Socialismo e Nacional-socialismo: a esquerda e a direita autoritárias do século XX

Stalin_HitlerEm um texto anterior, discuti algumas características do comunismo a partir do recorte temporal que vai do período da tomada do poder pelos bolcheviques na Rússia ao fim da era Stálin, tomando por base a obra do historiador alemão Gerd Koenen, “Utopia do Expurgo[1]“, uma importante referência para quem quer compreender historicamente o comunismo (clique aqui para ler o texto). Um ponto importante discutido na obra é acerca da relação entre comunismo e nazismo e a qual ele dedica dois capítulos (8 e 10). Portanto, esse texto tentará responder às seguintes questões: o que havia em comum entre nacional-socialismo e socialismo? Quais as diferenças? É possível falar que as duas ideologias se encontravam em campos opostos (direita e esquerda)? Se sim, então por que ambas professavam o socialismo e até fizeram um pacto de não agressão? Se não, então por que guerrearam até a derrota completa e extinção de uma delas?

Koenen já inicia esclarecendo essa questão no início do capítulo 10 com uma observação muito importante:

Consiste, no objetivo insano, utópico, de um expurgo e de homogeneização da sociedade conforme critérios políticos, sociais ou racistas, a singularidade tanto do stalinismo quando do nacional-socialismo, que os destacou de todos os demais regimes e formações sociais da história humana até então conhecidos.

Trata-se, no entanto, de um paralelismo e não de uma identidade. Ao contrário:  é justamente a comparação direta que clareia as diferenças da situação inicial e da disposição dos respectivos projetos nacional e social-revolucionários. Nalguns aspectos os dois sistemas encontravam-se até em oposição diametral, isto é, representavam dois extremos da história do século 20.

[…] Não foi o nacional-socialismo uma reação ao bolchevismo nem foi o stalinismo uma reação ao nacional-socialismo. Foram simplesmente duas possibilidades extremas de uma política de violência tanto interna quanto externa, que se deram no mesmo espaço histórico, porém sob condições completamente distintas[2].

Até agora os textos publicados aqui sobre o comunismo ressaltaram mais o aspecto anti-humanista e totalitário que os regimes comunistas assumiram no século 20 e suas cruzadas contra inimigos reais e imaginários que os levou a dizimarem milhões de pessoas. Nesse artigo, porém, vou me deter numa problematização teórica sobre as diferenças entre nazismo e comunismo, uma relação que muitas vezes confunde a cabeça das pessoas.

Há meses tenho recebido ocasionalmente e-mails de leitores me pedindo esclarecimentos acerca dessas questões. Isso se deve ao fato de jornalistas da extrema direita brasileira (nenhum deles historiador) afirmarem que o nazismo era de esquerda e que o nome “socialismo” em sua sigla é uma prova de sua identidade com os movimentos revolucionários de esquerda. Também usam fotos e imagens de época para evocar as semelhanças nas posturas, nos gestos, discursos e práticas dos dois regimes. Além disso, eles dizem que a brutalidade com que os dois regimes tratavam suas vítimas é outra prova que irmana seus ideais e estratégias.

Outro engano está no fato de muitos acreditarem que a direita está relacionada apenas ao liberalismo econômico e a esquerda à intervenção do Estado na economia. Isso remonta à perspectiva de Friedrich Hayek, que na obra O Caminho para a Servidão, publicada originalmente em 1944, destaca que o abandono dos princípios do liberalismo e do individualismo defendidos pelos clássicos dos séculos 18 e 19 e âncoras das liberdades individuais que vigoraram na Europa até o início do século 20, abriu o caminho para as ideologias coletivistas, o Fascismo, o Nazismo e o Socialismo, baseadas no monopólio do Estado sobre a economia e inexoravelmente autoritárias. No entanto,  Hayek também assinalava que essas ideologias “diferem entre si na natureza do objetivo para o qual pretendem dirigir os esforços da sociedade”. Como veremos no decorrer deste artigo, não era apenas neste aspecto que essas ideologias se distinguiam. Por ora, cabe enfatizar que estatismo por si só não define um governo como direita ou esquerda; há questões históricas mais amplas que fogem a essa visão reducionista.

Infelizmente, esse tipo de abordagem deixa a história e a historiografia sobre o assunto de lado para adaptar os eventos a uma perspectiva ideológica e o que eles fazem é o que o historiador inglês Richard Overy chamou de “exercício fútil” para fazer os dois regimes parecerem “mais semelhantes um ao outro, ou tentar descobrir por avaliação estatística qual era o mais assassino”. Por isso, a ênfase que eles dão às vítimas do comunismo para igualá-lo ao nazismo ou mesmo “provar” que era pior termina tornando obtusa a compreensão dos dois fenômenos e de seus mecanismos de ação e recrutamento. Esse texto pretende aprofundar a discussão histórica sobre o tema e trazer alguns esclarecimentos aos leitores. Para os interessados em buscar mais leituras, as referências utilizadas serão indicadas em notas ao final do texto.

As duas ideologias no contexto do início do século

O primeiro ponto que é preciso levantar é que a equiparação entre nazismo e comunismo é falaciosa e não tem fundamentação histórica. Como disse Koenen na citação acima, um estudo comparado dos dois sistemas e das duas ideologias evidenciará alguns paralelos entre eles, mas não uma identidade. Ao contrário, para além das semelhanças, suas diferenças se mostram muito mais altissonantes e inconciliáveis, e Koenen não é o único historiador a dizer isso. Quando falamos de comunismo e nazismo, imediatamente remetemos à noção do totalitarismo para designar esses sistemas, e que, segundo o autor, consiste na “séria tentativa de registrar e remodelar, a partir de um único centro condutor, Estado, economia e sociedade, cultura e educação e, finalmente, também a vida individual dos cidadãos […], em síntese, o ‘totum’ de uma sociedade[3]“. Ter clareza desse conceito nos ajuda a estabelecer paralelos e apontar as aproximações e os distanciamentos entre eles.

Os dois sistemas emergiram em decorrência da Primeira Guerra Mundial, isto é, são rebentos da guerra total que resultou na decomposição da ordem social e econômica liberal oriunda do século 19 e, ao mesmo tempo, trouxeram para o plano da ação histórica outras ideologias também originadas naquele século: a da luta de classes, a da luta racial e o nacionalismo. As ideologias  que ganharam notoriedade depois da Primeira Guerra na Europa (Nazismo, Fascismo e Comunismo) e que tinham em comum o fato de serem antiliberais e antidemocráticas, já vinham ganhando terreno desde o final do século 19. Como doutrinas da violência que eram, estavam na ordem do dia após o conflito: na postura de seus principais representantes, a retórica e a violência se superpunham à razão e à ação.

Após a guerra o liberalismo ficou crescentemente desacreditado, cedendo lugar a Estados centralistas. Após a crise de 1929, ficou patente que o liberalismo era uma doutrina econômica falida e incapaz de reerguer as economias em crise. Enquanto o keynesianismo fornecia um modelo teórico às democracias e o socialismo soviético se mostrava como exemplo de sucesso de planejamento econômico, Hitler e seu partido nazista aglutinaram o apoio da burguesia e de conservadores temerosos; sem a crise e o fracasso do liberalismo, é pouco provável que os nazistas tivessem chegado ao poder. A partir de 1934 a esquerda e a direita autoritárias se mostravam como os modelos políticos a ditar o rumo da Europa. Um livro recente e essencial para se entender as diferenças entre essas ideologias é “Os Ditadores”, de Richard Overy. O livro consiste em um estudo histórico e minucioso acerca da União Soviética sob Stálin e da Alemanha sob Hitler. Com mais de 150 páginas apenas de referências, entre fontes consultadas e bibliografia, Overy escreveu uma obra magistral sobre o assunto. Ao falar sobre o impacto da Primeira Guerra para a ascensão dos dois sistemas, ele observa:

Os dois Estados sofreram uma hiperinflação que destruiu inteiramente a moeda e empobreceu qualquer um com riqueza monetária. Na União Soviética, isso serviu aos propósitos revolucionários arruinando a burguesia; na Alemanha, arruinou toda uma geração de poupadores cujos ressentimentos ajudaram a alimentar a subida posterior do nacionalismo de tipo hitlerista. Os dois Estados eram encarados como Estados párias pelo resto da comunidade internacional, a União Soviética por ser comunista, a Alemanha porque era responsabilizada pela eclosão da Guerra em 1914. Esse senso de isolamento empurrou-os para uma forma mais extrema de política revolucionária e o eventual surgimento da ditadura[4].

O que as duas ideologias tinham em comum é que eram antiliberais e anti-humanistas, de onde provinha seu desprezo pelo individualismo e sua ênfase no coletivismo. Mas suas razões de existir e seus objetivos eram diferentes e até antagônicos: a utopia soviética se via na vanguarda da emancipação da humanidade e da construção ulterior da sociedade sem classes, estágio mais elevado do progresso humano, e o nacional-socialismo era a ideologia de um povo, a legitimação de sua dominação sobre os demais e seu objetivo maior era a construção de uma ordem social baseada na hierarquia racial e na superioridade da raça germânica. As duas ideologias[5] se sobressaíram nas primeiras décadas do século 20 e se estabeleceram como doutrinas nacionais e por motivos diferentes. O regime bolchevista, após a percepção de que a revolução não ocorreria na Europa, voltou-se para a conquista de todo o território russo e a construção e consolidação do socialismo, o que implicou a caça e perseguição brutais aos kulaks e “inimigos do povo”, como foi discutido no texto anterior. Hitler pretendia expandir as fronteiras da Alemanha e subjugar militarmente a Europa, fundando um Reich de mil anos.

As raízes conservadoras do nacional-socialismo

A ideologia soviética via a história pelo viés econômico da luta de classes e a nazista pelo viés biológico da luta de raças. Isso levou um importante historiador a assinalar: “A centralidade do pensamento racial – bem como a ideia do assassinato maciço industrializado – constituiu a diferença básica entre o império de Hitler e o de Stalin[6]“. Portanto, essas cosmovisões distinguem radicalmente os dois regimes:

Enquanto o marxismo e os movimentos socialistas se originaram dos princípios da Revolução Francesa, o pensamento racista que antecedeu ao nazismo se formou como oposição a esses princípios. Embora esse pensamento tenha se iniciado na própria França, através de Arthur Gobineau, foi entre conservadores ingleses, como Edmund Burke, que o sentimento racial aliou-se ao nacionalismo[7].

Essa fala de Hannah Arendt é importante porque nos remete para as raízes conservadoras do nazismo. Edmund Burke (1729-1797) foi um teórico político e estadista inglês que, ainda no século 18, teceu fortes críticas ao pensamento social Iluminista que culminou com a Revolução Francesa de 1789. Embora ele considerasse que essas ideologias levariam a um reino de terror e ditadura, suas ideias nortearam o pensamento conservador que se opôs ao Iluminismo e à Revolução e sedimentaram a ojeriza que algumas elites conservadoras sentiam pelos ideais de liberdade e autonomia individual. Os conservadores criticavam no Iluminismo a ruptura com a tradição e com as crenças religiosas e morais, que eles julgavam ser “as únicas fontes legítimas de autoridade política. Os Estados não eram constituídos; eram apenas uma expressão da experiência moral, religiosa e histórica de uma nação[8]“. Com base nisso, eles atacavam os ideais de igualdade como abstrações perniciosas.

