O templo de Salomão e a nova ordem religiosa no Brasil

templo-de-salmoao-bras-spUma das principais notícias nos últimos dias tem sido a inauguração da réplica do Templo de Salomão no Brasil, em São Paulo. O monumento de cerca de seiscentos e oitenta milhões de reais vem chamando a atenção de agências de notícias dentro e fora do país. O Brasil contemporâneo tem se notabilizado pela construção de templos religiosos faraônicos, como o Santuário Mãe de Deus do padre Marcelo Rossi, a Cidade Mundial de Valdemiro Santiago, e agora o novo templo de Edir Macedo. O discurso de pré-inauguração que Macedo fez em seu templo nada teve de novo em relação à linha teológica da Igreja Universal: comparando-se a Abraão ele focou na prosperidade.

Muito se tem escrito sobre a Teologia da Prosperidade no Brasil, seu começo, suas influências, seus avanços. Em geral, a imprensa e outros líderes protestantes criticam os líderes que abraçam e divulgam essa teologia como inescrupulosos, estelionatários e outras negativações semânticas que se tornaram lugar comum no imaginário social. Porém, o fato é que Edir Macedo se tornou um líder religioso de prestígio porque conseguiu adaptar o cristianismo à era da informação e do consumo que se expandiu no Ocidente a partir do último quarto do século XX.  E isso se deveu a algumas razões básicas:

Com a fundação da Igreja Universal em 1977, Macedo foi pioneiro em trazer o Evangelho da saúde e prosperidade de origem norte-americana ao Brasil, inaugurando o que a sociologia da religião no país denominou de neopentecostalismo, um ramo do protestantismo que se distingue do pentecostalismo clássico por sua ênfase na prosperidade econômica, no uso de fórmulas e objetos mágicos para repelir a pobreza, vista como manifestação do mal e pela estrutura empresarial das igrejas, onde os fiéis tornam-se clientes, numa relação onde a divindade é pressionada a conceder bênçãos, em geral relacionadas a bens materiais e saúde física, como recompensa pelas contribuições que os fiéis fazem à igreja.

Se quisermos denunciar as práticas dessas igrejas como estelionato e manipulação, poderíamos fazê-lo também em relação à loteria e aos programas de TV, que insistem para que as pessoas comprem carnês ou participem de jogos, concorrendo a prêmios e/ou dinheiro. Também poderíamos argumentar que, se as pessoas que participam de jogos pela loteria ou pela TV o fazem por motivação própria, então, por que não o fariam também os fiéis das igrejas neopentecostais? Há questões mais importantes a serem levadas em conta e entre elas está a motivação dessas pessoas de buscar significados e/ou a superação da pobreza a partir do universo mágico-religioso que caracteriza nossa sociedade desde a Colônia. Essas pessoas não são passivas e apáticas ao que ocorre nas igrejas; elas são a razão de haver uma forte concorrência entre líderes e instituições que se esforçam por oferecer os melhores serviços, atrair mais clientes e se projetar com mais força no mercado religioso brasileiro. Nem sempre as estratégias dão certo e nem todas as instituições obtêm os resultados esperados.

A  adaptação que essas igrejas fazem do Cristianismo à economia de mercado também está relacionada a uma das características marcantes de nossa época: aquilo que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman chamou de “sociedade individualizada”. Esse conceito se relaciona ao abandono da política como locus privilegiado da ação coletiva para um processo em que a modernidade impele os sujeitos  a uma crescente individualização, e em que a luta pela autonomia e contra o isolamento social leva à formação de grupos e comunidades  fragmentados no tecido social.

Nesse contexto, o próprio Cristianismo foi forçado a valorizar as atividades terrenas em detrimento das pregações sobre vida e morte eterna, caridade, santidade e também teve de abandonar a pregação apocalíptica. É por isso que essas igrejas se tornaram basicamente lugares de socialização e entretenimento. Isso se reflete no amplo mercado de consumo que os evangélicos (que hoje constituem mais de vinte por cento da população brasileira) representam, especialmente na música e na moda. Essa positivação do mundo e o uso da religião para obtenção de sucesso pessoal tem gerado uma religiosidade nova, pós-cristã, em que o sagrado é mesclado com elementos da cultura secular e se torna um contraponto às incertezas das identidades cambiantes do mundo pós-moderno, mas usando suas estratégias de publicidade e mercantilização de significados.

