Intolerância religiosa, nossa velha conhecida

bíbliaMuitos ainda não conseguem perceber, mas a intolerância religiosa no Brasil vem crescendo silenciosamente e com visibilidade maior (embora ainda esporádica) na imprensa. Curiosamente, a maior parte dos gestos de intolerância vem de fiéis de religiões cujos líderes são os que mais reclamam de “perseguição religiosa” – contra eles próprios, é claro – e fecham os olhos e/ou desviam a atenção para ações que cerceiam outros credos e não credos.

Recentemente, uma lei foi aprovada em Florianópolis obrigando escolas públicas e privadas a ter Bíblias e colocá-las em local de destaque, além de “sugerir” que exemplares sejam distribuídos nos pátios das escolas. Mas qual o problema em distribuir bíblias em escolas? – alguém pode perguntar. O problema consiste no fato de que no país inteiro projetos de lei de teor religioso têm se avultado e, uma vez aprovados, transformam instituições públicas e privadas, mormente escolas, em pontos privilegiados de doutrinação religiosa.  Contra essas atitudes, é preciso reafirmar sempre eloquentemente que proselitismo religioso deve estar fora da escola.

Vários outros municípios têm aprovado leis obrigando a realização de orações ou de leituras de Bíblia antes das aulas, em clara violação ao princípio da neutralidade do estado em matéria de religião. A cada eleição vem crescendo o número de parlamentares vinculados a instituições religiosas e que não raramente se candidatam com o fito de legislar a favor de seu grupo religioso e em detrimento do restante da sociedade. Protestantes pentecostais são os que mais se destacam nesse contexto. Esses agentes se utilizam do princípio da laicidade do estado para redigir e votar projetos de lei que privilegiam confissões religiosas.

Outro fato que também chamou a atenção nas últimas semanas foi a criação, por parte da Igreja Universal, dos “Gladiadores do Altar”, um grupo de jovens que agem como esquadrão militar e cumprem ordens como soldados. O vídeo da formação desse grupo viralizou e chamou a atenção de outras religiões pela possibilidade de atos de intolerância que isso pode acarretar. É legítima a preocupação de outros grupos, especialmente de religiões de matriz africana, que entraram com ação judicial preventiva em relação a isso.

Algumas ações da Igreja Universal já despertaram animosidade pelo teor de agressividade que continham. Nos anos 90, um vídeo em que Edir Macedo ensinava pastores a cobrar dízimos dos fiéis num intervalo de jogo de futebol entre eles, mostrou o caráter arrivista da liderança da Universal. No vídeo, Macedo cobrava mais firmeza na hora de pressionar os fiéis a doarem e dizia que quem não der [dinheiro] pra igreja, que se dane. Na mesma década, um pastor de sua igreja chutou e hostilizou uma imagem de Aparecida em culto televisionado. Por ações como essas, poucas instituições religiosas figuram tão negativamente no imaginário social como a Igreja Universal. Hoje, Macedo é um dos homens mais ricos do país e seu Templo de Salomão, obra faraônica de 680 milhões de reais inaugurado em 2014, foi uma demonstração de grandeza e poder que busca ofuscar seus rivais no segmento religioso, especialmente Valdemiro Santiago.

Mas o Templo de Salomão e os gladiadores do altar têm algo em comum: evocam o Antigo Testamento e, no caso destes últimos, a noção de uma guerra contra os inimigos de Deus. Não é por acaso que as figuras de liderança do Antigo Testamento, como Moisés, Josué, Davi e Salomão são as preferidas das lideranças neopentecostais por evocarem força, autoridade e também para legitimarem discursos beligerantes contra outras religiões. Na Antiguidade, a guerra e a pilhagem eram a ordem do dia e os povos conquistados em geral eram massacrados pelos conquistadores. Os deuses não eram universais, mas territoriais e sua grandeza se manifestava na superioridade militar de um povo sobre os demais. Por outro lado, na Roma Antiga, gladiadores eram escravos treinados para lutar até a morte em arenas para entretenimento público. O termo vem do latim gladius, isto é, gládio, espada. Essas traduções descontextualizadas de narrativas do Antigo Testamento e formação de grupos beligerantes não são inconstitucionais, mas se mostram potencialmente perigosas por reforçar a crença cega numa autoridade religiosa e exacerbar os sentimentos de animosidade para com outros agentes sociais.

A cosmovisão pentecostal é dicotômica e tende a ver inimigos potenciais por toda parte, por isso a centralidade do conceito de guerra espiritual em sua teologia, que se manifesta na denegação permanente da alteridade, quando não na violação velada ou patente de seu direito constitucional de crença em outros deuses ou mesmo descrença. Em 2014, por exemplo, alguns adeptos do candomblé foram expulsos de morros no Rio de Janeiro por traficantes que frequentavam igrejas pentecostais que passaram a não tolerar mais a “macumba”, como são genérica e pejorativamente chamadas as religiões de matriz africana. Em alguns locais, chegou a ser imposto o fechamento de terreiros. Há um silêncio das lideranças religiosas em relação a essas ações que tem se tornado cada vez mais frequentes.