“Entre 1789 e 1815, duas concepções diferentes de autoridade guerrearam entre si: os direitos do homem de um lado e a sociedade hierárquica tradicional do outro[9]“. Enquanto a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão alterava a condição dos súditos e  reafirmava a primazia do indivíduo sobre as instituições, o pensamento de Edmund Burke com sua valorização das tradições e da sociedade hierárquica restringia a noção de liberdade e de direitos ao governo fundado em práticas de longa data. No século 19, esse pensamento acomodou-se ao conservadorismo nacionalista.

Isso porque a Revolução Francesa não produziu apenas ideais de liberdade e igualdade, mas também o princípio da soberania nacional. A revolução deu novo status ao Estado moderno ao romper com os privilégios de nascimento do Antigo Regime[10] e com a hegemonia da Igreja; isso pôs em evidência a importância do Estado-nação e da autodeterminação dos povos. Como reação a isso, emergiu a ideologia do nacionalismo, que desprezava as noções de igualdade e direitos individuais e enfatizava o senso de comunidade e auto-sacrifício como prova do orgulho de um povo por sua história e por suas tradições. A nação passou a ser frequentemente evocada como entidade escolhida por Deus para cumprir um ideal elevado para o qual fora destinada. A ênfase do nacionalismo no apego à tradição, a Deus e ao passado (como a glorificação da monarquia e da aristocracia hereditária) logo se tornou a força motriz do pensamento conservador que via com desconfiança as ideias revolucionárias e os valores burgueses do liberalismo. A Alemanha foi o principal cenário onde esse pensamento se desenvolveu, encabeçado pelo movimento romântico com a evocação de um passado místico e a negação do indivíduo, que só poderia ser pensado em sua ligação com o povo, a pátria e a comunidade nacional.  O pensamento nacionalista do século 19 rejeitava os direitos do homem para afirmar a força da nação com foco na etnicidade. “Os primeiros sinais de problemas futuros já podiam ser percebidos nas visões expressas no início do século XIX pelo nacionalista alemão Friedrich Jahn: ‘Quanto mais puro um povo, melhor’, ele escreveu. As leis da natureza, sustentava, operavam contra a mistura de raças e povos[11]“.

Somado a isso, o desenvolvimento da Biologia foi um importante catalisador das teorias do racismo e do antissemitismo que se difundiram na Europa a partir de então. Os estudos voltados para qualidades biológicas inerentes em determinadas raças levaram alguns povos a acreditar que apenas as melhores raças alcançariam a civilização. Por outro lado, a aquisição de direitos por parte dos judeus e a abolição da escravidão nas colônias britânicas e francesas levaram os teóricos do pensamento racial a buscarem na ciência a legitimação para afirmar a inferioridades das duas raças. Mas no final do século, a publicação na Alemanha do livro de um escritor inglês chamado Houston Stewart Chamberlain influenciaria diretamente Hitler: ele dizia que apenas dois povos ainda mantinham sua pureza racial e que por isso estavam destinados a lutar até que um extinguisse o outro: eram os arianos e os judeus. Portanto, aliado ao nacionalismo, o pensamento racista se desenvolveu de forma visceralmente avessa a toda noção de igualdade.

As orientações sócio-econômicas das duas ideologias no poder

Uma vez que o pensamento nazista se formou de uma matriz ideológica oposta aos princípios da Revolução Francesa, como disse Hannah Arendt e acabo de explicar, e os movimentos socialistas se originaram daqueles princípios, pode-se verificar que as semelhanças entre as duas ideologias quando chegaram ao poder no século XX são bem menores do que suas diferenças. Enquanto o nacionalismo se aliou a ideologias raciais com status de ciência no século 19 e evoluiu para uma postura cada vez mais segregacionista, o socialismo buscava ampliar a noção de direitos oriunda da Revolução Francesa no sentido de estendê-los às classes desfavorecidas. Ao questionar a propriedade privada e a insuficiência dos direitos políticos, o socialismo evoluiu para um pensamento revolucionário e antiliberal. Em 1843, Marx contestou a noção individualista da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão que apenas levava à noção de “homem egoísta” em detrimento da verdadeira emancipação humana que não poderia ser alcançada pela política, segundo ele, mas pela ação revolucionária focada na abolição da propriedade e no deslocamento da noção de homem abstrato, individual para a de homem genérico, organizado em forças sociais. No século 20, essa teoria cimentou a ausência de direitos individuais na sociedade soviética. Ainda em 1918 os bolcheviques proclamaram uma Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado, que pouco efeito teve na prática; por não assegurar direitos e liberdades individuais, deixou a sociedade à mercê do terror estatal que marcou toda a história do país sob o comunismo.

O nazismo, por outro lado, opunha-se tanto à direita liberal quanto às esquerdas (a social-democrata e a comunista) e associava todas elas ao judaísmo, que, segundo Hitler, as controlava para subjugar o povo alemão. O nome “socialista” na sigla do partido deveu-se a uma estratégia para se diferenciar de todas essas ideologias e ganhar o apoio da sociedade alemã, especialmente os trabalhadores, a quem pretendia cooptar e recrutar para reerguer a economia do país e fazer frente ao crescimento dos partidos e movimentos de esquerda. O uso da cor vermelha na bandeira também foi estrategicamente escolhido por sua vivacidade e facilidade de atrair a atenção. Hitler explicou essa estratégia em Mein Kampf. Além disso, a adoção do nome “socialismo” era antes uma provocação, segundo ele mesmo: “Neste mundo, porém, quem não se dispuser a ser odiado pelos adversários não me parece ter muito valor como amigo. Por isso, a simpatia desses indivíduos era por nós considerada não só inútil mas prejudicial. Para irritá-los, adotamos, de começo, a denominação de Partido para o nosso movimento, que tomou o nome de Partido Nacional Socialista dos trabalhadores Alemães […] A cor que escolhemos foi a vermelha, não só porque chama mais atenção como porque, provavelmente, irritaria nossos adversários e faria com que eles se impressionassem conosco[12]“.

Os adversários a quem ele se referia eram os comunistas e Hitler plagiou suas estratégias para cooptar o apoio dos trabalhadores a seu partido. Em “Minha Luta” ele detalha como foi influenciado pelas ideias socialistas sem, contudo, se unir ideologicamente a elas; antes copia-lhes os métodos de organização, propaganda, agitação e difusão para criar um partido que se lhes oponha frontalmente. Em “Minha Luta, ele escreveu:

A doutrina de Marx é assim o extrato espiritual concentrado das doutrinas universais hoje geralmente aceitas. E, por esse motivo, qualquer luta do nosso chamado mundo burguês contra ela é impossível, até ridícula, pois esse mundo burguês está inteiramente impregnado dessas substâncias venenosas e admira uma concepção do mundo que, em geral, só se distingue da marxística em grau e pessoas. O mundo burguês é marxístico, mas acredita na possibilidade do domínio de determinado grupo de homens (burguesia), ao passo que o marxismo procura calculadamente entregar o mundo às mãos dos judeus.

Em face disso, a concepção “racista” distingue a humanidade em seus primitivos elementos raciais. Ela vê, no Estado, em princípio, um meio para um fim e concebe como fim a conservação da existência racial humana. Consequentemente, não admite, em absoluto, a igualdade das raças, antes reconhece na sua diferença maior ou menor valor e, assim entendendo, sente-se no dever de, conforme a eterna vontade que governa este universo, promover a vitória dos melhores, dos mais fortes e exigir a subordinação dos piores, dos mais fracos. […]

Por outras palavras: o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães apropria-se nas características iniciais do pensamento fundamental de uma concepção racista do mundo; e, tomando em consideração a realidade prática, o tempo, o material humano existente, com as suas fraquezas, forma uma fé política, a qual, por sua vez, dentro desse modo de entender a rígida organização das massas humanas, autoriza a prever a luta vitoriosa da nova doutrina[13].

Hitler ganhou o apoio de industriais alemães, mas não foi controlado por eles. Seu regime garantiu a propriedade privada, estabilizou a moeda, construiu grandes obras, reergueu a indústria, pavimentou estradas, estancou o desemprego e garantiu qualidade de vida para a população alemã. Ele via seu partido como uma organização revolucionária, embora tenha chegado ao poder por meio de eleições livres.

Do ponto de vista econômico, os nazistas não possuíam um corpo doutrinário definido. Eles desprezavam na teoria marxista o princípio de socialização de todos os meios de produção e defendiam a existência de empresas independentes. Como a Alemanha foi arruinada pela crise de 1929, socialistas e nacional-socialistas, por motivos diferentes, pretendiam superar a ordem social burguesa marcada por conflitos de classes, egoísmo econômico e repetidas crises. Enquanto os socialistas preconizavam a revolução e a coletivização para a derrubada dessa ordem e construção da sociedade sem classes, o nazismo preconizava a conquista e o saque:

Sua concepção [de Hitler] tinha mais em comum com as tradições mercantilistas dos primórdios da era moderna, quando território, tesouro e recursos eram usurpados a ponta de espada sob a interpretação errônea de que a riqueza do mundo era finita […]. Hitler tomou emprestado da geopolítica popular da década de 1920 a ideia de que a questão primordial enfrentada por todas as nações era a limitação de espaço vital – a quantidade de terra e materiais necessários para sustentar a vida de uma determinada nação ou raça[14].

O termo “capitalismo de Estado” foi cunhado por um cientista social alemão exilado nos Estados Unidos na época para designar o modelo econômico do terceiro Reich, marcado por forte intervenção do Estado, disciplinarização da mão-de-obra e proteção do lucro privado. Tanto a direita antiliberal quanto a esquerda cultuavam o Estado e o viam como elemento indispensável para a construção da utopia, uma sociedade de super-humanos, onde racionalismo e grandeza moral se conjugariam na formação de um mundo melhor. No caso da Alemanha, o regime nazista se manifestava como um Estado de Bem-estar racial, com sua política eugênica, garantia do pleno emprego aos alemães e doutrina da superioridade da raça ariana. O conceito de “capitalismo de Estado” também é usado hoje para caracterizar o sistema soviético, uma vez que a propriedade privada também não foi extinta naquele país.

Tanto a economia soviética como a alemã eram economias de comando. E nesse ponto as semelhanças também não ocorrem por acaso: os nazistas não plagiaram apenas as cores, a organização coletivista e o nome socialismo de seus rivais: os economistas alemães também observavam atentamente como era conduzida a economia soviética e, como os planos quinquenais de Stalin, Hitler tinha o plano quadrienal com objetivos similares: investimentos na indústria pesada, substituição de importações e intercâmbio mínimo com o mercado mundial para salvaguardar as prioridades internas do país. Mas, segundo Richard Overy, nem a União Soviética era um socialismo puro nem a Alemanha nazista era propriamente capitalista. Os dois impérios tinham sistemas econômicos híbridos que se diferenciavam entre si mais pela forma como interpretavam a história, seu papel no cenário mundial e pelos objetivos das duas utopias do que pelo modo de produção predominante.

Desse modo, embora preservasse a existência da propriedade privada, o nazismo não era apenas capitalista, mas uma mistura dos dois sistemas e também não era de esquerda. Por isso usamos a designação extrema direita: Hitler acreditava que o capitalismo liberal era fraco e impotente para conter o avanço do bolchevismo sobre a Alemanha, condenava o parlamentarismo burguês como um sistema dominado pelo judaísmo tanto quanto o bolchevismo e fundou um partido que defendia um Estado forte e centralizado para se opor a isso, um partido e um Estado nacionalistas e racistas, ele sempre enfatizava. Diferentemente do socialismo, sua interpretação da história não era social (luta de classes), mas racial, nem pretendia estender os ideais de inclusão e igualdade social a todos, apenas à raça germânica. Aos outros, caberia a extinção pela guerra. Por isso também é preciso entender os homens a partir do contexto em que estão inseridos e no contexto das décadas de 1920 e 1930 a esquerda e a direita podiam compartilhar algumas ideias gerais muito populares de sua época, sem se confundirem ideologicamente.