O ponto mais importante não é dizer se essa forma de vivenciar o sagrado está certa ou errada. Do ponto de vista da história e da sociologia esse tipo de juízo de valor não faz sentido. A questão está em compreender que as mudanças econômicas e culturais que marcaram a sociedade ocidental nas últimas décadas também impactaram de tal forma o cristianismo que levou muitos indivíduos a ressignificarem a fé, produzindo uma religião mais pragmática, menos formalista, mais inclinada às necessidades materiais de seus membros do que a divagações teológicas, menos ascéticas e mais abertas à aceitação da cultura secular. Esse é o ponto de ruptura que essas igrejas produziram não apenas no protestantismo, mas em todo o campo cristão brasileiro, redefinindo as perdas e adesões a partir da lógica da oferta e da procura da economia de mercado.

A construção do templo de Salomão tem outro aspecto importante: evoca o Antigo Testamento, principal parte da Bíblia usada pelos líderes neopentecostais para falar de dízimos, bênçãos e maldições e para reforçar os discursos beligerantes dessas igrejas contra outras religiões. É no Antigo Testamento também que esses líderes buscam exemplos de hierofanias para reforçar a crença coletiva na escolha divina de uma liderança e a necessidade de obediência dos liderados.  Mas fugindo do fundamentalismo, a leitura que fazem do Antigo Testamento é essencialmente economicista, isto é, está voltada para a problematização das dificuldades econômicas enfrentadas pelos fiéis e a necessidade, para sua superação, de doações financeiras à igreja como parte de um pacto com a divindade.

As igrejas neopentecostais se tornaram agências religiosas especializadas no atendimento a problemas individuais e cotidianos, reforçando laços comunitários e abrindo mão de pretensões totalizantes; seguem um modelo de religião microscópico, que em geral não exige exclusividade mas atrai pessoas na medida em que elas veem ou acreditam que seus problemas são solucionados. Edir Macedo soube como poucos difundir esse modelo no Brasil. Não por acaso, seu maior concorrente hoje é um bispo egresso de sua igreja e que adota virtualmente as mesmas estratégias de crescimento da Universal, Valdemiro Santiago, que tem perdido uma queda de braço de proporções homéricas com seu ex-mestre e patrão.

É nesse contexto que se insere o templo de Salomão; ele nada mais é do que a imagem de grandeza que Macedo quer voltar a projetar sobre sua igreja, que por cerca de uma década tem sido relativamente ofuscada por outras agências religiosas do mesmo ramo,  para atrair novamente os fiéis que perdeu para elas e reforçar a imagem de um líder escolhido, bem-sucedido e detentor de um poder simbólico capaz de trazer sucesso e poder a seus seguidores. No Brasil contemporâneo, templos estão relacionados a poder; com agências religiosas que enfatizam a prosperidade, grandes templos podem atrair pessoas por meio da crença de que determinados líderes religiosos se destacam porque são escolhidos por Deus. Nesse sentido, os grandes templos atrem publicidade, imagem e consequente ampliação do número de fiéis.

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27 thoughts on “O templo de Salomão e a nova ordem religiosa no Brasil

  1. Waldo Gomes 28/07/2014 / 8:33

    Excelente análise do fenômeno “Edir Macedo”, professor, entretanto, discordo quando o senhor diz que houve uma adaptação do Cristianismo e que as loterias de prêmios tem a mesma essência dos templos de prosperidade.

    É óbvio que não podemos fazer Juízo de valor do sagrado, mas é necessário dizer que “este sagrado” cultuado não é Cristianismo, nem mesmo adaptado, pode ser outra coisa, um clube social, uma entidade de auto e mútuo auxílio psicológico, um local de reunião, mas cristão não é, mesmo que se use o nome de Jesus dia e noite.

