Religiões alienam e são irracionais?

religioesNão é muito raro vermos no ateísmo contemporâneo alguns posicionamentos que conduzem a interpretações reducionistas dos fenômenos religiosos. Por interpretação reducionista compreendo o pensamento que reduz a religião à intolerância e à supressão do pensamento científico e da liberdade de expressão, sem levar em conta as necessidades humanas e os contextos históricos e culturais em que os movimentos e fenômenos religiosos são produzidos. Richard Dawkins pode ser citado como exemplo, mas apenas por algumas colocações específicas (especialmente o apego dogmático de alguns de seus “admiradores no Brasil”) e não pela totalidade de seu pensamento, que possui lances de genialidade incríveis.

É preciso entendermos que o ateísmo não está acima de qualquer crítica e um texto crítico pode despertar as reações mais variadas, inclusive ser usado como pretexto para alguns exporem sua ignorância sem se dar ao trabalho de refletir sobre o que foi exposto. O despautério desse tipo de atitude voltou a manifestar-se recentemente quando publiquei “O templo de Salomão e a nova ordem religiosa no Brasil” e fui cobrado por não ter exposto o neopentecostalismo iurdiano como “alienante”, “irracional” ou “pseudo-cristão”. Mas isso está absolutamente fora de questão por motivos já apresentados no próprio texto.

Algumas pessoas precisam compreender que sentir ojeriza pela religião não é compreender a religião. Pesquisadores como Dawkins, Sam Harris, Michel Onfray e outros têm coisas importantes a nos dizer porque são pesquisadores sérios e a forma como lemos e comentamos seu pensamento pode dizer mais sobre nós mesmos do que sobre eles. O ateísmo moderno se desenvolveu como reação à religião hegemônica que censurava livros e queimava dissidentes, mesmo quando vinham de seu interior, como foi o caso emblemático de Giordano Bruno.

Por isso, a noção de religião como alienação foi desenvolvida no pensamento de Ludwig Feuerbach, filósofo alemão pós-iluminista do século XIX, quando a metafísica cristã dava seus últimos suspiros e, seguindo a tendência da chamada esquerda hegeliana, ele chamava a atenção de que a crença em Deus nada mais era do que a projeção da consciência do homem perdido de si mesmo. Nesse sentido, para Feuerbach, a religião era falsa porque o homem se relaciona consigo mesmo pensando que está relacionando-se com outro, um ser transcendente, que chama de Deus. Desse modo, o conceito de Deus deveria desaparecer porque ele substitui o conceito de homem e de humanidade e Feuerbach usa a história e a psicologia para substituir a fé e a ilusão da transcendência. O homem é Deus e a teologia deve transmutar-se em antropologia.

O pensamento social do século XIX europeu acertou as contas com o Cristianismo e o selou sob os signos da razão, da história e do progresso que doravante seriam as bandeiras sob as quais marcharia a humanidade. Essa concepção iniciada com o iluminismo francês e a Revolução Francesa ganhou na filosofia alemã (a partir de Hegel) o seu ponto culminante. No século XX, as guerras mundiais e as ideologias totalitárias tiraram o foco da religião para os meandros da política moderna. As ideologias tornaram-se formas de religiões civis e escravizaram e executaram milhões de seres humanos em parte usando as bandeiras que a Revolução Francesa havia erguido como motes emancipadores da própria humanidade.

À desilusão pós-modernista que seguiu (e ainda segue) à crise dos totalitarismos, vimos a religião reflorescer sob a forma beligerante dos fundamentalismos, o mais notável deles no Islã. A Europa descristianizada vê o Islã expandir-se e hesita entre a xenofobia e a tolerância. No Oriente, ficamos chocados com as imagens de cabeças cortadas por radicais e histórias de clitóris mutilados. Fragilizado perante a superioridade técnica do Ocidente, o Islã refugiou-se no radicalismo e na rejeição tácita a toda forma de secularismo (com raras exceções como a Turquia), concepção alheia à sua noção de comunidade e por isso mesmo tão difícil de ser incorporada a suas culturas.

