazer daqui para a frente para se recuperar? Será que vai haver algum partido substituir o legado do PT?

      • Bertone de Oliveira Sousa 19/04/2015 / 16:13

        É difícil dizer, vai depender muito de como a crise vai evoluir e de como o PT e o restante da esquerda vão reagir a ela.

  9. Ricieri 20/04/2015 / 12:54

    Professor, a direita hoje acusa a esquerda de haver doutrinação Marxista nas escolas, qual sua opinião sobre isso ? Ela diz também que a esquerda hoje é completamente irrelevante para o cenário político e que Marx não serve mais como base para nada.Dizem que na história os professores só usam Eric Hobsbawn e não dão espaço para filósofos como Eric Voegelin.

    O senhor conhece autores Conservadores?

    Desculpe a pergunta idiota, mas gostaria de uma opinião de quem vive no ambiente universário

    • Bertone de Oliveira Sousa 20/04/2015 / 13:00

      Ricieri, conheço sim autores conservadores, inclusive já li o próprio Voeglin, mas essas são afirmações da direita (entre muitas outras) que a melhor resposta que se pode dar é um sorriso escarnecedor e a estampa de um selo de burrice na testa.

      • Ricieri 20/04/2015 / 13:11

        Pois é professor hahaha , confesso que em vários textos seus aqui no blog, já dei boas risadas.

  10. Anderson Borges 20/04/2015 / 16:37

    Caro professor,

    Tenho a impressão de que o PT só não foi reduzido a um partido nanico graças a uma oposição burra (à esquerda e à direita), assim como graças a parcialidade da Justiça em operações como a Lava Jato, que graças à parcialidade de suas ações permite que esse processo seja considerado como uma perseguição política. Todavia acredito que dificilmente o partido recuperará a credibilidade de outrora, será que a iniciativa em não aceitar mais doações de empresas privadas seria um passo nesse sentido?

    Abraço e parabéns pelo trabalho.

  11. Me preocupa ver a situação de outros governos de esquerda, principalmente na américa do sul. a impressão que tenho é que esgotou-se o saldo político que a esquerda possuía, e agora segue-se seu naufrágio.

  12. Thiago Dantas 24/04/2015 / 0:36

    Bertone,

    Considerando que as opções disponíveis ao PT, como Marina e Luciana Genro, não parecem capazes de capitalizar crédito eleitoral, proponho uma outra hipótese: O PT não se desintegra porque não tem quem seja capaz de ocupar seu espaço… Concordo com a maior parte de suas posições, mas não tenho certeza se é o fim para o PT, levando em conta as opções políticas que temos, não por mérito do partido, mas por força das circunstâncias. É esperar pra ver… Só receio a propagação dessa onda reaça.

    Grato,

    Dantas

  13. Wanderson Marçal 30/04/2015 / 4:13

    Caro Bertone, eu espero que você leia meu comentário porque você tem papel importante em tudo que vou relatar: eu o conheci em 2012 ao ouvir o True Outspeak do Olavo de Carvalho. Nunca levei o ancião a sério e ria bastante do que ele escrevia e falava — ainda o faço. Acho que o problema não está tanto em pessoas como ele existirem (e ele tem um humor chulo, porém engraçado) e sim e terem tanta penetração e aceitação na sociedade e que nós bem sabemos o porquê.

    Nesse tempo todo, em que eu passei por grande maturação intelectual e também de cabedal teórico, sempre estive a lê-lo. Quase todas suas análises, ponderadas, me fazem com elas consentir. E quando discordo é sempre de uma maneira a me permitir duvidar da minha discordância e dos meus contra-argumentos.

    Sei que você não é nada adepto dos movimentos comunistas. E que de fato os resultados obtidos nas experiências soviéticas não foram muito animadores. Mas de 2012 pra cá tenho lido muitos marxistas e, claro, a fonte: Marx e Engels. E é quase impossível não concordar com a totalidade de seus escritos e inclusive com as proposições de modo de organização da sociedade.

    Em 2012 arrumei o meu primeiro emprego. Trabalho. Essa coisinha que é a base ontológica do marxismo e que tantos ignoram. Eu encontrei salas super-lotadas; remuneração péssima; falta de infra-estrutura; nenhum contato com o resultado daquilo que eu realizava; e uma burocracia intensa e desmotivante que aos poucos transformava aquilo, uma escola, em um túmulo. De tudo. Até da motivação de um recém graduado.