    Os jogos de loterias e de prêmios trabalham em propostas materiais e palpáveis, os templos ou cultos de prosperidade trabalham em promessas de impossibilidade e ao meu ver, isso distingue mortalmente os dois esquemas.

    É isso. Obrigado por seu trabalho.

    • Bertone de Oliveira Sousa 28/07/2014 / 13:09

      Waldo, as religiões não possuem uma essência trans-histórica ou atemporal, elas somente podem ser compreendidas a partir dos contextos de valores culturais por meio dos quais os indivíduos negociam uma definição e vivência do sagrado. O cristianismo que se praticava na Europa do século VI não era o mesmo do século I ou II, nem o do século X ou XV o mesmo de períodos anteriores. A própria noção de Deus é histórica, ela muda de acordo com as necessidades dos indivíduos e da coletividade. Eu só analiso essas categorias historicamente e não a partir de uma crença ou mitologia religiosa. As loterias e jogos de prêmios também trabalham com significados sociais e perspectivas de gastos e recompensas. Tem sim diferenças entre elas, mas a comparação é no sentido de mostrar que as igreja seguem uma tendência da esfera secular sem abrir mão do sagrado como princípio norteador e mediador. Essa é uma razão de seu êxito, não porque as pessoas sejam apenas ingênuas e os líderes apenas caloteiros. Para quem quer entender o fenômeno, essa negativação não ajuda em nada.

  2. Carlos Eduardo 28/07/2014 / 8:38

    Todos estes pastores neo-pentecostais e suas respectivas empresas religiosas deveriam pagar altos impostos. Ja passou da hora.

    Se ficassem no âmbito de suas capelas, tudo bem, o problema é que estes vigaristas ainda se intrometem na política, chegando ao ponto (como Silas Malafaia) de forçar sugestões sobre quem votar.

    Um porém : tanto o dizimista quanto o pastor destas vertentes são ambos vigaristas. Um quer os 10% de milhares de idiotas, o outro (o fiel) acha que dando 10% receberá 100% a mais do deus imaginário que “acredita”.

  3. Bom dia professor. Primeiramente parabéns pelos seus excelentes textos, acompanho a pouco tempo seu blog mas gostaria de oferecer o reconhecimento devido a este excelente trabalho.

    Estou recentemente dedicando algum tempo à obra de Nietzsche, e vi algo de interessante no que concerne à crítica explícita na obra “O anticristo”, comparando a crítica de Nietzsche sobre o desinteresse estimulado pela doutrina cristã quanto ao mundo terreno, seu progresso e afirmação do indivíduo, relativamente a esse novo modelo de cristianismo, que foca a expectativa que o rebanho possui para o aqui e agora, ocupando então de forma inédita as satisfações materiais um grau onde reinavam apenas preocupações metafísicas como juízo e condenação. Não ignoro o caráter ainda alienante do neo-pentecostalismo, visto que este foca necessidades presentes mas não abre mão de propor soluções mágicas, mas estaria bastante interessado em outras explanações que se proponham a analisar a interação do homem doutrinado pela teologia com o seu mundo e sua sociedade, tal como Nietzsche chegou a fazer em seu tempo no livro já citado.
    Se posteriormente o Sr voltar a problematizar essa integração do indivíduo moldado pelo pensamento mágico com o mundo que o circunda garanto que estarei lendo com avidez seus próximos textos.
    Um abraço.

    • Bertone de Oliveira Sousa 30/07/2014 / 20:05

      Rodolfo, a crítica de Nietzsche ao Cristianismo tem um viés muito diferente dos estudos que fazemos sobre as igrejas neopentecotais. Outro ponto em que devo corrigi-lo é que nenhuma religião possui um “caráter alienante”. O uso indiscriminado desse termo “alienação” há muito já se tornou apenas um lugar comum, muito mais como manifestação de um preconceito do que qualquer outra coisa. Mesmo as noções de “consciência de rebanho” de Nietzsche ou a religião como ópio de Marx são metáforas, não modelos explicativos. O homem é um animal simbólico e as religiões devem ser entendidas a partir dessa necessidade histórica e cultural do homem de produzir significados. Nietzsche e Marx são importantes pra se pensar o processo de secularização e as tensões subjacentes da modernidade europeia com a religião, mas não essas manifestações religiosas contemporâneas. No menu “textos acadêmicos do autor” tem um link de um artigo sobre a teologia da prosperidade e as igrejas neopentecostais. Caso você ainda não tenha visto, dá uma passada lá. Esse semestre também estarei publicando um livro sobre o assunto. Abraço.