No Ocidente, o fundamentalismo cristão não pode representar uma ameaça às liberdade civis enquanto mantivermos as instituições democráticas e o Estado laico. Como disse a historiadora Karen Armstrong, o fundamentalismo cristão é mais uma forma de defesa do que um ataque. Nesse ponto, é importante não confundir algumas questões básicas. Uma delas é que o radicalismo de alguns líderes protestantes no Brasil não é fascista, como alguns às vezes se apressam a rotular. Discursos religiosos podem se alinhar a ideologias ou tendências políticas dependendo da conjuntura e dos interesses recíprocos das lideranças religiosas e civis. Foi assim que as igrejas pentecostais em peso apoiaram a ditadura militar no Brasil, além de outras Igrejas reformadas e a Igreja Católica, em defesa de valores tradicionais e contra a suposta ameaça comunista anti-cristã, mesmo a ditadura não sendo fascista.

Hoje, quando alguns líderes religiosos se colocam contra políticas sociais e a favor da redução da maioridade penal, isso não representa, a priori, uma postura fascista. O anti-humanismo presente em seus discursos é uma das principais características do fundamentalismo religioso e já escrevi sobre essa relação aqui. Como eu disse, eles tentam adotar no Brasil as estratégias que a direita religiosa tem feito nos Estados Unidos desde a década de 1960; essa é a principal fonte de inspiração deles. O fascismo, no que pese sua orientação anti-democrática, é uma ideologia laica e a fusão de religião e política que esses pregadores defendem não é fascista, embora alguns de seus ideais possam em determinados momentos convergir. Mas nem sempre essa relação é clara. O que eles defendem se aproxima mais de um retorno a concepções pré-modernas, quando não havia separação entre religião e esfera pública de modo que a segunda se subordinava à primeira, o que conferia à religião um grande poder de dissuasão e perseguição. Seu anti-humanismo é essencialmente um combate aos elementos da modernidade que conferem aos indivíduos independência de ação e pensamento. Nesse sentido, a crítica da religião é importante quando esta entra em tensão com a esfera política e busca intervir nas liberdades individuais ou mesmo no direito à existência de outros cultos.

Por outro lado, sabemos desde Weber que as religiões estão voltadas para a ação e como forças culturais normativas não são mecanismos de alienação, expressão que não explica a complexidade e heterogeneidade dos fenômenos religiosos. Hoje, as ciências sociais privilegiam a perspectiva culturalista na abordagem dos fenômenos religiosos por reconhecer as múltiplas faces e a historicidade das intrincadas manifestações do sagrado, sempre demasiado humanas. Por isso, a abordagem iluminista da religião como ilusória e antirracional não faz mais sentido. Se as religiões estão voltadas para a ação, também são dotadas de racionalidade, produção de significados e orientação da vida individual e coletiva. Por isso também não podem ser ilusões. Entendê-las dessa forma não implica aquiescer com seus pressupostos. Como diz Rodney Stark, a religião trabalha com compensadores e em última instância busca contornar a fragilidade da condição humana com o desejo de imortalidade, mas não só isso. As religiões também podem prover compensadores sociais e materiais fornecendo companhia, lazer e atividades recreativas.

A partir da modernidade, com a separação das esferas de valor (política, economia, arte, estética, educação, religião, ciência, erótica, etc.) vemos com desconfiança quando a religião interfere em campos onde perdeu o domínio da explicação. Isso porque as religiões  pretendem ter o monopólio da explicação do mundo, por isso cada uma tende a negar a pretensão à verdade das outras proclamando-se como o caminho. Nesse ponto elas seguem a tendência das sociedades de rejeitar o diferente como exótico, falso, impuro, inferior e indigno, quando elas próprias não fornecem o repertório conceitual para essas rejeições. As ideologias seculares mantiveram essa forma de pensar o outro apenas dessacralizando seu conteúdo.

Com a modernidade, por exemplo, a religião pode se tornar falsa quando busca transformar dogmas em verdades científicas, mas como força cultural normativa não pode ser falsa. Podemos criticá-la e até militar contra ela quando tenta reapoderar-se de outras esferas de valor, e em geral o fazemos em nome de direitos civis e individuais, igualdade jurídica, liberdade de consciência, de expressão e associação, conceitos forjados na modernidade e incluídos no signo genérico de direitos humanos, por meio dos quais os poderes persecutórios da religião foram reduzidos ou neutralizados. Ficamos chocados com as atrocidades do Estado Islâmico porque o Islã não conseguiu, como o Ocidente, separar as esferas de valor e transformar fiéis em cidadãos dotados dos mesmos direitos civis e constitucionais que desfrutamos. O secularismo, esse fenômeno moderno e ocidental, que possui raízes na própria teologia cristã, é uma das mais importantes conquistas culturais emancipadoras de nossa civilização.