    Mas continuei a viver nessa situação, apesar de bastante desmotivante — e que não atinge só a categoria dos professores, diga-se. Em 2013 nós tivemos manifestações massivas, no país inteiro, de clara insatisfação com a política e o Estado burguês, como ele é conduzido alheio aos interesses da população. E esse foi o grande mote que suplantou as pautas mais específicas do MPL e que de alguma maneira condensavam tanto os grupos à esquerda quanto os que se diziam de direita e por lá estavam. Apesar da propaganda oficial, apesar do otimismo da burguesia nacional com os grandes eventos esportivos que o país teria e que o colocariam no mapa das potências, o povo ia mal. E não só aqui: o movimento quase que seguiu uma tendência de manifestações anti-capitalistas e seus símbolos em várias partes do mundo.

    Chegamos em 2014 e o vi a escrever várias boas postagens a defender as coisas boas do governo do PT e atacar a oposição tucana. Seu texto a elencar os malfeitos tucanos, a crença cega no neoliberalismo e o desmonte da máquina pública foi definitivo para que votasse em Dilma no segundo turno (no primeiro votei em Luciana Genro). Mas naquele período, algumas análises, bem marxistas, me chamavam a atenção: intelectuais do PCB apontavam que ambas as candidaturas defendiam projetos parecidos, com pequenas variações. Em um primeiro momento eu até desdenhei, embora os textos viessem de gente com muito gabarito como Mauro Iasi, pareciam enviesados com aquelas simplificações chulas dignas do PCO. Depois, porém, fui ver que olhar enviesado era o meu: uma vez mais um partido de esquerda democrática comprova o receituário da direita para se manter na situação.

    Isso aconteceu por todo o mundo: todos os partidos de esquerda democrática — e que o PSDB também era um exemplo, lembremos! — chafurdaram no que de mais pragmático o pensamento liberal e direitista propõe como modelo de gestão. Inclusive a corrupção, que você bem demonstra ser endêmico nas gestões do Estado burguês.

    Voltemos ao marxismo, ao básico: como as relações de produção determinam fundamentalmente a superestrutura na sociedade. Nosso país que ganhou um choque de capitalismo concorrencial e com pesado investimento do governo, tanto incentivando o empreendedorismo de pequenos e médios grupos quando a verter verba para o consumo, tem hoje uma população extremamente conservadora. E não apenas nos costumes como à época da ditadura: o post do empresário da Geração de Valor (que escroto!) tem mais de 20 mil curtidas e o mesmo número de compartilhamentos. Do ponto de vista de influência, isso aí vai longe. Talvez influencie muito mais que o tal do PIG que a imprensa simpática ao PT vive a atacar.

    O PT ao forçar o desenvolvimento do capitalismo no Brasil criou um monstro que o derrubaria existisse ou não corrupção — que me parece, até pela formação do brasileiro, um aspecto sempre muito periférico (basta ver como o Maluf se elege sempre com ótima votação apesar de ter virado símbolo de corrupção).

    Concordo contigo que a esquerda bolchevique é minúscula hoje e em geral repete as mesmas coisas, mesmos discursos, e tem enorme dificuldade de interpretar e propor diante de fatos novos. Mas se olharmos para bons historiadores marxistas, economistas marxianos e toda a riquíssima produção comunista-leninista-marxista, há muita coisa boa e críticas válidas e contundentes pra atualidade. Uma delas, a que me parece mais verossímil, é que uma vez dentro do Estado burguês e tendo como seu senhor o lucro, a esquerda social-democrática não tem vez e vai no máximo se lambuzar como os que naturalmente pertencem a esse meio.

    Eu não consigo conceber um mundo melhor dentro de uma sociedade capitalista. No Brasil ou na Alemanha (onde estive recentemente), as pessoas, a maioria delas, está estupidificada. Moralmente degradantes (me refiro como veem a vida e não o que fazem com ela) e há infelicidade geral e irrestrita — tanto que as próprias classes médias têm, lá e cá, defendido soluções por vezes autoritárias. Uma sociedade que qualifica as pessoas pelo que elas têm, por padrões, é moralmente doentia e não merece outra coisa que não sua extinção. E a tentativa da esquerda democrática de tentar corrigir o incorrigível me parece uma das maiores perdas de tempo, pois sempre resulta nas mesmas coisas. E posteriormente vemos os mesmos choramingos: erraram, deixaram o trem passar, podiam ter feito isso e não fizeram e tudo o mais.