  4. Raimundo Silva 01/08/2014 / 13:01

    Caro Professor

    Com todo o respeito, achei sua análise míope. O senhor parece estar o tempo todo não querer emitir juízo de valor sobre esta seita chamada Igreja Universal do Reino de Deus. Porém, é preciso dizer que, com toda a honestidade intelectual que, uma entidade para ser considerada Religião séria, precisa de alguns lastros ou requisitos históricos, que ao meu ver, esta auto-denominada igreja em análise não os tem. Por exemplo: Qual a sua doutrina? Qual sua raiz histórica? Quais são seus teólogos? Comparando com a Igreja Católica (não que esta seja a única que julgo séria)- por exemplo: Tem um compêndio doutrinário acumulado ao londo dos seus dois mil anos de história. Tem um corpo de Teólogos e Filósofos respeitado pelo meio acadêmico (inclusive pelos ateus): Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Karl Rahnner e outros. Qual Faculdade de Filosofia séria não estuda os Pensadores Católicos, a chamada Patrística?
    Esqueceu-se de dizer que muitos líderes religiosos se auto-denominam bispos. Porém, ao verificarmos a história, somente os bispos da Igreja Católica (Romana, Ortodoxa e outras históricas) de fato, descendem dos Apóstolos. Do Apóstolo Pedro até o Papa Francisco há uma sucessão legítima ininterrupta (pode-se até dizer que alguns papas foram escolhidos por interesses políticos na Idade Média, mas seguiu o trâmite da tradição histórica).
    Há toda uma linhagem sucessória por meio de um Decreto Papal que nomeia seus bispos.
    E se uma pessoa qualquer disser que pertence à linhagem da família real britânica? Cadê as credenciais? – Perguntaríamos.
    O relativismo atual coloca charlatões, ilusionistas e qualquer líder religioso de “fundo de quintal” no mesmo nível. É lamentável. Não estou julgando a santidade dos atores, mas a sua real legitimidade histórica e semântica. Isso não é proselitismo religioso, mas sim, honestidade intelectual.
    Exemplo: O atual Arcebispo de Milão, o Cardeal Angelo Scola, ocupa o mesmo lugar do então Arcebispo Santo Ambrósio (séc. III ), este, na mesma igreja, proferiu um sermão capaz de converter o até então ateu chamado Agostinho, que viria em seguida ser aclamado bispo. Muitos séculos se passaram… A tradição do bispado continua, nenhum padre da Igreja Católica pode se auto-nomear bispo.. Quem nomeou o Sr. Edir Macedo bispo? E o Sr. Valdomiro Apóstolo? Vamos falar sério.
    Para pertencer á ABL precisa ser eleito, não basta qualquer um se auto-denominar imortal.
    Grato!
    Raimundo Silva – Teólogo e Filósofo

    • Bertone de Oliveira Sousa 01/08/2014 / 19:10

      Raimundo, com todo respeito, mas você não está sendo intelectualmente honesto, está apenas palpitando acerca de um assunto que não entende. Falar de “religião séria” e fazer comparações desse assunto com a linhagem real britânica e a ABL é conversa de boteco. Para alguém que denomina-se “filósofo” e demonstra nunca ter lido Durkheim e Weber, é uma vergonha.