Mesmo assim, no tocante à ciência, por exemplo, embora ela tenha prolongado nossas vidas e nos ajudado a viver melhor, com ela ainda não conseguimos viver em paz. Mesmo que acreditemos que as grandes tradições religiosas estejam ancoradas em mentiras, em nome das quais promoveram guerras e segregações, nossa racionalidade ocidental, com seus mitos raciais e de classes, conseguiu promover ainda mais guerras e extermínios. Por isso é sempre importante ter cuidado com as rotulações da religião que expressam preconceitos históricos e culturais mais do que explicam. O ateísmo reducionista pode incorrer nesse erro, mas não todo o ateísmo e de modo algum a crítica precisa ser sacrificada pela positivação da religião. Compreender, crer e positivar são coisas distintas e não possuem ligação necessária. Esse é um ponto inicial e importante que ateus inteligentes não podem esquecer.

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16 thoughts on “Religiões alienam e são irracionais?

  1. Pedro Regis 30/08/2014 / 17:08

    Análise perfeita e direta ao ponto. Sempre me considerei ateu militante por questionar com “fervor” a validade do teísmo, principalmente o cristianismo. Antes considerava as religiões em geral como fruto da estupidez e da insegurança humana. Hoje amadureci e percebi que as todas as religiões são verdadeiras e refletem a natureza do ser humano de diferentes maneiras. Toda a espiritualidade do homem tem seu valor por causa disso e desprezar esse fator é pura infantilidade e negacionismo. E nessa mudança de pensamento jamais pensei em deixar de ser ateísta. Obrigado por este ensaio que sintetizou bem minha maneira de pensar atualmente.

    • Bertone de Oliveira Sousa 30/08/2014 / 18:49

      Pedro, felizmente algumas pessoas amadurecem e outras ficam paradas no que chamo de infância do ateísmo. Eu que agradeço pela contribuição. Abs.

  2. abner 30/08/2014 / 20:00

    Muito bom o texto, professor. Só um off-topic: você já escreveu alguma coisa sobre pós-modernidade aqui no blog? Se sim, qual o artigo?

      • Daniel 31/08/2014 / 15:57

        Professor, gostaria de saber a sua avaliação a respeito das prováveis candidatas ao 2º turno para a presidência da República. Como o senhor vê esse recuo de Marina Silva ante os desmandos de Silas Malafaia? Eu penso que Dilma no fundo, no fundo esteja querendo perder porquanto não vejo muito entusiasmo de sua parte.

        Abraços

      • Bertone de Oliveira Sousa 31/08/2014 / 16:10

        Daniel, não estranhei Marina e o PSB mudarem o programa do partido por causa das críticas do Malafaia, afinal ela é evangélica, e apesar de tentar passar a imagem de conciliadora, de alguém que buscará atender a diferentes demandas, ela está provando que cede muito facilmente a pressões conservadoras. Mesmo que esteja fazendo isso pra não perder votos, isso será cobrado dela, caso seja eleita. Dilma não conseguiu conter a corrupção no alto escalão de seu governo e deixou de acenar para reformas importantes que poderiam lhe garantir uma vitória no primeiro turno. Ao que tudo indica, Marina vai levar os votos dos indecisos e milhões descontentes com o PT e PSDB, mesmo não tendo um discurso nada inovador em relação a nenhum dos dois.

  3. Éderson Cássio 31/08/2014 / 0:18

    Olá, Bertone. Muito bom texto.

    O outro texto despertou muitas críticas justamente porque falava da Universal, e esta é vista como uma religião “alienante”, pelo menos no sentido popular da palavra. Eu, pessoalmente, tendo a ser mais complacente com religiões minoritárias e discriminadas, e mais rígido com religiões mainstream, que contam com capital e grande aparato de publicidade.

    • Também faço essa observação quando o assunto trata-se especificamente da universal. Em particular, não vejo dificuldades em entender o cristianismo como um fenômeno histórico até mesmo emancipador, visto haver levantado bandeiras revolucionárias como a igualdade entre as pessoas, tais como gregos e judeus. Ao passo que na minha interpretação ao longo do tempo alguns valores perderam força para a institucionalização da religião em prol do domínio do clero. por outro lado, existe um contraste com aquilo que conheço e compreendo da universal, pois que todas as evidências apontam para a construção dessa instituição ser um fenômeno artificial maquinado desde o princípio como um artifício em prol do lucro e do poder de seu fundador.

