O discurso secreto de Kruschev e o fim do comunismo

Roy Medvedev
Roy Medvedev

A base do poder de Stálin não era o terror, mas todo o monopólio da informação

No artigo anterior, “Kruschev não mentiu sobre Stálin”, discuti algumas questões importantes sobre o discurso realizado por Nikita Kruschev, sucessor de Stálin, no vigésimo congresso do partido comunista da União Soviética em 1956, comentando alguns trechos de seu discurso à luz de alguns trabalhos recentes. Discuti ainda as ideias de Grover Furr, intelectual contemporâneo que afirma que todo o discurso de Kruschev foi uma mentira e Stálin não foi o tirano e assassino que ali é apresentado, e citei renomados historiadores cujas obras desmentem a tese de Grover Furr. O texto a seguir é de Roy Medvedev, um escritor russo que mostra a importância e o impacto que o discurso de Kruschev teve sobre a sociedade soviética e até mesmo sobre o colapso do regime, no início dos anos 1990.

Roy Medvedv é um historiador russo que se tornou conhecido como um dos mais famosos ativistas de direitos humanos na extinta União Soviética e é autor de vários livros sobre a história soviética. Seu irmão gêmeo, Zhores, era um cientista dissidente que foi “tratado” em um hospital psiquiátrico. Esse tipo de tratamento se tornou usual no país especialmente a partir do final dos anos 1960 para “reeducar” pessoas que não se enquadravam na linha oficial do partido. Esses hospitais eram usados para isolar e desacreditar dissidentes, que eram diagnosticados com tipos variados de esquizofrenia, como a “paranoia” da luta pela verdade e justiça. Zhores foi diagnosticado com “esquizofrenia apática”, que lhe conferia delírios de reformar a sociedade e ainda foi considerado alguém com personalidade dividida porque, além de cientista, era também escritor.

Nesses hospitais, como acontecia nas prisões da KGB, os pacientes eram forçados a renunciar a suas convicções e, como a psicanálise freudiana era proibida na União Soviética, eram tratados com eletrochoques, remédios e tranquilizantes que aumentavam bruscamente a temperatura do corpo, causavam apatia, alheamento, movimentos involuntários, também eram tratados com surras, injeções de insulina, enrolamentos em lonas molhadas, entre outros.

Além disso, o pai de Roy e Zhores foi preso e morto quando eles ainda eram crianças sob a acusação de ser um “inimigo do povo”. Essa família é uma prova de que Kruschev não mentiu quando denunciou as estratégias brutais e desumanas de Stálin para consolidar seu poder e criar um novo tipo de ser humano na sociedade soviética. O texto a seguir foi escrito em 2006, quando o discurso secreto de Kruschev completou meio século, e está disponível no site project-syndicate.org. A tradução é de minha autoria. Nele, Medvedv discute brevemente a relevância histórica do discurso de Kruschev e suas consequências de longo prazo. Nesse sentido, esse texto complementa o artigo anterior. Alertar e estudar sobre as atrocidades e erros dos regimes totalitários é importante para entendermos que ideologias não devem ser colocadas acima das liberdades individuais e que a democracia é uma conquista histórica e cultural ímpar e de primeira importância. Segue o texto de Roy Medvedv.

Na história, alguns eventos parecem insignificantes à primeira vista ou seu significado está oculto, mas terminam por tornar-se estremecedores. Um desses momentos aconteceu há cinquenta anos [este texto foi originalmente publicado em 2006] com o chamado “Discurso Secreto” que Nikia Kruschev pronunciou no Vigésimo Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Creio que é o acontecimento mais crítico do século XX, depois da Revolução Bolchevique de 1917 e o início da Segunda Guerra Mundial em 1939.

Naquele momento, o movimento comunista parecia estar na crista da onda da história e não somente para a União Soviética. Em meados dos anos 1950 o comunismo estava na ofensiva tanto na Europa como no emergente Terceiro Mundo. O capitalismo parecia estar morrendo. Falava-se que todas as imperfeições do comunismo eram temporárias, somente pedras no caminho da sociedade justa que estava nascendo. Um terço da humanidade considerava que a União Soviética liderava o socialismo global.

