Notas avulsas

As utopias estão mortas. Os partidos que levam o nome de “socialista” ou “comunista” não possuem projetos relevantes além de discursos avelhantados e comprovadamente ineficazes. Pode-se falar de “socialismo e liberdade”, mas ninguém sabe o que é isso nem como se constrói isso. Não há discurso novo quando se fala de socialismo; o que há são tergiversações partidárias. O que sobrou para a esquerda foi a social-democracia. Para a direita não sobrou nada, nem o liberalismo, bandeira que ninguém levanta porque não entusiasma ninguém. O comunismo e o nazismo só tiveram tanto prestígio porque o liberalismo deixou o caminho livre. Além disso, os pobres já perceberam que sem Estado só ficarão mais pobres.

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O PT não é um partido socialista nem comunista. É um partido com pautas social-democratas, as únicas que ainda podem fazer sentido numa sociedade como a nossa. O PSDB jamais fez jus a seu nome e está condenado a repetir o discurso de que vai “continuar as políticas sociais”. Aécio e Marina não tinham nada de mais concreto a dizer. Os outros partidos são apenas agências eleitoreiras com discursos ainda mais vagos e sem qualquer proposta de governabilidade.

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Luciana Genro fez uma boa campanha e se destacou como a candidata mais crítica nos debates. Mas o PSOL é hoje o que o PT foi no passado e seus discursos contra alianças espúrias, os banqueiros e grandes empresários são tão veementes apenas porque ela não tinha chances reais de vencer. Luciana entrou como candidata apenas para provocar; isso é válido mas seria ingênuo acreditar que ela governaria com as pautas que defende. Sua defesa de “socialismo e liberdade” não é um discurso novo, mas quase tão velho quanto Marx. Além de não saber definir o que seria isso, essa retórica termina recaindo no malfadado leninismo e no anti-americanismo terceiro-mundista. Os projetos utópicos das ideologias modernas estão esgotados. A esquerda precisa entender que o socialismo não é mais uma alternativa.

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Não faz mais sentido falar em luta de classes em nosso contexto. Tenho trabalhado essa perspectiva com meus alunos e repito aqui. Não há mais nenhum grupo social que atenda pelo nome de “classe trabalhadora”, mas categorias muito distintas entre si  e que também atuam de modos diferentes nos setores de serviços e de informação, especialmente. É isso que implica, em parte, a definição de nossa época como uma era pós-industrial. Por isso as ideologias da era moderna, como o socialismo, o fascismo e o nazismo ficaram para trás, porque eram doutrinas sociais voltadas para a organização do trabalho. E nossa sociedade não está mais voltada para isso. O que sobrou foi o liberalismo, que se fortaleceu apenas pela perda de prestígio das utopias sociais. Na sociedade pós-industrial essas utopias não possuem mais propostas relevantes a apresentar e nem mesmo o marxismo, assim como o liberalismo clássico, não explicam mais a atual conjuntura. Essas teorias eram voltadas para o valor do trabalho, e, na sociedade pós-industrial, o valor não é mais atribuído ao trabalho, mas ao conhecimento. Daí a ênfase e a tendência de fortalecimento do indivíduo. A sociedade da informação libera os indivíduos do trabalho tradicional, das instituições culturais de massa e até mesmo da família, de onde vem a chamada crise da família tradicional. Outra consequência disso é o enfraquecimento da política como instância de ação coletiva. Com a crise da sociedade do trabalho houve também um declínio geral da vida pública. Esse afastamento da política e a diluição da noção de classes são questões que nos impõem novas formas de pensar, para além das desgastadas utopias do século 19. No mundo desenvolvido isso é conhecido desde a década de 1970, mas no Brasil, por causa da demora da abertura econômica ao mercado mundial, só temos percebido essas mudanças desde meados dos anos 1990 e, por causa de nossa condição periférica, não na mesma intensidade que eles.

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Por isso, quando vejo um marxista criticando o pós-modernismo e falando em “luta de classes” só posso dar boas risadas, especialmente quando vem de outro professor universitário. É incrível como essa gente não se dá conta de que esses discursos estão completamente fora de tempo. Por isso é significativa a frase de Krishan Kumar de que a pós-modernidade mostra coisas da modernidade que ela compreendia apenas pela metade. O problema é que alguns velhos marxistas, que ainda acreditam possuir a chave do conhecimento total da história, não poderiam admitir que compreendiam uma parte da história apenas pela metade.

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O fato de ainda haver capitalismo, ricos e pobres não quer dizer que tenhamos que pensar o mundo a partir de categorias mentais do século 19. O capitalismo mudou e a desigualdade social, assim como as reivindicações de variados grupos sociais, não se definem apenas por questões classistas. Os pobres não estão interessados em revolução ou coletivização, mas em qualidade de vida, sem supressão de liberdades democráticas. As revoluções e coletivizações do século 20 atuaram no sentido contrário a essas demandas.

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É preciso que Marx seja relido como um clássico da filosofia moderna e não mais como um receituário de ação política revolucionária, ou corre-se o risco de andar em círculos e repetir discursos que não se ajustam a nossa época e demandas sociais.

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A esquerda tem razão em criticar a Veja e a direita tem razão em criticar a Carta Capital. As duas revistas são duas faces de uma só moeda e representam os extremos ideológicos anacrônicos de nosso jornalismo.

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Cuba é uma ditadura paleozoica sem direitos humanos e com universalização da pobreza. Quem ainda elogia aquele regime ou é burro ou não se importa com direitos humanos.

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Não é preciso defender Cuba para criticar a Veja. Se o fizermos, estaremos contrapondo uma estupidez com outra.

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Fidel Castro era admirador de Hitler, chamou o assassino de Trotsky para ser supervisor das prisões cubanas e decretou feriado nacional quando Francisco Franco morreu. Depois disso, ainda seria preciso mencionar os fuzilamentos e torturas de presos políticos? E você ainda quer ser marxista e crítico ao apoiar essa ditadura mendaz?

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O bolivarianismo não é uma alternativa política para a América Latina. É um chauvinismo pseudo-socialista que só poderia ter sido idealizado por um ogro como Hugo Chávez.

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Vladimir Safatle é o Luiz Felipe Pondé da esquerda. Os dois professores de filosofia, que semanalmente escrevem mais do mesmo em suas colunas, não passam de figuras midiáticas que dizem apenas o que seus seguidores querem ouvir.