Em uma época de impérios e darwinismo social, as noções de uma hierarquia racial eram onipresentes, e poucos europeus, da direita ou da esquerda, não acreditavam nas ideias de superioridade racial ou não aceitavam sua relevância para a política colonial. O chamado “racismo científico” era levado a sério e influenciava atitudes públicas[15].

A derrota na Primeira Guerra, a humilhação do Tratado de Versalhes, a inflação, o desemprego e a visibilidade dos judeus no pós-guerra forneceram a Hitler o fermento para a exacerbação do sentimento racista e antissemita na Alemanha: “A propaganda nazista transformou a suposição de uma conspiração mundial judaica de assunto discutível que era, em principal elemento da realidade nazista; o fato é que os nazistas agiam como se o mundo fosse dominado pelos judeus e precisasse de uma constraconspiração para se defender[16]“. Por outro lado, o medo do comunismo levou liberais e conservadores a apoiá-lo: “Muitos conservadores também estavam insatisfeitos com a democracia do entreguerras e ansiavam por uma volta a modos de governo mais elitistas, aristocráticos e eventualmente monárquicos. Achavam que o problema da democracia estava no poder que conferia às massas, em sua suposta incompatibilidade com a autoridade[17]“. Na Europa do entreguerras, a extrema direita chegou ao poder em países com pouca tradição democrática e apoiada por conservadores herdeiros do pensamento social anti-iluminista e aristocrático que remonta a Edmund Burke. Por isso o nazismo representava a direita.

Isso explica também o apoio da Igreja ao fascismo e ao nazismo, um assunto já bastante comentado na historiografia.  Os ideais da Revolução Francesa a que o nacional-socialismo se opunha também não eram bem quistos pela Igreja, uma instituição que se opôs a variadas conquistas da modernidade e teve seu poder muito reduzido com o avanço do secularismo na Europa. A Igreja, na verdade, não era fascista, mas o direcionamento conservador que tomou a partir do Concílio Vaticano de 1870 veio a colocá-la como aliada de Estados autoritários e corporativos que teve em países católicos seus primeiros experimentos, cujos sistemas políticos também agiam com forte apelo à tradição católica. Segundo Eric Hobsbawm:

[…] com menos frequência observou-se a considerável ajuda dada após a guerra por pessoas de dentro da Igreja, às vezes em posições importantes, a fugitivos nazistas ou fascistas de vários tipos, inclusive muitos acusados de horripilantes crimes de guerra. O que ligava a Igreja não só a reacionários anacrônicos mas aos fascistas era um ódio comum pelo Iluminismo do século XVIII, pela Revolução Francesa e por tudo o que na sua opinião dela derivava: democracia, liberalismo e, claro, mais marcadamente, o “comunismo ateu[18]“.

O nazismo jamais foi um movimento abertamente anti-cristão, nem Hitler era ateu, como os dirigentes marxistas da União Soviética e essa era outra importante diferença entre as duas ideologias. Enquanto em “Minha Luta”, Hitler deplorava a perda da fé religiosa na Europa,  particularmente na Alemanha e considerava a religião como um importante sustentáculo da vida moral numa sociedade, o socialismo, enquanto movimento herdeiro das Luzes, via as religiões como forças sociais a serviço das classes dominantes e legitimadoras da desigualdade e da opressão, o que levou as lideranças soviéticas a emplacarem um amplo programa de descristianização e desfiliação religiosa, sobretudo através da educação. O nazismo, a despeito de seu programa revolucionário, era avesso aos princípios revolucionários do bolchevismo. Por isso Hobsbawm os chamou de revolucionários da contrarrevolução.

Nacionalismo e internacionalismo

Uma característica da política soviética após a morte de Lênin foi a desistência gradual da revolução mundial e a consolidação do novo regime na Rússia. Essa foi uma preocupação de Stalin desde o início e uma de suas metas após assumir o poder. Stalin agia motivado pela preservação da revolução, por sua ampliação e via a si mesmo como o único líder bolchevique que possuía determinação suficiente para dirigir o país. Enquanto o nazismo possuía uma meta definida de extinção de outras raças, o comunismo não escolheu a priori suas vítimas, que foram sendo atropeladas à medida que o partido acreditava que elas poderiam interromper o caminho da revolução. “As consequências dessa determinação [de Stalin] para a sociedade soviética foram profundas e angustiantes, mas para ele devem ter sido justificadas pelo único imperativo de construir o comunismo[19]“.

Na União Soviética o nacionalismo jamais se tornou parte da ideologia governamental. Depois da invasão alemã em 1941, o partido apelou ao sentimento patriótico da população para combater os invasores, mas isso nem de longe se aproximava de um direcionamento nacionalista. Mesmo a ideia de Stalin de “construção do socialismo num só país” tinha um viés diferente do nacionalismo. Sobre o assunto, novamente Richard Overy:

A ideia […] foi muitas vezes mal interpretada como uma expressão de socialismo “nacional” – um deslocamento das aspirações internacionalistas do verdadeiro marxismo inspirado pelo Stalin mais “nacionalista”. Mas a ambição não era nacionalista em nenhum sentido reconhecível. Quando Stalin afirmou, em 1924, que “podemos construir o socialismo… por nossos próprios esforços”, expressava uma ambição social, não nacional. O malogro da revolução fora das fronteiras soviéticas obrigou a maioria dos bolcheviques a aceitar a visão sensata de que o socialismo teria de ser construído sem a ajuda de outros proletariados […]. Stalin nunca deu as costas à ideia de que a União Soviética devia continuar a combater o capitalismo e incentivar a revolução no estrangeiro; “o socialismo num só país” deu à União Soviética um lugar especial na liderança da luta mundial, mas não foi uma declaração de independência nacional. Se Stalin, na década de 1930, esperou que os cidadãos soviéticos expressassem um patriotismo soviético, foi por amor à única pátria socialista, não por soberba nacional […]. Embora, a partir da década de 1930, a ditadura começasse a identificar-se mais com um passado especificamente russo, ele sempre manteve a distinção entre a União Soviética como um Estado socialista de muitas nacionalidades e a nação como expressão de uma cultura particular e sem igual[20].

Enquanto Stalin não fazia distinção entre nações, Hitler as concebia como entidades inseparáveis da ideia de raça e as raças inferiores estavam destinadas a ser conquistadas e ter seus territórios tomados pelas raças superiores, dotadas de uma vontade maior de autopreservação e de uma capacidade extraordinária de produzir cultura e ciência e isso também embalava a diferença radical que os dois ditadores tinham da noção de Estado: “O Estado de Stalin era uma realidade multinacional sustentada por uma visão social e política distintamente não nacional; o conceito de Estado de Hitler baseava-se apenas na ‘preservação e intensificação’ de uma nação única, a cujos fins todas as ambições políticas e sociais deviam ser implacavelmente subordinadas[21].”

Disse anteriormente que o nacional-socialismo se caracterizava como um Estado de Bem-Estar racial, algo que inexistiu na União Soviética ou qualquer outro sistema socialista. Esse plano de fundo colocava os dois sistemas em campos opostos quanto a seus objetivos finais:

A utopia soviética buscada sob Stalin era uma utopia sociológica, cujo objetivo visava criar uma sociedade progressista baseada em torno da satisfação de necessidades humanas […]. A utopia alemã buscada sob Hitler era uma utopia biológica, dedicou-se à criação de um corpo racial puro, capaz de reprodução sob linhas demográficas estreitamente definidas. Mediam-se o valor e o bem-estar individuais em termos de utilidade biológica e valor de raça, acima de tudo a disposição de aceitar o sacrifício do eu pela sobrevivência da espécie […] É inteiramente cabível que o esforço de guerra [alemão] para construir tal utopia afundasse em malogro na guerra de 1945, pois esta foi a lógica do darwinismo vulgar que embasou o empreendimento – vitória ou derrota na luta pela existência[22].

O Estado soviético tinha uma posição formal contra todo tipo de discriminação racial aberta ou violenta, além de ser formado por variados grupos étnicos que jamais foram perseguidos por motivos raciais. As deportações em massa que ocorreram na União Soviética no final e após a Segunda Guerra não tiveram um padrão pré-estabelecido de corte racial. Embora grupos étnicos praticamente inteiros tenham sofrido deportação na URSS, as razões para isso tinham fundo político, não étnico. No caso da Alemanha, ao contrário, a “solução final”, a questão da eliminação dos judeus, ganhou contornos mais dramáticos a partir de 1941,  quando os alemães puseram em prática o assassinato em massa de judeus que durou, segundo Richard Overy, até 1944. Hitler via sua guerra contra outras raças, especialmente os judeus, em termos extremos de sobrevivência ou extinção.

A União Soviética era uma federação de nacionalidades, cujas identidades nacionais foram respeitadas na medida em que não comprometeram as ambições políticas centrais do regime […] Xenófoba e exclusiva, a Alemanha de Hitler viu-se em direta e violenta competição com todas as outras nacionalidades, trancada numa história perpétua de luta racial. As raças estrangeiras não podiam ser assimiladas sob quaisquer circunstâncias[23].

Não é possível compreender adequadamente as diferenças entre socialismo e nacional-socialismo se não se tiver clareza da importância e das raízes dos conceitos de internacionalismo e nacionalismo que norteavam as duas ideologias e as colocava em oposição tenaz.

Prisioneiros e países ocupados

Outra diferença entre os dois regimes está no uso que faziam do trabalho escravo, ou dos campos de concentração. A direita comumente usa analogias entre os campos nazistas e soviéticos para provar a similaridade entre eles. Havia homologias, é verdade, mas mesmo nesse ponto as diferenças também sobressaíam. No importante estudo que realizou sobre os campos de trabalho forçado na URSS, Anne Applebaum[24] ressaltou logo no início as diferenças que apresentavam com os campos nazistas: uma das mais importantes era que o Gulag (como era chamado o complexo de campos soviéticos) tinham uma função essencialmente econômica. Os “inimigos” que ali eram seviciados eram escolhidos de forma mais aleatória e vaga em relação aos inimigos do nazismo, judeus sobretudo. Esperava-se, na União Soviética, tornar esses trabalhadores “novos homens” reeducados pelo trabalho, por isso exigia-se que fossem produtivos. Apesar de milhões de pessoas terem morrido nesses campos, o Gulag não foi concebido como local de extermínio, ao contrário dos campos nazistas, onde os terríveis experimentos com câmaras de gás foram responsáveis pela morte de centenas de milhares de judeus.

Além disso, após a morte de Stalin, grande parte dos campos soviéticos foi fechada e milhões de prisioneiros libertos, algo impensável no nazismo, quando no fim da guerra a crueldade dispensada aos prisioneiros recrudesceu. É fato que a propagação de campos no século XX nos regimes totalitários evidenciou a aterradora capacidade desses Estados de produzir mortes em escala industrial, porém não houve nos campos da União Soviética nada semelhante ao Holocausto, nem eles foram organizados de forma proposital para produzir montanhas de cadáveres ou mesmo para serem instrumentos de terror como ocorreu com os campos Alemães. A semelhança nas placas de entrada dos campos, com frases sobre o trabalho nos dois países também não revelam a diferença na concepção de trabalho nos dois regimes, mesmo para os prisioneiros:

Os campos alemães foram criados com a intenção da violência contra inimigos da nação e o esforço de guerra. O trabalho era muitas vezes um caminho deliberado para a destruição. O trabalho no Gulag podia ser destrutivo, mas o objetivo era manter os prisioneiros bem vivos e bem o suficiente para continuarem trabalhando em todos, menos nos mais sinistros campos de punição[25].