      • Raimundo Silva 01/08/2014 / 23:10

        Bertone
        Com todo o respeito, você não entendeu a analogia (ainda que grotesca) que eu quis fazer entre linhagem e usurpação.
        Em pouquíssimas palavras: não é qualquer um que pode se dizer Bispo. Trata-se de uma usurpação grotesca por parte de Edir Macedo e CIA. Não é qualquer associação de fiéis que se pode dizer ser uma Religião. Você sabe o quero dizer com “Religiões históricas e sérias.” – ainda que não concorde.
        Estudei sim Durkheim, Max Weber e outros na Filosofia (UFPR) e na Teologia. Não quis ser pedante, citando todos os pensadores que li.
        Respeito suas interpretações. Porém acho que alguns professores forçam uma leitura de um determinado tema a partir de um filósofo ou antropólogo. As circunstâncias que estes pensadores desenvolveram seus pensamentos nem sempre cabem como chave de leitura para temas atuais, repito: nem sempre. Grato!

      • Bertone de Oliveira Sousa 02/08/2014 / 12:18

        Raimundo,

        Você está partindo de uma concepção muito equivocada de religião, na verdade você está colocando o catolicismo como tipo ideal de religião. Todas as religiões são históricas. Esse é o ponto inicial que já torna todo o seu comentário equivocado. Por isso mencionei Durkheim e Weber, as discussões teóricas que eles fazem são importantes pra qualquer um que queira começar a entender o assunto e não cair nesse tipo de reducionismo e só os mencionei porque pra quem estudou Filosofia e Teologia, já teve ou deveria ter algum contato com essas obras. A questão de títulos de bispo e apóstolo passa por questões sociológicas mais profundas, como o capital religioso que cria uma demanda para a ascensão de determinadas lideranças religiosas. Talvez você não conheça o debate acadêmico que existe no Brasil sobre neopentecostalismo, mas ninguém força interpretações. Não se faz uma problematização adequada desses assuntos sem recorrer aos clássicos; O Bauman, por exemplo, tem uma discussão muito interessante sobre religião pós-moderna que ajuda a entender o assunto. Aqui não cito autores ou escrevo artigos longos porque o tipo de texto de blog é diferenciado. Mas o objetivo é levar os leitores a sair do senso comum e instigá-los a refletir mais profundamente algumas questões. A questão não é pedantismo, e só estou levantando esses pontos porque você pode entendê-los. Mas nesse assunto você está no nível do senso comum. E acredito que, para quem tem uma formação como a sua, essa forma de entender a religião é redutiva e muito ruim. Não entenda isso como um ataque pessoal, apenas como uma observação.

  5. Raimundo Silva 02/08/2014 / 13:33

    Grato pelo diálogo construtivo.

  6. Saul Ramos. 02/08/2014 / 14:46

    Professor Bertone, boa tarde! pelo que eu entendi do seu texto, você considera o crescimento da teologia da prosperidade como algo natural e inerente aos dias de hoje, dias totalmente atrelados ao capital e ao sistema financeiro.Mais queria saber sua opinião sobre até que ponto esse fenômeno religioso e natural, e até que ponto ele é correto. No meu ver, esse fenômeno se caracteriza como um dilema da democracia, pois assim como nenhum governo pode interferir na questão religiosa de ninguém ou propor interferências a essas igrejas, essas igrejas se utiliza do estado emocional abalado dos seus fiéis para cobrarem dízimos, se aproveitando da fé das pessoas para enrriquecerem, demostrado nos mais bizarros fetiches, como a almofada sagrada, ou o óleo que cura etc, sem falar nas barganhas políticas que fazem, acumulando muitos poderes em favor próprio. Acredito que a fé e fundamental na sociedade, mais essas igrejas ultrapassam limites, limites até dos seus próprios dogmas, com interpretações bizarras da bíblia. Acredito que um profundo movimento educacional e o único meio de impor limites,não a fé, e sim a alienação que essas igrejas difundem;