O vigésimo congresso pôs fim a isso. Foi o momento da verdade, uma limpeza da brutalidade do stalinismo feita de dentro. O discurso que Kruschev pronunciou no congresso gerou dúvidas e reflexões em todo o movimento comunista mundial.

As razões de Kruschev no momento de subir à tribuna na manhã de 25 de fevereiro de 1956 eram, em sua opinião, morais. Após ter sido expulso do poder, no isolamento de sua Dacha, escreveu: “Minhas mãos estão cobertas de sangue. Fiz tudo o que os demais fizeram. Mas agora se tivesse de ir a essa tribuna acusar Stálin, faria de novo. Um dia tudo isso tinha que terminar”.

Kruschev certamente havia participado das repressões de Stálin, mas também ignorava a metade do que estava acontecendo. Todo o sistema stalinista de governo estava construído sobre a base do segredo absoluto em que somente o Secretário Geral conhecia todo o panorama. A base do poder de Stálin não era o terror, mas todo o monopólio da informação. Kruschev, por exemplo, ficou impressionado quando descobriu que nos anos de 1930 e 1940 aproximadamente 70% dos membros do partido foram aniquilados.

A princípio, Kruschev não pensava manter em segredo a denúncia sobre Stálin. Cinco dias depois do congresso, o discurso foi enviado a todos os líderes dos países socialistas e foi lido nas reuniões locais do partido por toda a União Soviética. Mas as pessoas não sabiam como discuti-lo. E com razão, porque o problema com o processo de desestalinização era que, embora tenha se revelado parte da verdade, não foi dito que haveria continuação. Depois do congresso ficou evidente que o evangelho comunista era falso e criminosamente corrupto. Mas não se ofereceu outra ideologia, e a crise – a lenta decomposição do sistema que se tornou evidente durante a era de estagnação no governo de Leonid Brezhnev – que iniciou com o discurso de Kruschev durou outros trinta anos até que Mikhail Gorbachev adotou a capa da mudança.

As dúvidas que nasceram durante o congresso podem ter sido incipientes, mas despertaram um mal-estar genuíno. No primeiro dos protestos que sacudiram o mundo comunista em 1956, as multidões na Geórgia [terra natal de Stálin] exigiram que se depusesse Kruschev e se restituísse a memória a Stálin. Uma rebelião na Polônia e a muito mais tumultuosa revolução húngara pediam o contrário. Os poloneses exigiam um comunismo com um rosto humano e os húngaros, depois da tentativa de Imre Nagy para reformar o comunismo, terminaram por rejeitá-lo em absoluto.

Todos esses protestos foram reprimidos brutalmente, e fez com que muitos comunistas da Europa ocidental deixassem o partido com total desilusão. O discurso de Kruschev também despertou a inimizade entre a China de Mao e a URSS porque permitiu a Mao reclamar a coroa de líder revolucionário mundial.

Preocupado com os protestos, Kruschev tratou de esfriar a campanha anti-stalinista. A libertação dos prisioneiros dos gulags que ocorreu depois de seu discurso continuou, mas foi feita em silêncio. Reabilitou-se os membros do partido que haviam sobrevivido aos expurgos e lhes deram novos empregos, mas foram proibidos de falar dos horrores que tiveram que suportar.

Esse silêncio durou até 1961 quando Kruschev permitiu novas revelações sobre os crimes da era Stálin. Estas se disseminaram publicamente e foram discutidas no rádio e na televisão. O corpo de Stálin foi retirado da Praça Vermelha, seus monumentos foram destruídos e as cidades recuperaram seus nomes soviéticos originais. Stalingrado se converteu em Volvogrado. A ideia do Gulag ingressou em nossa literatura com o livro “Um dia na vida de Ivan Denisovich”, de Alexander Soljenitsyn. Esta campanha anti-stalisnita durou dois anos, mas não foi suficiente para mudar a mentalidade do país.

