Os Estados Unidos e o golpe de 1964

golpe militarHá uma tendência fora da historiografia brasileira e que se espalha na internet através da extrema direita, de que não houve nenhum apoio do governo dos Estados Unidos ao golpe militar. Essa visão se apoia na crença de que a “operação Brother Sam”, como é chamada a operação de apoio logístico dada pelo governo americano aos golpistas, foi uma espécie de invenção da KGB, visão até hoje reproduzida pela intelectualidade universitária no país. Mas essa teoria da conspiração não se sustenta.

O episódio do apoio dos Estados Unidos aos militares golpistas não esteve entre as causas diretas do golpe e por isso não constitui um dos fatos mais importantes do início da ditadura. Contudo, o apoio está suficientemente bem documentado para que o descartemos como uma conspiração. Recentemente, Elio Gaspari publicou em seu site “Arquivos da ditadura”, um documento que mostra que apenas quarenta e seis dias antes de ser assassinado, em 1963, o presidente americano John Kennedy, em reunião na Casa Branca, cogitou intervir militarmente no Brasil para depor Goulart.

Gaspari disponibiliza em seu site o áudio da reunião de Kennedy (realizada entre os dias 7 e 8 de outubro daquele ano) disponibilizado há pouco tempo na internet pela biblioteca que leva seu nome, o que já descarta qualquer teoria conspiratória de que tudo foi invenção do serviço secreto soviético. O documento é importante porque revela que uma ação armada foi mesmo cogitada e antes mesmo de 1964. O texto de Gaspari confirma o que vem dizendo a historiografia brasileira acerca da operação Brother Sam:

Na discussão sobre o Brasil, no dia 7 de outubro de 1963, Lincoln Gordon abriu a conversa com uma introdução sobre a conjuntura brasileira: a crise iniciada com a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961, se acentuara. Além do cenário econômico, abordou-se o nome dos possíveis sucessores de João Goulart, vice de Jânio que havia assumido a Presidência em setembro em clima de grande turbulência devido às suas ligações com o sindicalismo e a esquerda.

Após o embaixador falar sobre eventuais parcerias culturais entre os dois países, Kennedy o interrompeu. “Temos alguma decisão imediata para pressioná-lo?”, perguntou, referindo-se a João Goulart. “O que devemos fazer imediatamente no campo político, nada?”, prosseguiu. Gordon revelou haver dois planos: “Goulart abandona a imagem [de esquerdista] e resolve pacificamente. Ou talvez não tão pacífico: ele pode ser tirado involuntariamente”. Antes de concluir, o diplomata indagou: “Vamos suspender relações diplomáticas, econômicas, ajuda, todas essas coisas? Ou vamos encontrar uma maneira de fazer o que todo mundo faz?”.

[…]

No golpe de 1964, a intervenção militar americana acabou sendo desnecessária. Acertou Lincoln Gordon, que previra na reunião de outubro de 1963 o desfecho da crise brasileira: o golpe poderia ser desencadeado sobretudo por indisciplina e divisões nas Forças Armadas. A perda de apoio do governo Jango, sua indecisão e a traição de alguns homens de sua confiança contribuíram para a sua deposição. Sem tiros, intervenção ou guerra civil, o golpe foi encabeçado pelas Forças Armadas com o apoio de setores da sociedade civil. Triunfou em menos de 48 horas.

Mas um Plano de Contingência preparado a partir da reunião de outubro estava pronto desde o dia 11 de dezembro de 1963. Quando a sedição militar começou, no dia 31 de março do ano seguinte, ele foi posto em prática, resultando na Operação Brother Sam.

No momento em que as tropas rebeladas do general Olympio Mourão Filho marchavam de Juiz de Fora (MG) para o Rio de Janeiro, estava à disposição dos golpistas um contingente com porta-aviões, seis contratorpedeiros, um porta-helicópteros, um posto de comando aerotransportado e quatro petroleiros com 553 mil barris de combustível. No dia 2 de abril, com o golpe recém-consumado, veio o pronto reconhecimento do novo regime pelo presidente Lyndon Johnson, vice que assumira a Casa Branca após o assassinato de Kennedy. Como é mencionado na segunda edição de A ditadura envergonhada, revista e ampliada, “Johnson apoiou o golpe e orgulhava-se disso, mas apenas seguiu a planilha de Kennedy”. O reconhecimento imediato do novo governo era a principal sugestão do Plano de Contingência proposto por Gordon.