Da aprovação de leis que claramente violam a laicidade do estado à formação de grupos paramilitares no interior de instituições religiosas é possível verificar que a liberdade de culto e de expressão começa a anuviar no Brasil. Agora querem até mudar a constituição e incluir nela que “todo poder emana de Deus”; isso é uma passo rumo à teocracia. É preciso que o Ministério Público esteja atento a essas leis, aos desdobramentos desses acontecimentos e aos pedidos de investigação de intolerância, para que essa violência simbólica não se generalize em atos explícitos de violência contra a alteridade ou de sabotagem do estado laico.

Leia também:

Descristianizar a sociedade

Pós-teísmo

A Bíblia e a História

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20 thoughts on “Intolerância religiosa, nossa velha conhecida

  1. Aderson Silva 27/03/2015 / 4:34

    Um belo exemplo, é o deputado dos direitos humanos e minorias, Marco Feliciano. Ele fala que esta acontecendo uma agressão aos cristãos, ele próprio fica discursando ódio aos homossexuais, que pelo seu cargo público deveria favorece-los. Espero que o bolsonaro, feliciano, cunha e etc. Não cheguem a presidencia do pais.

  2. Questões Relevantes 27/03/2015 / 10:01

    Bertone, me parece que há uma mistura de dois componentes explosivos nestas igrejas neopentecostais: poder e dinheiro. Tudo amalgamado por doses generosas de ignorância. Você tem toda razão, é preciso defender o estado laico. Estudar todas as religiões é inclusivo. Impor apenas uma é excludente e perigoso.

  3. Pedro Henrique F. 27/03/2015 / 13:08

    Esse pais parece que entrou na sua própria década de 30 Bertone. Os “fascistas” estão por todo lado e são de todo tipo. Esta cada dia mais dificiu

  4. O mais engraçado é ver os comentários de religiosos que defendem estas práticas, espalhados por aí em outros blogs, como alguns maniqueístas declarando a necessidade da constituição sujeitar o Estado ao seu Deus, sob pena de não fazendo acabar o Estado nos domínios do diabo.

  5. Saul Ramos 28/03/2015 / 16:15

    Professor Bertone, gostaria de saber o porquê de igrejas pentecostais como a universal, assembleia de deus, e etc não serem tão abundantes em países da Europa, a resposta seria o maior nível de educação ou finaceiro do continente? e em relação aos EUA o que seria o responsável pela grande popularidade da religião pentecostal?

    • Bertone de Oliveira Sousa 28/03/2015 / 18:26

      Saul, o que acontece na Europa é aquilo que Weber chamou de “desencantamento do mundo”, um processo demorado de perda do monopólio da explicação do mundo pela religião, o que implicou também uma forte desfiliação religiosa por parte das pessoas. Essa foi uma das características mais marcantes da modernidade lá. Em relação aos EUA, enquanto a Europa se descristianizava, no século 19 e início do 20, lá aconteciam fortes movimentos de revitalização religiosa quase sempre relacionados com a doutrina do Destino Manifesto e mantiveram e ainda mantém a centralidade da religião na vida cultural. Só agora começa a haver um crescimento mais acentuado da descrença religiosa, mas ainda tímido se comparado a outros países ricos, inclusive o Canadá.

  6. Sandro Oliveira de Carvalho 31/03/2015 / 22:30

    Parabéns pelo texto, professor Bertone Sousa. Sua análise e o alerta que a acompanha chegam em bom e auspicioso tempo. Acabei de compartilhar em meu facebook.

  7. Ricieri 03/04/2015 / 17:19

    Professor Bertone, seguindo o comentário do colega acima, o Sr acha que o Cristianismo pode chegar a morrer na europa, pois pelo que ando lendo em sites religiosos as coisas estão feias lá para a fé cristã ? O senhor acha que o Secularismo europeu pode influenciar o Ocidente?

    Há alguns católicos que já dizem que estamos vivendo em uma sociedade pós cristã já .

    • Bertone de Oliveira Sousa 03/04/2015 / 19:22

      Ricieri, não apenas católicos, o conceito de pós-cristianismo também já é usado nas ciências sociais, mas não como juízo de valor, isto é, não como uma forma de rotular “desvios” da doutrina cristã ou dos evangelhos, mas como conceituação de importantes mudanças paradigmáticas dentro do cristianismo. Trabalhei com esse conceito em minha tese de doutorado. E só uma ressalva: o secularismo europeu é ocidental, talvez você quis perguntar se ele pode se estender da mesma forma para o restante do ocidente. Sobre isso e sobre a questão do definhamento da fé cristã na Europa, leia o texto “Pós-teísmo” cujo link coloquei ao final do artigo.

      • Ricieri 03/04/2015 / 20:02

        Entendi professor. Isso por um acaso é um reflexo ainda da revolução Francesa? A crescente descrença na europa é notória. Eu como ateu fico curioso com uma coisa : Porque nos últimos 100 anos tivemos tantas mudanças Sociais , econômicas e etc no Ocidente principalmente? Parece que Cultura Iluminista dos Estados Unidos prevalecerá …..