Outras distinções também se manifestaram no final da guerra e após. Hitler perdeu o apoio dos países que ocupou porque no transcorrer do conflito ficou claro que o objetivo da Alemanha não era criar uma Europa unida com autonomia entre seus países membros, mas escravizar suas populações e extinguir os grupos étnicos considerados nocivos à pureza racial ariana. Ele poderia ter conseguido apoio até mesmo entre povos que formavam a União Soviética não fosse sua crença de que “os eslavos eram uma raça de escravos subumanos[26]“. No pós-guerra, a ocupação soviética em Berlim oriental e no leste europeu apresentou características bem distintas. Apesar do centralismo administrativo de Moscou, muitos países do leste não foram anexados à URSS e sua classe governante “foi menos elitista que qualquer outro governo da Europa oriental até então[27]“.

Além disso, na década de 1950, com a iniciativa de Kruschev de denunciar os crimes de Stalin, os campos de trabalho escravo foram fechados e seus prisioneiros libertos. O domínio soviético no leste europeu também pôs fim a décadas de instabilidade e crises econômicas. Com a derrota do nazismo em 1945, a política do nacionalismo racial foi substituída por um projeto de modernização econômica abrangente e inclusiva, com expansão da industrialização, universalização do sistema médico e consequente redução da mortalidade infantil a patamares ainda não alcançados na região.

Diferentemente dos alemães, que ocuparam a Europa oriental em função de seus interesses, a União Soviética cooptou e controlou as elites locais, dissipando as tendências nacionalistas e pondo em prática um programa de urbanização e industrialização que provocou profundas mudanças sociais e projetou economicamente a região sobre o restante do continente por algum tempo. Essas melhorias, contudo, culminaram em uma estagnação econômica a partir dos anos 1970 em decorrência da baixa produção de bens de consumo e da insatisfação popular com a ditadura e o centralismo administrativo de Moscou, elementos que depois se somaram à busca por independência nacional quando o sistema como um todo começou a desmoronar. Mas o importante a ressaltar é que as diferenças de objetivos e de governabilidade entre o sistema soviético e o alemão superam muito as semelhanças que tinham.

A cooperação entre Alemanha e União Soviética

Por fim, outro ponto a ser esclarecido diz respeito à colaboração entre eles com a assinatura do pacto de não agressão em 1939. Na verdade, o primeiro acordo militar da Rússia soviética com a Alemanha foi feito mais de dez anos antes de Hitler subir ao poder, quando o país era uma república democrática. Derrotada na Primeira Guerra, a Alemanha saiu do conflito com seu poderio militar extremamente enfraquecido e ficou mais vulnerável ainda com as proibições impostas pelo Tratado de Versalhes. O Tratado estabeleceu o fechamento das academias militares alemãs, assim como quartéis, campos de aviação e depósitos, a redução do exército a uma força policial de cem mil homens, a extinção da força aérea, a quase extinção da Marinha, que teve sua frota reduzida a apenas seis navios pequenos e trinta embarcações, o uso apenas de armas de defesa leves e veículos pequenos e impôs ao país a fiscalização de inspetores de armas de países aliados vencedores da Primeira Guerra. O que restou ao  governo alemão foi tentar reconstruir seu poder militar com o apoio dos russos. Em 1922, os dois países assinaram o tratado de Rapallo e a partir de então passaram a ter intensa cooperação tecnológica e militar. Dez anos depois, segundo Gerd Koenen, quase a metade das importações soviéticas em matérias de tecnologia era procedente da Alemanha. Quando em 1933 Hitler tornou-se chanceler na Alemanha isso não abalou as relações entre os dois países nem foi um evento visto com maus olhos na União Soviética. Paradoxalmente, a cúpula dirigente de Moscou desconfiava mais da social-democracia (que eles chamavam de social-fascismo) do que com o nacional-socialismo porque

A social-democracia alemã representava, de maneira particular, uma política de orientação ocidental; encarava a União Soviética com extremo ceticismo e estava disposta a defender a república contra quaisquer tentativas de golpe, fossem de direita ou de esquerda. […] De resto, a imprensa do KPD [Partido Comunista da Alemanha] titulava todos os partidos de “fascistas”. Além de social-fascistas havia também clerical-fascistas (o Centro), nacional-fascistas (os nacionalistas alemães) – e finalmente os fascistas nazistas ou de Hitler[28].

A ascensão de Hitler encerrou a cooperação militar entre Alemanha e URSS de forma amistosa. Foi uma cooperação que durou pouco mais de dez anos, no decorrer dos quais os exércitos alemães tinham permissão de fazer treinamentos em território soviético, longe dos inspetores dos países aliados, além de poder “estabelecer centros experimentais de pesquisas de tanques, armas químicas e de aviação na União Soviética[29]“, e ainda testar armas no próprio território soviético e a URSS importou tecnologia,  aprendeu a desenvolver um sistema bélico moderno e seus oficiais fizeram cursos na Alemanha. A cooperação transformou os dois países nas primeiras superpotências militares do mundo.

Se o pacto de não-agressão assinado entre os dois países em 23 de Agosto de 1939 desafiava a lógica das hostilidades entre fascismo e comunismo, os dois ditadores sabiam que uma guerra entre eles aconteceria cedo ou tarde. Stalin sabia que os países capitalistas entrariam novamente em guerra e a URSS não poderia ficar passiva e teria de entrar no jogo. O pacto foi um gesto estratégico de Hitler, que “precisava da neutralidade soviética enquanto era obrigado a combater as potências ocidentais[30]” e Stalin esperava que os países capitalistas se dilacerassem no conflito. Mas Stalin não esperava uma ofensiva de Hitler ainda em 1941 enquanto a Alemanha ainda estava em guerra com a Grã-Bretanha e subestimou o poderio do exército alemão. Os dois regimes viam a guerra como algo essencial, foram forjados numa guerra e a utilizavam com propósitos políticos, uma vez que se viam cercados de inimigos. “As duas ditaduras criaram metáforas de conflito permanente como um meio de legitimar o regime. O resultado foi uma disseminada militarização da vida política, em que as diferenças entre as esferas militar e civil se tornaram indistintas e indeterminadas, em meio às linguagens da guerra[31]“. Eram de dois sistemas políticos beligerantes, cujas divergências ideológicas cedo ou tarde os colocariam em lados opostos no campo de batalha e seus dois dirigentes sabiam disso.

Embora a URSS tenha modernizado seu poderio militar, o fato de Stalin ter destruído a base agrária do país com a perseguição brutal aos kulaks e ter eliminado importantes chefes militares e cientistas nos expurgos da década de 1930, deixando praticamente amadores na direção do Exército Vermelho, tornou a URSS bastante vulnerável à invasão alemã em 1941. As rápidas vitórias alemãs no território soviético evidenciaram o completo despreparo do Exército Vermelho diante dos nazistas. Em apenas um mês, nove décimos da força de tanques soviética foi destruída e as operações de cerco desbarataram a maior parte de sua linha de fronte. O treinamento e o aparato militar alemães eram bem superiores aos soviéticos, Richard Overy esclarece[32]. Koenen confirma essa abordagem e acrescenta que a derrota fragorosa do Exército Vermelho em 1941 não possui precedentes na história bélica. Depois de anos de conflito e heroicas resistências, a ajuda externa, especialmente britânica e norte-americana, foi fundamental para a União Soviética reverter a situação e vencer a guerra.

Conclusão

Quando vejo alguém dizendo que fascismo e nazismo eram ideologias de esquerda, só posso tirar duas conclusões: ou se trata de um completo ignorante em história, que papagueia o que leu ou ouviu de jornalistas de extrema direita ou documentários sensacionalistas sem conhecimento de causa, ou se trata de alguém que age de má-fé, com o intuito deliberado de lançar um engodo retórico para atrair mentes sugestionáveis. A despeito do caráter totalitário dos dois regimes políticos, Stalin era de esquerda e Hitler de direita. A identificação de Hitler como esquerda por causa do nome “socialista” em seu partido apenas evidencia a lamentável distorção histórica a que a direita se presta.

Ora, mesmo as noções de direita e esquerda não são conceitos estanques e devem ser analisadas a partir das características do contexto em que estão inseridas. Como vimos nesse artigo, a direita e a esquerda podiam partilhar ideias comuns no início do século XX, como o racismo científico (mais absorvido pela direita do que pela esquerda), um conjunto de princípios que, se no hoje nos soam como absurdos, estavam fortemente sedimentados no arcabouço científico daquelas primeiras décadas.

Por outro lado, a Primeira Guerra Mundial e o advento de novas tecnologias como o rádio levou à formação do que compreendemos como a “era das massas”, que deu à luz práticas discursivas e militâncias aclamadas tanto à direita quanto à esquerda. Na primeira, temos o culto à tradição, ao passado heroico e mítico e à figura de líderes redentores e que encontraram no fascismo e no nacional-socialismo seus lugares-comuns. Na esquerda, a exacerbação do discurso Iluminista com a promessa de futuro, do progresso pela via da revolução social, que o bolchevismo trouxe para o plano da história. O socialismo se tornou vitrine no período entreguerras, e foi apropriado e reinventado pela direita, que manteve em comum com a esquerda revolucionária o viés antiliberal e antidemocrático.

A direita se reinventou no período entreguerras e sob a sombra do ódio ao parlamentarismo e do anticomunismo, ela própria se tornou revolucionária. A propaganda, a organização de massas e a força do nacionalismo foram seus ingredientes para isso. O fascismo e o nazismo não se limitaram apenas a reagir ao comunismo, mas se tornaram eles próprios projetos de sociedade coletivistas da era das massas e emergiram como ideologias de organização do trabalho numa época em que a sociedade do trabalho estava em crise, numa época de fortes tensões sociais e de classes, cooptaram os trabalhadores, ganharam o apoio das classes médias e da burguesia industrial, embora não tenham se subordinado a elas e concentraram seus objetivos na propaganda, no culto ao líder e no esforço de guerra, a meta maior de Hitler para reaver os territórios perdidos em 1918 e pôr em prática seus princípios de conquista do espaço vital e eliminação dos judeus.

Pós escrito: Além das referências citadas neste texto e listadas abaixo, outra obra importante para compreender de forma mais abrangente o assunto é o livro Hitler, do historiador inglês Ian Kershaw (Editora Companhia das Letras, 2010). Nesta biografia magistral, o autor discute a relação do nazismo com a direita radical, a aversão de Hitler e de seus seguidores por todos os movimentos de esquerda, sua rejeição ao socialismo, o que levou aqueles que ainda pensavam que seu movimento possuía alguma identidade com o socialismo a abandonar o partido nazista, entre outras questões. Kershaw também argumenta que a fusão de socialismo e nacionalismo presentes na sigla do partido de Hitler não se baseava na moderna noção de socialismo, mas numa exacerbação do darwinismo social e do imperialismo do século XIX, de onde provinha a ênfase de “comunidade nacional” pensada não como um meio para promoção do bem-estar coletivo, mas como preparação para uma luta cruenta para a conquista e pela força e para a destruição do marxismo  – e por marxismo ele chamava genericamente tudo o que era de esquerda. No capítulo oito, ao dissertar sobre a visão econômica de Hitler, Kershaw afirma explicitamente que ele nunca foi um socialista. Em toda a sua obra, Kershaw deixa claro como o nazismo se constituiu e se expandiu como movimento de extrema direita. Em muitos aspectos ela complementa as que foram usadas para fundamentar este texto e é atualmente uma das mais importantes referências tanto para se compreender a trajetória de Hitler como ideólogo e líder como também do nazismo como ideologia e como movimento político.

