A inutilidade da Teologia

teologia“Teólogos são especialistas em nada”, afirma o físico da Universidade do Estado do Arizona, Lawrence Krauss, em seu livro Um Universo que veio do Nada: porque há criação sem Criador (Editora Paz e Terra, 2013). É natural que os teólogos se sintam ofendidos com essa afirmação, mas seu papel social foi reduzido a fornecer discursos confortáveis para crentes.

Há séculos a teologia já não possui qualquer papel de destaque na explicação do mundo e do cosmo ou, como diz o mesmo físico: “Invocar ‘Deus’ para evitar perguntas difíceis começando por ‘como’ é apenas preguiça intelectual” e “Isso reflete um ponto muito importante. No que diz respeito a entender como nosso Universo evolui, a religião e a teologia têm sido, no mínimo, irrelevantes”.

Em seu livro, Krauss argumenta que explicar que o universo surgiu do nada não é mais ridículo do ponto de vista científico. Na obra, ele problematiza o conceito de “nada” para apontar importantes avanços da física contemporânea que corroboram essa perspectiva. Recentemente, o papa Francisco declarou que as teorias da Evolução e do Big Bang estão corretas, mas por razões políticas muito compreensíveis, recusa-se a admitir que o acaso teve um papel predominante na formação de tudo o que conhecemos. Afirma-se comumente que desde Copérnico nossa posição no universo não é nada especial. Se pararmos para pensar que há apenas cem anos a comunidade científica tinha por certo que nossa galáxia era a única existente, podemos nos admirar de como a cosmologia avançou no entendimento do universo e de nós mesmos nesse breve século.

Por muitos séculos a teologia colocou-se como senhora da verdade. Tomás de Aquino, no século XIII, dizia que não cabe duvidar da revelação, pois Deus, como causa primeira, é o único conhecimento que basta para a mente humana e qualquer desacordo entre a revelação e a filosofia deve ser resolvido com a convicção de que a primeira nunca erra. Se a cristandade europeia tivesse seguido à risca esses princípios, jamais teria saído da Idade Média e ninguém contestaria a legitimidade das fogueiras da inquisição. O mesmo Tomás de Aquino também dizia que a “a sagrada doutrina é ciência porque parte de princípios conhecidos através da luz de uma ciência superior, que é a ciência de Deus e dos bem-aventurados”.

Os séculos de Copérnico e Galileu tiveram importância singular na formação da ciência moderna por terem mostrado, entre outros motivos, que a religião é incompetente para explicar o mundo. Logo ficou claro que a Teologia não poderia continuar competindo com ciências que lançavam mão da experiência e da observação para formular teorias que desconstruíam todo o edifício de verdades eternas que a  Igreja tentou manter a ferro e fogo até o século XVIII. Provar que a Igreja estava errada era retirar-lhe uma parte significativa da autoridade sobre as consciências, o que não foi feito sem que muitos tenham pago um preço alto com o ostracismo ou com suas próprias vidas para isso.

Embora a ciência moderna tenha permanecido fortemente atrelada à religião, o papel de Deus como causa primeira foi se tornando cada vez mais opaco e distante à medida que a compreensão dos fenômenos naturais foi se expandindo. Paradoxalmente, o ponto culminante disso veio de dentro da própria Igreja com a formulação da teoria do Big Bang pelo padre e físico Georges Edward Lemaître no início do século XX. É uma teoria que não demorou a ser validada empiricamente e que o próprio padre Lemaître afirmou ser alheia a qualquer concepção religiosa. Toda a cosmologia contemporânea está assentada sobre as evidências do Big Bang como toda a Biologia está fundamentada na Evolução. O que ainda leva muitas pessoas a rejeitarem essas teorias é mais a incompreensão delas do que a convicção profunda da existência de um ser supremo.

Mesmo que a ciência ainda possua lacunas e mistérios não explicados, como, por exemplo, o entendimento de como a matéria inanimada tornou-se vida, ela permanece sendo o único meio seguro para compreendermos a nós mesmos e o mundo que nos rodeia, como disse o físico Marcelo Gleiser em “Criação Imperfeita”: “Após quase 400 anos de ciência moderna, criamos um corpo de conhecimento que se estende do núcleo atômico até galáxias a bilhões de anos-luz de distância”. Esses avanços espetaculares hoje nos permitem compreender porque estamos aqui por uma série de acasos e não como parte de um projeto de criação. A teologia, por outro lado, sempre se mostrou mais um obstáculo ao conhecimento do que um incentivo a ele e nas sociedades democráticas se tornou apenas um campo de disputas intermináveis entre líderes religiosos medíocres.

