Além da esquerda e da direita

esquerdadireitaUm estudante secundarista ou universitário que milita com uma camiseta ou sob uma bandeira com o símbolo do martelo e da foice não sabe o que está fazendo, por mais que acredite, anacronicamente, estar agindo em nome de um ideal universal, da igualdade. Em seu sonho idealista, ele pode ainda ser admirador de Lênin ou Stálin e acreditar na eficácia da ação revolucionária contra ou capitalismo ou a “burguesia”. Esse jovem leu Marx e alguns panfletos ulteriores a ele, mas esqueceu de estudar o interregno histórico que nos separa de sua obra, o século 20.

Não são poucos os jovens que hoje defendem abertamente Stálin. Usam como base teórica um pequeno grupo de intelectuais militantes que negam o genocídio do Holodomor e o assassinato de cerca de vinte milhões de pessoas durante seu governo. Ignoram a tragédia que foi o totalitarismo stalinista e o socialismo revolucionário. Apesar de as pesquisas históricas terem avançado bastante na descoberta de fontes e testemunhos do terror do stalinismo (e suas variantes na China, Coreia e Camboja), essas pessoas se limitam apenas a taxar esses estudos de “anti-comunistas”.

Assim como seus pares de extrema direita, apologistas de ditaduras fascistas e de regimes militares, esses jovens em geral não são intelectuais, não possuem produção acadêmica e divulgam suas ideias exclusivamente em blogs e redes sociais. Da mesma forma, um jovem que alega ser de direita e deseja o regime militar não passa de um ignorante. Esse nem sequer leu Marx porque alguém lhe disse que o filósofo alemão é o responsável pela morte de cerca de cem milhões de pessoas em menos de um século. Esse tipo também não é propriamente um intelectual, mesmo que esteja na universidade faz leituras dispersas, mas quer ser conservador, quer ser do “contra”, mesmo que seja contra um inimigo imaginário que ele conhece apenas pela letra de jornalistas fanáticos como Reinaldo de Azevedo. Esses dois tipos são sintomas de uma séria crise intelectual no Brasil.

No campo acadêmico, direita e esquerda são conceitos e campos vagos. No primeiro caso, o Brasil não possui nenhum pensador de direita de destaque, com uma produção intelectual inovadora e relevante. Luís Felipe Pondé poderia ser citado, mas seus livros e colunas são genéricos demais para serem levados a sério. O mesmo pode ser dito da esquerda; não é possível levar a sério, por exemplo, o que um Vladimir Safatle escreve. Sem ter nada de novo a dizer, a esquerda limita-se a repetir-se, a não ser mais do que uma vaga sombra do que foi décadas atrás, quando ainda tinha nomes como Florestan Fernandes, Octavio Ianni, Celso Furtado, Caio Prado Júnior, Jacob Gorender, entre tantos outros. Não podemos incluir o nome de Marilena Chauí na lista. Embora a filósofa da USP nos últimos anos tenha atuado mais como militante do PT do que como intelectual, não se pode negar a importância de sua obra filosófica em um país onde a maior parte dos que se designam filósofos não passam de comentaristas de autores clássicos. Grande parte de nossos intelectuais de esquerda ainda têm medo de criticar Cuba, outros não conseguem sair da fase infantil do anti-americanismo e outros preferem mesmo ficar na reafirmação de um marxismo reducionista e fossilizado. Por outro lado, a direita não consegue afastar o fantasma do anti-petismo tacanho, sem qualquer crítica relevante ou proposta que mereça discussão séria.

O que observamos no campo intelectual naturalmente também reflete na vida política. O PSDB não consegue fazer nada melhor do que propor privatizações ou a exclusão das disciplinas de Filosofia e Sociologia das escolas, quando não o congelamento dos salários. O PT, para manter sua base aliada, não consegue propor reformas e mudanças mais profundas na sociedade, como finge não perceber que não pode ficar eternamente no poder apenas pela concessão de bolsas e casas populares. A sociedade, por outro lado, com índices alarmantes de analfabetismo funcional, não pensa pela dicotomia direita/esquerda, cujos conceitos desconhece. Para os partidos isso não tem importância, já que a retórica populista, que hoje o PT domina melhor do que os demais partidos, é que garante a maior parte dos votos na época das eleições.