O vigésimo congresso dividiu o movimento comunista mundial e tornou impossível consertar as rupturas. A União Soviética e outros países socialistas enfrentaram uma crise de fé, já que a principal ameaça não era o imperialismo, nem os dissidentes ideológicos, mas a própria pobreza intelectual e a desilusão do movimento.

Assim, embora atualmente seja comum na Rússia culpar a Gorbachev e Boris Yeltsin do colapso da URSS, é inútil e injusto fazê-lo. O sistema já estava morto e é um grande mérito de Yeltsin que tenha podido resgatar a Rússia das ruínas de forma pacífica. Embora o futuro da Rússia seja incerto, sua história agora é mais clara em parte porque sabemos que o vigésimo congresso do partido iniciou o processo que significou o fim do despotismo soviético.

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11 thoughts on “O discurso secreto de Kruschev e o fim do comunismo

  1. Alberto 23/07/2014 / 12:30

    Muito bom o texto…parabéns !!

  2. Raione Júnior 23/07/2014 / 13:45

    Eu acho que as pessoas deveriam estudar mais fontes primárias do que esses revisionistas.
    Gostei do texto!!

  3. Vitor 23/07/2014 / 15:26

    Como sempre, um farol de lucidez!!!

  4. Saul Ramos. 26/07/2014 / 11:35

    Professor Bertone, parabéns pelo site! queria saber sua opinião sobre as milhões de mortes atribuidas a Stalin que a direita tanto vomita por ai, que nem eles mesmos sabem o certo, uns dizem 20 milhões outros 50 milhões.. e por ai vai. Nunca achei Stalin um heroi e sempre reconcheci seus erros como péssimo governante que foi, sempre paranóico e cometendo erros grotescos, como sua coletivização agrária forçada, sectarismo político, e nem mesmos ciêntistas escaparam de seus erros como foi o caso do biologo Vavilov, exilado graças a um psudociêntista chamado Trofim Lysenko, sem falar na sua postura lamentável em relação a Trótski. Mas quando se fala em 20, 30 milhões mortes.. não consigo pensar de que forma Stalin tinha matado tantas pessoas, uma vez que a maioria do seus crimes eram de origem política ao opositores do regime, e nem o holocausto somou tamanha quantidade de mortos! qual a sua opinião? você acha que essas estatisticas são de confiança até que ponto?

    • Bertone de Oliveira Sousa 26/07/2014 / 15:41

      Olá Saul, obrigado e seja bem-vindo. Realmente não existe um consenso acerca de quantas pessoas foram vítimas da ditadura de Stálin. Há várias dificuldade quanto a isso que os pesquisadores geralmente citam: uma delas é que muitas dessas mortes não constam em documentos oficiais. Qualquer rastro da existência de muitas pessoas foi completamente apagado; seus nomes, seus endereços, seus ascendentes, tudo foi apagado. Muitas covas coletivas já foram encontradas desde o fim da União Soviética sem que se pudesse identificar muitos corpos; outra é que muitos documentos foram destruídos quando os nazistas invadiram a URSS e se aproximaram de Moscou. Por outro lado, se tomarmos as vítimas das deportações e das prisões em gulags, por exemplo, muitos morreram no caminho, principalmente de fome e frio, e é difícil estipular uma estatística precisa acerca de quantos.

      Quanto à comparação com o Holocausto, é preciso ter cuidado. O Holocausto iniciou em 1941 e durou até 1944. A ditadura stalinista durou bem mais e embora o comunismo não tenha adotado nenhuma política deliberada de genocídio baseada em questões raciais como o nazismo, ainda assim não deixou de punir e exterminar os opositores, mas a partir de critérios políticos, não raciais. Mas mesmo que as motivações tenham sido políticas, mulheres, filhos e outros parentes de pessoas condenadas como “inimigos do povo” em geral também sofriam o mesmo destino; os critérios eram sempre pouco claros e davam lugar a todo tipo de arbitrariedades das autoridades. Em 1941 pelo menos mais de quatro milhões de camponeses ucranianos já haviam morrido em decorrência da política desastrosa de coletivização de Stálin e o período do “Grande Terror” já havia amainado. Não dá pra comparar com o Holocausto porque há diversas variáveis internas e externas que é preciso levar em conta. Os soviéticos, por exemplo, não usavam os campos de trabalho forçado para extermínio, embora muitos tenham morrido devido às condições subumanas, mas quando queriam matar faziam execuções em massa nas florestas, o que torna difícil contabilizar suas vítimas. As estatísticas mais modestas somam dez milhões, mas se formos pegar desde o Terror Vermelho após a revolução bolchevique, passando pela guerra civil, as coletivizações, deportações, o terror dos anos 1930 e outros fatores, o número pode chegar e ultrapassar vinte milhões. Essa é a contagem dos autores do Livro Negro do Comunismo. O Roy Medvedev concorda com eles. Coloquei uma abordagem dele num artigo do The New York Times sobre o assunto numa resposta que fiz para um blogueiro estalinista nesse texto:

      https://bertonesousa.wordpress.com/2013/09/01/cristiano-alves-um-stalinista-incuravel/

      Pelo que tenho lido sobre o assunto, o número aproximado de vinte milhões até o fim da era Stálin é o mais realista.

  5. Jonathas Rocha 28/07/2014 / 17:47

    “já que a principal ameaça não era o imperialismo, nem os dissidentes ideológicos, mas a própria pobreza intelectual e a desilusão do movimento.” (fala sério :S )

    achei o texto muito simplista, até a metade ele estava indo bem mas parece que foi encerrado às pressas. Não está à altura do complexa situação de abertura e reforma institucional que o antiga URSS passou, até seu desmembramento e formação da CEI e demais pacto Eurasianos.

    É incrível como um mega-Estado articulado e centralizado faz o debate e reformas tão profundas que incluem inclusive seu desmembramento, que ocorreu em votação… isso simplesmente não acontece num ‘vácuo político de espaço e tempo.’ nós estamos falando de estrutura de poder.

    É uma aberração ocidental falar em “queda” ou “colapso” da URSS sendo que ao menor sinal real de fraqueza a URSS teria sido invadida, dividida, saqueada e aniquilada… minério, petróleo, carvão, gás, recursos naturais, industriais e militares.. vocês juram que num contexto de capitalismo imperialista tais coisas ficariam ‘à-Deus-dará’ ??

    Ainda irei estudar a história e o processo da União Soviética e seus desdobramentos porque em geral as informações de fácil acesso são simplistas, quando não medíocres e no geral apenas ideológicas tendo sentido apenas de anti-propaganda.

  6. Jonathas Rocha 28/07/2014 / 17:52

    continuando o meu comentário, valeu a postagem mas espero e gostaria de um aprofundamento histórico maior sua formação o capacita pra isso. continuo a acompanhar o blog.

    • Bertone de Oliveira Sousa 28/07/2014 / 19:16

      Jonathas, o texto é só um artigo de jornal, é importante como uma breve reflexão, mas pra essa dimensão não aprofunda mesmo. Eu o postei como complemento ao texto anterior. Os textos aqui têm sido postados mais como um incentivo aos leitores para buscarem as obras indicadas como aprofundamento, já que no espaço de um blog não é possível trabalhar alguns temas em detalhes, mas como os textos têm alcançado boa quantidade de acessos e recebido várias manifestações de interesse, meu projeto é fazer postagens mais aprofundadas mesmo sobre os temas.

  7. Gil Cleber 06/02/2016 / 14:02

    A estimativa de vítimas do comunismo na URSS do período Lênin até o fim do período Stálin é de 60 milhões entre mortos, desaparecidos, aprisionados e torturados. Encontra-se essa informação no “Arquipélago Gulag”, de Soljenitsin.

    • Bertone de Oliveira Sousa 06/02/2016 / 14:38

      Gil as obras de Soljenitsin e Robert Conquest estão erradas neste aspecto. As pesquisas recentes têm demonstrado que o número de vítimas até o fim da era Stalin oscila entre 10 e 20 milhões. Esse já é um número estratosférico mas bem inferior aos apontados por esses autores, que não tinham acesso a fontes importantes que só foram abertas após o fim da URSS.

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