O que foi o comunismo

comunismoEm última instância, todas as ideologias e doutrinas servem, consciente ou inconscientemente, à legitimação de ambições próprias, em que se integram interesses materiais e necessidades psicológicas, fantasias megalomaníacas individuais e coletivas, impulsos altruístas, energias criminosas. Gerd Koenen

Para quem quer começar a entender a história do comunismo, suas motivações, ideais, os crimes, as aproximações e diferenças em relação ao nazismo, o estrondoso fracasso e até mesmo por que, nos países que aboliram o comunismo, não houve grandes julgamentos de crimes contra a humanidade como no Tribunal de Nuremberg, o livro “Utopia do Expurgo: o que foi o comunismo”, de Gerd Koenen (Editora Unijuí, 2009), é uma excelente indicação.

Gerd Koenen, nascido em 1944, é um historiador alemão e especialista em história do comunismo. Sua obra, originalmente publicada por volta de 1998, não pretende ser uma história completa do comunismo no século XX, mas uma reflexão teórica com foco na Rússia soviética do período da revolução ao fim da era Stálin. O livro, que termina com um brilhante epílogo que leva o subtítulo da obra, deixa uma sensação de “quero mais”. E talvez, esse tenha sido o objetivo do autor, sem pretender encerrar os temas que aborda, introduzir o leitor no assunto;  e como obra propedêutica o livro cumpre seu papel de formar uma base para ulteriores aprofundamentos.

O papel do historiador é reconstituir contextos, levantar problemáticas e questionar o passado através das fontes. Compreender a história do comunismo é importante não para “evitarmos que não se repita”, uma vez que o comunismo está morto, ou fazer “caça às bruxas” ou inventar novas bruxas como faz a direita conspiracionista, mas para entendermos contextos que por décadas foram anuviados por intensa propaganda ideológica, fechamento de arquivos, silenciamento e banimento de historiadores, contra-informação ou ocultação de informações. Como o próprio autor ressalta, vivemos a uma distância temporal desses eventos que permite abordá-los com uma base de fontes mais consistentes devido a abertura dos arquivos de Moscou a partir da dissolvição da União Soviética; por isso é necessário reconstruir as motivações dos atores  e “as lógicas de sua atuação”.  Hoje, não vivemos acercados  do fantasma do totalitarismo e o que sobrou para a esquerda foi a social-democracia, exceto para alguns partidos ultrarradicais com um discurso avelhantado e sem apoio social. A crítica e a investigação histórica, porém, não devem cessar.

No prefácio da obra, questões que incitam à reflexão sobre a Revolução de 1917 e seus desdobramentos: “Trata-se efetivamente de uma revolução, não muito mais de uma involução – ou mesmo de reação? O empreendimento fora progressista, não antes regressivo, em seu cerne? Foi moderno ou antimoderno – ou ambos: moderno-antimoderno? Trata-se de igualitarismo ou de elitismo? De internacionalismo ou de um novo tipo de inter-nacionalismo?” O autor inicia chamando a atenção para a capacidade que teve o comunismo de hipnotizar a humanidade, até mesmo muitos de seus adversários, como ideologia portadora dos objetivos mais elevados da humanidade. De fato, o comunismo representou a síntese maior do projeto iluminista de realização de um progresso, um futuro de felicidade e realizações da humanidade. Em nome desse ideal, fez-se necessário retirar do caminho todos os obstáculos, rapidamente transformados em cruéis adversários e rotulados com signos tão genéricos que qualquer um, do camponês da mais remota aldeia aos principais nomes do alto escalão do poder, poderiam ser inadvertidamente incluídos. Sobre isso, o autor afirma:

Afinal, todas essas evocações cerimoniosas de humanismos, utopismos, universalismos serviram, na verdade, a uma monstruosa inversão da realidade, uma “ressignificação de todos os valores”, nunca antes vista. Escravizaram os trabalhadores em nome da classe operária; elevaram traição e denúncia a virtudes revolucionárias; em nome da “verdade objetiva”, da mentira fez-se ciência, e a realidade foi substituída pela ficção; eliminou-se a memória das pessoas e reinventava-se sua história, enquanto se lhes assegurava estarem justamente a “fazer história”; em nome do internacionalismo, isolaram o país do mundo; em nome da liberdade e da qualificação moral, roubaram a milhões de pessoas sua liberdade e dignidade pessoal; finalmente, assassinaram com inabalável consciência limpa, centenas, milhares, centenas de milhares de pessoas, atiraram-nas em fossas comuns, toda manhã queimavam-nas em crematórios das capitais ou enterravam-nas, isoladas, na paisagem – em nome da humanidade e de seu progresso. (p. 19-20)