No jornalismo, Veja e Carta Capital representam dois polos ideológicos de militâncias que não têm mais sentido, exceto para aqueles que lucram diretamente com a vendagem dessas informações e seus financiadores. De forma mais abrangente, podemos hoje levantar uma questão que poucas pessoas fizeram no passado: por que temos de ser, necessariamente, de direita ou esquerda? Por que as sociedades ocidentais seculares ainda mantêm o dualismo oriundo das velhas religiões de um conflito permanente do bem contra o mal, que requer uma tomada de posição de todos no sentido de filiação a um dos lados?

Historicamente, a esquerda representa os pobres, está associada a projetos de transformação  política e social contra o status quo, os privilégios sociais. A direita está associada ao conservadorismo, o elitismo. Esses conceitos se sedimentaram a partir dos lugares que representantes das ordens sociais ocupavam na Assembleia francesa antes da Revolução de 1789. Clero e nobreza, que formavam o primeiro e o segundo estado e constituíam apenas 2% da população no fim do século 18, num país com 26 milhões de habitantes, ficavam à direita. O terceiro estado, formado pela burguesia, camponeses e trabalhadores urbanos, ficava à esquerda.

Na segunda metade do século 19, no contexto do avanço da Revolução Industrial, esses conceitos ganharam outras tonalidades na medida em que a direita passou a estar associada a ideias liberais e a esquerda a movimentos sociais anarquistas ou socialistas. Esses movimentos contestavam principalmente a situação de exploração dos trabalhadores nas fábricas. Aqueles que perderam seus privilégios sociais com as agitações políticas passaram a se voltar de forma veemente contra os ideais da Revolução Francesa. Os conservadores viam como perniciosa a ênfase na liberdade e autonomia do indivíduo no pensamento iluminista e reafirmavam o caráter naturalmente hierárquico da sociedade e a necessidade de os mais qualificados governarem os menos capazes. Mas quando falavam em “mais qualificados”, os conservadores se reportavam às elites do Antigo Regime, que viam como portadoras de um direito natural de governança. Edmund Burke foi um dos mais notáveis representantes dessa corrente.

A Revolução Francesa também produziu a Declaração Universal dos Direitos do Homem, que, embora nunca tenha saído efetivamente do papel, seus princípios se tornaram a bandeira dos movimentos socialistas. As ideias de universalização da igualdade e de liberdades individuais oriundas da Revolução Francesa causavam ojeriza a muitos conservadores que passaram a defender, no lugar dos direitos universais, o nacionalismo, ou a universalização, sob a forma de dominação política, dos valores de uma nação. Embora o nacionalismo não tenha nascido com essas características, logo associou-se a ideias pseudo-científicas da segunda metade do século 19 como o racismo, o antissemitismo e o sexismo.

No século 20, o nacionalismo se tornou um projeto revolucionário de direita a fazer frente ao socialismo marxista, enquanto projeto revolucionário de esquerda. O fascismo e o nazismo emergiram plagiando as estratégias de difusão, propaganda, mobilização das massas e centralismo político que o bolchevismo consolidou na Rússia soviética na década de 1920.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a derrota do nazi-fascismo, o comunismo soviético apropriou-se dos ideias de luta pela liberdade e emancipação dos povos a caminho da sociedade sem classes preconizada por Marx e Lênin. O encanto universal que pretendia despertar, contudo, não durou muito. Várias datas poderiam ser colocadas como marcos de uma desilusão, como o discurso de Kruschev em 1956, a ocupação soviética da Hungria no mesmo ano, a Primavera de Praga em 1968; mas, sem dúvida, a queda do muro de Berlim em 1989, seguida da dissolução da União Soviética dois anos depois pôs fim à expectativa messiânica que se depositava no marxismo enquanto proposta de condução da humanidade a um futuro de harmonia universal.

Depois da queda do muro, os conceitos de direita e esquerda se diluíram. A esquerda perdeu o foco em projetos revolucionários – e teve de fazê-lo para coexistir com outros partidos nas democracias ocidentais, reconstruídas sobre os escombros dos totalitarismos e dos milhões de vítimas que deixaram para trás –, passando a concentrar-se em projetos de reformas e integração social, ambientalismo e multiculturalismo. A direita reabilitou o velho liberalismo para apregoar a primazia da economia de mercado e do investimento privado sobre as políticas públicas, em nome da modernização e da competitividade, mas com o custo elevadíssimo de ampliação dos bolsões de pobreza e miséria nas regiões mais pobres, concedendo liberdades civis mas trazendo ao palco dos conflitos sociais o espectro do desemprego com as perdas de inúmeros postos de trabalho.