    • Bertone de Oliveira Sousa 02/08/2014 / 19:11

      Saul, como eu disse aí acima, alienação não é um termo apropriado pra se referir a essas igrejas. Também não analiso religiões pela ótica do “certo” e do “errado” ou por fazerem interpretações boas ou “bizarras” da bíblia. Embora haja muitos casos de processos judiciais de ex-fiéis contra igrejas desse tipo, é preciso entender que a maioria não é apenas manipulada pela liderança, existe todo um contexto de produção de sentidos que são apropriados pelos fiéis e ressignificados à medida que mudam as demandas. O uso de objetos encantados (colher de pedreiro, fronha dos sonhos, rosa ungida, copo com água, óleo, etc.) são emprestados das religiões indígenas e africanas, mas usados para que os fiéis entendam que é a oração do líder religioso que lhes confere o poder de cura. A relação é verticalista e reproduz na religião o modelo populista das democracias latino-americanas. Do ponto de vista político, aí sim, podemos falar de riscos à democracia, na medida em que essas igrejas buscam interesses corporativos e praticam o patrimonialismo e o fisiologismo enraizados em nossa prática política. Há vários elementos que podem ser levados em conta, meu texto toca apenas na parte de ressignificação da religião cristã.

      • Saul Ramos. 03/08/2014 / 3:53

        Professor, você acha que essas produções de sentido e novas demandas, que são manifestadas pelos fiéis dessas igrejas estão relacionadas apenas a questões finaceiras ou desequilibrios emocionais?

      • Bertone de Oliveira Sousa 03/08/2014 / 15:35

        Não, a questão financeira é apenas um dos principais elementos que atraem fiéis, mas não é a única. Inclusive isso está presente no texto.

  7. Rodrigo 02/08/2014 / 20:15

    Dizem que só se entra nesse templo através de caravana. É verdade, Bertone?
    E não sei se vocês vão concordar, mas esteticamente falando, ficou bonito! Ele realmente tem alguma relação com o Templo de Salomão histórico?

    • Bertone de Oliveira Sousa 03/08/2014 / 1:10

      Rodrigo, oficialmente a regra pra entrar é com uma credencial fornecida pela própria igreja e válida somente por um dia. Aqui estão as regras:

      Não é à toa que ele mandou trazer pedras de Jerusalém, queria deixá-lo o mais próximo possível do original.

    • Bertone de Oliveira Sousa 11/08/2014 / 22:35

      Deus e o Estado é realmente uma grande obra filosófica, Sérgio, como o século 19 foi profícuo em críticas à religião e na necessidade de afastá-la da vida pública.

  8. Henrique Pires 05/04/2015 / 23:00

    Caro Betone, fiz uma leitura de seus comentários, por não considerar criticas ofensas achei muito boas suas considerações. a minha observação, fica por conta de ter de concordar que, a humanidade passa por uma crise pós-moderna a ponto de colocar o futuro dessa mesma humanidade em rota de colisão. “o homem remanescente do homos sapeiem passa por uma mutação que já está sendo chamado de homos bios”. homos sapeiem, aquele que
    racionalmente construíram uma historia na escola de pensamento, enquanto que, o empobrecimento intelectual nos obriga aceitar que pelo fato do homos bios, vim de uma escola que não forma pesadores mas; consumidores, sou a favor da critica que tem a intensão de criar laços fraternos, e alto avaliação cultural de nossa especie. creio que a pior indigência é a incapacidade de pensar, o sujeito não terá como reinscrever sua historia, nunca será livre porque dependurar sempre de mendigar uma ideia. o processo de manipulação tecnológica ainda precisa ser medida, creio que a sociedade vem perdendo suas características principalmente pela perda do sentido do sagrado, a verdadeira identidade do homem encontra sentido no sagrado, quando a fé recebe código de barra a vida perde seu sentido, o homem passa a ser um mero produto, a crise de valores cria oportunidades para charlatões e proselitismo a cultura da exploração vira exploração dos aflitos.