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É impossível não sentir um profundo mal-estar vendo a esquerda brasileira apoiando tudo o que é anti-democrático no mundo. Não bastasse o antiamericanismo tacanho de alguns de nossos partidos e até intelectuais, foi vergonhoso vê-los apoiando o Hamas, um grupo terrorista que usa sua população como escudo para posar de vítimas diante do mundo e executa seus próprios concidadãos com base na sharia. Anos antes, nossa esquerda havia apoiado o Irã, a teocracia islâmica cujo ex-presidente, Mahmoud Ahmadinejad, não cessava de pregar a extinção do Estado de Israel. Tem sido desolador ver parte substancial de nossa esquerda degringolar para o apoio ao radicalismo islâmico. Não se poderia esperar algo melhor de partidos como PSTU, PSOL, PCO, PCB e PC do B. Seria nostalgia do totalitarismo?

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O PT comete o mesmo erro em sua diplomacia. Ter sido chamado de “anão diplomático” por um porta-voz do ministério das relações exteriores de Israel depois de chamar a ação militar deste país na Palestina de “desproporcional” este ano foi uma dura verdade para o Brasil, que ainda recebeu outra lição: política internacional não é como jogo de futebol, em que um empate é proporcional e perder de 7 a 1 é desproporcional. O puxão de orelha foi bom, mas infelizmente nosso governo ainda não aprendeu a lição.

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55 thoughts on “Notas avulsas

  1. José Gervásio Neto - Nova Era 05/10/2014 / 15:54

    Você lembrou bem ao falar dos malefícios do nazismo e das ditaduras (pseudo) proletariados (o que realmente foi um “terror” para toda a humanidade), entretanto, doutor acho que Vossa Excelência errou feio ao afirmar que no Brasil: “O PT comete o mesmo erro em sua diplomacia. Ter sido chamado de “anão diplomático” por um porta-voz do ministério das relações exteriores de Israel depois de chamar a ação militar deste país na Palestina de “desproporcional” este ano foi uma dura verdade para o Brasil, que ainda recebeu outra lição: política internacional não é como jogo de futebol, em que um empate é proporcional e perder de 7 a 1 é desproporcional. O puxão de orelha foi bom, mas infelizmente nosso governo ainda não aprendeu a lição.”

    Acontece que foi muito oportuno o governo brasileiro posicionar-se a respeito do extermínio de inocentes em Gaza. Será que aquele povo é obrigado a entregar ao estado sionista seus territórios? Quem é mesmo o invasor da Palestina? Sinceramente não afirmar o direito legítimo constituído daquele povo que vivia em paz secular até que os invasores sionistas ali chegassem, invadindo e, impondo sentença de morte a civis que conviviam entre si (os cristãos, os mulçumanos, os judeus sionista ou não).

    Todavia, ao contrário de sua informação, houve até um pedido, em caráter de urgência, por parte do presidente de Israel, Reuven Rivlin, que ligou para presidenta Dilma Rousseff solicitando desculpas pelas palavras do porta-voz do Ministério das Relações Exteriores israelense, Yigal Palmor!

    • Bertone de Oliveira Sousa 05/10/2014 / 17:25

      Gervásio, o problema é que essa abordagem é superficial. Aquele conflito é de natureza étnica e religiosa e suas raízes não são modernas. Por isso, algumas questões precisam ser colocas: primeiro, se Israel não tivesse um sistema de defesa anti-mísseis, era sua população civil que estaria sendo exterminada. Ao contrário de Israel, que avisa onde atacará para dar tempo à população retirar-se, o Hamas ataca justamente os locais com concentração de civis para provocar o maior estrago possível. Outra coisa é que o Hamas não representa a população da Palestina, é um grupo terrorista e fundamentalista que rejeita qualquer diálogo com Israel e por isso usa a própria população como escudo para os atos de defesa do Estado de Israel sejam vistos pelo mundo como “genocídio”. Outra coisa é que depois da experiência do Holocausto, os judeus não podem esperar que o mundo atue a seu favor e nem deixar de revidar ataques. Cerca de metade da população judaica da Europa foi eliminada entre 1939 e 1945 sem que ninguém fizesse nada para impedir; e pesquisas históricas recentes comprovam que governos da Inglaterra e Estados Unidos sabiam o que estava acontecendo.

      A fundação do Estado de Israel foi indiscutivelmente necessária e tardia. Houve um projeto de divisão do território palestino que foi rejeitado pelos países da Liga árabe liderados pelo Egito e movidos por ódios milenares e de disputas tribais infinitas. Não houve uma invasão mas um projeto de divisão que asseguraria os direitos dos povos ali. O novo Estado já começou sua existência tendo de defender-se de uma série de inimigos na Guerra dos seis dias. Os árabes queriam literalmente varrer Israel do mapa. Desde então o Estado de Israel teve de usar a força militar para manter seu direito à existência. Não tivesse um aparato militar avançado, Israel teria sucumbido e vivido outro extermínio. Diante disso, Israel teve de expandir suas fronteiras para evitar que seus inimigos ficassem próximos demais de seu centro e isso sem abrir mão da democracia. Aliás, Israel é a única democracia no Oriente Médio hoje.

      Ao contrário do que muitos pensam, o Holocausto não é uma desculpa para “invadir”. O Holocausto ensinou aos judeus que devem revidar e revidar para continuar existindo como povo e como Estado. Independentemente do que pense o mundo, eles infelizmente aprenderam isso da forma mais trágica possível. Somente nos primeiros dias desse último conflitos, o Hamas já havia lançado milhares de mísseis sobre Israel. O grupo ataca sem ter condições de defender-se contra um Estado bem armado e sem pensar nas consequências de suas ações irresponsáveis para a população civil que vive ali. E os demais países ao redor, além de serem todos inimigos, são governados por regimes políticos retrógrados, autoritários, avessos ao diálogo e apoiadores de bandos terroristas. Por isso, Israel é forçado a manter uma vigilância permanente em suas fronteiras. Infelizmente as pessoas aqui veem esse conflito pelas imagens fortes veiculadas na imprensa e sem problematizações históricas e terminam reproduzindo opiniões infundadas ou de senso comum. O pior de tudo é ver até professores universitários agindo assim.

      • Daniel 07/10/2014 / 3:26

        Interessante professor, o senhor menciona que Israel teve que se defender dos povos inimigos mas sem pontuar que os judeus expulsaram os povos árabes que estavam naquela região sem dó nem piedade. “Desde então o Estado de Israel teve de usar a força militar para manter seu direito à existência” – qual força, aquela dada pelos Estados Unidos (bomba nuclear, blindados e tanques de Guerra) e Inglaterra que despejou o problema no colo da ONU por pura incompetência? Entendo que Israel queira se defender de ataques inimigos e tem todo o direito de fazê-lo mas seus ataques são desproporcionais SIM e se aproveitam da insanidade do Hamas para cometerem genocídio étnico para expandir suas fronteiras. A direita sionista não é nada diferente da direita nazista não e esqueceu de mencionar o Haganá que foi uma organização paramilitar judaica de carácter sionista, atuante no território do que era então o Mandato Britânico da Palestina, entre 1920 e 1948.