Ideologicamente, a esquerda ainda tentar manter a bandeira do trabalhismo e, uma vez no poder, passa a concentrar-se quase exclusivamente em criar mecanismos para manter-se lá. A direita não consegue ser popular e não elitista. O Brasil atual é um exemplo claro disso: hoje, não há nenhuma oposição organizada ao PT, o que é ruim tanto para a democracia quanto para o próprio PT, que assenhoreou-se do Estado abandonando todas as recomendações éticas que fazia quando era oposição. Precisamos de uma esquerda inteligente, que saiba pensar além do que faz a militância paga, especialmente nos meios jornalísticos e não veja nas denúncias ações conspiratórias de agentes que pretendem tirar o partido do poder; uma esquerda que saiba pensar o social sem esquecer do indivíduo ao invés de ver os indivíduos como átomos numa massa de eleitores. Por outro lado, precisamos de uma direita que não seja desescolarizada, tacanha, conspiracionista e saiba pensar o social, não apenas o indivíduo enquanto entidade abstrata de uma doutrina econômica. Vivemos um excesso de ideologismo, de polarizações rasteiras, e análises sociais são reduzidas a cartilhas de partidos ou de posições ideológicas estanques. Mas, acima de tudo, o que é preciso entender é que, além da esquerda e da direita, pode haver vida inteligente.

Pós-escrito: minha experiência como blogueiro tem me mostrado algumas questões importantes nesse sentido: alguns jovens chegam aqui e se sentem desorientados por não encontrarem uma profissão de fé em favor desta ou daquela ideologia, alguns sem conseguir pensar além do pouco que leem nos jornais; alguns aprendem, dialogam e se tornam leitores. Outros, usam a propaganda ou a agressão como formas de argumentação. Quando a primeira falha, e sempre falha, a segunda cai de forma tão certeira quanto a trajetória da maçã de Newton. Por um lado, não escrevo para militantes e, por outro, coloco a discussão histórica em primeiro lugar, sem colocá-la antes na moldura de uma ideologia. Por isso não faço militância. Isso não é neutralidade, é uma opção de trabalho e de abordagem. Podemos nos afastar das polarizações, sem nos afastarmos da crítica enquanto instrumento de formação de opinião e análise social. Poucos entendem isso, mas alguns entendem e isso já é importante.

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36 thoughts on “Além da esquerda e da direita

  1. LEANDRO (RHS) 18/05/2014 / 23:59

    Parabéns.. muito bom.
    Acredito que deva existir um processo de “desconstrução da mente” …. pois muito do que a maioria das pessoas (me incluo) receberam como informação, foi, é e será IMPOSTA COMO VERDADE ABSOLUTA por aquele que detém essa informação.

    O que dificulta e muito o caráter crítico de uma pessoa, na minha opinião, é não conhecer bem aquilo que se é contra ou não totalmente a favor. Conhecer o “inimigo” faz vc se questionar muito mais e tentar buscar uma melhor solução para aquilo que considera certo ou mesmo argumentações para sustentar uma ideia.

    Seu texto é maduro… minam muitos possíveis questionamentos e vc demonstra que se importa com quem está lendo.

    abraço

  2. marcelo j sisson lied 19/05/2014 / 11:12

    E sem dúvida vc está dando uma ótima contribuição para o equilíbrio e o bom senso.

  3. César 19/05/2014 / 13:11

    Muito bom seu texto. Acredito que o Idelber Avelar seja o pensador brasileiro mais interessante da atualidade. Recomendo a leitura de suas obras.

  4. AntimidiaBlog 19/05/2014 / 14:49

    A argumentação é muito boa, e a comparação da Veja com a Carta Capital, a PT vs PSDB, bastante válidas. Mas este é sem dúvida um texto militante, tão qual alguém que escreve em defesa da Veja, a Carta Capital, o PT ou o PSDB. Se esconder atrás de um “equilíbrio e bom senso” tão utópico quanto qualquer teoria marxista ou liberal, não apoiando uma vertente de esquerda ou direita, se postando como o PMDB (não que você seja apoiador deste partido, foi só uma analogia), não torna o seu texto menos militante que os radicais da esquerda ou direita. Ele não consegue equilibrar críticas e argumentações que não defendem nada, como seria uma análise utopicamente imparcial. Seu texto é militante em defender uma idéia e uma moral, o que não o difere em nada do texto de um “estudante secundarista ou universitário que milita com uma camiseta ou sob uma bandeira com o símbolo do martelo e da foice.”