Além disso, a ciência prolongou nossa expectativa de vida, nos imunizou de variadas doenças, melhorou e tem melhorado substancialmente nossa qualidade de vida, criou meios para a expansão do conhecimento, graças aos quais uma gama incontável de informações está disponível a virtualmente todas as pessoas, encurtou distâncias, revolucionou as comunicações. A teologia jamais conseguiu sair do campo da dogmática religiosa, a serviço da qual está a única razão de sua existência; por isso, quando tentou deixá-la, descaracterizou-se e fundiu-se com outras áreas do conhecimento, sem influenciá-las permanentemente.

A ciência moderna tanto mostra que não existe um plano ou propósito último como, em menos de meio milênio, nos proporcionou um conhecimento infinitamente mais abrangente do mundo do que a religião e a teologia em milhares de anos. Por isso, também pode nos oferecer um entendimento de nós mesmos, de nossa raridade, importância e até mesmo as bases de uma espiritualidade sem religião, sem com isso tornar-se uma nova religião. A Teologia, que Espinosa dizia ser a ausência de saber verdadeiro e apenas um poder tirânico com o objetivo de submeter as consciências a dogmas indemonstráveis, se tornou não apenas desnecessária, mas abjeta, ridiculamente anacrônica e incapaz de aceitar seu próprio fim enquanto metafísica. Mesmo a teologia natural ou as teologias sociais, que se mostraram em parte visões inovadoras, sofreram certo envelhecimento precoce e não desfrutaram de muito prestígio fora de alguns círculos no mundo desenvolvido. Por outro lado, as novas seitas e religiosidades dispensam lucubrações teológicas, pois seus adeptos estão mais preocupados com bem-estar pessoal e com uma felicidade terrena do que com a salvação em outro mundo. Por fim, não há mais nada que a teologia possa apresentar de novo ou ensinar, se tornou um saber inútil, avelhantado, obsoleto, um saber de “especialistas em nada”.

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37 thoughts on “A inutilidade da Teologia

  1. eli da silva duarte 25/01/2015 / 9:49

    Sergio da Mata não concorda com isso, ele defende a utilidade dos teólogos

    • Bertone de Oliveira Sousa 25/01/2015 / 14:30

      Eli, ele ressalta isso quando fala da passagem da teologia para a história acadêmica na Alemanha dos séculos 18 e 19 e até o início do 20 com Rudolf Otto; não propriamente uma utilidade, mas um diálogo entre as duas áreas. Mas hoje representantes das ciências naturais veem essa questão de forma diferenciada do que nas humanidades, principalmente porque essas ciências desconstruíram as pretensões de verdade da teologia no tocante à explicação do universo, deixando-a, digamos, desnuda entre as ciências.

  2. Reginaldo 25/01/2015 / 12:01

    Ótimo texto, obrigado. “Criação Imperfeita” do Marcelo Gleiser, está na minha lista, em breve irei comprar.

  3. Carlos 26/01/2015 / 14:32

    Ola amigos boa tarde. O que dizer de tal matéria?

