O caminho entre a pseudo-espiritualidade e a pseudo-ciência

stonehenge_copyA maioria das pessoas associa o espiritual a alguma forma de vivência da religião. Por isso, quando conhecem alguém que não crê em Deus ficam atônitas e perguntam: “como você vive?” As ideias de que um estilo de vida não religioso é desprovido de espiritualidade e de que esta associa-se de forma necessária a uma concepção de sagrado é completamente equivocada. Logo adiante, apresento aos leitores um texto do neurocientista americano Sam Harris em que ele comenta o lançamento de seu novo livro sobre o assunto. Harris argumenta que a irreligiosidade não exclui a espiritualidade e que a iniciativa de algumas doutrinas e agentes religiosos de conferir um caráter científico a determinados dogmas tendem a mergulhar as pessoas na vivência de uma pseudo-espiritualidade e na crença em uma pseudo-ciência. No Brasil, nenhuma doutrina exemplifica melhor isso do que o espiritismo.

Sentimentos como a contemplação, o deslumbramento, o enxergar-se como parte de algo maior e sublime (o cosmo) prescindem de uma fé em um ser “superior”, em um criador ou de uma fé na inspiração sobrenatural de um livro sagrado. Esse é o cerne da argumentação de Sam Harris. O texto a seguir é uma reflexão breve mas importante, principalmente para pensarmos que religião e espiritualidade não são inseparáveis, que a ciência não tem que legitimar crenças religiosas e que não precisamos burlar as leis da Física para buscarmos um sentido para nossa existência. Harris incumbiu-se do desafio de trazer a discussão acerca da importância do espiritual para o campo do ateísmo, desvinculando-o do domínio de uma conotação estritamente sobrenatural. Por esse motivo, ele propõe uma alternativa entre a pseudo-espiritualidade e a pseudo-ciência.

Quem leu a postagem anterior deste blog, “Razões para não crer em Deus(es)”, pôde observar depoimentos de variadas pessoas, como cientistas e o próprio Sam Harris, que enfocam que o avanço de nosso conhecimento do mundo natural, não apenas secundariza a religião como fonte explicativa do mundo, como também desconstrói várias concepções estanques e errôneas sobre o cosmo que os grandes sistemas religiosos disseminaram. O texto a seguir basicamente complementa o anterior e foi traduzido por mim do site pessoal do autor (com exceção do último parágrafo, em que ele se dirige especificamente aos leitores americanos e canadenses).

Sam Harris 

Frequentemente me perguntam o que substituirá a religião organizada. A resposta, creio eu, é nada e tudo. Nada precisa substituir suas doutrinas ridículas e controversas – tais como a ideia de que Jesus voltará à Terra e arremessará os descrentes em um lago de fogo, ou que morrer em defesa do Islã é o bem mais elevado. Essas ficções são pavorosas e aviltantes. Mas e quanto ao amor, compaixão, bondade e auto-transcendência? Muitas pessoas ainda imaginam que a religião é o verdadeiro repositório dessas virtudes. Para mudar isso, temos de começar a pensar sobre toda uma gama de experiências humanas de uma forma a torná-las livres de dogmas, preconceitos culturais e ideias que anseiam ser melhores do que o que a ciência já é. Este é o tema de meu próximo livro: Waking Up: A Guide to Spirituality Without Religion [“Despertando: um guia para a espiritualidade sem religião”].

Os autores que tentam construir uma ponte entre a ciência e a espiritualidade tendem a cometer dois erros: cientistas geralmente começam com uma visão empobrecida da experiência espiritual, assumindo que deve haver uma maneira grandiosa de descrever estados comuns como o amor dos pais, a inspiração artística e o deslumbramento com a beleza do céu noturno. Nesse sentido, encontra-se o espanto de Einstein com a inteligibilidade das leis da natureza descritas como se fossem uma espécie de introspecção mística.

A nova geração de pensadores geralmente entra na vala do outro lado da estrada: eles idealizam estados alterados de consciência e desenham conexões ilusórias entre a experiência subjetiva e as teorias mais sinistras nas fronteiras da Física. Aqui nos dizem que o Buda e outros ascetas anteciparam a cosmologia moderna ou a mecânica quântica e que, transcendendo a si mesma, uma pessoa pode perceber sua identidade com a Mente que deu origem ao cosmos.

No final, somos deixados para escolher entre pseudo-espiritualidade e pseudo-ciência.

Poucos cientistas e filósofos desenvolveram fortes habilidades de introspecção – na verdade, muitos duvidam de que tais habilidades possam existir. Por outro lado, muitos dos maiores ascetas não sabem nada sobre ciência. Eu conheço cientistas e filósofos brilhantes que parecem incapazes de distinguir entre situações subjetivas e objetivas; e conheço ascetas que passaram décadas meditando em silêncio, que provavelmente pensavam que a Terra era plana. Já existe uma relação entre fato científico e sabedoria espiritual e é mais direta do que a maioria das pessoas imagina.

Esperei por mais de uma década para escrever Waking Up. Muito antes de eu ter visto qualquer razão para criticar a religião (A Morte da Fé, Carta a uma Nação Cristã), ou relacionar verdades morais e científicas (A Paisagem Moral, o Livre-arbítrio), eu estava interessado na natureza da consciência humana e na possibilidade da experiência espiritual. Em Waking Up, faço o meu melhor para mostrar que uma determinada forma de espiritualidade é essencial para a compreensão da natureza de nossas mentes. (Para aqueles que desejam conhecer as raízes de cada uso do termo “espiritualidade”, recomendo que leiam um post anterior).

Meu objetivo em Waking Up é ajudar os leitores a ver a natureza de suas próprias mentes  sob uma nova luz. O livro se tornou um buscador de memórias, uma introdução ao cérebro, um manual de instrução contemplativo e um desenrolar filosófico do que a maioria das pessoas consideram ser o centro de sua vida interior: o sentimento que chamamos de “Eu”. E é também o meu livro mais pessoal até o momento.

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5 comentários sobre “O caminho entre a pseudo-espiritualidade e a pseudo-ciência

  1. betoquintas 15/07/2014 / 9:57

    Sam Harris é crente de que apenas o método científico pode explicar o universo, o mundo, a vida e a exist~encia.

    • Bertone de Oliveira Sousa 15/07/2014 / 11:38

      Nesse ponto ele está correto, a crítica à religião precisa ser incisiva nessas questões que ele levanta no texto.

      • betoquintas 15/07/2014 / 14:28

        A critica deve ser endereçada ao argumento ou ao objeto? Um mesmo assunto ou objeto de análise está, via de regra, viciado pela subjetividade, pela análise generalizante e superficial.

      • Bertone de Oliveira Sousa 15/07/2014 / 17:25

        Sam Harris não é um cara que joga palavras ao vento. Pode-se questionar algumas de suas posturas, como já li alguns intelectuais fazer em relação a ele e Dawkins, por exemplo, mas não por “subjetividade generalizante e superficial”. Essa expressão, na verdade, não diz nada com nada.

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