    Por isso concluo: se o movimento comunista hoje parece deficitário, é um trabalho menos hercúleo e de perspectivas melhores tentar aprumá-lo do que perder tempo criando grupo pra reformar o que já está podre na essência. Foi por isso que resolvi me juntar ao PCB. A democracia liberal burguesa pra mim está morta e sepultada. E não será Flavio Dino ou Luciana Genro que vai resgatá-la — mais um novo Messias pra esquerda se iludir.

    Teça considerações.

    Abraços.

    • Bertone de Oliveira Sousa 30/04/2015 / 13:00

      Wanderson,

      suas colocações são pertinentes e penso que você já começou fazendo a coisa certa: foi aos clássicos e leu Marx e Engels. Sei o quanto as condições de trabalho em variados segmentos (incluindo, como você bem mencionou, a docência no ensino básico) são aviltantes e por vezes degradantes. Mas cometemos um erro quando nossa capacidade de análise se encaminha para uma ojeriza à democracia. A esquerda autoritária (PCO e PSTU à frente, ao que soma outros movimentos menores como MPER), criticam o modelo neoliberal e a “democracia burguesa” mas o que eles tem como proposta para pôr no lugar é uma revolução socialista. Ora, o socialismo revolucionário está morto porque ele não resulta em outra coisa senão em totalitarismo e confisco de liberdades individuais. Esse tipo de discurso não tem mais lugar; é uma radicalização que perdeu o sentido. O marxismo-leninismo, eu ressaltei em várias ocasiões aqui, não explica nossa época nem tem algo novo a propor. A primeira coisa que precisamos entender é que a democracia é um bem que precisa ser cultivado e preservado e se temos que conquistar alguma coisa, é dentro dela e não contra ela que devemos agir. Acredito que você está fazendo uma leitura do marxismo um tanto descontextualizada e os discursos do “mundo melhor” que se colocam contra a democracia devem ser peremptoriamente rejeitados e sempre acompanhados de uma crítica histórica consistente. Os discursos contra o “Estado burguês” rapidamente recaem na defesa de ditaduras, quando não do totalitarismo, você viu isso na Alemanha e estamos vendo isso aqui no Brasil com fascistas e stalinistas/maoistas em polos opostos. Entendo as razões que te levaram a se filiar ao PCB mas por isso sou contra a militância partidária. Partidos são como organizações religiosas com seus dogmas e dirigismo verticalista, além de infundirem nas pessoas (“militância”) uma consciência de rebanho que oblitera a inteligência mais do que a incentiva. Tenho insistido aqui que a esquerda não precisa apoiar incondicionalmente o PT e também não precisa apoiar ditaduras nem se colocar contra a democracia, mas entender que o mais importante é a defesa de direitos humanos, direitos de minorias e direitos trabalhistas, além de outras conquistas sociais. A liberdades individuais são conquistas que não têm preço. Veja minha sugestão de leitura:

      https://bertonesousa.wordpress.com/2014/12/06/para-compreender-marx/

  14. Saul Ramos 30/04/2015 / 18:14

    Também concordo com Bertone, embora eu tenha apenas estudos básicos do Marxismo e outras correntes filosóficas e sociológicas (pois sou engenheiro), observando a realidade mais de perto me deparo com outros fatores a serem pensados que não seja a apenas a desigualdade social, concordo que é justamente as injustiças que nos toca mais, e nós remete ainda mais nos braços de Marx, mas é justamente esse um dos problemas do Socialismo, e sacrificar vários fatores subjetivos dos homens, para, erradicar as desigualdades, e deu no que deu como já sabemos a história. Como escrevi acima em meu comentário, fico muito desiludido com a esquerda no Brasil, muitas desses partidos ainda estão na discussão Stalinnismo x Troiksismo, e ainda passam o tempo criticando uns aos outros de forma muito boba, nem conseguem fazer uma frente única nas eleições, ou seja, preservam mais suas diferenças dogmáticas que a chance da construção de uma frente políticas para tentar cooptar os desiludidos com o PT (como eu!), então, se não conseguem superar diferenças dentro da própria ideologia da esquerda, o que seria se chegassem ao poder? como eles tratariam as enormes diferenças dos vários povos que vivem em nosso Brasil? na minha opinião o que falta para essa esquerda revolucionária e um reformulação de suas teses, serem menos radicais e saberem ser mais maleáveis com questões complexas, como o aborto, a propriedade individual, religião e etc, um dia desses ouvi Rui Costa dizendo que deus era ninguém! o velho discusso de tomar as fábricas não vale mais, as pessoas hoje estão mais interessadas em uma melhor condição de vida, de mais oportunidades e etc. E para finalizar concordo em todas as letras com Bertone, a mudança tem quer dentro da democracia, e não fora dela.