O tom lúgubre dessas últimas palavras desvela o lado mais aterrador do comunismo: o desterro, o roubo da dignidade pessoal e da própria humanidade de incontáveis seres humanos que desapareceram nas citadas valas comuns descobertas em várias localidades da Rússia e do leste europeu após o desmonte da União Soviética. Os crimes não tiveram um caráter aleatório, mas foram planejados e executados friamente por pessoas sem histórico de outros crimes. Na Rússia soviética, como em todos os lugares em que chegou ao poder, o comunismo logo se tornou paradoxalmente anti-humanista. Os meios logo se transformaram em fins e uma extensa rede de intrigas e calúnias transformou seres humanos em peças descartáveis e animais de laboratório de um Estado todo-poderoso.

Os milhões de mortos e milhões de existências destruídas do período soviético, porém, não foram vítimas de desgraças externas, de uma “época de pestes”, mas de uma tentativa, empreendida por humanos, remodelar in toto a dada “velha sociedade” e de transferir seus sujeitos para nova, compacta ordem. Nisso o terror não foi mero excesso, mas consequência lógica desse empreendimento inédito. (p. 23)

Em um ponto o autor concorda com outros autores, como Archie Brown e Richard Pipes: a verdadeira revolução foi a revolução democrática de fevereiro e março de 1917. Os autores supracitados consideram a tomada de poder pelos bolcheviques um golpe, ao que Koenen acrescenta que o golpe bolchevique tanto foi desnecessário como também voltou-se, não contra a monarquia que já fora derrubada, mas “contra a jovem república democrática” e arremata: “Vista mais de perto, a transição de fevereiro a outubro mais parece involução do que revolução”. (p. 42) E aqui o autor destaca que usa o termo involução em um sentido médico, como um “processo de degenerescência” dos órgãos internos.

Após a tomada do poder, os bolcheviques instituíram o terror como forma de governo e transformaram o vocabulário do marxismo e da economia política em uma ampla “demonologia”. O uso desse termo é particularmente importante quando, ao final da obra, o autor destaca o caráter religioso do comunismo. A demonologia já se manifestava inicialmente nos termos que Lênin usava para exigir o expurgo dos elementos indesejáveis: “bicharedo peçonhento”, “pulgas-açoite”, “sanguessugas”, “parasitas”, “sabotadores”, “hooligans”, “bandidos”, “espiões”, “agentes pagos”, “contrarrevolucionários”, para colocar todos sob o rótulo nada preciso de “inimigos do povo”.

“O regime dos bolcheviques estava alicerçado sobre uma forma de terror sem similar. Esse terror, porém, fundava-se na inércia e no descomedimento do próprio empreendimento” (p. 59). O terror logo criou ampla resistência civil, que foi ferozmente combatida lançando as bases do que viria a ser o Estado totalitário soviético. No campo, onde se concentrava cerca de 80% da população, foi onde ocorreram as mais cruentas ações da guerra civil. No entanto, o campesinato somente foi completamente subjugado na coletivização de 1929-1932. Mas mesmo durante a guerra civil, a população pagou alto preço pelo caos e a falência econômica do país. “Neste período, a fome na Rússia atingiu seu auge. Nada menos que 29 milhões de pessoas sofriam de desnutrição, e dessas morreram mais de 5 milhões […] numa catástrofe programada conscientemente, por seres humanos. Segunda Nicolas Werth, a fome foi a última arma e, como se deve presumir, usada conscientemente, numa luta de muitas consequências” (p. 83). Ao todo, segundo o autor, mais de dez milhões de pessoas morreram durante a guerra civil de 1918-1921.

Um dos resultados dessa catástrofe social foi a disseminação de processos-farsa utilizados para justificar a condenação e os fuzilamentos dos adversários ou supostos adversários do novo regime. Como o país sequer possuía uma constituição, o que implicava a não existência de qualquer noção de legalidade, justificando o uso ostensivo do terror, o Estado tratou de criar campos de concentração, locais de banimento para confinar anarquistas, mencheviques, revolucionários de esquerda não alinhados aos ideais bolcheviques, culaques e camponeses que resistiam ao confisco compulsório de colheitas e cereais. “Como Lênin disse, porém, na véspera da Grande Fome, sobre o confisco de cereais, que condenava à morte os agricultores: ‘Morram milhares, a revolução, o Estado, serão salvos'”. (p. 103). Com base nisso, o Estado tentou promover a homogeneização intelectual banindo e expatriando cientistas, filósofos e escritores e impondo vigilância aos intelectuais que permaneceram no país.