    Durante uma entrevista da CNN, em Abril de 2007, em Rockville, Maryland, Francis S. Collins & MD Ph.D., diretor do Projeto Genoma Humano, reafirma que a informação incorporada no ADN prova a existência de Deus.
    Conforme o diretor do Projeto Genoma Humano, ele liderou um consórcio de cientistas para ler os 3,1 bilhões de letras do genoma humano. Como um crente, o Dr. Collins vê o ADN – a molécula de informações de todos os seres vivos – como a linguagem de Deus e na elegância e complexidade dos corpos e o resto da natureza, como um reflexo do plano de Deus. No entanto, ele nem sempre abraçou estas perspectivas. Quando era um estudante de pós-graduação em Físico-Química na década de 1970, ele era um ateu, não encontrando razão para postular a existência de qualquer verdade fora da matemática, física e química. Então ele foi para a faculdade de medicina e se deparou com questões de vida e morte nas cabeceiras de seus pacientes. Desafiado por um desses pacientes, que perguntou: “O que você acha, doutor?”, Começou a procurar por respostas.
    Em sua mente, o Dr. Collins admitiu que a ciência, que ele tanto amava, era impotente para responder às seguintes perguntas: “Qual é o sentido da vida?”, “Por que estou aqui?”, “Por que a matemática funciona, afinal?”, “Se o universo teve um começo, quem o criou?” “Por que as constantes físicas no universo são tão afinadas para permitir a possibilidade de formas de vida complexas?”, “Por que os seres humanos têm um senso moral?” e “O que acontece depois da morte?”
    Dr. Collins sempre assumiu que a fé foi baseada em argumentos puramente emocionais e irracionais e foi surpreendido ao descobrir, inicialmente nos escritos do académico de Oxford, CS Lewis e, posteriormente, a partir de muitas outras fontes, que se pode construir um caso muito forte para a plausibilidade da existência de Deus por motivos puramente racionais.
    Na verdade, o Dr. Collins diz que não encontra nenhum conflito aqui. Sim, ele também afirma que a evolução por descendência de um ancestral comum é claramente verdade. Ele afirma que, se havia alguma dúvida persistente sobre a evidência do registo fóssil, o estudo do ADN fornece a mais forte prova possível do nosso relacionamento com todos os outros seres vivos.
    De acordo com as palavras de Dr. Collins, ele descobriu que há uma harmonia maravilhosa nas verdades complementares da ciência e da fé. O Deus da Bíblia é também o Deus do genoma. Deus pode ser encontrado na catedral ou no laboratório. Ao investigar majestosa e impressionante a criação de Deus, a ciência pode realmente ser um meio de adoração.

  4. abner 26/01/2015 / 14:39

    Texto instigante professor; de fato, essas questões sobre a religião estão sempre na pauta do dia, principalmente com relação aos problemas de confusão entre as esferas pública e privada, algumas pessoas não compreendem a situação da esfera religiosa nos últimos séculos. Por falar nisso, você pretende escrever algum texto sobre o atentado ao charlie hebdo? É sempre interessante ter diversas opiniões a disposição.

    • Bertone de Oliveira Sousa 26/01/2015 / 15:23

      Abner, não especificamente a revista, mas as raízes do fundamentalismo islâmico, que ainda é muito incompreendido em nossa sociedade. Abs.

  5. Carlos 26/01/2015 / 14:43

    Olhem o que mais encontrei.

    Um dos cientistas mais conceituados na atualidade, o físico teórico Michio Kaku afirmou numa entrevista à revista Scientific American que passou a acreditar que uma força “rege” o Universo.

    Kaku desenvolveu uma teoria a partir do uso de um “semi-raio primitivo de táquions”, que são partículas teóricas, desenvolvidas para permitir o estudo mais aprofundado da física, e capazes de fazer qualquer matéria ou vácuo que entrar em contato com elas se “desgrudarem” do Universo, tornando a matéria objeto do estudo livre de influências do que houver ao redor.

    A tecnologia do “semi-raio primitivo de táquions” foi criada em 2005 – na ciência, é considerada recente – e representa uma simulação dos verdadeiros táquions. Os cientistas afirmam que a tecnologia ainda está muito longe de alcançar os táquions, mas o “semi-raio” produz, em escala subatômica – um efeito idêntico ao verdadeiro.

    Em seu estudo, Kaku descobriu que toda matéria estudada no ambiente do “semi-raio primitivo de táquions” – ou seja, “fora” do Universo – protagoniza o que ele chamou de “caos”.
    “Cheguei à conclusão que estamos em um mundo feito por regras criadas por uma inteligência, não muito diferente do seu jogo preferido de computador, claro, impensavelmente mais complexa. Analisando o comportamento da matéria em escala subatômica, a parte afetada pelo semi-raio primitivo de táquions, um minúsculo ponto do espaço, pela primeira vez na história, totalmente livre de qualquer influência do universo, matéria, força ou lei, percebi de maneira inédita o caos absoluto. Acredite, tudo que nós chamávamos de casualidade até hoje, não fará mais sentido. Para mim está claro que estamos em um plano regido por regras criadas, e não moldadas pelo acaso universal”, declarou Michio Kaku à conceituada revista científica.

    Até a comunidade cientifica está dividida. Será que a teologia é completamente ultrapassada?

    Espero ter meus comentários publicados para enriquecer o debate.

    Um abraço Professor.