        Fazer cortesia com o chapéu alheio é muito fácil, porque os EUA e a Europa não cederam suas terras? Essa é a problematização histórica: Havia milhares de povos naquela região que foram expulsos sem indenização alguma! Israel não é santo e sua política de extrema-direita muito menos.

      • Bertone de Oliveira Sousa 07/10/2014 / 13:09

        Daniel, quando discuto essa questão com alguém e o sujeito apela ao argumento de comparar Israel ao nazismo, cesso imediatamente a discussão porque se trata de um completo ignorante a vomitar disparates. Você infelizmente é um exemplo de cabeça cheia de chavões ideológicos e ignorância confundida com história.

      • Daniel 07/10/2014 / 13:28

        Não estou comparando Israel com o nazismo não, só estou analisando a história que deixou de contar para o Gervásio. O grupo paramilitar Haganá expulsou ou não os árabes daquela região? Israel detém uma política sionista ou não? Não é assim que se dialoga, ou seja, exponho para você que a política de Israel é tão ruim quanto a do Hamas e você me dá um puxão de orelhas porque discordo de você? Oras, quem está sendo intolerante aqui?

        Obs: Continuo admirando seu trabalho e tenho ciência de que ninguém detém a verdade absoluta.

      • Bertone de Oliveira Sousa 07/10/2014 / 13:57

        Daniel, a questão aqui não tem a ver com verdade absoluta. Você não entendeu meu comentário ao Gervásio. Israel não é santo, mas não é como o Hamas. Ao contrário do Hamas, que quer o fim do Estado de Israel, Israel não tem uma doutrina ou uma política de extinção da população palestina. E foram os próprios árabes que não aceitaram a divisão do território, não os judeus. Não é à toa que eles se uniram em 1967 para eliminar Israel. Você está querendo ver os árabes como vítimas indefesas quando eles não o são. E os judeus não foram pra outro lugar porque as terras sagradas deles também estão ali, a identidade e as raízes histórico-culturais deles estão ali. Entende como isso não tem nada a ver com direita e esquerda? É um conflito milenar étnico-religioso e cujas motivações vão muito além de nossa política e ideologias modernas. O Hamas não quer divisão territorial porque eles querem a expulsão e extinção do Estado israelense e Israel tem suas razões para permanecer na região e não vai ceder a isso e por isso o conflito não tem fim. Israel comete erros? Claro. É um Estado, não uma instituição de caridade. Crianças e outros civis inocentes são destroçados ali? São, infelizmente. Eles poderiam caçar os terroristas do Hamas por terra e pegá-los sem destruir tudo, mas não querem correr o risco de perder soldados numa guerra insana quando estão cercados de inimigos poderosos. Mas se o Hamas tivesse um aparato militar mais avançado, eles sim já teriam cometido genocídio a julgar pelo seu ódio aos judeus. Mas depois do Holocausto, os judeus não podem mais se permitir ser pegos de surpresa por inimigos que querem seu fim. Você está analisando a questão pela dicotomia ocidental direta x esquerda e por isso está analisando de forma equivocada. É isso que quero te chamar a atenção, essa conjuntura é mais complexa do que é colocado nesses sites que tem por aí.

      • Daniel 07/10/2014 / 18:53

        Grande professor, entendo que a questão não se circunscreve a dicotomias modernas entre esquerda e direita. O que quero dizer é que o Estado de Israel sempre foi pró-partido republicano estadunidense e sabemos como pensam Dick Cheney, Benjamin Netanyahu, George W. Bush e cia. A direita estadunidense apóia as investidas criminosas de Israel no Oriente Médio sem pestanejar. Não sinto nenhuma piedade do Hamas (terrorista) mas fico doente vendo fotos de crianças de peito soterradas sendo que poderiam contornar o caso de outra maneira. Se eu não fosse ateu pediria intervenção divina pela indignação em ver esse estado de coisas com a condescendência da comunidade internacional. Nunca disse que Israel poderia abdicar de sua defesa mas sim que a sua reação é desproporcional e comete crimes contra a humanidade como os E.U.A cometeram no Iraque. Por que Bush não é julgado por isso?

        Obs: Não sou antissemita mas sim, anti-sionista.

      • Bertone de Oliveira Sousa 07/10/2014 / 19:48

        Veja Daniel, como não há heróis nem vilões nessa história, é por isso que é tão difícil pra nós ocidentais entendermos esse conflito. A direita norte-americana é majoritariamente protestante e por isso é pró-Israel. Por outro lado, Israel tem basicamente apenas os Estados Unidos como grande aliado no mundo. Se não fosse seu escudo anti-mísseis, eram suas crianças de peito que estariam sendo dizimadas. Isso não torna a ação de exército na Palestina mais humana, mas torna compreensível o revide, principalmente quando se analisa o histórico das tensões no conflito e, até onde eu saiba, Israel jamais defendeu a extinção de nenhum grupo étnico no Oriente Médio, ao contrário do que deseja toda a liga árabe em relação aos judeus. Por isso, o Hamas é perverso por duas razões: a primeira é porque rejeita qualquer negociação e parte para a ação militar provocando o revide e a segunda é porque eles propositalmente usam a população civil para ser morta; suas plataformas de lançamento de mísseis e seu armamento são guardados em casas de civis e em prédios públicos como escolas. Mesmo com as autoridades israelenses pedindo que a população deixe determinados locais que serão atingidos, eles são encorajados pelo Hamas a ficarem como prova de bravura. Desse modo, diante do mundo, eles deixam de ser provocadores e terroristas para se colocarem como vítimas. Além disso, o Hamas é um grupo religioso ultra-radical e fundamentalista que viola sistematicamente direitos humanos contra aquela população. Por isso nossa esquerda comete um grave erro em apoiá-los.Te chamei a atenção anteriormente porque de tanto ver pessoas comparando aquela ação militar ao nazismo cheguei a ficar sem paciência. São coisas completamente distintas, em contextos e por motivações completamente distintos e até professor saiu reproduzindo essa bazófia por aí. Por isso peço desculpas se ofendi. Reproduzir esses lugares-comuns só nos torna mais ignorantes e a gente pode ser melhor do que isso.