    • Bertone de Oliveira Sousa 19/05/2014 / 15:03

      Antimidia, em algum momento eu disse que minha análise tinha pretensões imparciais? O problema de militantes como você é que não conseguem entender nada fora da linguagem partidária e entendem exatamente o contrário do que está sendo colocado, além de você não saber o sentido do termo militância. Pra você, nenhuma discussão histórica serve, porque você quer propaganda, panfletagem. Por isso eu tive o cuidado de registrar que não escrevo para militantes, porque sei que não são capazes de entender algo tão simples; e aí está você se mostrando como exemplo.

      • AntimidiaBlog 19/05/2014 / 15:15

        Realmente não é para militante, é como um militante escrevendo um texto militante, que usando argumentos históricos defende uma idéia e uma moral. Particularmente não gosto de propaganda e/ou panfletagem, mas como estou com tempo nos últimos dias estou lendo qualquer coisa.

      • Bertone de Oliveira Sousa 19/05/2014 / 15:29

        Defender uma ideia não é, necessariamente, ser militante. Militância é um termo usado para ações mais específicas, como o engajamento e uma luta em favor de uma determinada questão, o que não ocorre apenas no plano das ideias, mas pela tomada efetiva de posicionamentos e ações na vida social. E é por estar lendo qualquer coisa que quando lê o que não é qualquer coisa não entende nem sabe diferenciar das coisas quaisquer que anda lendo e que, pelo visto, são as únicas que você consegue apreender.

  5. Erik 19/05/2014 / 16:23

    Bertone, qual jornal você indica para leitura ? Folha de SP e Estadão são confiáveis ?
    Obrigado !

    • Bertone de Oliveira Sousa 19/05/2014 / 16:35

      Erik, não leio o Estadão, mas é um bom jornal, assim como a Folha e o Globo. A questão do ser confiável ou não nem é a mais relevante. Informação você tem em todos eles. Critiquei Veja e Carta Capital por serem periódicos de cunho excessivamente ideológico.Nesse caso, eles assumem apenas o papel anti- ou pró-governista, atendendo apenas uma parcela específica de pessoas que consomem essas opiniões. Em nossa época os jornais eletrônicos estão cada vez mais se tornando formadores de opinião, por isso eles têm ampliado o espaço de colunas de opinião. A Folha, por exemplo, tem tentado agradar a um público variado trazendo colunistas de esquerda e de direita. É uma tendência que tende a aumentar. Imparcialidade não existe, você pode escolher entre jornais mais sérios ou menos panfletários. Folha e Estadão são exemplos. Você tem informação e colunas de opinião. Se preferir, pode ler uma e dispensar as outras.

  6. Angwlo 19/05/2014 / 21:26

    Parabéns Bertone é muito difícil encontrar alguém nos dias de hoje que toma ideologia esquerda ou direita (como eu) continue assim

  7. Roni Kurono 20/05/2014 / 15:28

    Adorei o texto! Precisamos também de uma Esquerda mais unida e de socialistas que não idolatrem ditadores e que não queiram repetir os erros do socialismo real achando que vai dar certo.

  8. homemsemsobrenome 20/05/2014 / 21:20

    Bacana o texto, Bertone. Infelizmente estamos reduzidas a isso aí. Fico pensando se no Brasil, atualmente, tanto a esquerda quanto a direita seriam, em grande medida, necessariamente não-democráticas, uma vez que ambas operam na democracia munidas de um outro ideal de sociedade que desejariam implantar. Assim, tanto uma quanto a outra não estariam interessadas senão em algo que não é o próprio regime em que vivem e, com isso, só podem usá-lo conforme a conveniência, mas são incapazes de se pensar como parte dele pois isso é tudo o que não querem ser.

    • Bertone de Oliveira Sousa 20/05/2014 / 21:34

      homemsemsobrenonome, penso que não é fato de esquerda e direita não serem democráticas no Brasil; a questão é que ainda se mantêm atreladas a uma mentalidade arcaica de verem o Estado não como uma instância de representatividade social, mas como algo que devem usar e guardar para si. Essa confusão do público com o privado levou, por exemplo, o PT a enganar a sociedade com o mensalão e a copa, cometendo os mesmos erros que a direita. Mas não vejo o PT querendo implantar outro modelo de sociedade, mas o vejo querer permanecer no poder através de um fisiologismo escancarado. Não foi o PT que fundou essa prática, o PT apenas percebeu que sem ela seus objetivos seriam muito mais difíceis, senão inalcançáveis. São problemas que passam por uma discussão ética profunda e que a sociedade, no que pese suas manifestações de descontentamento, não demonstra ainda maturidade para pressionar as instâncias representativas nesse sentido.