      • Vanderlei 26/01/2015 / 16:53

        A impossibilidade de explicar tudo sempre existirá e, com isso, abrirá sempre uma janela de escape para a teologia. Numa situação hipotética em que alguém consiga explicar tudo, ou a teologia despareceria, prevalecendo a teoria do caos, ou Deus seria finalmente descoberto e explicado.

      • Carlos 28/01/2015 / 13:37

        Boa tarde professor. E quanto a esse comentário?

        Albert Einstein, o maior físico do século XX, admitiu: ” Para mim basta…meditar na maravilhosa estrutura do universo a nós vagamente perceptível, e tentar compreender humildemente nem que seja uma infinitésima parte da inteligência manifesta na natureza.”

      • Bertone de Oliveira Sousa 28/01/2015 / 13:54

        Carlos, Einstein não acreditava em um Deus pessoal, mas sua visão da espiritualidade era algo próximo de Espinosa e não tinha relação com a teologia cristã. Veja a esse respeito o vídeo com Marcelo Gleiser, na entrevista cujo link está ao final do artigo.

      • Bertone de Oliveira Sousa 29/01/2015 / 13:44

        Roni, essa é boa, hahaha. Isso confirma o que sempre digo a meus alunos: cuidado com as informações que colhem na internet, confiram as fontes e autoria, e se não houver ou não for confiável, descartem.

    • Arthur Virmond de Lacerda Neto 10/11/2015 / 22:24

      Não li o original , em inglês, de que se traduziu “táquion”, mas , na certa, a tradução correta é taquião, assim como não é bóson e sim bosão; elétron e sim eletrão.

  6. carloswilker 30/01/2015 / 15:32

    Caro Bertone, curso História e algo que chamou minha atenção é a maneira como a Igreja Católica é normalmente mostrada. Não sou católico, mas me deixa desconfortável em ver que muitos apenas repetem o que já ouviram. É sempre a mesma coisa: Igreja Católica fez isso e aquilo de ruim. Não estou querendo que fez ou não fez, mas a forma como isso é afirmado é que me inquieta. Parece um mantra que todo historiador tem que repetir. Penso eu que devemos ser o mais imparcial possível ao analisar determinado tema. No entanto, muitos do meio universitário já partem de um pressuposto no qual a Igreja Católica é vilão e ponto final. Tudo bem, aceito que fulano afirme isso e aquilo sobre algo. No entanto, que tenha dados, números, fontes. E algo prezo muito: que se conheça bem os dois lados da discussão (muitos evolucionistas já leram inúmeros livros de criacionistas, por exemplo). Abraço Carlos Wilker

    • Bertone de Oliveira Sousa 30/01/2015 / 21:17

      Carlos, você fez uma observação importante. Mas a questão também não diz respeito apenas a repetir o que já se ouviu, muitos podem fazer isso, mas não é o caso aqui. Como meu texto trabalha a questão da ciência e sua origem na modernidade, a posição da Igreja é apenas mencionada de passagem. A Igreja perdeu muito poder e território com a Reforma e suas consequências e antes disso com a difusão de movimentos de dissidência, o que contribuiu muito para suas posições refratárias à liberdade de pensamento, o que incluía, é claro, o pensamento científico. Imagine o quanto era difícil para o orgulho da Igreja admitir que Copérnico e Galileu estavam certos e ela estava errada por centenas de anos. É importante ter em mente que a modernidade foi um longo processo violento de emancipação das esferas de valor do domínio da religião e que a Igreja, habituada a deter os poderes sobre a vida espiritual e as consciências dos indivíduos, não apenas não aceitou a redução de sua influência, como também lançou mão de variados mecanismos para deter isso. Mas não apenas ela, os Estados nacionais também usavam a religião como forma de manter a unidade do reino. A Inquisição espanhola, por exemplo, foi mais um mecanismo acionado em favor da Coroa do que propriamente da Igreja. Por outro lado, é fato que do ponto de vista cultural a Igreja deu contribuições importantíssimas: criou universidades, orfanatos, preservou obras clássicas, lançou as bases da própria ciência moderna que depois contestaria sua autoridade e seu autoritarismo, patrocinou grandes obras artísticas do Renascimento italiano, entre várias outras coisas. Meu texto foca apenas o aspecto de como a ciência desbancou a teologia como método e como saber de explicação do mundo. Mas devo lembrá-lo, como estudante de História que você é, que não existe imparcialidade em nossa área; podemos falar de distanciamento do objeto, de não cometer anacronismos e evitar juízos de valor, especialmente em abordagens acadêmicas, mas nunca de imparcialidade. Mas falar sobre o papel da Igreja na preservação da cultura erudita requereria outro texto. Mas como eu disse, você levantou um ponto importante que é preciso estar sempre atento e esse é um ponto central de minhas críticas ao chamado “neoateísmo” e a muitos ateus de internet. Veja a esse respeito o diálogo que tive com outro leitor nos comentários desse texto:

      https://bertonesousa.wordpress.com/2012/11/26/por-que-nao-e-possivel-acabar-com-a-religiao/