      • Daniel 07/10/2014 / 22:57

        Relaxa professor, isso acontece mas lhe também peço desculpas por lançar mão de lugares comuns acerca de Israel. Gostaria de saber qual é a sua avaliação acerca da ascensão do conservadorismo e reacionarismo no Brasil. Por que elegemos um congresso tão reacionário? Veja isso: https://www.youtube.com/watch?v=5p0Cb_S9C5k

        Abraços

      • Bertone de Oliveira Sousa 07/10/2014 / 23:25

        Isso é preocupante e tem o dedo de pregadores de TV como Silas Malafaia e jornalistas como Reinaldo de Azevedo, que formam a opinião de milhões de pessoas. O mais triste é que o PT também é responsável por esse crescimento conservador, o partido perdeu muita força moral com a corrupção e ficou muito desgastado, deixando os adversários mais fortes e esse é o infeliz resultado. O mais curioso é que mais de trinta milhões de pessoas não votaram em ninguém pra presidente. Isso mostra o distanciamento do PT de um contingente significativo que antes o apoiava, se não todos eles, mas certamente boa parte. Se o PT e a esquerda de um modo geral não buscarem uma renovação, principalmente nesse aspecto moral e não se reaproximarem da sociedade no sentido de ampliar o diálogo e construir, não apenas propor, mudanças mais profundas, vai continuar perdendo essa base de apoio social e a direita vai se fortalecer não porque tenha projetos, porque de fato ela não tem, mas porque não terá mais oposição.

      • Daniel 08/10/2014 / 18:49

        O senhor disse não haver diferença entre PT e PSDB mas diz em um de seus textos que o PT teria uma tocada Social-Democrata e o PSDB só seria Social-Democrata só no nome. Então qual seria a diferença entre ambos? Se não há diferença entre PT e PSDB então porque Reinaldo Azevedo e a extrema-direita apóia tanto o PSDB em detrimento do PT?

      • Bertone de Oliveira Sousa 08/10/2014 / 20:12

        Eu não disse que não há diferença entre eles, eu disse que eles não representam projetos políticos antagônicos. São coisas diferentes.

      • Daniel 08/10/2014 / 20:30

        Ficou uma nuvem aí: É sabido que o PSDB tem uma tocada de direita e flerta continuamente com o receituário neoliberal de desmonte do Estado e privilégio para a especulação financeira e importação esfarelando nossas indústrias; já o PT optou pelo neodesenvolvimentismo desaguando em uma forte disposição para o consumo interno com distribuição de renda. Não são projetos totalmente antagônicos?

      • Bertone de Oliveira Sousa 08/10/2014 / 20:44

        Não, não são. Em muitos aspectos seus projetos foram complementares, como manter a estabilidade da moeda, atrair investidores, fortalecer as instituições democráticas (apesar dos mensalões de ambos) e investir em programas sociais. A principal diferença entre eles diz respeito à ação do estado, no que o PT foi mais agressivo, ampliando as políticas públicas e, em consequência, o consumo e a renda. Por ter assimilado demais os princípios do neoliberalismo, o PSDB deixou de lado a social-democracia e passou a ver a ampliação do papel do estado em relação a políticas públicas com desconfiança. E essa redução do estado deve ser a principal pauta de Aécio com o argumento de fazer o país voltar a crescer. E como no Brasil os mais pobres (assim como os ricos) sempre precisaram muito do estado, esse tem sido o principal ponto de divergência entre os dois programas partidários.

  2. abner 05/10/2014 / 16:37

    bertone, aonde eu assino? excelentes análises.

    • abner 05/10/2014 / 16:45

      Sobre a questão das utopias do século XIX, eu vi uma análise de um cientista político em uma entrevista que achei bem interessante. Segundo ele, algumas questões do marxismo se mostraram ultrapassadas com o século XX por conta de uma visão muito determinada que Marx tinha acerca da idéia de estado, definida pelo mesmo como “comitê executivo da burguesia” no manifesto comunista.Com o desenvolvimento das lutas de esquerda ao longo do século XX o estado passou a ser um ambiente de disputa muito mais complexo do que era no contexto em que Marx escreveu, tornando a própria idéia de desaparecimento do estado ultrapassada. Você concorda com essa perspectiva também, ou mesmo poderia acrescentar algo a mais nessa linha de raciocínio?

      • Bertone de Oliveira Sousa 05/10/2014 / 18:01

        Abner, isso está corretíssimo. Mas não apenas o desenvolvimento das lutas de esquerda forçaram o Estado a mudar suas diretrizes e investir em políticas sociais, como também a crise do liberalismo.

      • André 06/10/2014 / 21:26

        Gostaria de expressar meu ponto de vista em relação a essa questão. Eu concordo com o que o abner escreveu, no entanto ainda vejo os direitos conquistados pelos trabalhadores como insuficientes, pelo menos nos países subdesenvolvidos. A crise da URSS e da esquerda deixa o capitalismo “sem concorrente” assim o neoliberalismo pode assumir sua forma mais radical, e com a crise de 2008 e as políticas de austeridade vejo o estado de bem estar social sendo desmontado. Mesmo o governo levando em conta os anseios da população, a correlação de força ainda me parece desequilibrada. Bancos e multinacionais tem ampla participação nos governos e organizações como Banco Mundial, OMC, ONU, etc. O que pensam sobre isso?

      • abner 05/10/2014 / 19:59

        Hahaha, esse onde eu assino foi só uma figura de linguagem pra dizer que eu concordo bastante com o que você disse. Já tinha feito a assinatura do seu blog faz umas semanas rs

  3. Roni 05/10/2014 / 18:14

    Texto sensacional, um tapa na cara. Onde curto mil vezes? Mas ainda é possível ser marxista? Sim, né? Como? Abraços.

    • Bertone de Oliveira Sousa 05/10/2014 / 18:25

      Roni, obrigado. Pois é. Creio que o marxismo tem sido melhor pensado pelos de fora (os chamados pós-modernos, mas muitos dos quais já foram “de dentro”) do que pelos próprios marxistas. Abraço.