A educação foi reformulada para produzir o “novo homem” socialista. Com elementos de um forte darwinismo social, criou-se uma doutrina pedagógico-estatal voltada para o disciplinamento e o trabalho. A pedagogia soviética representou o primeiro grande projeto de engenharia social totalitário do século:

Particularmente entre a coleção dos escritos sobre “Literatura e Revolução”, de Trotski, constam tresloucadas visões de uma determinação totalitária da conformação, que se poderia achar divertida ou visionária, fosse apenas a opinião de um diletante culto – e não um programa de um déspota iluminado. “O homem finalmente porá mãos à obra, para se harmonizar a si próprio. Estabelecerá, para si, a tarefa de atribuir ao movimento de seus próprios órgãos – no trabalho, no andar ou no jogo – máxima clareza, conveniência, economia e, com isso, beleza. Ele sentirá a vontade de controlar no próprio organismo os processos semiconscientes, e depois também os conscientes: respiração, circulação sanguínea, digestão e fecundação… a vida, mesmo a mais fisiológica, resultará em algo coletivo-experimental.  O gênero humano, o homo sapiens paralisado, será remodelado radicalmente e – sob suas próprias mãos – será objeto dos mais complicados métodos da seleção artificial e do treinamento psicológico…  O ser humano estabelecerá como objetivo dominar suas próprias emoções, elevar à altura da consciência seus instintos, fazê-los transparentes de clareza, avançar por sua própria vontade até as últimas profundezas de seu subconsciente e, desta maneira, elevar-se a um patamar – um tipo sociobiológico superior e, por assim dizer – criar o super-homem” (p. 121-122).

O mesmo Trotski, que atribuiu a Lênin um papel “sobrenatural” como líder que encarna uma ação consciente da história, foi um dos principais instigadores de uma “identificação místico-materialista da natureza e história, líder, proletariado e nação” e que encontrou, no governo de Stálin, sua concretização. A necessidade de criar exemplos de lideranças para as massas levou à institucionalização do culto ao líder, ao Estado. Stálin sintetizou a busca obsessiva da industrialização e transformação do país em uma potência. Para isso, teve de acelerar o processo de coletivização no campo, onde encontrou novamente forte resistência não apenas dos grandes proprietários, mas principalmente dos agricultores e camponeses de poucas posses. A partir de então o autor discute as causas e os resultados das tensões entre o Estado soviético e os camponeses no período de 1929 a 1933, culminando com a morte de cinco a sete milhões de camponeses (a pior catástrofe da humanidade até então), cerca de dois milhões transportados para campos de trabalhos forçados, dos quais cerca de 300 mil morreram apenas durante o traslado, e a multiplicação de crianças órfãs, mendigos e indigentes nas ruas das cidades, camponeses e filhos que sobreviveram e não possuíam mais terras, propriedade ou qualquer meio de subsistência.

Depois o autor tece importantes considerações sobre as relações entre nazismo e comunismo, antifascismo e antibolchevismo, mostrando diferenças, aproximações, interesses comuns e divergentes, ajudas mútuas e alianças até a guerra total, discute o grande terror do período de 1936-1938, não como um episódio isolado ou como resultado da “paranoia de Stálin”, mas como ponto culminante de uma política de expurgos que iniciou com a guerra civil e teve em Lênin, nos anos iniciais da revolução, seu mentor e principal instigador. Nesse ponto, Koenen mostra que os primeiros trabalhos sobre o Grande Terror, escritos por dissidentes nos anos 1960 e 1970, como Alexander Soljenítsin e Robert Conquest, hiperbolizaram os números das vítimas do expurgo de Stálin. De toda forma, embora a abertura de arquivos tenha evidenciado um número de vítimas bem abaixo do que eles projetaram, Koenen afirma que pelo menos um milhão de pessoas morreram de forma violenta como vítimas do expurgo e de três a quatro milhões foram detidos e enviados a campos de concentração. Esses números convergem com a abordagem de outro importante historiador, Roy Medvedev, sobre esses eventos. (Clique aqui para ler). Koenen observa:

Os três grandes processos-farsa moscovitas – em agosto de 1936, janeiro de 1937 e março de 1938 –, apesar de tudo o que hoje se sabe, permanecem tão ininteligíveis como sempre o foram. Por que foram promovidos, entretanto, é óbvio. Sem eles, o Grande Expurgo sequer teria sido possível, ao menos não o seu cerne, o aniquilamento do partido histórico dos bolchevistas. Precisava-se de tais confissões públicas de culpa de Sinowjev [Zinoviev], Kamenev, Pjatakov, Radek, Rykov ou Bukharin para fazer crer que quase todos os membros fundadores da União Soviética, com exceção de Stálin e seus companheiros mais achegados, aspiraram logo a sabotar e trair, desde o início, a revolução que estavam justamente a fazer e o Estado que construíram. Claro que teria sido possível condená-los em processos sigilosos, tal qual a maioria dos detidos, mas isso, no todo, não teria sido o suficiente. Era preciso aniquilá-los também em termos políticos. E para isso urgia sua participação. Foi determinante, ainda mais que, diante das pesadas acusações – inconfidências e atentados –, sequer um só comprovante foi apresentado. (p. 214)

E os métodos usados para extrair as falsas confissões já são conhecidos do público:

Todos haviam assinado as “confissões” que lhes foram ditadas somente após meses de bárbaras torturas. O método principal era negação do sono e inquéritos permanentes, agregados, quando necessário, de todo tipo de suplícios físicos. Um prisioneiro só podia prolongar esses tratos, dificilmente podia resistir. […] Ademais, a maioria dos acusados do primeiro processo – e mesmo a maioria do Bureau Político – ainda não podia imaginar no verão de 1936 que os “companheiros de Lênin” seriam efetivamente fuzilados. O instrumento decisivo  de extorquir afirmações era, no entanto, a horrível ameaça de deter ou mesmo assassinar os parentes mais próximos. A maioria, enfim, assinava as “confissões” propostas para salvar suas esposas, filhos, pais, irmãos e irmãs – geralmente em vão. Assim como todas as outras promessas, também esta se mostrava falsa. (p. 215-216)

No mesmo capítulo, Koenen faz uma crítica importante aos “revisionistas”, historiadores que negam o Grande Terror e os expurgos como ações arbitrárias do Estado soviético contra membros do partido, forçados sob tortura a confessar “crimes” que não cometeram. Cita o nome de J. Arch Getty, historiador americano e professor da Universidade da Califórnia e refuta seu argumento de que houve um desenvolvimento simultâneo de terror e contraterror e que as autoridades reagiram a uma ameaça concreta vinda de instâncias partidárias regionais. O fato é que no final da década de 1930, os inimigos reais e imaginários do bolchevismo (funcionários da antiga monarquia, nobres, mencheviques, anarquistas e socialistas) já haviam sido fisicamente eliminados ou banidos. Stálin eliminou os agentes do partido que ainda poderiam lhe oferecer alguma resistência e todos os dirigentes soviéticos posteriores, até Andropov, segundo Koenen, iniciaram suas carreiras durante o Grande Terror; inclusive Kruschev, que denunciou parcialmente esses crimes numa sessão secreta durante o XX Congresso do PCUS em 1956. Discuti esse tema no texto Kruschev não mentiu sobre Stálin, em que, com base em sólida bibliografia recente, também analisei os equívocos de argumentação de outro teórico revisionista, Grover Furr.

As evidências históricas do Grande Terror e suas motivações são temas amplamente abordados pela historiografia. Koenen afirma que as listas de fuzilamentos de líderes do partido, funcionários, economistas, militares, chefes militares, agentes do serviço secreto eram todas assinadas por Stálin, Molotov e todos os membros do Bureau Político. Por isso, as denúncias de Kruschev no XX Congresso do Partido em 1956 surtiram pouco efeito no sistema político: a maior parte de seus ouvintes estava envolvida nos casos que foram denunciados e não se cogitou, em nenhum momento, punir qualquer responsável, o que implicaria incriminar um número tão alto de pessoas que poderia ameaçar até mesmo a estabilidade do próprio regime. Segundo o autor, “encontraram-se 383 destas listas contendo cerca 44 mil nomes. […] No todo, das cerca de 44 mil pessoal relacionadas nas listas, foram fuziladas mais de 39 mil” (p. 244).

Nos últimos capítulos, são feitas algumas considerações sobre o pacto Hitler-Stalin, seus efeitos e ruptura, a guerra total na qual Alemanha e URSS se viram envolvidas entre 1941 e 1945 (assuntos que serão discutidos mais detalhadamente em outro texto) e os últimos anos da era Stálin, com esclarecimentos sobre a perseguição a médicos judeus, a situação dos prisioneiros dos campos de concentração e o período de estagnação econômica que marcou o restante da história soviética após sua morte.