Pós-escrito 2: Este texto foi publicado como artigo acadêmico na Revista Brasileira de História e Ciências Sociais com o título “Nazismo, Socialismo e as políticas de direita e esquerda na primeira metade do século XX”. O texto passou por algumas alterações para ser adaptado ao formato de artigo científico. CLIQUE AQUI para acessar e baixar.

Notas

[1] KOENEN, Gerd. Utopia do Expurgo: o que foi o comunismo. Ijuí, RS: Editora Unijuí, 2009.

[2] Idem, p. 247.

[3] Ibidem, p. 25.

[4] OVERY, Richard. Os Ditadores: a Rússia de Stálin e a Alemanha de Hitler. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2009, p. 20.

[5] Uso o termo ideologia no sentido que Hannah Arendt atribui ao termo em “Origens do Totalitarismo”, como uma doutrina que se arroga ser detentora da “chave da história” e do conhecimento das forças que regem a natureza e o homem.

[6] MAZOWER, Mark. Continente Sombrio: a Europa no século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

[7] ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

[8] PERRY, Marvin. Civilização Ocidental: uma história concisa. 3 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 384.

[9] HUNT, Lynn. A Invenção dos Direitos Humanos: uma história. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

[10] A noção de Antigo Regime nasce com a própria Revolução Francesa e, no pensamento dos homens do final do século 18 e início do 19, a revolução marca uma ruptura com uma ordem social caracterizada pela estrutura estamental, com forte continuidade com o feudalismo e o “absolutismo” monárquico como sistema de governo predominante. Cf. VOVELLE, Michel. A Revolução Francesa: 1789-1799. São Paulo: Editora da UNESP, 2012.

[11] HUNT, op. cit., p. 183.

[12] HITLER, Adolf. Minha Luta. 5 ed. São Paulo: Centauro, 2001, p. 265-266.

[13] Idem, p. 291-293.

[14] OVERY, op. cit., p. 410.

[15] MAZOWER, op. cit., p. 109.

[16] ARENDT, op. cit., p. 412.

[17] MAZOWER, op. cit., p. 38.

[18] HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 118.

[19] OVERY, op. cit., P. 36.

[20] OVERY, op. cit., p. 562.

[21] Id., p. 563.

[22] Ibid., p. 275-276.

[23] Ibid., p. 598.

[24] APPLEBAUM, Anne. Gulag: uma história dos campos de prisioneiros soviéticos. Rio de Janeiro: Ediouro, 2009.

[25] OVERY, op. cit., p. 622.

[26] HOBSBAWM, op. cit., p. 171.

[27] MAZOWER, op. cit., p. 275.

[28] KOENEN, op. cit., p. 177.

[29] OVERY, op. cit., p. 458.

[30] Id., p. 497.

[31] Ibid., p. 468.

[32] Ibid., p. 506.

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59 comentários sobre “Socialismo e Nacional-socialismo: a esquerda e a direita autoritárias do século XX

  1. João Paulo 19/10/2014 / 19:47

    Excelente post prezado prof. Bertone como é bom ver um colega de profissão ajudando e contribuindo para esclerecer tais assuntos tão dertupados. Só uma duvida com relação aod campos de exterminio na Alemanha existe um documentario com filmagens reis dos mesmos campos, se chama Memória dos Campos, lá mostra como funcionavam e que tipo de prisioneiros tinha a uma duvida sobre se os comunistas alemães tinha um campo especifico ou não havia esse diferença eram todos misturados isso vale para a questao do sexo também? Produzi um artigo sobre a ascenção do nazismo pena que foi antes do seu post pois teria um lugar nele. Um ultimo questionamento percebo uma certa semelhança nos discursor de odio pregado por extremistas aqui no Brasil nessas eleicões com os do século XX claro que com algumas ponderações. No mas parabéns prezado colega.

    • Bertone de Oliveira Sousa 19/10/2014 / 21:07

      João, nos campos de extermínio a separação era feita mas para raspagem do cabelo das mulheres, já que as vítimas eram imediatamente mortas nas câmaras de gás ou por fuzilamento ao chegarem. Somente alguns homens eram mantidos vivos para retirar os corpos das câmaras e enterrá-los ou cremá-los. Estes também não duravam muito e essa cota de trabalhadores era sempre “renovada”. Já em relação à direita brasileira, seu problema é que nunca superou a mentalidade escravocrata e aristocrática, mesmo quando finge ser liberal. Abs.

      • Robson Freitas 04/06/2015 / 21:32

        Eu insisto absolutamente em proteger a propriedade privada… precisamos encorajar a iniciativa privada!”

        – Hitler’s Secret Conversations” traduzido por Norman Cameron e R.H. Stevens. Farrar, Straus and Young, Inc. 1953. p. 294

        “Nesse tempo, abriram-se-me os olhos para dois perigos que eu mal conhecia pelos nomes e que, de nenhum modo, se me apresentavam nitidamente na sua horrível significação para a existência do povo germânico: marxismo e judaísmo.”

        – “Mein Kampf”, p. 12.

        Meu socialismo nada tem a ver com marxismo. Marxismo é anti-propriedade. O Socialismo verdadeiro não é.”

        – Francis Ludwig Carsten, The Rise of Fascism, University of California Press, 1982, p. 137. Hitler quote from Sunday Express.

        “Nos anos de 1913 e 1914 manifestei a opinião, em vários círculos, que, em parte, hoje estão filiados ao movimento nacional-socialista, de que o problema futuro da nação alemã devia ser o aniquilamento do marxismo” Mein Kampf, p. 69

        Fonte :http://pt.wikiquote.org/wiki/Adolf_Hitler

        Será que pelo menos da para algum idiota , pelo diveferenciar o marxismo implantado na russia , com o “socialismo” do Hitler ?

      • Wallace Marcelino 03/07/2015 / 0:49

        Professor Bertone..poucas vezes na internet vi textos e argumentos tão lúcidos. Acompanharei sua página agora direto..rs

  2. Pedro Henrique F. 19/10/2014 / 21:55

    Muito bom como sempre Bertone. Gostaria que houvesse mais de textos de qualidade como esse do que propagandistas que infestam as páginas de redes sociais ou as colunas de jornais de tabloide.

  3. leonor 19/10/2014 / 23:04

    Muito esclarecedor e didático, Bertone!
    Parabéns pela iniciatica!

  4. abner 19/10/2014 / 23:28

    Mais um excelente post, bertone. Fiquei com uma dúvida: apesar dos nazistas considerarem a religião algo fundamental para a sociedade, o que por si só já os coloca lado a lado dos conservadores clássicos, será que nós realmente não poderíamos afirmar que o nazismo era anti cristão, defendendo uma outra forma de religiosidade, já que em princípio o cristianismo segue uma linha universalista que não corrobora com a visão racista que o nazismo possuía? Um abraço.

    • Bertone de Oliveira Sousa 20/10/2014 / 0:03

      Abner, o nazismo estava ancorado num conjunto de crenças ocultistas e pagãs, completamente alheias ao cristianismo, por isso sua relação com o cristianismo era ambígua, não corroborava esse universalismo nem a doutrina do amor ao próximo. Mas isso não diz respeito tanto à doutrina, mas à formação cultural alemã especialmente depois da Reforma. Nas regiões protestantes houve uma aceitação fortíssima do nazismo, inclusive com a expulsão de pastores não arianos. Erich Fromm até fez um estudo interessante sobre as afinidades entre o nazismo e o luteranismo, uma vez que este prega a submissão do fiel ao poder temporal exceto nos casos em que a autoridade exija abjuração da fé; já se discutiu como o misticismo protestante também se acomodou ao misticismo nazista. O fato de o luteranismo ter se desenvolvido desde o século 16 nos meios aristocráticos e jamais ter partilhado de princípios democráticos também contribuiu pra isso.

      • abner 20/10/2014 / 12:09

        Interessante… Uma outra questão: você acha que o fato de muitos hoje ficarem afirmando que o nazismo era um movimento de esquerda se dá por um equívoco de pensar direita e esquerda usando parâmetros muito específicos e atuais? Explico: nós que estudamos história na faculdade temos noção de que um conceito não é algo imutável, que ele pode variar de acordo com as transposições geográficas e temporais. Ou seja, o conceito de direita e esquerda na política, desde quando surgiu enquanto divisão topográfica na Revolução Francesa, sofreu uma série de alterações. Porém, atualmente existe uma confusão de pensar a direita e a esquerda a partir da relação entre os movimentos e a sociedade com relação ao estado: quanto mais a direita o movimento é, na cabeça de alguns, mais esse movimento vai defender o estado mínimo; quanto mais a esquerda, maior a afirmação do estado máximo e da coletividade em detrimento do indivíduo. Mas essa é uma visão muito específica, desenvolvida enquanto ideologia principalmente da década de 1950 pra cá, e não dá pra ser aplicada universalmente em todos os casos. Então repetindo a pergunta, você acha que o equívoco das pessoas que afirmam que o nazismo era um movimento de esquerda se dá por essa visão limitada e atual do que é ser de esquerda e do que é ser de direita?

      • Bertone de Oliveira Sousa 20/10/2014 / 13:15

        Abner, eu diria que não apenas pela visão limitada, mas percebo que a direita sente muito desconforto em admitir que o nazismo era de direita, por causa do totalitarismo, do racismo, do Holocausto e todas aquelas coisas. E também o problema de confundir as nuances históricas que envolvem esses conceitos; isso impede muita gente de entender como o nazismo emergiu como movimento revolucionário de direita, embora não tenha precisado fazer nenhuma revolução pra chegar ao poder. Identificar a direita somente com o estado mínimo é mais do que um equívoco, é miopia histórica.

  5. gughart 20/10/2014 / 10:36

    Mais um excelente post,sr.Bertone,uma vez que não se dispõe de bons textos que consigam fazer a correta distinção entre Nazismo e Comunismo,embora existam obras como as que o senhor cita,não restando dúvidas de em qual lado se posicionava cada ideologia.Já recomendei seu blog a muitos amigos.Parabéns mais uma vez.

      • Daniel 21/10/2014 / 13:06

        Ótimo texto professor, e as olavetes piram quando colocamos o nazismo em seu devido espectro político, ou seja, não de direita e sim de EXTREMA DIREITA!!

  6. José Costa 20/10/2014 / 10:56

    Excelente como sempre, Professor.
    Já havia argumentado em discussões na internet sobre o fato de ambos regimes serem extremistas, e portanto, mais que ditatoriais, totalitários, o que lhes dá determinadas semelhanças práticas, mas que suas bases ideológicas eram completamente antagônicas, como bem explicado aqui.

  7. Gustavo Leite 20/10/2014 / 18:16

    Parabéns pelo artigo. Fontes bibliográficas ao invés dos meros achismos que englobam essas discussões. Espero que os que ainda levantem essa polêmica o leiam.

  8. vitorcardoso1 21/10/2014 / 10:30

    Excelente, como sempre. Fundamental destrinchar esse verdadeiro engodo criado por Olavetes e afins, típico do raciocínio raso e preconceituoso tão deflagrado por essa trupe. Conforme você mesmo diz, impressiona que a direita se preste à ignorância e desinformação apenas para destacar seu discurso datado, de medos da guerra fria.