      • daniel 06/10/2014 / 3:08

        O senhor mencionou o apoio da esquerda ao Hamas e ao Estado Islâmico, porém,discordo plenamente dessa observação generalizada pois não apoio nenhum desses regimes. Não mencionou que a direita apoia Israel no quer que seja (mesmo vendo crianças de peito sento soterradas e imoladas via internet) não menciona o apoio de nossa direita tacanha às investidas dos E.U.A em 2004 na famigerada guerra ao “terror”, mesmo sabendo de que não havia armas de destruição em massa naquele país totalmente destruído por pura sede de petróleo. A esquerda possui muitos erros sim e sempre procuramos reavaliar nossos posicionamentos, coisa que jamais acontecerá com a direita reacionária e violenta desse país por tratarem sua ideologia como uma religião…um dogma e quem está fora é vagabundo ou terrorista. Estou ciente de que Marx viveu e redigiu para o capitalismo industrial mas trouxe através de suas obras muitas contribuições e conceitos colaterais ( ideia concernente a uma SOCIAL DEMOCRACIA) no que diz respeito a direitos adquiridos para as classes trabalhadoras contemporâneas ou será que direitos trabalhistas, direitos para minorias, mulheres, deficientes, idosos e etc, são ideias pós-modernas ou de direita?

        Abraços

      • Bertone de Oliveira Sousa 06/10/2014 / 13:23

        Daniel, a direita no Brasil sempre foi estúpida e só tem piorado. Mas se você ainda acha Israel o vilão de tudo depois dessa explicação que dei ao José Gervásio, então você está se colocando na mesma condição lamentável que essa direita. É para prevenir as pessoas dessa polarização que escrevo; adotar esse tipo de postura é abandonar a reflexão e não leva a lugar algum.

  4. Guilherme Berghauser 05/10/2014 / 22:32

    Bertone adoro seu blog e suas ideias .. vc realmente é uma inspiração para essa pessoa que aqui escreve.
    Concordo em boa com esse teu post, porém acredito que ainda existe a luta de classes, independente se a forma do trabalho eh através de conhecimento ou do trabalho braçal ..
    Eu que trabalho com tecnologia consigo perceber muito claro a diferença de classes na área em que atuo.
    Desculpe se meu comentário foi repleto de achismo 😀 vc eh foda ..

    • Bertone de Oliveira Sousa 05/10/2014 / 22:54

      Guilherme, é que há toda uma questão sociológica e histórica em torno disso. Na abordagem marxista esse conceito reporta a situação de antagonismo e por vezes de conflito entre os proprietários dos meios de produção (a burguesia) e os não proprietários (o proletariado), mantidos nessa condição pela ideologia da classe dominante. Se o conhecimento substitui o trabalho braçal como valor, isso necessariamente leva a uma redefinição do papel dos indivíduos nas relações sociais, não mais baseada apenas no antagonismo, mas também na produção de outras demandas, incluindo a cooperação, o empreendedorismo (que pode ser feito por pessoas de baixa renda com subsídios estatais) e a valorização do papel do indivíduo no processo produtivo, de forma diferenciada de outros contextos, que passa a ter mais autonomia por seu desvinculamento de antigas restrições. Isso marca o fim do proletariado industrial, porque a indústria não é mais o local por excelência de recrutamento de indivíduos no processo produtivo nem os indivíduos estão mais fixados em um local específico, assim como não há uma burguesia industrial no sentido novecentista do termo. Por isso a noção de luta de classes perde o sentido; essa é a mudança paradigmática que a revolução da informação provocou no capitalismo contemporâneo. Isso, é claro, não implica o fim das desigualdades sociais, por isso é importante estar atento a como essas mudanças ocorrem. Obrigado. Abraço.

  5. Vitor 06/10/2014 / 12:49

    Concordo que a luta de classes mudou de forma, mas negar a sua existência é apenas um auxílio à concentração de renda atroz que vem dominando cada vez mais nossas plutocracias. O tal trabalho alienante não acabou e não acabará tão cedo. Ainda temos a balança entre interesses corporativos e trabalhistas. Ainda temos uma classe trabalhadora sim, concentrada, hoje, em serviços e em novas formas de trabalho, mas ainda temos os que vivem de lucro e riqueza e os que vivem de trabalho, ou seja, classe trabalhadora, proletário, plebe (e paro por aqui nas alcunhas), tudo depende de quem a analisa. Convenhamos que as transformações nos postos de trabalho não se devem a uma mudança no panorama social e sim ao maquinário da indústria e à mudança nos hábitos de consumo. As cidades mudaram, seus postos de ofício também, mas a estrutura social ainda é a mesma. A forma de trabalho gravita em torno disso, mas não deixa de existir a classe trabalhadora, inclusive, ainda temos a classe subtrabalhadora (vide o sub emprego, as condições análogas à escravidão que, agora, passaram dos rincões interioranos para as nossas metrópoles). As novas formas de trabalho estão surgindo, cooperação, redes e etc.., mas ainda são insuficientes para sepultar a velha luta de classes, acredito que fazer isso, agora, seria uma visão excessivamente utilitarista.

    Sinceramente, não me importo com a alcunha de “anão diplomático” por um egresso de um País que tem optado, há décadas, pelo nanismo diplomático. Israel, há muito, vem alimentando a indústria bélica (que não é mais americana, mas sim transnacional) e focar-se apenas no teor político do conflito, quando, na realidade, aquilo não passa de uma feira sangrenta de armamento a céu aberto seria um equívoco de avaliação. Para mim a questão econômica, mercadológica é muito mais relevante nesse conflito do que a religiosa e política e a única forma de se opor a isso é, de fato, criticando o capitalismo selvagem, por mais datado que o discurso pareça. Não temos o velho jogo judeus X islâmicos, temos, sim, capital financeiro e indústria bélica que precisam se reproduzir, mesmo que à custa de muito sangue, mesmo que seja por meio de uma prática evidentemente genocida (eis que direcionada a um povo em especial, através de uma visão militarista de total destruição e esse teor atinge ambos os lados). Por outro lado, não há dúvidas que o mundo árabe, com suas contradições, auxilia na reprodução dos jihadistas que mudam de território, de País ou de localidade, mas continuam com sua agenda (extremamente datada) de completa oposição ao Demônio Ianque e que, por seu turno, alimentam a outra ponta do mercado.