No último capítulo, um epílogo intitulado “O que foi o comunismo?”, o autor tenta elencar algumas características gerais do sistema soviético. Destaca que o comunismo alcançou o poder em Estados com sistemas sociais pré-modernos e de populações agrárias, impérios antigos (Rússia e China), caracterizados por dependência semicolonial e ameaçados de desmoronamento e onde os partidos comunistas apenas disseminaram os sentimentos anticapitalista e antiimperialista, contrapondo um “hegemonismo cultural” de matizes progressistas aos impérios europeus; nisso consistiu o inter-nacionalismo comunista, que, segundo o autor, apenas fazia eco ao nacionalismo moderno oriundo da Revolução Francesa. Isso levou Lênin e os bolcheviques a falarem em nome dos trabalhadores ao mesmo tempo em que rompiam com o movimento ligado a eles, invertendo o que até então se compreendia como socialismo. Através da guerra, eles utilizaram a economia como mecanismo de sustentação da ditadura política e, ao invés de promover uma modernização de uma sociedade atrasada, o que houve foi regressão em vários aspectos, como redução do grau de socialização e divisão do trabalho, além da dissolvição de categorias sociais transformadas em classes inimigas pela demonologia universal de Lênin.

Por outro lado, a exaltação do sacrifício pela revolução e a evocação de uma tendência histórica apocalíptica remetem a conotações religiosas que estavam presentes na semântica e na propaganda revolucionária. O culto ao líder evoca a figura do redentor e à instauração de uma religião da nação, assim como a substituição de feriados religiosos e tradicionais por outros ligados à exaltação da revolução e do trabalho, bem como a hinologia revolucionária ligada a esses novos feriados formavam o calendário místico comunista e fundamentavam toda uma religião política, uma cultura de sangue e sacrifícios humanos, com “profundas regressões históricas e “arcaísmos modernos”. (p. 382).

A obra de Koenen é útil como material propedêutico à história do comunismo – haja vista que enfoca o turbulento período da história soviética que vai da revolução de outubro à morte de Stálin e com breves considerações sobre a China maoísta no último capítulo – como também é uma leitura importante para aqueles que já estão familiarizados com o tema, tanto pela importância das interpretações históricas tecidas pelo autor, como também pelos diálogos que estabelece e pelas críticas que faz a outras obras de referência, como “O livro negro do Comunismo” de Stephane Courtois e outros autores e “O Passado de uma Ilusão” de François Furet e ainda pela experiência do autor como historiador e pesquisador, sem vinculações ou motivações ideológicas que pudessem comprometer a abordagem.

Leia também:

Socialismo e Nacional-Socialismo: a esquerda e a direita autoritárias do século XX

Outros textos sobre o assunto podem ser acessados no Tema “Socialismo e Comunismo” no menu lateral do blog.

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27 comentários sobre “O que foi o comunismo

  1. Pedro Henrique F. 28/09/2014 / 3:14

    Muito bom como sempre Bertone. Apesar de eu ter minhas divergências com os idéias dos comunistas, simpatizo muito com seu ideal de igualdade, claro que não de uma maneira bolchevique de ser. A talvez uns 3 ou 4 meses acompanho o blog e já li muitas matérias e estou muito contente de ter encontrado, não só pela qualidade dos textos como pela (até onde percebo) capacidade de tratar as coisas sem um manto ideológico. Como um vestibulando para uma faculdade de história esse ano,espero poder adquirir pelo menos metade do que aprendi aqui (e de outros grandes autores) e poder utilizar isso para nao só melhoras as portagens de não só meu blog pessoal como da sociedade humana. Continue o bom trabalho pois creio que muitas pessoas (entre elas eu) amam seus textos!

      • Pedro Henrique F. 29/09/2014 / 2:22

        Bertone, acho que você também poderia fazer um texto sobre o que é realmente o tão demonizado bolivarianismo (por exemplo, fazendo uma comparação concepção original com a atual) pois tem sido usado com peso por uns nada haver na internet. Até onde sei pelo meu curso pré-vestibular, bolivarianismo além de nunca ter incluído o Brasil também não tem nada haver com socialismo. É correto isso?
        Apenas uma sugestão.

      • Bertone de Oliveira Sousa 29/09/2014 / 13:31

        Pedro, é verdade, de socialista essa postura não tem nada, está muito mais pra uma forma de chauvinismo, de onde provêm sua pobreza de conteúdo e discurso anti-americano.

    • Climério 31/10/2016 / 8:29

      Caro Pedro, ” capacidade de tratar as coisas sem um manto ideológico,” em história, é impossível. Espero que você aprenda isso quando estudar teoria da história.