  9. Anderson Silva 21/10/2014 / 19:31

    Professor Bertone,

    Parabéns por mais um excelente texto! É realmente algo maravilhoso se discutir política e História sem a miopia tão comum que vemos por aí. Quem dera tivéssemos mais discussões desse nível. Com certeza irei utilizar muitas das questões discutidas em sala de aula, e, se possível, o próprio texto.Os estudantes realmente merecem um material desse nível. Mais uma vez, parabéns!

    Anderson Silva

  10. Rodrigo 31/10/2014 / 4:06

    Parabéns, Professor. Texto extremamente bem escrito e fundamentado, servindo tanto aos que querem iniciar um aprofundamento, como para iluminar os que trilham caminhos obscurantistas, revisionistas e que prezam mais versões do que fatos. No que se refere à extrema-direta olaviana, encontrei diversas semelhanças nas passagens de “Minha Luta” acima citadas com o discurso do filósofo-astrólogo-biólogo-físico-matemático-geólogo-historiador-sociólogo-jornalista-embusteiro.

  11. Júlio César 02/11/2014 / 12:45

    Gostei muito do texto, mas quero fazer uma ressalva: você usou várias vezes o termo ”regime comunista” para descrever a experiência totalitária da URSS. Ora, sabemos que comunismo é o estágio onde não há mais estado oe classes sociais; ou seja. nunca houve ”regimes comunistas”. Por que vc não utiliza o termo ”stalinismo” ou mesmo ”socialismo real” – termo criado por Hobsbawm?!

    • Bertone de Oliveira Sousa 02/11/2014 / 13:27

      Júlio, na teoria marxista realmente o comunismo seria a sociedade sem classes e sem Estado. Mas usar a expressão “regimes comunistas” para as experiências do socialismo real não está errado pois também se usa o termo “comunismo” em um sentido sociológico, que se solidificou como referência aos regimes do socialismo realmente existentes. É a partir dessa perspectiva que os historiadores trabalham, inclusive o próprio Hobsbawm a utilizava vez ou outra. Um autor que trabalha dessa forma e explica porque utiliza a expressão é Archie Browm, historiador inglês e autor do livro “Ascensão e queda do comunismo”. Já falei sobre a abordagem dele em outro texto e vou repeti-la aqui. Nessa obra ele dedica um capítulo pra definir o comunismo no século 20 a partir de algumas características, que são: o monopólio do poder do Partido comunista; centralismo democrático (termo essencialmente leninista e que integrou todos os regimes comunistas); posse não capitalista dos meios de produção; domínio de uma economia de comando, em oposição a uma economia de mercado; propósito de construir o comunismo (isto é, uma sociedade sem classes e sem Estado) como objetivo final e legitimador; existência de um movimento comunista internacional e o sentimento de pertencimento a ele.

  12. Sérgio Rodrigues 04/11/2014 / 10:19

    Caro Bertone,

    Em discurso Perante uma Assembléia do Soviet de Moscou, Representantes de Várias Organizações, CDE, GQG e EMG, em 6 de Novembro de 1941; deixemos o próprio Stálin se defender e dizer a diferença:

    ………………………….”Quem são os nacional-socialistas, inimigos de nossa pátria? Em nosso país chamamos habitualmente os hitleristas, isto é, os invasores alemães, de fascistas. Os hitleristas, ao que parece, consideram que isto não é justo e insistem em denominar-se “nacional-socialistas”. Por conseguinte, os alemães querem fazer-nos acreditar que o partido hitlerista, o partido dos invasores fascistas, que assola a Europa e organizou a canalha agressão ao nosso Estado socialista, é um partido socialista.

    Será possível isso? Que pode haver de comum entre socialismo e os selvagens opressores hitleristas que saqueiam e oprimem os povos de toda a Europa? Pode-se considerar nacionalistas os hitleristas? Não é possível.

    Na realidade, os hitleristas já não são nacionalistas, mas sim imperialistas. Enquanto os hitleristas procuravam unificar as terras alemãs com a anexação do Reno, da Áustria, etc., poderiam ser chamados nacionalistas com certo fundamento. Mas, depois que se apoderaram dos territórios alheios e escravizaram outras nações européias, submetendo ao seu jugo os tchecoslovacos, os polacos, os noruegueses, os holandeses, os belgas, os franceses, sérvios, gregos, ucranianos, bielorrussos, povos bálticos, etc., começando assim a lutar pelo domínio do mundo, o partido hitlerista deixou de ser nacionalista, pois desde esse momento converteu-se em invasor, opressor, quer dizer, imperialista. O partido hitlerista é, assim, o partido dos imperialistas, o partido dos imperialistas mais rapaces e salteadores de todo o mundo.

    Pode-se considerar socialistas aos hitleristas? Não é possível. Na realidade, os hitleristas são inimigos jurados do socialismo, reacionários furiosos, que se parecem com os Cem Negros, que despojaram a classe operária e os povos da Europa das mais elementares liberdades democráticas.

    Para ocultar sua essência reacionária, os hitleristas acusam o regime anglo-americano de regime plutocrático. Mas na Inglaterra e nos Estados Unidos há elementares liberdades democráticas, existem sindicatos de operários e empregados, existem partidos operários, existe um Parlamento; enquanto que, na Alemanha, o regime hitlerista aboliu todas essas instituições. É suficiente contrapor estes dois fatos para compreender toda a essência reacionária do regime hitlerista, toda a falsidade charlatanesca dos fascistas alemães a respeito do regime plutocrático anglo-americano.

    No fundo, o regime hitlerista é uma cópia do regime reacionário que existia na Rússia sob o domínio tzarista. É sabido que os hitleristas arrebatam os direitos aos operários e aos intelectuais, tal como fazia o tzarismo; e que organiza também, com satisfação, as matanças de judeus, próprias da Idade Média, tal como o regime tzarista. O partido hitlerista é o partido inimigo das liberdades democráticas, o partido reacionário medieval, o partido dos pogroms, próprio dos Cem Negros. E quando esses imperialistas recalcitrantes e reacionários consumados se apresentam sob o rótulo de “nacionalistas” e “socialistas”, fazem-no para enganar o povo, para idiotizar os cândidos e para encobrir sua essência imperialista. São gaviões disfarçados em pombas. Mas, por maior que seja o número de penas de pombas que ponha o gavião, este nunca deixará de ser gavião…

    “É necessário, por todos os meios — escreve Hitler — conseguir para os alemães o domínio do mundo. Se quisermos criar o nosso grande império alemão, devemos, antes de tudo, eliminar os povos eslavos: russos, polacos, tchecos, eslovacos, búlgaros, ucranianos, bielorrussos. E não há motivo algum para que não o façamos”.
    “O homem — diz Hitler — é pecador inato: só pode ser conduzido pela força. Qualquer método é permitido para tratá-lo. É preciso mentir, atraiçoar e até matar, se a política assim o exige”.
    “Matai diz Goering — matai todo aquele que se manifestar contra nós. Matai, matai, que o único responsável sou eu. Por isso, matai”.
    “Eu quero emancipar o homem — diz Hitler — da humilhante quimera que se denomina consciência. A consciência, tal como a instrução, mutila o homem. Eu, por mim, não me detenho diante de nenhuma consideração de ordem morai ou teórica”.
    Numa ordem do comando alemão, dada ao 489.° regimento de infantaria, a 25 de Setembro, e que foi encontrada nos bolsos de um suboficial morto, lia-se o seguinte:

    “Ordeno que façam fogo sobre qualquer russo que apareça a uma distância de 600 metros”.
    A Alemanha tem a insolência de pregar a destruição da Grande Rússia, a pátria de Plekhanov, Lênin, Byelinsky, Chernoshevsky, Puchkin, Tolstoy, Glynka, Chaikowsky, Gorky, Chekov, Sichenov, Pavlov, Retin, Surikov, Suvorov e Kutuzov. Os invasores alemães pretendem fazer uma guerra de extermínio contra os povos da União Soviética. Devemos fazer-lhes a vontade. De agora em diante, a tarefa de todos os povos da URSS, a tarefa dos combatentes e instrutores políticos de nosso exército e de nossa marinha, deverá consistir no extermínio, até o último homem, de todos os alemães que penetraram no território de nossa pátria como invasores. Não deverá haver piedade para os invasores germanos.

    Somente os hitleristas, loucos e enfatuados, não conseguem compreender que a chamada “nova ordem” da Europa é um vulcão prestes a crepitar e cobrir com seus escombros o castelo de cartas de imperialismo fascista.

    Os alemães acham que Hitler procede da mesma forma que Napoleão, mas não devem esquecer-se do que aconteceu a este. A verdade é que Hitler se parece tanto com Napoleão, como um gato com um leão. Napoleão lutou contra as forças reacionárias, apoiando-se nas forças progressistas; enquanto que Hitler, apoiado pelas forças reacionárias, faz a guerra contra as forças progressistas. Somente os hitleristas de Berlim não conseguem compreender que os povos subjugados da Europa lutarão e levantar-se-ão contra a opressão hitlerista. Quem pode duvidar de que a União Soviética, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos darão seu mais amplo apoio aos povos da Europa em sua luta contra a tirania de Hitler?

    Enquanto estiveram entregues à tarefa de unificar novamente a Alemanha, que havia sido cortada em pedaços pelo tratado de Versalhes, os hitleristas contaram com o apoio do povo alemão, animado pelo ideal de restaurar seu país; quando, porém, Hitler abandonou o caminho do idealismo e iniciou a anexação de terras estrangeiras, subjugando outros países, produziu-se uma profunda corrente de opinião contrária à prolongação desta guerra sangrenta, que já dura dois anos, e cujo fim não se vislumbra ainda.

    Os milhões de vítimas humanas, a fome, a pobreza e as epidemias criaram, por toda parte, uma atmosfera de hostilidade contra á estúpida política de Hitler. Os hitleristas são os únicos que não se apercebem de que a retaguarda das tropas alemãs constitui um enorme vulcão, cuja erupção sepultará todos os aventureiros fascistas.

    A Grã-Bretanha, os Estados Unidos e a União Soviética foram colocadas dentro do mesmo campo de ação e propuseram-se a derrotar os imperialistas nazistas e seus exércitos invasores.”……………………………………………………………………..

  13. Alexandre Souza 20/11/2014 / 13:39

    O texto é muito bom e esclarecedor acerca de vários aspectos. Mas não definitivo (nem poderia sê-lo, por melhor que fosse). Enquanto houver dúvida sobre o que define ou delimita os polos direita e esquerda, a questão não estará resolvida. De definitivo, por enquanto, vejo que há (e sempre houve) extremismo dos dois lados (e são só dois?). E muito maniqueísmo também.
    PS: Do ponto de vista puramente prático, continuo achando que a “catalogação” direita x esquerda é reducionista e contraproducente. Para cada realidade, para cada caso ou política pública, há uma proposta acertada (que ora será “de direita”, ora “de esquerda”).

  14. Alexandre Souza 20/11/2014 / 14:08

    “A identificação de Hitler como esquerda por causa do nome “socialista” em seu partido apenas evidencia a lamentável distorção histórica a que a direita se presta.”

    E convenhamos, Bertone, tal atitude não é exclusiva da “direita”.

  15. Rogério 13/01/2015 / 20:02

    Já está na hora de fazer um post sobre Trotskiy, professor Bertone!

  16. jonas 14/01/2015 / 15:13

    Bom texto, irei procurar algumas das referências, mas uma dúvida surgiu durante a leitura, por que, na América do Sul, o peronismo e o getulismo hoje são mais identificados com a esquerda? Porque eu sei que Peron e Getulio eram identificados com o fascismo, não é?