      • Carlos Wilker 31/01/2015 / 13:14

        Eu sei que talvez tenha fugido um pouco do foco do texto, mas achei pertinente trazer isso. Obrigado.

  7. homemsemsobrenome 01/02/2015 / 11:36

    Ö, Bertone, não tem como não concordar contigo: a teologia é confessional e isso a torna mera apologia inútil da religião, ou uma tentativa constante de continuar a resignificar a religião em meio às contradições.

    Agora existem teólogos que vão pela análise histórico-crítica e que produzem coisas bacanas, que servem para o esclarecimento da religião e não para sua defesa. O melhor de todos no Brasil é o Osvaldo Luiz Ribeiro que, aliás, é detestado entre os próprios teólogos.

    Aqui tem o blogue dele, é realmente um pensador fabuloso: http://peroratio.blogspot.com.br/

    • Bertone de Oliveira Sousa 01/02/2015 / 14:06

      homemsemsobrenome, aí entra uma colocação que fiz no texto com outras palavras: quando a teologia enveredou pelo caminho da história e da crítica, assinou seu próprio atestado de óbito como metafísica, o historicismo a substituiu como estudo da religião e depois a Antropologia e etnografia; já os valores de uma cosmovisão transcendental foram deitados pela filosofia e filologia, depois pela ciência contemporânea e agora também pela proliferação de seitas e credos voltados para o indivíduo e o bem-estar pessoal. Não digo que não há bons teólogos historiadores e bons teólogos filósofos, mas eles são bons por serem historiadores e filósofos, não teólogos. As humanidades lançam mão da interdisciplinaridade em seus estudos, mas a teologia como saber está acabada e só subsiste entrando em outros campos como a fenomenologia ou tentando manter alguma autonomia através do fundamentalismo, e nesse caso, falando somente a crentes. Não sei se você leu, mas o texto “A ideia de Deus se tornou irrelevante?”, cujo link postei ao final do texto é uma entrevista que Lawrence Krauss concedeu à revista Época e elucida algumas dessas questões.

      • Furoa 03/03/2015 / 20:29

        Entendo seu ponto.

        Mas e os teólogos como o Rubem Alves? E quanto à Ciência da Religião?

  8. Desembargador Wilson Casagrande Júnior 06/02/2015 / 14:51

    As Olavete pira…

  9. Vagner 22/02/2015 / 14:47

    Em um mundo cada vez mais carente de valores é preocupante o ponto de vista daqueles que acham que a teologia não serve mais para nada, como se a tarefa de conferir significado para a existência não fosse algo relevante. Os neoateus parecem que estão vivendo ainda na renascença quando usam o termo “idade das sombras”, desconsiderando o papel civilizador que a igreja, portadora da herança cultural greco-romana, também exerceu naquela época em que se gestaram as condições para o nascimento da modernidade conforme demonstra a historiografia contemporânea. Para ocupar o lugar da religião, os sacerdotes de Darwin querem colocar a ciência, elevada ao grau de deusa reveladora de tudo o que é certo e verdadeiro. Se um cientista diz que o universo veio do nada, então isto é verdade incontestável, ainda que esta ideia seja, do ponto de vista da lógica, uma aberração pois pressupõem que algo existia antes de existir e pouco importa se o “nada” de Lawrence Krauss seja o vácuo quântico e não o nada absoluto da teoria Lemaître, que sofreu durante muito tempo resistência da comunidade científica, que desconfiava que o físico da igreja estaria misturando religião com ciência, ao afirmar que a o universo teve um início, tal como diz as escrituras, contrariando o senso comum da época entre cientistas que acreditavam que o cosmos era eterno. Ateus criticam os religiosos por conferir a Deus a explicação daquilo que não podem compreender, mas a solução que eles adotam não é nem de longe mais racional, pois eles colocam o acaso e o tempo no lugar de Deus. Para tornar crível a ideia de que um verme pode se transformar em ser humano acidentalmente, basta colocar alguns milhões de anos de intervalo e o problema está resolvido. O pior é que chamam está “sorte” de ciência.