      • Bertone Sousa 31/10/2016 / 21:44

        Climério, recomendo que você refaça ou amplie suas leituras de teoria da história, porque é sim possível fazer abordagens históricas não ideológicas.

  2. Rogério 28/09/2014 / 13:26

    Excelente professor! Sempre contendo textos equilibrados e enriquecido, quanto ao conteúdo.

    Você já pensou em elaborar um texto sobre as possíveis causas e impactos que o assassinato de Trotski teve no movimento comunista?

  3. José Gervásio Neto 28/09/2014 / 13:32

    Não adianta nenhum sistema enquanto houver ‘imposição fundamentalista” – coisa que é inerente à humanidade. A única criação que não deu certo!

  4. João Paulo 28/09/2014 / 16:20

    Presado prof. Bertone muito bom texto. O problema é que muitos lunaticos, principalmente na internet adoram fazer confusões mentais das expenriências e tentativas do comunismo no século XX nas costas de Marx e Engels. Eu como já quase formando em historia fico suspreso de quantos extremistas gostam de deturpar e distorce informacões e livros dos autores(99% nem leem o prefácio). O que torna o dialogo e debate na internet um “show” de ofenças e xingamentos. Já nao faço isso no facebook por sofrer ameaças e xingamentos. Mas no seu blog vejo ” um raio de esperânça”, parabéns mas sei que esses mau educados as vezes fazem uma visita aqui. Para finalizar o que pode ser aproveitado de forma positiva as experiencias do século XX? falo do comunismo pensado das obras de Marx e Engels, apesar de nao serem seguidas como os autores citados planejaram pelo comunismo no século XX. Já li algumas como a ideologia alemã, o panfleto do manifesto. E estou lendo O capital vol.1. Autores como Hobsbamw, Thompson também sao muito bons. A era dos Extremos esta sendo esclarecedora para mim. Se o senhor puder me indicar mais algumas obras fico grato. Desculpe os erros de digitação estou digitando no celular. No mas parabens por abrir esse espaço.

    • Bertone de Oliveira Sousa 28/09/2014 / 17:53

      João Paulo, até escrevi algo sobre isso no texto “Marx ontem e hoje” no Tema “Filosofia”. Quanto às indicações de leituras, você pode ver outras no texto “Kruschev não mentiu sobre Stálin”. “Era dos Extremos” é um ótimo livro. Há outro que é um complemento e, em alguns aspectos, até um corretivo a ele, “Continente Sombrio: a Europa no século XX”, de Mark Mazower, atualmente esgotado e disponível apenas em sebos virtuais. Obrigado e, se puder, ajude a divulgar na faculdade. Esse diálogo com quem está dentro e fora da academia é sempre importante. Abs.

      • João Paulo 29/09/2014 / 14:16

        Ok! Prezado prof. Bertone uma boa dis urção é com relacão sobre a revoluçao russa de 1917 a uma certa divergência historiografica sobre o que foi:um golpe, uma revoluçao ou os 2. O historiador Daniel Aarão Reis Filho da UFF descreve que ” O exame acurado das circunstâncias, contudo, não parece recomendar a escolha de um desses termos com a exclusão do outro. É inegável que ocorreu uma revolução, materializada na transformação radical da correlação de forças sociais, na mudança brusca das instituições politicas, na subverção das estruturas econômicas. Mas introduzida por um golpe, decidido e realizado sem consulta às únicas instituições que, segundo os próprios protagonistas da insurreição tinham legetimidade para autorizá-los– os sovietes” In: FERREIRA, J., REIS FILHO, D.A., ZENHA, C.(Orgs). O século XX: tempos de crises- revoluções, fascismos e guerras. Civilização Brasileira, 2005. p-54. Estou fazendo essa “provocação” porque pelo que eu entendi o Historiador Koenen fala somente em golpe, ou eu li errado, não sei como trabalha academia alemã mas aqui no Brasil a certa divergencia historiografica. Desde já te agradeco pelo espaço. =)

      • Bertone de Oliveira Sousa 29/09/2014 / 17:43

        João, parte da historiografia anglo-saxã também aborda como golpe. O Daniel Aarão não destoa dessa interpretação. O que ele quer dizer é que, no contexto de todo o processo revolucionário iniciado em fevereiro-março de 1917, a dita revolução bolchevique foi um golpe, mas, vista em seus efeitos, como transformação radical das estruturas sociais, houve uma revolução. Também houve uma mudança de rumo em relação às políticas iniciadas pelos mencheviques, com uma radicalização do discurso marxista. Dizer que foi golpe implica dizer que não houve base de apoio social efetiva para a tomada de poder pelos bolcheviques, que tiveram de usar o terror para se legitimar e manter no poder. Esse é um ponto-chave da questão.