  4. Wagner Menke 04/09/2014 / 16:09

    Excelente texto, Bertone!

    O mais curioso é que os próprios textos do Pentateuco nasceram de um conflito político. Após a separação do reino de Israel, durante o reinado de Jeroboão, do reino do norte e Roboão no reino do sul, é que aparece boa parte da Torá. E os dois autores que escreveram até a queda de Israel pela Assíria estão o tempo todo brigando para promover seu reino e seus símbolos nacionais, em detrimento de deus.

    O mesmo acontece no Novo Testamento, onde nada menos que onze livros são escritos em nome de impostores que queriam promover suas convicções, além das fraudes perpetradas contra um secto cristão chamado de “gnósticos”.

    Cara, religião é política pura, sempre foi.

    A Tanahk não tem uma palavra em hebraico que signifique “religião” justamente porque esse povo nunca viu uma coisa separada da outra. Eram os profetas e sacerdotes quem ungiam os reis.

    Isso explica um pouco o porquê dos fundamentalistas terem dificuldades profundamente enraizadas de aceitar a laicidade.

    Abraço!

    • Bertone de Oliveira Sousa 04/09/2014 / 19:38

      Wagner, não é à toa que as religiões sempre estiveram associadas a uma forma de poder, quando elas mesmas não se constituem em poder, como nas teocracias. Por isso, quanto mais afastadas elas estiverem do Estado, da legislação e da esfera pública, melhor será para a maioria. Abs.

  5. Gabriel Tavares 23/11/2015 / 0:25

    Professor Bertone Sousa,o senhor menciona no texto ´´No Ocidente, o fundamentalismo cristão não pode representar uma ameaça às liberdade civis enquanto mantivermos as instituições democráticas e o Estado laico´´,ontem conversando com uma amiga ateia e lésbica,ela dizia ter medo de que o Bolsonaro chegasse a Presidência da República,e que um novo deputado evangélico assumisse a presidência da Câmara dos Deputados quando o Cunha sair,e o Magno Malta,também evangélico fosse eleito o Presidente do Senado,que se os evangélicos ocupassem esses cargos,as coisas poderiam complicar para os ateus e homossexuais,eu expliquei que não,que a liberdades individuais são cláusulas petreas da Constituição,mas será que realmente se evangélicos ocupassem todos os cargos,poderia existir uma ameaça real para ateus ou homossexuais?Eu não entendo muitas pessoas como ela,terem tanta raiva do cristianismo,hoje o cristianismo não mata mais ninguém,eles simplesmente condenam ao inferno nas pregações os ateus e homossexuais,mas não os perseguem nem matam como na maior parte dos países no Mundo Islâmico,eu não entendo esse ressentimento todo deles,o senhor tem algum motivo para se ter tanto medo e ódio do cristianismo,muitas vezes um medo maior até que o do islamismo?

  6. Gabriel Tavares 23/11/2015 / 0:28

    Eu pelo menos não tenho nenhuma raiva ou ódio do cristianismo,porque os pastores só pregam que se eu for ateu vou ao inferno,mas eu não acredito que o inferno existe,então não vejo motivo para ficar com medo ou ódio,eu não sou homossexual,mas se fosse também não teria raiva nenhuma,pois não acredito que a homossexualidade seja pecado,ou que o homossexual vai para o inferno,porque este não existe.Será que no fundo eles gostariam de serem aceitos pelos cristãos?

    • Mateus Kenzo 14/03/2016 / 2:26

      Não apenas “no fundo”, a maioria da população brasileira é cristã, inclusive muitos de nossos familiares, então um familiar nosso achar que merecemos um destino pior que a morte é sim algo que faz MUITA diferença para nós.
      obs: perdão pelo n no final, não consigo apagá-lo no teclado do tablet. n

  7. Gabriel Tavares 23/11/2015 / 0:32

    Professor Bertone Sousa,mesmo que ocorra um cenário semelhante ao que minha amiga descreveu,de uma pessoa que por mais que não seja evangélica como Bolsonaro,mas que possui ideias semelhantes as da Bancada Evangélica,como por exemplo professar a homofobia,e que exista um evangélico na Presidência da Câmara e outro na Presidência do Senado,eles três não poderão fazer nada,para reduzir a laicidade do estado não é?

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