  9. Éderson Cássio 21/05/2014 / 15:00

    Enquanto não houver uma reforma política decente, que mude as regras do funcionamento de Brasília de cabo a rabo, a começar pelas campanhas eleitoras (mas não parando aí), pode estar qualquer ideologia no poder: de esquerda, direita, de cima, de baixo, de ladinho, de 4.

  10. Vinicius Martin 22/05/2014 / 10:15

    Bertone,

    As vezes parece que nós estamos vivendo em uma geração emburrecida, em que as pessoas literalmente consomem conteúdos de cunho ideológicos, espalhadas nas páginas de Internet, ou demonstram desinteresse, julgo ser a maioria, voltadas mais ao individualismo, sem a preocupação com o coletivo. Com os protestos que vêem ocorrendo ultimamente, principalmente os do ano passado, talvez seja o sinal de que a participação política vêem aumentando, mas no sentido de exigir que os serviços básicos á população sejam atendidas, independentemente se os partidos situacionistas são A, B ou C. A nossa democracia é jovem e muitas pessoas são imaturas quando lidam com a política.

  11. Leonardo Gelpi Ruhe 24/05/2014 / 22:44

    Bertone, gostaria de fazer o seguinte questionamento: Até que ponto o pt só deseja “permanecer no poder através de um fisiologismo descarado”, e até que ponto ficou refém deste sistema político que o obrigou a fazer essas coligações ridículas (visto que sem elas, jamais conseguiria aprovar qualquer projeto – isso, se eleito). Coloco ainda em questão um outro tema que li recentemente no ótimo livro “A sociedade justa e seus inimigos, de Antônio David Catani e Marcelo Ramos de Oliveira -Tomo editorial” com apoio do Insituto Justiça Fiscal, que relembra a Carta Aberta que Lula divulgou antes de sua candidatura, comprometendo-se a não mudar o sistema fiscal para “acalmar o mercado e a mídia”, pois a possibilidade de implementar uma reforma tributária com a inclusão do imposto sobre fortunas (temas citados pelo partido em outras épocas) jamais seriam aceitos pela elite detentora do poder (tanto que isto nem vem sendo debatido há muito tempo…) poderia incendiar o mercado de ações levando investidores e poupadores a retirarem seu dinheiro dos bancos e criando um caos financeiro antes mesmo das eleições e a culpa seria creditada “à política do partido”… Questões como estas podem ter levado o partido a ficar mais “light” para acabar com o medo da Regina Duarte e da classe média ou serão somente desculpas para quem já chegou ao poder?

    • Bertone de Oliveira Sousa 25/05/2014 / 13:38

      Leonardo, essas questões são importantes e não são fáceis de responder. Penso que a aliança PT/PMDB criou um monolitismo hegemônico que dificilmente poderá ser superado nessas eleições, até por não existir uma oposição organizada que tenha uma base de apoio popular como o PT tem. Essa fusão também aglutina as forças políticas e sociais mais tradicionais do Brasil, como as oligarquias do Nordeste (o que teria sido do governo sem o apoio do Sarney, por exemplo?), os banqueiros, as grandes empresas, os movimentos sociais (que são acoplados ao PT), uma boa parte dos trabalhadores (a redução do desemprego nos últimos anos foi essencial pra esse apoio) e os pobres (através, especialmente, do bolsa família, programa que o PT não criou, mas manteve e ampliou). Agora é difícil dizer até que ponto o partido se tornou refém desse sistema político, porque se por um lado os mensaleiros que estão na cadeia estão porque tentaram cooptar parlamentares para aprovar projetos governistas, por outro o apoio das grandes oligarquias e dos banqueiros foi essencial inclusive para o êxito dos projetos sociais do governo Lula e isso pesou na primeira eleição de Dilma. Mas as reformas tributária e política são pontos que o partido parece não querer tocar. Uma vez vi uma entrevista do FHC no Canal Livre da Band dizendo que ele deixou essas reformas para o Lula fazer. O fato é que trazer isso vai mexer com privilégios de grupos poderosos dos quais o governo não quer perder apoio e aí não se tem perspectiva de até quando isso vai ficar engavetado.