  5. Samuel Silva 28/09/2014 / 20:19

    O tal registro rebuscado não deixa de ser verdade, mas logo se deve analisar a posição dos tais escritores no momento das pesquisas de fontes para tecer suas opiniões para mostrar ao público o que realmente foi! Se realmente existiu um comunismo ou apenas uma nomenclatura que ainda persiste nos dias atuais. Engraçado é que nos dias de hoje, nas redes sociais, nos blogs, em sites o dito comunismo que se passou aqui na terra trazendo as idéias de Karl Marxs e Engels de forma totalitária recebe solavancos em demasia, até muito mais do que os próprios regimes nacional-socialistas e o sistema capitalista que corroborá para a não elucidação do seu próprio castigo contra o mundo, desde os primórdios do mercantilismo até os dias de hoje. Engraçado também é o próprio criador do blog onde encontrei informações contrárias ao dito “sábio olavo de carvalho” e também um guia moralista de “como identificar uma pessoa burra”, se assemelhar um pouco sobre os tais no que concerne dizer, “o que é o comunismo” sendo tão tendencioso como um olavo de carvalho exarcerbado, ou um Arnaldo Jabor clamando na globo. A imparcialidade é uma das principais fontes que se é sonegado hoje pelo povo que em quase sua totalidade recebe informações como um PPC ou seja, não pesquisa-se mais profundamente de forma imparcial as informações dadas. Não se esqueça de fazer um tratado sobre as virtudes do capitalismo no seio dos ultimos séculos, assim não se assemelharás aos mesmos que todos os dias escavam das ditaduras totalitaristas “comunistas”, estrumes e gonorréias, aidis e lixões, ou se não meritocracias e burocracias. Obrigado.

    • Bertone de Oliveira Sousa 28/09/2014 / 22:46

      Samuel, se você entendesse um pouquinho de teoria da história não falaria de “imparcialidade” como “uma das principais fontes” seja lá do que for. Também não é a primeira vez que recebo comentários de stalinóides como você me comparando ao Olavo de Carvalho e que não se dão conta das diferenças de abordagens do comunismo e do marxismo entre ele e eu. O problema é que vocês não percebem que não escrevo para extremistas, pois estes textos estão além de sua capacidade cognitiva. E se você se encontrou no texto “Como identificar uma pessoa burra”, que nada tem de moralista, diga-se de passagem, sinto muito mas não tenho lenços virtuais para lágrimas de gente magoada. Crítica social às vezes dói quando se está enlevado de princípios dogmáticos. Você pode procurar ser mais inteligente e tentar aprender, ou não e continuar assim.

  6. Artur 04/10/2014 / 20:19

    Todos esses números fantasiosos (“centenas de milhares de mortos”) são apenas uma estratégia barata da direita para denegrir a imagem do Comunismo (vide a argumentação utilizada por sujeitos como Olavo). Aliás, a própria associação do Comunismo ao Stalinismo é uma enorme desonestidade intelectual. O fato é que nenhum país dito comunista conseguiu chegar realmente a esta etapa final, todos eles estacionaram na etapa “socialista”.

  7. Erick Heidan 08/10/2014 / 13:54

    Olá Bertone.
    Muito legal o texto.

    Gostaria de saber o que acha do pensamento dos filósofos Alain Badiou, Slavoj Zizek e, mais especificamente no Brasil, Vladimir Safatle, que se por um lado admitem que o socialismo/comunismo deu errado, por outro ainda defendem um comunismo revisado. Acredita nessa hipótese ou o esquerdismo virou apenas um sistema pra tentar mediar a agressividade do mercado?

    Muito obrigado.
    Erick Heidan

    • Bertone de Oliveira Sousa 08/10/2014 / 14:01

      Olá Erick, não acredito nessas perspectivas. Como eu disse nas “Notas avulsas”, o que sobrou pra esquerda foi a social democracia. Nem pra mediar a agressividade do mercado o socialismo é mais alternativa. Os que defendem o comunismo ou socialismo não conseguem explicar como construir esses modelos sem totalitarismo. Além disso, nossa sociedade não está mais voltada para a organização do trabalho, por isso essas ideologias da era moderna estão desacreditadas e não se adequam a atual conjuntura. Abraço.