  15. Francisco de Assis Dorneles 04/05/2015 / 6:05

    Excelente o teu texto Bertone, entrei num debate no you tube sobre a PL 4330 e por lá as coisas partiram para temas como comunismo, educação e P.T.
    Mesmo não pedido a tua autorização acabei postando este texto sobre o P.T. espero que não se oponha, achei muito esclarecedor e oportuno.
    Do teu texto fica para mim agora uns esclarecimentos , que esta manifestação direitista não é atual, apenas tem o espaço das ferramentas de mídia que as divulgam mais.
    Agora fica a pergunta o que a Dilma poderia fazer para salvar o seu governo se ele não afundar antes do término do mesmo ?
    E o Lula ? Acho que ninguém deve subestimar a sua foça popular. Se voltar ao poder o deixaram governar ou por viver um possível contexto que a Dilma passa, poderá ser o pior para o Brasil?
    Quem viver verá, abraços, ótimo texto.

    • Bertone de Oliveira Sousa 04/05/2015 / 10:08

      Francisco, obrigado. Pode divulgar à vontade, sem problemas. Penso que o problema maior da Dilma é que ela é uma tecnocrata, não uma gestora com habilidades de negociação e intermediação como o Lula e isso pesa contra ela. Sua lassidão em relação à Lava jato prejudicou muito a imagem do governo e as investigações já começam a chegar perto de fornecer elementos concretos pra oposição pedir um impeachment, caso realmente seja comprovado que a campanha dela foi beneficiada com dinheiro desviado da Petrobrás. A essa altura, ela já perdeu uma base de apoio social, inclusive entre seus eleitores, muito ampla e o aumento do desemprego, se não for estancado, pode agravar isso. Mas se ela começar vetando a PL da terceirização já vai ser um passo importante pra retomar o fôlego. Mas ainda que haja uma retomada do crescimento em decorrência do ajuste fiscal, o aumento abusivo dos impostos já reduziu muito o poder aquisitivo dos trabalhadores. E como provavelmente as reformas tributária e política vão ficar só no discurso não é difícil antever que as próximas eleições vão ser disputadas apenas na base do populismo. O Lula tem apelado muito pra radicalização ideológica; isso é uma estratégia, ele sabe que discursar dessa forma vai desviar a atenção de outros problemas pra focar apenas nas conquistas sociais de sua gestão a que alguns grupos se opõem. Mas são conquistas que as próprias ações do governo já começam a transformar em pó. Por isso não dá pra dizer se ele teria chances reais de voltar na próxima eleição porque vai depender muito de como Dilma vai conduzir o governo e, a julgar pelo baixo crescimento nos últimos anos que forçaram a esse ajuste, dificilmente sua gestão vai além do que está fazendo agora.

  16. Samuel 06/05/2015 / 16:07

    Não acho que seja o fim do PT, mas o fim de um ciclo da esquerda, de intervencionismo, e alguns partidos mais liberais pegando uma carona em uma população mais conservadora e criticando as posições progressistas dos partidos de esquerda. A esquerda quando subiu ao poder subiu preparada com Antonio Palocci e Henrique Meirelles, ou seja acenando para o mercado financeiro. Realmente os escândalos abalaram o partido, mais o PSDB é abalado até hoje pela era FHC, e o Regime Militar também, onde houve um surto de desenvovimento, mas devido o colapso do petróleo e as perseguições também ruiu e restou apenas uns velhos do clube militar pedindo intervenção. Logo o ciclo acabou, em 2018 ruma para a derrota, mas em breve retomará. O Brasil vive sobre esse dilema esquerda e direita não tem como fugir disso

  17. Mateus Roger 24/03/2016 / 20:30

    Professor, o que me diz do quinto caderno de teses do pt, com o título de “um partido para tempos de guerra”.

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