    • Bertone de Oliveira Sousa 22/02/2015 / 16:45

      Vagner, o mundo não é carente de valores, pelo contrário, muitos valores não deixaram de ser estimados e cultivados: as noções de direitos humanos, honestidade, valorização da infância, proteção a idosos e mulheres, rejeição da violência e crueldade, o voluntariado, o senso de responsabilidade por gerações futuras, movimentos beneficentes de massa, etc. continuam em alta e nunca foram tão valorizados como em nossa época. E esses princípios e ações podem ou não estar ligados a entidades religiosas. E isso não tem relação com a teologia como saber, especialmente da forma como ela é abordada no texto: como saber que por muito tempo se outorgou o monopólio da verdade. Só por isso seu comentário já começou errado e confundindo coisas. Por outro lado, ninguém está negando a herança cultural deixada pela Igreja. Mas também não se pode desconsiderar que a modernidade representou mais de três séculos de luta contra o monolitismo da explicação do mundo representado pela Igreja, e contra sua postura de queima de hereges e proibição de investigação do mundo não alinhada a seus dogmas, no que as críticas realizadas pelos teóricos do Iluminismo francês estão entre os exemplos mais clássicos.

      Agora se o universo teve uma origem (como é hoje mais aceito), ou se é eterno, como alguns pesquisadores propõem, são questões que fazem parte da dinâmica da pesquisa científica e tem levado a discussões importantíssimas. E também qual é o problema de um cientista postular que o universo veio de nada, se não temos qualquer prova empírica de que ele foi criado por um ser que transcende o próprio universo? Se você leu o livro de Krauss, viu então que isso nada tem de “aberração lógica”, mas os argumentos do autor são colocados ali de forma cuidadosa para mostrar ao leitor como a ciência tem avançado nesse ponto. Talvez você pense que isso é uma “aberração lógica” apenas porque fere sua fé e descarta a possibilidade de um criador, da mesma forma como há meio milênio dizer que a Terra não era o centro do universo, que está em movimento e gira em torno do sol era uma “aberração lógica” para pessoas que se perguntavam por que então não somos sacudidos de um lado para outro com esses movimentos da Terra e também porque isso ia contra a constatação óbvia de que o sol estava em um lugar ao nascer e em outro ao se pôr, além de contrariar a Bíblia que diz que o sol parou. É por causa dessas “aberrações lógicas” para mentes crédulas que a ciência tem conseguido cada vez mais êxito em explicar o cosmo, inclusive no sentido de mostrar que ao invés de um planejamento perfeito o que se mostra é muito diferente disso. A Teologia se vê acuada porque desde Hume não tem mais argumentos para provar Deus, então só o que resta a muitas pessoas é a postura lamentável de tentar desacreditar a ciência quando não ratifica dogmas religiosos. Carl Sagan disse algo importante sobre isso, já coloquei em outra postagem mas vou repetir aqui para que outros leitores possam refletir e ainda resume bem a postura de seu comentário. Está no livro “Variedades da Experiência científica”:

      “Temos os Dez Mandamentos no Ocidente. Por que não há nenhum mandamento nos incitando a aprender? ‘Compreendereis o mundo. Desvendai as coisas’. Não há nada parecido com isso. E são poucas as religiões que nos incentivam a ampliar nossa compreensão do mundo natural. Acho incrível como as religiões, a grande maioria, adaptaram-se mal às verdades impressionantes que se revelaram nos últimos séculos”.

    • Vanderlei 25/02/2015 / 1:52

      Ainda que Deus exista, tenho imensa dificuldade em aceitar que “a igreja, portadora da herança cultural greco-romana”, é seu porta-voz. Devolvo em branco o formulário que me ofertam a maioria dos debatedores, onde eu deveria escolher apenas entre opções finitas: ateu, teísta, deísta ou algo que o valha. O rol de opções, no meu ver, sempre tem que estar aberto. Quem não aceita isso pode facilmente se tornar um radical.

  10. Marcus Canesqui 01/03/2015 / 0:06

    Olá professor!
    Parebens mais uma vez, excelente post. Realmente teologia é uma inutilidade, eu fico perplexo de ver pessoas formadas em teologia dando aulas de historia nas escolas, é um absurdo!