    Na verdade, vejo sim, uma evolução no sentimento marxista, não só nacional, mas mundial. Cada vez mais acredito no marxismo como forma de análise e não como sistema político ou econômico. Nesse ponto concordo com você, de fato, o marxismo se focará (note que uso o tempo futuro) como matiz filosófica, eis que várias concepções ainda são válidas, ao menos enquanto nossa estrutura social não se modificar radicalmente. Felizmente vejo uma convergência (paulatina, gradual, mas presente) saudável de forças de resistência aos nossos sistemas plutocráticos que não bebem apenas das fontes datadas denunciadas por você. O movimento e prol do estado democrático de direito socioambiental é um exemplo. Naomi Klein (No Logo e Shock Doctrine), recentemente, deu entrevista comentando os novos rumos e paradigmas do movimento ambientalista que já se tocou sobre a inutilidade de cotas de carbono (p.ex.) e de políticas de compensação para se focar em atuação local, comunitária (act locally, think globally) e com pautas de revisão da estrutura econômica e laboral. Vejo novas leitura sobre como transformar o comum e como a nova geração de jovens, ao menos parte dela, logicamente, vem se pautando por valores diferentes. Revisão ampla de valores é algo que se repete, mas que dificilmente atinge as formas de trabalho e relação social e é exatamente o embrião do que vejo agora. A “geração perdida”, “vadia”, desatenta, opta pea felicidade e não pelo sucesso e isso é bom sinal. Querem ocupar o comum e compartilhar o comum, o que é bom sinal, isso, lógico, se nos concentrarmos nos progressistas, não ponho nessa conta os filhos dos banqueiros ou os filhotes da “direita pão com ovo”. Temos uma esquerda datada? Temos, mas temos evolução de pensamento, temos um embrião de liberalismo político e um movimento muito forte em prol de uma sociedade deliberativa. Apesar dos constantes erros da esquerda, a história me demonstra que, por outro lado, não será a “direita”, os pragmáticos ou os conformistas (que terminam por se enquadrar, na minha opinião, como meros tecnocratas) quem vão apoiar essas mudanças. Acho que o momento é de amadurecimento do debate, dos movimentos que vêm se convergindo desde os cinco primeiros anos da década de 2000 e esperar algo concreto e direto disso seria imediatismo. A esquerda procura novos rumos, até porque perdeu vários de seus paradigmas, mas a rua não pára, no mundo todo e nem parece que vai parar. Acredito que estamos assistindo ao começo de uma nova matiz política de resistência que, por sua posição em nossas estruturas sociais, dialogará com a extrema esquerda, mas manterá as transformações de valores democráticos das últimas décadas, só temos que dar tempo ao tempo…gosto do seu blog, das suas reflexões e quero te ver mais esperançoso…hehehehe

    • Bertone de Oliveira Sousa 06/10/2014 / 13:18

      Vitor, não estou desesperançoso, muito pelo contrário, meus textos tem sido muito otimistas e críticos em relação a essa conjuntura. Seu comentário é uma mistura de profecia com otimismo juvenil ingênuo, mas no final isso acaba na repetição de velhos dogmas e sem reflexão consistente do mundo atual. Por isso escrevo para que os leitores deixem os dogmatismos de esquerda ou direita e as posições anacrônicas sobre proletariado, capital financeiro, capitalismo selvagem e que terminam levando aos mesmos lugares-comuns dos discursos da Guerra Fria. Não é fácil refletir a partir de novos paradigmas ou mesmo novas problemáticas quando se está com a cabeça cheia.

      • Vitor 06/10/2014 / 14:11

        Talvez eu tenha sido muito categórico em algumas dúvidas ou observações, contudo, embora procure me atualizar sobre os necessários novos paradigmas, acredito que ainda temos um tempinho até observar os efeitos disso e ante a atual dicotomia, que repete o passado esquerda X direita, há que se buscar apoio onde é possível e nesse ponto, apesar dos discursos datados, vejo uma maior disposição ao aprendizado por parte da “esquerda”. Muito me preocupa esse falso liberalismo de direita, esse movimento que é de fato neocon e que não permite nem mesmo a mais singela revisão de nossas relações de trabalho ou sociais. Você mesmo tem sido vítima de vários desses partidários, seja em comentários por aqui ou por ataques nas mídias virtuais. Acho que por mais que olhemos para o futuro, o passado está aí, na forma de presente e ainda teremos que dialogar muito com isso antes de nos concentrarmos unicamente na mudança. Sorte sempre!

      • Bertone de Oliveira Sousa 06/10/2014 / 14:23

        Essa é uma questão importante, Vitor, mas sem a repetição do passado. A esquerda e a direita estão embebidas de dogmas do passado e não conseguem pensar o mundo atual de forma crítica, e a direita tem sido pior nisso, principalmente através desses neoconservadores que não suportam políticas sociais. No fundo, a revolta deles não é com a corrupção, mas com as políticas sociais que eles nunca fizeram e não querem que outros façam. Aí entram os aspectos continuístas de nossa herança colonial e imperial aristocrática e escravocrata. Podemos discutir esses continuísmos, mas daí a falar em luta de classes é outra coisa. Por isso a discussão histórica é tão importante e a extrema esquerda tem se fechado pra isso tanto quanto a extrema direita neoconservadora, esta por motivos óbvios. Mas não precisamos repetir lugares-comuns do passado que não explicam nossa conjuntura e as demandas sociais dessa época.

  6. Artur 06/10/2014 / 16:04

    Mesmo o socialismo/comunismo sendo uma “utopia” você não acha válido lutar para que ela se concretize? Os partidos citados (PSTU, PSOL, PCO, PCB e PC do B) são os únicos verdadeiramente esquerdistas (o PT é centro-esquerda), que lutam pelo fim do monopólio burguês da economia e dos meios de comunicação, pelo fim do latifúndio, à favor das minorias e dos movimentos sociais, além de serem os partidos mais éticos da política nacional.

    • Bertone de Oliveira Sousa 06/10/2014 / 19:29

      Artur, as utopias não foram feitas para se concretizarem. Elas são uma crítica, um contraponto a um estado de coisas e uma proposta de mudança, mas se realizadas, resultam no totalitarismo e não tem como ser diferente porque as utopias implicam em homogeneização da conduta humana e conformidade de ação e pensamento e, no plano histórico, isso só pode ser conseguido com a supressão de todas as liberdades e a negação da individualidade humana. Os partidos que você você citou ainda estão presos ao dogmatismo leninista ou, como o PC do B, um partido como qualquer outro que apenas busca o poder.

  7. Alex 06/10/2014 / 23:07

    Professor Bertone,
    Não se iluda com o assassinato de Trotsky. Tanto Stalin quanto ele eram a face da mesma moeda. Em pouco espaço de tempo, sob comando do exército vermelho, León Trotsky conseguiu iniciar um levante na Alemanha e Polônia, além de massivas repressões na URSS.
    Além disso, muitas e muitas ideias de Trotsky foram abstraídas e postas em prática por Stalin, tanto que os gulags e a coletivização foram uma das principais. Logo então, esta briga entre ambos nada mais é do que ambição por poder.
    E parabéns pela inspiração em Machado de Assis, rs. Abraços!