  9. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 27/05/2015 / 15:29

    Olá professor Bertone,admiro o seu trabalho,texto bem construtivo,e esclarecedor,porém com todo o respeito discordo de alguns pontos,primeiro,o de comparar o que a Igreja Universal,faz,pedindo doações de ofertas em dinheiro,prometendo riqueza,ao que faz a loteria e aos programas de TV,na minha opinião,é completamente diferente,ainda que para mim e para o senhor,que somos ateus,é igual,porque se não acreditamos em nenhuma divindade,é igual,dizer que deus o que a Mega Sena,o que o Silvio Santos,com a Telesena,vai dar dinheiro,acontece que a maior parte da população brasileira,acredita em um deus,e quando você usa o nome de algo que significa tanto para algumas pessoas,como o nome de Deus,isso na minha opinião é muito mais grave,um estelionato muito maior,usar a fé das pessoas no sobrenatural para ganhar dinheiro,e o segundo é que na minha opinião o senhor relativou os crimes da Igreja Universal,eu já fiz pesquisas sobre os crimes deles,e há coisas muito graves mesmo,inclusive assassinatos,o senhor já ouviu falar de Lucas Terra?Um obreiro de 15 anos de uma igreja em Salvador assassinado pelos próprios pastores que comandavam a igreja,e do deputado Valdeci Paiva de Jesus,um deputado que denunciaria os esquemas de corrupção da Igreja,e que ´´coincidentemente´´foi morto,após fazer tais denúncias,então na minha opinião,eles são criminosos perigosos mesmos,usam o nome de Deus,mas são capazes de matar,estão infiltrados na política,possuem muito poder!E ainda existem denúncias de que compraram a Rede Record usando dinheiro do narcotráfico(Cartel de Cali,Colômbia),um próprio ex pastor dessa denominação chamado Carlos Magno Miranda,que apareceu no JN em 1995,naquela famosa reportagem do ´´ou dá ou desce´´afirmou isso,além disso um outro pastor presbiteriano chamado Caio Fábio também disse o mesmo!

  10. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 27/05/2015 / 15:52

    Professor,caso o senhor não tenha conhecimento detalhado sobre os casos que eu te falei,aqui vai links sobre os crimes que te falei cometidos por pessoas ligadas a Igreja Universal
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Caso_Lucas_Terra Aqui o caso Lucas Terra,tudo bem que a Wikipedia não é uma fonte lá das mais confiáveis,mas nesse caso,o texto está bem escrito,e explica bem o ocorrido,parece que envolveu mesmo abuso sexual da parte do pastor para com o Lucas Terra,e o pastor que cometeu crime era um jovem pastor,de uma pequena igreja da capital baiana,mas se a cúpula da Igreja fosse mesmo composta de pessoas sérias,denunciaria o pastor,trabalharia por sua condenação,e não abafaria o caso,como fizeram.

    Caso Valdeci Paiva de Jesus
    http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,deputado-do-psl-foi-assassinato-com-19-tiros,20030124p4683
    http://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2005/09/21/carlos-rodrigues-nega-ter-mandado-matar-o-deputado-valdeci-paiva
    http://www.parana-online.com.br/editoria/pais/news/38055/?noticia=DEPUTADO+ASSASSINADO+COM+15+TIROS
    http://raphaelgomide.blogspot.com.br/2005/08/caso-valdeci-paiva-bispo-rodrigues.html

    Um detalhe é a provável participação de Carlos Rodrigues,que foi bispo da Igreja por muitos anos,e seu principal parlamentar,e coordenador político,por isso eu digo que esses caras são bandidos profissionais,e não amadores!

    Acusações do Carlos Magno de Miranda do envolvimento da Igreja Universal com o narcotráfico colombiano
    http://vini-silva.blogspot.com.br/2012/06/ex-bispo-da-igreja-universal-conta-tudo.html
    http://www.paulopes.com.br/2012/06/pastor-que-acusa-edir-de-ligacao-com.html
    http://noticias.gospelmais.com.br/ex-bispo-universal-narcotrafico-compra-record-36719.html
    http://brasileconomico.ig.com.br/brasil/mosaico-politico/2015-01-12/autor-de-denuncias-diz-continuar-cruzada-contra-macedo.html

    A mesma denúncia agora feita por Caio Fábio:

    http://pastorcaiofabio.com.br/noticias/venezuela-investiga-se-universal-lava-dinheiro-do-trafico-de-drogas/