    • Bertone de Oliveira Sousa 14/01/2015 / 19:28

      Jonas, eles flertavam com a direita, sim. O Estado Novo de Getúlio inspirou-se no fascismo italiano e manteve relações amistosas com a Alemanha nazista até o final da guerra; não foi à toa que Getúlio deportou a judia Olga Benário pra Alemanha; e Perón concedeu abrigo a vários elementos da cúpula nazista. No período chamado populista (pós-1945 no Brasil), porém, não há uma distinção rígida para designar esses governos de direita e esquerda. Se a política desenvolvimentista tinha um viés mais à esquerda, esses governantes jamais se identificaram como tais.

      • jonas 15/01/2015 / 7:42

        Valeu, muito obrigado pelo esclarecimento.

  17. inominavelser 20/01/2015 / 20:14

    Excelente, profunda e esclarecedora análise demonstrativa deste assunto, Professor Bertone, feito de modo lúcido e ciente dos esclarecimentos propostos pela mesma. Tive a sorte de ter tido bons professores de História e esta até hoje me fascina; desde a adolescência, as diferenças entre os dois sistemas eram-me particularmente visíveis. Quem diz que o Nacional-Socialismo é de Esquerda sofre ou de amnésia com relação ao que aprendeu na escola ou age de má fé para aproveitar o momento de ódio contra o Esquerdismo que os reacionários da Direita Brasileira atualmente pregam. Todos deviam ler este texto.

  18. Carlos 22/02/2015 / 10:45

    Tá, Você compara Hitler a Stalin e determina que um é comunista e o outro é de direita devido a divergências governamentais, mas se esquece do fundamental: Quem disse que o socialismo se resume a Marx? Socialismo é anterior as idéias lunáticas de Karl Marx. Hitler era de esquerda mas teve o mínimo de inteligência de saber que o comunismo era uma imbecilidade falaciosa .Mas a questão é essa. Hitler era SOCIALISTA, o que não quer dizer que seja COMUNISTA, que é algo distinto. Comunismo é pensamento Marxista. Hitler se opunha ao pensamento Marxista, tanto é que criou o “nacional socialismo” que difere do comunismo. Dizer que Hitler era de extrema direita é de uma desonestidade intelectual absurda.
    Hitler criou o próprio socialismo. Há várias vertentes do socialismo, o utópico, cristão ,cientifico… Você não pode simplesmente negar isso definindo que o Marxismo é o socialismo ideal e julgar essa questão por uma ótica exclusivamente marxista, eliminando os demais. O fato é que Hitler era sim socialista.

    • Bertone de Oliveira Sousa 22/02/2015 / 14:56

      Carlos, em nenhum momento estou dizendo que o marxismo é o socialismo ideal. A distinção entre socialismo utópico e científico foi estabelecida por Engels num escrito de 1880 (https://www.marxists.org/portugues/marx/1880/socialismo/). E a ideia de comunismo é anterior ao pensamento marxista. No segundo tópico do texto, “As raízes conservadoras do nacional-socialismo”, deixo claro quais ideias nortearam as duas ideologias. O socialismo, independente das variações que ganhou na segunda metade do século 19, é herdeiro das Luzes e da Revolução Francesa. Também está bem claro no texto, quais foram as ideias e princípios que originaram o nazismo como movimento político e por que se situavam à direita, como, por exemplo, a emergência do nacionalismo enquanto ideologia que se opunha aos princípios de igualdade e universalismo originados na Revolução Francesa. Depois disso, o texto foca no marxismo e no modelo político soviético pela importância que tiveram no século 20. E sem uma compreensão adequada disso, nem é possível entender a emergência do nazismo. O texto também deixa claro que Hitler imitou os modos de organização e propaganda dos movimentos de esquerda, o que inclui a escolha do nome “socialismo” em seu movimento. Mas o próprio termo “nacional-socialismo” não era enganoso e já resumia muitos princípios do programa de partido de Hitler: objetivava-se conservar a propriedade privada, as empresas privadas e incentivar o sentimento nacionalista sob um Estado forte que pudesse combater os inimigos (incluindo as esquerda, que foi o que os nazistas fizeram) e impedir que o pais afundasse em outra crise econômica. Hitler era um nacionalista e racista que usou a designação socialista para cooptar os trabalhadores e até se inspirou no modelo de planejamento estatal soviético para reerguer a economia alemã. Por isso o nome “nacional-socialismo” já identifica o partido como direita e desse modo o texto é claro em mostrar que nacional-socialismo não é socialismo e portanto não é de esquerda. Sobre o uso do termo “comunismo”, ele é aqui utilizado numa perspectiva sociológica, como expliquei ao Julio aí acima. Essas questões só podem ser compreendidas historicamente para se evitar confusões.

      • Carlos 23/02/2015 / 9:56

        Hitler acreditava que o nacional socialismo era o verdadeiro socialismo. De forma excludente entende-se que todos os outros seriam imperfeitos. O racismo de Hitler aliado a sua ideologia protecionista corroboram com o seu nacionalismo étnico. Não consideraria Hitler de direita pelo viés nacionalista, pois há até um nacionalismo de esquerda de “libertação nacional” anti-imperialista.
        O problema está em contrapor a ideologia de Hitler utilizando-se de conceitos marxistas. O marxismo é apenas uma dentre outras vertentes do socialismo, por mais imperfeita e falaciosa, é tida como um paradigma quando o assunto é socialismo. Esse é o âmbito da questão: Como dissociar o socialismo do pensamento marxista? Todos aqueles que vejo tentar refutar o argumento de que Hitler era de esquerda se utilizam de conceitos marxistas, que sabemos serem repudiados por ele. O que não é suficiente para defini-lo como direita.
        Tendo o pensamento marxista como paradigma, qualquer outra forma de socialismo, socialismo real, mesmo aqueles com pretensão comunista podem ser negados como socialismo. Há quem diga que o genocídio decorrentes de governos de pretensão comunista não são de responsabilidade comunista porque o comunismo nunca existiu de fato. ”Deturparam Marx”. O que é estupidez, é como negar a autoria de um crime pela falta de êxito. Outro problema é definir automaticamente tudo aquilo que fracasse como comunismo/socialismo de direita. Vejo pessoas que dizem até que o PT é de direita.
        Há de se levar em consideração que Hitler fez uma mixórdia de idéias, dentre estas de caráter socialista,fascista…
        No meu entender socialismo era uma oposição ao status quo da sociedade emergente no período de revolução industrial, tendo como base os ideais da revolução francesa. O objetivo da revolução francesa não era apenas mudar a estrutura do estado mas também de abolir a forma da sociedade feudal, do antigo regime. Daí o caráter secular do movimento.Devido a revolução industrial, a sociedade sofreu uma mudança drástica, advindo daí a necessidade de estudo dos fenômenos sociais, dando inicio ao que seria chamado de sociologia.
        Fica difícil classificar Hitler como direita ou esquerda se não há um consenso do que é o socialismo pleno, a menos que se entenda socialismo como marxismo. Também não o empurraria para a direita, pois há até governos socialistas com características liberais, liberal socialistas. Há quem prefira defini-lo como extrema direita, para isso atribuem-lhe características comuns a extrema direita como racismo, totalitarismo,nacionalismo, xenofobia… Que não são exclusividade da direita. Dessa forma poderia caracterizar de extrema direita o Che Guevara, pois segundo aqueles que lutaram ao seu lado ou conviveram consigo ele era tudo isso, como mostra o documentário ‘Che Guevara, a anatomia de um mito’. Enfim direita e esquerda se encontram nos extremos.
        Acho errado atribuir a Hitler um coletivismo vertical(hierárquico), sabendo que ele prezava por um coletivismo horizontal(igualitário) baseado na supremacia da raça ariana. Para isso é necessário a criação de um estado forte. Enquanto o comunismo aspirava uma luta de classes, o nacional-socialismo promovia uma luta de raças.Vejo um problema quando tentam incutir a Hitler um coletivismo vertical levando em consideração aspectos de âmbito industrial/econômico. Não é como se o nazismo promovesse uma estratificação social no seu plano de governo (até onde sei), tratava-se mais de uma identificação,isolamento e exclusão de grupos ditos inferiores.
        A impressão que tenho é que tudo aquilo que não se enquadra no paradigma marxista automaticamente é posto na conta da direita inclusive o socialismo fascista de Hitler.
        Não sou historiador nem nada, apenas queria tirar essa dúvida.

      • Bertone de Oliveira Sousa 23/02/2015 / 17:28

        Carlos, o problema é que você está confundindo as coisas, inclusive conceitos. O marxismo-leninismo e o modelo centralista que se estabeleceu na Rússia após a Revolução bolchevique inspiraram a direita na Itália e na Alemanha a criarem também estados centralistas para combater e impedir o avanço daquele regime. É por isso que parafraseio Hobsbawm no texto quando ele diz que os nazistas e fascistas eram revolucionários da contrarrevolução. E num certo sentido eram mesmo. É como eu disse a você, não é possível entender a formação desses regimes sem entender a importância do marxismo na Rússia e no restante do continente após 1917. Agora misturar isso com PT ou deturpações de Marx não vem ao caso e só causa uma confusão dos infernos. Você não entendeu que não estou utilizando conceitos marxistas para analisar o nazismo. Alguns conceitos marxistas são evocados em alguns pontos por causa desse peso que teve nas formações políticas do início do século passado. Mas meu texto nem mesmo é marxista. A maior parte dos historiadores citados aí não são marxistas.

        Esquerda e direita são conceitos que remontam aos lugares ocupados por representantes do Estados gerais na Assembleia Nacional francesa antes da revolução. Esse texto traz algumas elucidações a respeito:
        http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2013-09-25/uma-licao-basica-de-politica-o-que-e-direita-e-esquerda.html

        Já as lutas por libertação nacional não tinham um viés nacionalista, mas eram voltadas para o princípio de autodeterminação nacional, no sentido de luta pela soberania de um Estado diante das metrópoles colonizadoras. Esse é um princípio do início do século 19, que após a chamada Questão das nacionalidades, em 1815, teve importantes repercussões em lutas por soberania nacional tanto no século 19 como no 20. Esse princípio também tem raízes na Revolução Francesa, já o nacionalismo é uma ideologia voltada para a afirmação da superioridade de um povo sobre outros e se afirmou como contraposição aos ideais de liberdade e igualdade (universais) da Revolução Francesa. Na Alemanha, o nacionalismo brotou cedo por causa da filosofia de Fichte, que já em 1808 afirmava que o povo alemão é o único que tem o direito de ser chamado de povo, e desenvolveu essa concepção até as últimas consequências, com o apelo a uma Providência histórica que escolhera uma determinada nação para dominar. Meu texto expõe essa ideia e é claro nesse aspecto. Está vendo agora como você está confundindo coisas? Você não vai entender o nacional-socialismo como movimento de direita se não entender a historicidade desses conceitos e desses movimentos. O socialismo como movimento herdeiro da Rev. Francesa é universalista em suas pretensões de igualdade e emancipação. O problema da direita que afirma ser Hitler de esquerda é que seu argumento é redutivo e sem fundamentação histórica. O que eles dizem se resume a isso: “O nazismo tinha o nome socialismo na sigla e era um movimento revolucionário. O socialismo é de esquerda e é revolucionário. Portanto, o nazismo era de esquerda”. Esse argumento joga a história no lixo e é fácil de ser assimilado por quem tem pouca leitura. Meu texto desconstrói isso. Busque essas leituras e um bom dicionário histórico e filosófico para melhor domínio de alguns conceitos.