        Obs: O que quis dizer foi exatamente isso que o Sr falou > o secularismo europeu é ocidental.

        Não sou ateu radical, porém torço para que ocorra no ocidente uma descristianização, pois algumas coisas relacionadas a religião já começam a me assustar. George W. e Thomas Jefferson são ridicularizados nas escolas Cristãs. Os cristãos querem a todo custo destruir o legado do Iluminismo….

        Irei ler o artigo…

      • Bertone de Oliveira Sousa 03/04/2015 / 20:27

        Sim, a Revolução Francesa teve um papel importante no desenvolvimento disso. Mas a modernidade não é homogênea, se na Europa ela acarretou desfiliação religiosa em massa, desse lado do Atlântico provocou pluralização religiosa, por isso as filosofias de vida não religiosas, como o ateísmo e o agnosticismo ainda alcançam apenas uma pequena minoria, quer nos Estados Unidos ou aqui. Mas que os cristãos radicais querem anular o legado do Iluminismo, sim, é uma tendência que também vem crescendo. O caso do deputado que quer colocar na Constituição brasileira que todo poder emana de Deus é um exemplo disso. É preciso manifestar-se abertamente contra isso por todos os meios legais possíveis ou esses religiosos vão começar a colocar mordaças em quem diverge deles.

  8. Cesar Marques - RJ 06/04/2015 / 1:23

    “Protestantes pentecostais são os que mais se destacam nesse contexto.” – Com todo o respeito, pois sei que o senhor é estudioso dedicado do assunto, mas gostaria de mostrar minha discordância quando o senhor põem no mesmo balaio “protestantes” e evangélicos (neopentecostais). Para mim, são duas coisas diferentes. Protestante é uma coisa (Luteranos, Anglicanos, Igreja Episcopal dos EUA etc.) e evangélicos (neo)pentecostais (Catedral do Avivamento, Igreja Internacional da Graça de Deus, IURD) são outra, totalmente diferentes.

    • Bertone de Oliveira Sousa 06/04/2015 / 2:01

      Cesar, eles possuem, sim, diferenças, mas não no sentido que você coloca. Os pentecostais surgiram a partir da difusão de práticas oriundas dos movimentos de renovação religiosa de pietistas e metodistas, com forte expansão nos Estados Unidos e cuja ênfase nas doutrinas da salvação, santidade, dons espirituais e pregação religiosa originaram o movimento evangelical e não deixam de estar inclusos na pluralidade de segmentos que compreendemos por protestantes. Os Great Awakenings dos séculos 18 e 19 relacionados especialmente ao Metodismo formaram o plano de fundo que proporcionou o surgimento dos movimentos pentecostais. Evangélicos não formam um segmento apartado do protestantismo.

      • Cesar Marques - RJ 06/04/2015 / 2:19

        Insisto na divergência, professor. Embora os evangélicos neopentecostais tenham aí uma certa origem em igrejas americanas, não é mera coincidência que lá nos EUA eles no seio do protestantismo sejam minoritários, e aqui no Brasil eles sejam hegemônicos. Isso reflete, pra mim, que as igrejas neopentecostais sejam mais um fenômeno brasileiro do que propriamente americano. É mais fácil os americanos virem aqui pegar Know-how com os brasileiros do que o inverso.

        E onde pra mim, estão as diferenças que coloco entre os protestantes e os evangélicos neopentecostais? É que as neopentecostais não tem tradição histórica, não tem teologia e não tem reflexão nenhuma, sendo basicamente, meras igrejas caça-níqueis que oferecem um certo conforto psicológico a extratos sociais desamparados e respaldo a setores conservadores da “nova classe média” (que também é outra questão controversa).

      • Bertone de Oliveira Sousa 06/04/2015 / 2:26

        Cesar, novamente seu comentário está completamente errado. É claro que está no nível da opinião, mas historicamente errado. Busque umas leituras sobre isso, há bons artigos acadêmicos on line.

  9. Cesar Marques - RJ 06/04/2015 / 2:44

    Claro, eu não estou escrevendo um artigo acadêmico, estou apenas opinando em cima de algumas leituras superficiais sobre o tema, e pelo conhecimento razoável que tenho sobre a origem do Protestantismo.

    Mas seguirei sua sugestão, e procurar alguns artigos on-line e algum livro nas livrarias. Admito que preciso de um suporte melhor sobre o assunto.

    Abraços professor.

  10. Thiago Dantas 12/04/2015 / 10:02

    Bertone,

    Indo ao encontro do seu texto, gostaria de dar uma contribuição, não sei se vc esta a par destes fatos: http://www.genizahvirtual.com/2012/04/universal-explora-ala-evangelica-de.html.

    Certamente, a reportagem daquele site são extremamente sensacionalistas e as investigações ainda são inconclusivas, mas me parece que tem um fundo de verdade. Salvo engano tem uma antropóloga que se dedica a estudar a cultura evangélica em ambiente carcerário,cujas observações não destoam da sua.

    Abraço,

    Dantas

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