    • Bertone de Oliveira Sousa 27/05/2015 / 20:18

      Olá Gabriel,

      de fato existe uma infinidade de casos e denúncias de envolvimento de lideranças da IURD com coisas ilegais. Mesmo fora disso, várias pessoas que já se sentiram lesadas ou ludibriadas com campanhas financeiras da igreja recorreram à justiça depois de terem doado somas elevadas e se arrependido. Embora você diga que eu relativizei esse assunto, a questão é que meu texto não tem a pretensão de seguir esse viés. Meu texto é histórico, não jornalístico. Isso que você postou são denúncias e é sempre importante que venha a público, mas minha abordagem da Igreja Universal e, por extensão, de todo o segmento neopentecostal no Brasil, parte dos pressupostos da pesquisa histórica e social no sentido de compreender a inserção dessas igrejas na cultura brasileira e mapear as causas de seus êxitos, bem como a consolidação de um mercado e um ethos religioso que cresceu na esteira da expansão dessas igrejas. A comparação com os jogos das loterias, no que pese o elemento Deus a favor das agências religiosas, foi uma forma de chamar a atenção para a importância das estratégias de propaganda que utilizam similares ao que ocorre em esferas da cultura secular, onde a busca social por ascensão e bem-estar pessoal tem levado até mesmo a uma redefinição do sagrado, numa relação negociada entre igreja e fiéis e que tem impactado de diferentes formas todo o campo pentecostal no Brasil, evidenciando inclusive a peso do sincretismo na religiosidade brasileira. Isso é tema de um livro que devo estar lançando ainda este ano e que é resultado de minha pesquisa de doutorado sobre o assunto.

  11. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 27/05/2015 / 22:12

    Muito obrigado,Professor Bertone pela resposta,realmente as igrejas neopentecostais,inclusive a Universal se aproveitam da miséria que há no Brasil,da desigualdade social,para fazer sua propaganda religiosa,apesar de haver Deus,um ser que grande parte da população brasileira acredita nelas,mas tens razão quando dizes que a estratégia de publicidade das igrejas e dos programas de tv são as mesmas,também sou estudante de história no último semestre,estarei me formando na UNINOVE,em São Paulo próximo mês e pretendo fazer uma pós graduação também sobre o neopentecostalismo,inclusive abordando a Igreja Universal,inclusive foi pesquisando sobre isso,que cheguei até o seu blog,o senhor poderia por favor,me indicar livros acadêmicos que tratam sobre o tema?Da história e do desenvolvimento do neopentecostalismo? E irei querer ler o seu livro,professor,já há uma previsão do mês em que ele será lançado,e estará a venda em alguma livraria de São Paulo?

    • Bertone de Oliveira Sousa 27/05/2015 / 23:34

      Gabriel, a conversa com a editora ainda está na fase inicial. Ainda não posso saber quando fica pronto, mas quando isso acontecer vou postar aqui no blog, assim como as livrarias onde estará disponível. Dá uma olhada nesse artigo, é uma versão resumida do livro:

      http://www.dhi.uem.br/gtreligiao/pdf10/12.pdf

      Sobre as indicações de leitura, isso depende do que você queira pesquisar especificamente. As publicações nessa área têm aumentado bastante nos últimos anos. Mas os textos do Ricardo Mariano, Wagner Gonçalves da Silva, Antonio Flavio Pierucci, Ari Pedro Oro e Antonio Gouvea Mendonça são boas referências pra se pensar o assunto.

  12. Paulo Martins 17/11/2015 / 22:46

    Parabéns Bertone pela sua forma de análise e de respostas as críticas! O assunto envolvendo o tema religioso, sempre requer coerência e bom senso. Mesmo que eu não goste da religião A ou B, preciso lembrar que as pessoas estão frequentando por livre vontade, só isso já é digno de respeito. Nisso, há um paralelo por exemplo na pessoa que está envolvida em alguma relação negativa, como uma esposa de um viciado, ou outra que apanha do sujeito, ou um cara que aceita viver com uma mulher que o traí constantemente, ou outra mazela humana qualquer. Algumas pessoas simplesmente se submetem a alguma dessas condições mesmo tendo outras opções. A psicologia coloca a questão como algum ganho secundário que faz a pessoa permanecer ali… Dá uma boa analogia com algumas dessas condições religiosas. Muito embora, muitos estão simplesmente satisfeitos…

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