  12. Marcus 25/05/2014 / 11:58

    Ótimo texto, eu mesmo já passei de leitor da veja a liberal quase libertário, depois fui pra esquerda e hoje não me identifico com nenhum lado do espectro político, a esquerda brasileira (não toda, óbvio) é velha, cabeça fechada, parece que não se tocou de que algumas ideias que segue não podem ser adaptadas ao século XXI e continuam a tratando como se tivessem sido escritas ontem. Por outro lado, a direita ainda consegue ser pior, tacanha, conspiratória, paranoica, intelectualmente desonesta e etc (visite as páginas dos blogueiros da veja que você entenderá o que eu estou falando). Não acredito que sejamos obrigados a escolher uma determinada ideologia, ao contrário do que os esquerdistas e direitistas pensam, com suas malditas rotulações. Como você já citou, a enquanto a esquerda já teve Gorender, Prado Jr, Florestan e etc, a direita já teve Roberto Campos, Paulo Francis e Nelson Rodrigues. Ambos os lados, pelo menos aqui no Brasil, precisam urgente se modernizar. No mais, esse texto aqui é uma boa complementação. http://super.abril.com.br/blogs/mundo-novo/2013/04/15/a-maldicao-do-esquerdo-direitismo/

  13. Marcelo Augusto 31/05/2014 / 21:47

    Bertone você já viu um webinário(seminário virtual) onde o autor diz “refutar as mentiras de Kruchev”? Embora não goste do stalinismo, eu acho que ele foi bem incisivo em muitos pontos, inclusive citando memórias de pessoas próximas de Stalin que desmentem o discurso de Kruchev. Eu não sabia por exemplo, que Kruchev foi destituído por ser antidemocrático, e que em seu governo ele usou tropas do Exército contra o povo, o que não aconteceu na época de Stalin. O autor do seminário até cita uma revolta na Geórgia que tentou depor Nikita Kruchev.

    O autor deste seminário, a propósito, usa por referência uma obra de um historiador americano, e parece que a obra nem mesmo existe em português, sendo que ele faz tradução direta.

    • Bertone de Oliveira Sousa 01/06/2014 / 13:13

      Marcelo, não vi o tal seminário, mas provavelmente o Gorver Furr é o historiador americano que ele cita, já que é um dos principais expoentes dessa tese. A verdade é Kruschev nunca deixou de ser stalinista e seu discurso é controverso não porque mentiu, mas porque omitiu muitas informações por um motivo simples: tanto Kruschev quanto todos os delegados que assistiam a seu discurso naquele congresso em 1956 estavam envolvidos até o pescoço com os crimes que estavam sendo denunciados e mais envolvidos ainda com os que não foram denunciados. Dizer que ele foi deposto por ser antidemocrático é uma piada de mau gosto, não havia democracia na URSS desde que os bolcheviques chegaram ao poder. Mas Kruschev ainda foi ousado ao conceder anistia política a vários prisioneiros políticos da era Stálin. No entanto, não deixou de ser um continuador da obra de seu mestre e antecessor, sem ter tido o mesmo sucesso que ele como líder absoluto. E Stálin não usou tropas do Exército como Kruschev fez porque nunca precisou fazer isso, a NKVD fazia todo o trabalho sujo de extermínio, como no caso da Ucrânia em 1932-33 e durante as retiradas na Guerra com a invasão alemã, quando assassinaram milhares de prisioneiros e camponeses inocentes para não servirem de quinta-coluna ao exército alemão. Durante a Segunda Guerra e depois, Stálin também ordenou a deportação de várias etnias, o que causou centenas de milhares de mortes. Esses caras que querem defender Stálin apenas tergiversando são umas bestas. Publiquei alguns textos sobre Stálin na categoria socialismo/comunismo, onde teria sido mais interessante que você tivesse postado seu comentário; dê uma olhada.