  11. Gustavo 11/11/2015 / 17:16

    Uma análise um pouco melhor 😉

  12. Ronald 11/11/2015 / 21:38

    O único senão do texto é a afirmação de que a ciência pode oferecer “até mesmo as bases de uma espiritualidade sem religião”. A ciência não oferece base para nenhum tipo de espiritualidade. (quem faz isso são as pseudociências) Isso só confirma a grande dificuldade que as pessoas têm (mesmo as mais inteligentes, vi algo aí acima sobre Michio Kaku) para se libertarem do paradigma da dualidade platônica-cartesiana – estão sempre buscando uma forma de sustentá-la. Entretanto, isso é facilmente resolvido com a leitura de bons livros sobre neurociência (como os do Kandel e Bear).
    Até mesmo o acessível livro do Sacks “A Mente Assombrada” é útil para se entender como o cérebro produz vozes e imagens subjetivas que ajudam a sustentar esse tipo de crença.

    A quem possa interessar:
    http://lelivros.pink/book/baixar-livro-a-mente-assombrada-oliver-sacks-em-pdf-epub-e-mobi/

  13. Gabriel Tavares 22/11/2015 / 23:57

    Professor Bertone Sousa,mas nós que somos ateus sim,a teologia é totalmente inútil,porque sabemos que Deus não existe,mas para os religiosos,ela é totalmente útil,já que eles possuem a fé na existência de um Deus,no sobrenatural,se encontra uma utilidade e necessidade para eles,o senhor não acha isso?

    • Bertone de Oliveira Sousa 23/11/2015 / 0:02

      Gabriel, sim, mas o texto é sobre a incapacidade da Teologia de explicar o mundo natural, algo que ela tentou por séculos e cujos erros depois se mostraram grosseiros.

      • Gabriel Tavares 23/11/2015 / 0:04

        Sim nesse ponto sim,não explicam nada,porque dificilmente fogem de uma explicação sobrenatural,mas eu já ouvi falar que existem teólogos ateus,o senhor que já foi cristão,e conhece mais a área,sabe se essa informação procede,se há teólogos mais racionais,que não se atentam tanto a falar sobre Deus,e que não são religiosos,nem crentes nele?

  14. Gabriel Tavares 23/11/2015 / 0:01

    Nós pensamos como Lawrence Krauss,“Teólogos são especialistas em nada”,mas e para quem acredita que Deus existe?O senhor mesmo em outros posts diz que não necessariamente a religião aliena e é irracional,então eu entendo bem o ponto de vista dos religiosos,se eles acreditam em um Deus,necessita haver uma forma para se discutir esse Deus,as diversas visões sobre ele,aí portanto,é necessário a teologia para se fazer esses debates,discussões,na maioria das vezes ele não chega a um consenso,como eu li no livro´´Como Jesus se tornou Deus ´´ do Bart Ehrman,até o quarto século,os teólogos se dividiam sobre se Jesus ser Deus ou não,precisou haver a interferência do imperador Constantino para ser declarada a divindade de Jesus,e calar os teólogos opositores,para eles,esses debates são bem interessantes,sobre as diversas visões de Deus.O senhor não concorda com isso?

    • Bertone de Oliveira Sousa 23/11/2015 / 0:08

      Gabriel, veja que meu texto menciona como a teologia foi absorvida por áreas com as quais veio a dialogar, como a linguística, a arqueologia, a história, a filosofia ou até mesmo o ativismo social, no caso da Teologia da libertação. A teologia teve que se reinventar pra não desaparecer, mas se tornou uma espécie de coadjuvante dessas outras áreas.

  15. Gabriel Tavares 23/11/2015 / 0:05

    E é certo que existem teólogos ateus,que são mais racionais,que não se apegam tanto ao sobrenatural?

  16. Gabriel Tavares 23/11/2015 / 0:07

    Por exemplo aqueles teólogos da alta crítica da Bíblia que surgiram na Alemanha,acho que no século XIX,que não interpretam a Bíblia literalmente,não acreditam em Adão e Eva,nem em Arca de Noé,Torre de Babel,essas passagens com referência ao sobrenatural,eles podem ser considerados ateus ou agnósticos?

    • Bertone de Oliveira Sousa 23/11/2015 / 0:11

      Não, não se pode dizer que eram ateus, mas estavam em sintonia com o pensamento iluminista que afastou a metafísica da explicação do mundo natural e humano e nesse ponto eles foram inovadores.

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