    • Bertone de Oliveira Sousa 07/10/2014 / 13:11

      Alex, isso é fato. E ele ainda teve voz ativa no massacre do levante de Kronstadt. Mas mencionei o fato de Fidel levar o Mercader pra Cuba porque pouca gente sabe disso e mostra o alinhamento dele com o método stalinista de eliminação de inimigos, reais e imaginários, um método inaugurado também pelo próprio Trotsky.

  8. Olá professor. Penso esse antagonismo da direita x esquerda diante de uma perspectiva basicamente hegeliana, a qual me leva a concluir que esses dois opostos resultaram na formação de uma síntese histórica que levou à superação do liberalismo clássico, bem como do conceito de ditadura do proletariado. Se esse raciocínio estiver correto, esses velhos arquétipos do burguês opressor e do operário massacrado devem se exaurir da nossa realidade quanto mais ganhe corpo esse Estado da síntese, que vem ganhando corpo na política social democrata com o Estado de bem estar social.
    Essa é uma cogitação bem particular, que não costumo ver esboçada em praticamente nada do que já li, mas queria expor essas cogitações à sua análise a fim de ver se estou viajando na maionese, ou não.

    • Bertone de Oliveira Sousa 07/10/2014 / 19:57

      Rodolfo, essa é uma tendência que tem se esboçado. Mas no caso de nossa sociedade não tivemos ainda um Estado de bem-estar como na Europa, apesar de alguns avanços do governo petista nesse sentido e ainda há os continuísmos do passado, como a mentalidade escravocrata e aristocrática dos bem-nascidos, o populismo, clientelismo e o caciquismo na política e a desvalorização da educação tanto pelo poder público como pela sociedade; com isso levitamos entre os anacronismos de nossa formação social e a ordem econômica pós-industrial.

  9. Beto 14/10/2014 / 3:38

    Ótimos textos no blog. Só um comentário a respeito desta declaração:
    “A esquerda tem razão em criticar a Veja e a direita tem razão em criticar a Carta Capital. As duas revistas são duas faces de uma só moeda e representam os extremos ideológicos anacrônicos de nosso jornalismo.”
    Discordo que sejam faces da mesma moeda. Há uma diferença crucial entre estes dois veículos, porque a Carta Capital assume abertamente sua posição, é um veículo declaradamente de esquerda. Já a Veja se coloca como um veículo neutro, que não assume abertamente seu posicionamento. A Carta Capital diz “Eu voto 13”. A Veja (assim como outros veículos “de direita”) nunca diz “Eu voto 45”, mas sim recheia suas páginas de reportagens negativas sobre o PT, omitindo ou dando menos destaque a fatos e denúncias contra o PSDB, mas sempre sob uma fachada de isenção jornalística.

  10. Marcus Canesqui 02/12/2014 / 10:44

    Ótimo texto professor.
    Mas eu gostaria de saber na sua opinião sobre qual o tipo de imprenssa realmente imparcial (se é que existe) hoje no Brasil e no mundo.

    • Bertone de Oliveira Sousa 02/12/2014 / 12:32

      Marcus, a questão é que a imprensa nunca é imparcial; só o ato de escolher/selecionar eventos para expor ao público já inviabiliza toda pretensão de imparcialidade. Mas o problema maior é pôr uma ideologia à frente de tudo, porque isso implica que todos os eventos possuem uma análise e uma conclusão apriorísticas. A ideologia bloqueia a crítica ao impedir a análise de caso a caso, que é o que faz a imprensa de extrema direita e extrema esquerda.

      • Marcus Canesqui 02/12/2014 / 16:45

        Com base nisso que você falou, você acha que se o Brasil não fosse um país tão ignorante culturalmente, a mídia não influenciaria de modo tão sensacioanlista em ralação a politica?

        Aproveitando, gostaria de saber sobre três temas: quais paises você acha que tem um sistema politico modelo. E também gostaria de saber se você tem algum estudo sobre Che Guevara, pois é uma figura que vera muita polemica em varios meios de discussão e se o que diferenciu em varios aspectos a colonização britanica das espanhola e portuguesa, pois ja ouvi até professores dizendo que se fossemos colonizados pelos britanicos, seriamos uma nação mais evoluida em varios aspectos.

        Obrigado mais uma vez

      • Bertone de Oliveira Sousa 02/12/2014 / 21:02

        Não vejo a mídia mais como um grande influenciador nos resultados das eleições, a internet mudou bastante essa dinâmica. Mas uma sociedade com um nível cultural mais elevado não votaria na maioria dos políticos que hoje estão aí e já teria feito pressões mais consistentes por uma reforma política.

        Os países do norte da Europa onde a social-democracia mais teve êxito se tornaram modelos de democracia e qualidade de vida. Falei um pouco sobre o Guevara no texto “Cuba, o paraíso socialista”. A esquerda precisa se desapegar do mito do Che como um herói, um humanista e repensar seus próprios princípios nesse novo século. Partidos que falam de socialismo e revolução proletária em seus estatutos e nas eleições falam de democracia são claramente incoerentes e anacrônicos para esses tempos.

        Não, isso também é um mito. As ex-colônias francesas, holandesas e inglesas da América Latina são tão pobres quanto outros países do terceiro mundo, como Haiti, as Guianas e o Caribe. A Oceania e o norte dos Estados Unidos mais o Canadá receberam muitos refugiados políticos ou imigrantes dispostos a começar uma nova vida. Esse não foi o caso da América Latina, como da maior parte da Ásia conquistada no século 19; o destino do Brasil teria sido similar independente de quem o colonizasse.

  11. Marcus Canesqui 02/12/2014 / 22:06

    Muito obrigado professor, foi esclarecedor.
    Só uma coisa. Em relação à mídia, muitas dessas pessoas ignorantes, apesar de terem o acesso a internet, não a usam como ferramenta de esclarecimento político, vejo muito isso na juventude em que seu mundo na internet se resume apenas ao facebook e a formação politica é moldada pela mídia tradicional e seus factóides.