      • Marcelo Augusto 01/06/2014 / 17:59

        Desculpe discordar Bertone mas no seminário que eu vi onde o autor inclusive cita referências, há alguns dados que mostram o contrário de algumas das suas informações. Quero deixar bem claro que não sou stalinista e considero o stalinismo um regime de muito mal gosto, assim como também o capitalismo, mas Stalin e seus asseclas não eram pior do que Churchill(que até defendeu o uso do gás sarin contra os curdos) e nem mesmo Roosevelt ou até Getúlio Vargas. Sou descendente de alemães e os meus pais, que não tinham nenhuma ligação com os nazistas, perderam tudo que tinham só por que eram alemães. Minha vó, com seus 8 anos de idade, era chamada de nazista pelos policiais só por que era loira e falava alemão(imagina o impacto disso na cabeça de uma criança). Eram gente simples, camponesa, que sequer frequentavam as escolas onde se ensinava a ideologia do Reich alemão.
        Stalin deportou, mas não foram “milhares que morreram”, na deportação dos tártaros da Crimeia apenas 0,04% deles pereceu durante a viagem, algo em torno de 60 pessoas, de mais de milhares deportados, número tido por baixo se tu considera o tempo de guerra e de inverno. Muitos desses deportados eram famílias de traidores que colaboraram com nazistas, quase 90% dos jovens em idade militar. Em qualquer país do mundo, até no Brasil, traição é crime punível com a morte(isso eu digo por que fiz CPOR de cavalaria em Porto Alegre e conheço a legislação militar). Nesse sentido Stalin, em vez de mandar fuzilar os traidores, ou separá-los do restante da sociedade de tártaros da Crimeia, mandou todos juntos para regiões longínquas.
        Não perdoo Stalin pela deportação dos alemães do Volga, mas esses “camponeses inocentes” da Ucrânia dos quais você fala de inocentes não tinham nada.
        Na época da guerra, na Ucrânia, aconteceu um dos piores e mais vergonhosos genocídios contra o povo da Polônia(de onde veio parte da minha família), em Volynia. Não sei se conheces, mas lá os “ucranianos nacionalistas” matavam os poloneses da pior forma possível, fincando pregos no crânio, enforcando crianças com arame farpado, etc. E apesar de não gostar de Stalin, nessa situação a NKVD agiu correta. O ucraniano não é esse “santinho” que muita gente pinta aqui(procures fotos dos pogroms de Lvov). Eles tem uma cultura bonita, que respeito, mas são cheios de sujeiras.
        Então, quer dizer, uma coisa é não gostar de um político, e vejo que você assim como eu não gosta dele, agora outra é achar que tudo que aquele político faz o torna necessariamente “mau” por causa das nossas convicções políticas.
        Só faço uma correção, no caso de Kruchov não era “por falta de democracia”, e sim por que ele passava por cima das decisões colegiadas tomadas pelo partido. Eu acho que é impensável imaginar um líder soviético que tomava todas as decisões sozinho. Como você mesmo diz, muita sujeira não era cometida sozinho por Stalin, dentro e fora da URSS, mas hoje essa demonização do ditador soviético serve como uma “cortina de fumaça”.
        Vou dar uma olhada nos artigos mencionados.

      • Marcelo Augusto 01/06/2014 / 18:10

        …um dos autores do vídeo que citei é até um professor de história aqui do RS.

      • Bertone de Oliveira Sousa 01/06/2014 / 18:14

        Marcelo, você deveria se informar melhor antes de repassar informações erradas. É por isso que tive altercações ásperas com stalinistas nesse blog, porque os caras vieram aqui vomitando uma porção de estatísticas equivocadas com base em teóricos propagandistas e se irritaram quando mostrei que estavam erradas. Como eu disse, não foram milhares que morreram nas deportações de Stálin, mas centenas de milhares. Só no exemplo que você citou, os tártaros, cerca de 180 mil foram deportados, a maioria para o Uzbequistão e entre 6 e 8 mil morreram apenas antes de chegar ao destino e a maioria não era colaboracionista com a Alemanha. Isso ainda foi um número baixo, considerando que no caso dos tchetchenos esse número chegou a 78 mil. No caso dos tártaros, foram utilizados 31 mil funcionários da NKVD nesse processo, cem jipes, 250 caminhões e 67 trens. E se você acha que Stálin era bonzinho frente a Roosevelt e Churchill a despeito das cerca de vinte milhões de vítimas de seu regime, entre os quais os camponeses da Ucrânia que você acha que eram “malvados”, não há mais o que discutir. Seu comentário é tanto uma demonstração grandiosa de ignorância histórica como também de ingenuidade ou má-fé. Só o fato de você sentir raiva pelo que foi feito com os alemães do Volga e achar perfeitamente justificável o que foi feito com os ucranianos é uma prova disso. E as ações da Ucrânia contra a Polônia nem de longe se comparam com as atrocidades cometidas pelos soviéticos na Ucrânia, tanto em termos do número de vítimas quanto em métodos. E achar justificável o que ocorreu a uma nação inteira pelo que uma minoria fez em outro lugar é outra prova de ignorância e má-fé. Na prática, você está justificando extermínios. Estude, se informe antes de sair escrevendo essas coisas por aí. Ou caso queira continuar, aqui não é o espaço pra isso.