  19. Carlos 23/02/2015 / 19:14

    Talvez tenha me equivocado no termo nacionalismo de “libertação nacional anti-imperialista”. No caso ,me referia ao nacionalismo de autodeterminação de países socialistas diante da influência externa. Como exemplo o anti-americanismo.
    Você diz que o nacionalismo se contrapõe aos ideais de liberdade e igualdade (universais) da Revolução Francesa, achava que o nacionalismo tinha surgido na revolução francesa, segundo a qual o povo era soberano em detrimento de um rei ou da igreja. Como a ideia de nação é ligada a noção de raça, território, idioma e religião, acho que posteriormente surge o nacionalismo xenófobo. O governo de napoleão pode ser considerado nacionalista?

    • Bertone de Oliveira Sousa 23/02/2015 / 23:22

      Não, Napoleão não queria transformar os países que ocupava em colônias ou escravos, mas derrubar monarquias, enfraquecer a Igreja e levar os valores da Revolução. Apesar de ter convertido esses países em reinos satélites da França, ele queria estender as reformas da Revolução para todos eles, como a abolição da servidão, a igualdade perante a lei, etc. Suas campanhas militares e suas políticas internas na França se direcionavam contra o Antigo Regime. A ideia de soberania vem da Revolução, mas o nacionalismo se desenvolve depois e com princípios diferentes, como os que apontei.

  20. Murillo 23/03/2015 / 22:11

    Prof. Bertone, você tem algum material a respeito do fascismo italiano?

    Em determinado trecho você diz “O Estado Novo de Getúlio inspirou-se no fascismo italiano e manteve relações amistosas com a Alemanha nazista até o final da guerra”.

    No entanto, a associação que me foi apresentada anteriormente, em outros lugares, ressaltava a formação socialista e nacionalista do Mussolini, tendo como meta o antiliberalismo e o capitalismo. Ainda, apontam que, como político, tinha orientação anticomunista também.

    A ligação que você faz do fascismo à direita é baseada na questão racial, como no caso do nazismo?

    Obrigado pelas postagens, Prof.!

    • Bertone de Oliveira Sousa 23/03/2015 / 22:27

      Murillo, na verdade o que caracterizava o fascismo não era essencialmente a questão racial como no nazismo, mas o culto ao Estado, ao líder e à tradição como contrapontos à esquerda e ao socialismo. De fato, Mussolini militou em organizações socialistas na juventude, mas se voltou contra elas depois. Duas leituras atuais e essenciais pra se entender Mussolini e o fascismo são “Mussolini e a Itália fascista”, de Martin Blinkhorn e “Fascismo: conceitos e experiências”, organizado por Maurício Parada.

  21. Francisco Cavalcante 04/05/2015 / 23:32

    Gostaria de parabenizá-lo pelo texto, bem explicativo, e pela paciência com que trata os internautas que se mostram às vezes cheios de si embora vazios de razões.
    Com relação ao comunismo, muito se fala sobre a gênese da violência de estado como inerente ao mesmo. Pelo que me lembro, o próprio Marx havia teorizado que somente seria possível uma revolução rumo ao socialismo com um capitalismo desenvolvido, o que jamais aconteceu na prática. Poderia comentar e, porventura, sugerir alguma literatura sobre as origens das ideias comunista/socialistas bem como sobre o “programa” de Marx para a revolução?

    • Bertone de Oliveira Sousa 05/05/2015 / 1:01

      Francisco, obrigado. Um bom livro sobre isso é “Como mudar o mudar o mundo”, de Eric Hobsbawm, pela Editora Companhia das Letras. Ele explica o desenvolvimento do socialismo antes de Marx e como o marxismo se formou e ganhou forma. É uma boa leitura.

  22. Evanuel F. Silva 13/05/2015 / 14:10

    Olá Bertone. Em primeiro lugar quero parabenizá-lo pelo texto.

    Sou liberal, mas não sou conservador; sou ateu, mas estudo a Bíblia.

    Gostaria de comentar o seguinte trecho. “Quando vejo alguém dizendo que fascismo e nazismo eram ideologias de esquerda, só posso tirar duas conclusões: ou se trata de um completo ignorante em história, que papagueia o que leu ou ouviu de jornalistas de extrema direita ou documentários sensacionalistas sem conhecimento de causa, ou se trata de alguém que age de má-fé, com o intuito deliberado de lançar um engodo retórico para atrair mentes sugestionáveis. A despeito do caráter totalitário dos dois regimes políticos, Stalin era de esquerda e Hitler de direita. A identificação de Hitler como esquerda por causa do nome “socialista” em seu partido apenas evidencia a lamentável distorção histórica a que a direita se presta”.

    Tive oportunidade de ler alguns livros sobre o assunto (se o Nazismo foi de Direita ou de Esquerda) e constatei a existência de autores competentes, que não me pareceram “ignorantes em história” nem pessoas usando de má-fé, que defenderam a concepção segundo a qual o Nazismo foi um fenômeno político de Esquerda. Os autores são os seguintes: Hannah Arendt (inclusive a obra que você cita – cabe uma contenda aqui), Hayek (O caminho da Servidão); Karl Popper (A Miséria do Historicismo), R. D. Butler (The roots of National Socialism). Interessantes, nesse sentido, são também as obras do jurista de Hitler, Carl Schmitt – Socialista e nazista convicto – (El Concepto del Político, el Guardião de la Constitucíon e La Teoría de la constitucíon).

    Friso apenas que, esses autores, destacam aspectos elementares do regime nazista para tecer suas considerações. Coisa a que todos estamos sujeitos, pois, inclusive sua abordagem, apresenta esta característica.

    Atenciosamente,

    • Bertone de Oliveira Sousa 13/05/2015 / 14:27

      Evanuel, Hannah Arendt, Hayek e Karl Popper não afirmaram, em nenhuma dessas obras, que o nazismo foi um movimento de esquerda. Inclusive discuti a perspectiva de Hayek em outro texto “Fascismo e comunismo: resposta a um blogueiro histérico”. Mas em alguns aspectos, algumas obras citadas aqui como a de Richard Overy e Ian Kershaw podem ser usadas como corretivo a Hayek, que escreveu sua obra ainda em 1944. É muito comum as pessoas caírem nesse equívoco fazendo leituras apressadas e descontextualizadas. Você foi apenas mais um.

  23. Igor 06/07/2015 / 4:08

    Olá Bertone, gostaria de saber se você pode me esclarecer uma dúvida: se o fascismo ainda opde ser considerado fascismo sem a pessoa ser nacionalista ou algo do tipo. Uma pessoa que pregue a volta da ditadura, é à favor de posse de arma, é intolerante, etc., pode ser considerada e rotulada como fascista? Obrigado!

    • Bertone de Oliveira Sousa 06/07/2015 / 8:37

      O que acontece nesses casos é uma predisposição, uma entrada no espírito do fascismo; o fascismo começa dessa forma.

  24. Vinicius (@ViniciusNaciona) 08/07/2015 / 13:14

    Muito bom o texto, sou de Direita Antiliberal, acho que as politicas economicas do Nazismo, Fascismo, Nacional Sindicalismo, Integralismo e outras vertentes deveriam ser melhores estudadas, infelizmente o Nazismo teve o triste episódio do racismo em sua ideologia, mas a parte econômica é muito interessante em minha visão, parabéns pelo texto, muito bem explicado!

  25. Rodrigo Souza 29/12/2015 / 12:59

    Parabéns efusivos por um texto consistente, que encara de frente complexidades e muito bem escrito!

    Gostaria de colocar uns adendos apenas para lembrar que os próprios campos de concentração foram criados pela Inglaterra contra os Boeres na África do Sul. E que importantíssimo para compreender o nazismo é recordar os escritos do conservador romântico expressivista Herder.

    Abraços, reitero os parabéns!

    • Bertone de Oliveira Sousa 29/12/2015 / 14:16

      Rodrigo, obrigado. Esse texto será publicado em uma revista acadêmica em breve. Vou divulgar o link aqui mesmo e no Facebook. Abraço.

  26. Joelson Vale 17/04/2016 / 16:23

    Gostei do seu texto, servirá de contraponto para pesquisas futuras. Queria de saber, aqui neste texto ou em outro seu, se há uma definição mais clara de Direita e Esquerda (sempre acho confuso ou tênue esta diferença ao longo dos séculos XIX, XX e XXI). No presente texto, vc faz uma pequena diferença conceitual quando coloca que: “Por outro lado, a Primeira Guerra Mundial e o advento de novas tecnologias como o rádio levou à formação do que compreendemos como a “era das massas”, que deu à luz práticas discursivas e militâncias aclamadas tanto à direita quanto à esquerda. Na primeira, temos o culto à tradição, ao passado heroico e mítico e à figura de líderes redentores e que encontraram no fascismo e no nacional-socialismo seus lugares-comuns. Na esquerda, a exacerbação do discurso Iluminista com a promessa de futuro, do progresso pela via da revolução social, que o bolchevismo trouxe para o plano da história. O socialismo se tornou vitrine no período entreguerras, e foi apropriado e reinventado pela direita, que manteve em comum com a esquerda revolucionária o viés antiliberal e antidemocrático.” Talvez vc discorde, mas achei aqui um paralelo com um texto de Olavo de Carvalho sobre “Direita e Esquerda, origem e fim (http://www.olavodecarvalho.org/semana/051031dc.htm)”. Gostaria também de saber o que seria hoje extrema esquerda, ou extrema direita. Se puderes clarear, ficarei pode demais agradecido

  27. Mateus Roger 26/04/2016 / 15:15

    Bertone, duas dúvidas: o que darwin diria sobre o racismo “científico” e o racismo nazista foi mais motivado pela teologia (tendo em mente que Lutero escreveu livros antissemitas como sobre os judeus e suas mentiras e Hitler considerava os judeus inimigos do cristianismo e filhos do diabo) ou pela biologia?

  28. Edson Silva 25/08/2016 / 15:03

    Professor Bertone, excelente o seu texto, na atual conjuntura política brasileira, onde reina a intolerância e o maniqueísmo, é bom saber que ainda tem pessoas de bom senso e equilibradas! Parabéns e obrigado por socializar comigo seu conhecimento histórico!

  29. SEP Palmeiras 14/12/2016 / 9:42

    Texto bastante esclarecedor. Hitler odiava a esquerda e tudo que ela representava: primeira mente a social-democracia da Austria e depois a de Weimar, os soviéticos estavam em pé de igualdade com os judeus como sub-raça. Falar que o nazismo era de esquerda representa uma falta de conhecimento histórico, uma falta de leitura de dar dó.

  30. Alan 21/02/2017 / 23:49

    Primeiramente, meus sinceros parabéns pelo o texto espetacular. Um dia, espero, ser um historiador tão comprometido e competente como você. (Sonho em ser historiador).

    SOU CENTRO-ESQUERDA.

    Será que o professor Bertone a essa altura já escreveu um livro? Faz tempo desde essa postagem.

    Nunca vi um post na internet brasileira tão bem esclarecido como esse. Foi um mini-livro. Tirou quase que completamente as minhas dúvidas. Já vi dezenas de milhares de discussões na internet e nunca conseguia opinar por falta de esclarecimentos. Eu li o “minha luta” (inclusive foi um dos primeiros livros que li na vida, devia ter 15 anos), mesmo assim não consegui interpretar bem e sempre acreditei que o nome “nacional-socialismo” já era o bastante para dizer que o nazismo foi socialista apesar de Hitler mostrar eversão por tudo de esquerda no livro.

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