  12. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 09/10/2015 / 23:03

    Professor Bertone Sousa,excelente texto,parabéns,me ajudou a compreender melhor a questão da luta de classes,quando o senhor disse no texto que ´´os pobres não estão interessados em revolução ou coletivização, mas em qualidade de vida, sem supressão de liberdades democráticas´´.Mas tenho umas dúvidas,por qual motivo o senhor é opositor do chavismo na Venezuela?Eu vejo Chavez e Maduro,como uma versão venezuelana de nossos governos do PT,Lula e Dilma,um governo social democrata,capitalista,já que diferente do que a gente da extrema direita diz,o chavismo não é comunista,é um governo social democrata,que fez apenas algumas reformas sociais,eu não vejo Chavez como um ogro como o senhor classificou,por que o senhor o classificou assim?E o senhor classificou esse regime tbm de chauvinismo pseudo-socialista,eu não acho assim,eu o vejo como uma versão venezuelana do PT,assim como o governo de Evo Morales na Bolívia,Cristina Kirchner na Argentina,Rafael Correa no Equador,e Daniel Ortega na Nicarágua,são governos alinhados com o Foro de São Paulo,possuem alianças com o regime cubano,mas não são socialistas,diferente do que diz o doido do Olavo de Carvalho,não acredito que o Foro de São Paulo tenha a intenção de implantar o comunismo ou o socialismo na América Latina,mas apenas governos sociais democratas que façam algumas reformas sociais,ao estilo das Misiones Bolivarianas na Venezuela,ou projetos como o Bolsa Família,FIES,cotas raciais,Minha Casa Minha Vida,ou seja que apenas atenuam a pobreza,mas não a elimine completamente,nem acabe com a diferença social entre ricos e pobres.E o que o senhor acredita ser o Foro de São Paulo?

    • Bertone de Oliveira Sousa 10/10/2015 / 0:08

      Gabriel, a noção de Chávez de bolivarianismo e socialismo do século 21 era essencialmente chauvinista. Lula o apoiava mas não defendiam as mesmas pautas. Chávez defendia um antiamericanismo e anti-capitalismo fora de tempo que Lula já havia abandonado. Chávez queria construir o novo com instrumentos do velho, do caudilhismo de onde não conseguiu sair e ainda retrocedeu em relação à democracia, à garantia de direitos e liberdades individuais, o mesmo caminho que Maduro segue. A esquerda precisar entender que melhorar a condição de vida dos mais pobres não justifica ações arbitrárias de um governo. A América Latina não ganha nada com o caudilhismo. Já o Foro de São Paulo é só uma reunião de partidos e organizações de esquerda que objetiva atenuar divergências e conseguir uma integração entre os governos de esquerda na região.

      • Gabriel Ramos Tavares de Pinho 10/10/2015 / 2:04

        Professor porque o senhor acha o antiamericanismo fora de tempo?Eu ainda vejo nos EUA um forte imperialismo,provado em situações horrorosas como a Guerra do Iraque,totalmente desnecessária,Saddam podia ser um ditador cruel,autoritário e genocida,mas sua derrubada pelo governo Bush entregou o Iraque na mão de pessoas mais violentas que ele,como os terroristas islâmicos,Saddam era autoritário e cruel,mas laico,era um muçulmano sunita não fundamentalista,tanto que entre seus ministros estava um cristão chamado Tariq Aziz,eu entendo essa ascensão do Estado Islâmico,como uma consequência da derrubada do regime de Saddam,Saddam combatia esses fundamentalistas islâmicos,assim como faz o Bashar Al Assad na Síria,aliás ambos são do mesmo partido,o Saddam do Partido Baath Iraquiano,e o Assad do Partido Baath Sírio,e esse partido defende o nacionalismo árabe,mas é laico.

  13. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 09/10/2015 / 23:10

    E o Lula apoiou a candidatura do Maduro na Venezuela,por isso que acredito que eles professam a mesma ideologia,se foi interessante para o Lula que o Maduro fosse eleito por lá,então penso que se o Lula não é socialista,o Maduro também não,ambos são apenas partidários da social democracia.

  14. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 09/10/2015 / 23:50

    Professor e o senhor acha que movimentos como o MST e o MTST também estão superados,por pregarem a luta de classes?Adotam a estratégia errada,e o engraçado é que o líder do Movimento dos Sem Teto,Guilherme Boulos não é um sem teto rsss,ele vem de uma família de posses aqui de São Paulo,seu pai era médico,ele estudou psicologia na USP,veio de uma família de classe média alta,e agora pouco vi uma entrevista com o comediante Gregório Duvivier do Porta dos Fundos,que também nasceu em uma família de classe média alta da Zona Sul do Rio de Janeiro,usando um boné do MST
    http://www.redebrasilatual.com.br/blogs/blog-na-rede/2015/10/gregorio-duvivier-muita-gente-morre-por-causa-do-conservadorismo-2145.html

    Por que o senhor acredita que mesmo pessoas da classe média alta e da elite pregam essa luta de classes?

    • Bertone de Oliveira Sousa 10/10/2015 / 0:14

      Alguns movimentos sociais não entenderam mudanças importantes que ocorreram após a queda do muro de Berlim e continuam usando um discurso datado. O MST já teve uma atuação importante na pressão por reforma agrária e ainda tem, mas o discurso de extrema esquerda que alguns militantes usam precisa ser repensado.

  15. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 10/10/2015 / 2:10

    Sobre o antiamericanismo professor Bertone,com a chegada de Barack Obama ao poder,confesso que realmente o Chavez e o Maduro poderiam ter dado uma maneirada nos discursos contra o imperialismo yankee,Obama é muito mais moderado que o Bush,não é alguém oriundo de uma elite política como seu antecessor,e possui uma formação acadêmica muito boa,além de representar a chegada ao poder de uma minoria,os afro americanos,e o Obama sempre foi contra a guerra do Iraque,eles poderiam ter enfatizado que o problema era o Bush,e não o governo dos EUA em si,mas quem o governava,e fez a Guerra do Iraque,foi George W.Bush.

  16. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 10/10/2015 / 2:26

    E professor,eu não entendi bem o que o senhor interpreta como pós-modernismo,tenho muitos amigos que entendem que o pós-modernismo é filho das ideias de Sartre,Foucault,Marcuse e de Maio de 1968, e é mais preocupado com a questão comportamental,como a liberdade sexual,e liberação das drogas,e é proibido proibir,com os direitos LGBT,e de outras minorias,como os negros e as mulheres,o senhor o interpreta assim?Que a nova luta deve ser pautada por direitos das minorias e liberação das drogas?Direitos que alguns membros do PSOL como Jean Wyllys defendem.

  17. Marcus Canesqui 09/11/2015 / 22:47

    Olá professor.

    Mais uma vez belo texto. Concordo em quase tudo. Gostaria de saber um pouco mais sobre o bolivarianismo, pois acho que nunca o entendi e gostaria de saber sua opinião sobre Noam Chomsky e seu posicionamento sobre a politica dos EUA, ele particularmente é uma pessoa que adimiro bastante.

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