  14. Marcelo 01/06/2014 / 19:55

    Bertone, parabéns pelo texto. Vim parar no seu blog via um link em um vídeo do Olavo de Carvalho e me surpreendi com esse artigo.
    Sou assíduo leitor de veja, carta capital, blogs de política, sites chapa branca e oposicionistas,etc. Vejo em todos tacanhices e desonestidade intelectual absurdas e, volta e meia, um artigo decente.
    Sou crítico do PT por vários motivos, como foi citado no texto e com quais concordo. Além disso, nas duas áreas em que atuo, saúde e educação, vejo uma piora considerável com meus próprios olhos.
    Me assusta muito o nível dos debates políticos até agora e eles tendem a piorar.
    Não seria exatamente essa falta de educação, tanto básica quanto cultural, política, etc… Que obrigam esse tipo de discurso? Poderia ainda, ser um Grascismo camuflado?

    • Bertone de Oliveira Sousa 01/06/2014 / 21:14

      Marcelo, na verdade Gramsci nada tem a ver com isso. Essa demonização de Gramsci que Olavo e seus claques fazem não é nada saudável porque só leva à invenção de um bode expiatório para virtualmente todos os problemas do mundo. No caso do Brasil, essa é uma questão histórica que não envolve apenas educação, mas um conjunto de fatores que perpassam as práticas tanto da direita como da esquerda.

  15. Roberto 03/06/2014 / 0:37

    Bertone qual é a sua opinião sobre sites de esquerda que atacam o movimento gay?

    • Bertone de Oliveira Sousa 03/06/2014 / 12:06

      Roberto ou Marcelo Augusto, o uso de mais de um nome por um mesmo leitor/usuário é contra a política de comentários do blog.

  16. Eric 21/06/2014 / 12:06

    Professor, o senhor poderia me sugerir algum livro(s) sobre a Revolução Cubana?

    • Bertone de Oliveira Sousa 21/06/2014 / 16:58

      Eric, são poucos os materiais bons sobre o assunto, os autores em geral ou fazem propaganda pró ou contra Cuba. Os livros do Humberto Fontova, que se situam nesse segundo pólo, contêm algumas reflexões interessantes porque ele fez entrevistas e usa fontes antes não exploradas. Comentei um deles no texto “Cuba, o paraíso socialista”.

  17. Leo 22/09/2014 / 15:28

    Parabéns Professor, aprendi muito com seus blogs e acabei chegando aqui por procurar uma visão aberta sobre o assunto, que foi dificil de encontrar na internet.

  18. Frederico Sales 10/12/2014 / 16:27

    Bertone, li atentamente o que você escreveu de forma e de fácil entendimento para aqueles que ainda querem saber o que é esquerda e direita, principalmente no Brasil onde vemos partidos mudando de lado da mesma maneira que mudam de roupa.
    Bem, minha pergunta é….você acredita que o modelo ideal seria unir o que há de bom da direita e da esquerda? Você acha que os países escandinavos conseguem ou fazem essa unção?

    Obrigado.

    • Bertone de Oliveira Sousa 10/12/2014 / 19:01

      Frederico, os países escandinavos não fizeram isso, a experiência deles está ligada à crise do liberalismo, num primeiro momento, e ao descrédito da direita, sobretudo após a segunda Guerra. Não é preciso unir ideais, a social-democracia ainda é o que existe de melhor pra se fazer políticas sociais e reduzir a desigualdade, sem abolição da propriedade e das liberdades individuais. Agora, no Brasil há os problemas que mencionei nas respostas acima, o fisiologismo, clientelismo, além de problemas referentes à Reforma Agrária e outras reformas que ainda não fizemos que estão presentes tanto na direita quanto na esquerda e entravam o crescimento econômico do país.

      • Frederico 10/12/2014 / 23:10

        Obs. Quando escrevi “unção” era “junção” hahahs
        Então finalizar, o modelo de política escandinava se aproxima de alguns destes ou a Social Democracia não se engloba em nenhum dos dois.
        Obrigado novamente e parabéns pelo blog.

      • Bertone de Oliveira Sousa 10/12/2014 / 23:43

        Na verdade, a social-democracia nasceu como movimento de esquerda, na década de 1870. Abordei isso no texto mais recente do blog, “Para compreender Marx”. Mas o modelo escandinavo também teve contratempos, como a política de esterilização voluntária patrocinada pelo Estado para reduzir a natalidade. Mesmo assim, esse modelo emergiu como contraponto ao Estado de guerra nazista e aos modelos autoritários de direita que dominavam o continente.

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