  8. Humberto 12/10/2014 / 12:53

    Bertone Sousa, por qual motivo o senhor censura comentários de comunistas? Será que existe um medo de ser desmascarado toda sua “historiografia”? Como já disse, Lênin foi um importante precursor de Karl Marx. Suas obras são exemplares para todo o mundo. Além disso, no seu livro O Estado e a revolução, Lênin demonstra não somente ser um homem libertário, como também um marxista ortodoxo. Suas conjecturas burguesas não fazem menor sentido, pois nunca houve totalitarismo na União Soviética. Tal termo foi rotulado aos nazi-fascistas.
    Outra coisa importante que percebi foi seu tratamento um tanto eufemista ao Partido dos Trabalhadores e ao Luis Inácio, coisa que não notamos nas suas críticas a Lênin e ao comunismo.
    Trabalhe com comprometimento e verdade.

    • Bertone de Oliveira Sousa 12/10/2014 / 14:24

      Humberto, eu não discuto com comunistas porque são pessoas de intensa fé religiosa e não tenho nada a ver com isso. Sou historiador, não um militante religioso.

  9. Josiel 21/01/2016 / 10:11

    Prezado Bertone, primeiramente gostaria de parabeniza-lo pelo texto. No entanto, gostaria de fazer alguns comentários de um engenheiro metido a historiador. São inegáveis as atrocidades cometidas pelo regime Stalinista na União Soviética. Qualquer um, mesmo socialista, que queira negar ou justificar esses fatos estará cometendo uma desonestidade intelectual. No entanto, penso que o que foi adotado na antiga URSS está muito distante do ideal socialista. Considero que o capitalismo e o socialismo modernos são irmãos em constante luta, visto que ambos são filhos da revolução industrial. O proletariado surgiu com a exploração dos trabalhadores pela burguesia industrial, trabalhadores estes que viviam em condições próximas, senão piores, ao trabalho escravo. As jornadas de trabalho eram extenuantes, não havia descanso remunerado e os salários eram aviltantes. Neste contexto de exploração que surgiram os primeiros socialistas. Estes lutavam por igualdade de condições de forma que fossem também beneficiados pela produção industrial. Eram os socialistas utópicos. Neste contexto, vejo que o regime soviético se afastou totalmente dos ideais propagados pelos primeiros socialistas, que não propuseram a ditadura do proletariado. O socialismo é anterior à Marx. Portanto, penso que, se a maioria dos socialistas utópicos pudessem viajar no tempo e contemplar o que ocorre hoje, eles, em sua maioria, se identificariam muito mais com o estado de bem estar social alcançado pelos países de orientação social-democrata, do que com os estados totalitários como a Coreia do Norte. Países como a Suécia se aproximaram muito mais do ideal comunista do que aqueles países que se autoproclamavam comunistas. Neste ponto, acho que o socialismo é vitorioso, visto que os direitos trabalhistas e o bem estar social alcançado pelos países europeus convergem com os princípios pelos quais os primeiros socialistas lutaram. Abraço.

  10. Ć૨oss Kaze (RØŊŊĮŊ) 27/04/2016 / 18:45

    Bertone pelo o que eu já li, estou gostando muito do seu blog, poderia fazer um artigo sobre o Fabianismo alguma hora?

  11. Mateus Roger 27/05/2016 / 22:05

    Falando em comunismo, qual a sua opinião sobre o trabalho do ex-agente da KGB Yuri Bezmenov?

  12. Climério 31/10/2016 / 8:41

    Prezado Bertone, parabéns pelo texto, muito bem escrito. Vejo apenas um problema, que não tem origem o seu texto, mas no livro resenhado. Perguntar o que foi o comunismo é como perguntar como foi o a década de 2050. Nunca houve na história uma sociedade comunista. Nenhum líder soviético definiu a URSS como comunista. Em 1961, Khrushchev declarou que o comunismo estava próximo, que em uma ou duas décadas a URSS começaria a transição para o comunismo, que implicaria na eliminação do estado. No comunismo não há estado, as pessoas se autogovernam e são donas de todos os meios de produção. Até onde sei, tal sistema nunca foi posto em prática.
    Só para contextualizar, sou historiador da União Soviética, com tese de doutorado sobre a ciência na União Soviética no final do regime de Stalin e era Khrushchev.

    • Bertone Sousa 31/10/2016 / 21:42

      Climério, leia o livro de Archie Brown,”Ascensão e Queda do Comunismo”, e veja no capítulo 6 – “O que queremos dizer com sistema comunista?” – a exposição dele sobre comunismo no século XX.

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