Linconl Gordon havia traçado todo um plano de possibilidade para depor Goulart em um documento de 11 de dezembro de 1963, chamado “Plano de contingência para o Brasil” que Gaspari não cita, mas há está disponível também em português (clique aqui para ler). A partir disso é possível compreender as felicitações que Lincoln Gordon deu ao novo governo brasileiro:

Vocês fizeram uma coisa formidável! Essa revolução sem sangue e tão rápida! E com isso pouparam uma situação que seria profundamente desagradável  e de consequências imprevisíveis no futuro de nossas relações; vocês evitaram que tivéssemos que intervir no conflito. (grifo meu).

Essa citação foi extraída do livro “O Brasil de 1945 ao golpe militar” de José Ênio Casalecchi (editora Contexto, 2002). Embora Goulart não fosse comunista, não conseguiu apoio social necessário para levar a cabo suas reformas de base. Por isso foi deposto sem que houvesse qualquer oposição ao golpe. Do ponto de vista ideológico, a polarização da Guerra Fria, a recente Revolução Cubana e a ação de órgãos de esquerda como as Ligas Camponesas deram o tom alarmista a variados setores da sociedade (como a Igreja Católica, proprietários rurais, governadores e amplos setores do empresariado) para apoiarem o golpe. Para esses segmentos sociais, naquele momento a democracia estava na ordem do dia menos do que o comunismo. Segundo FHC, que viveu de perto esses momentos, em entrevista à Folha, havia um temor não de um golpe militar, mas de um golpe da parte do próprio João Goulart, um temor que remontava a Jânio Quadros, de quem Goulart era vice e assumiu, após sua renúncia, depois de um processo conturbado que instituiu o regime parlamentarista.

A última frase da citação acima de Lincoln Gordon demonstra que o receio de um golpe por parte de Jango não era um receio apenas das elites brasileiras, por isso o governo americano acompanhava de perto o desenrolar dos acontecimentos e se preparava para uma ação enérgica caso a situação saísse totalmente do controle. O Brasil era um país importante demais dentro da zona de influência dos Estados Unidos para que outro regime comunista pudesse triunfar no subcontinente. A polarização ideológica do período hiperbolizou essa possibilidade, muito remota dentro daquelas circunstâncias. Mas, para aqueles que gostam de fraudar a história com teorias conspiratórias, é importante reafirmar que há fontes que comprovam o apoio logístico do governo americano aos militares que tomaram o poder há meio século.

Recentemente, o historiador Carlos Fico lançou pela editora Civilização Brasileira o livro “O Grande Irmão”, onde discute o tema da operação Brother Sam.

Anúncios

12 comentários sobre “Os Estados Unidos e o golpe de 1964

  1. Clésio Oliveira 25/03/2014 / 16:34

    Olá professor Bertone, gostaria de parabeniza-lo pelos textos que você escreve, não sou uma pessoa acadêmica (ainda), sou uma pessoa simples, mas, que acompanha e admira suas ideias. Não sei se porventura, o professor já viu um documentário chamado O DIA QUE DUROU 21 ANOS, de Camilo Galli Tavares. Nesse mesmo documentário, Galli muito incisivo e na minha opinião, tenta mostrar que, há sim, um plano conspiratório por parte do EUA para uma derrubada de João Goulart. Achei a ideia do documentário um pouco diferente da ideia de Gaspari, quando ele disse que não houve um plano de conspiração. Caso o professor tenha visto esse documentário, gostaria de saber sua opinião. Um grande abraço e continuarei sendo seguindo suas publicações.

    • Bertone Sousa 25/03/2014 / 22:02

      Clésio, vi sim o documentário, inclusive resolvi editar o texto postando ele ao final para os leitores que ainda não conhecem. Na verdade não há contradição com o texto do Gaspari, pelo contrário, há uma convergência entre eles ao mostrar que foi durante o governo Kennedy que iniciou a preocupação por parte do governo americano com a situação brasileira e que isso continuou com Lyndon Johnson. Eles também convergem ao mostrar que Lincoln Gordon foi o personagem principal em todo esse processo. A diferença é que o documentário vai além, mostrando os detalhes do apoio americano até o fim. Obrigado pelo elogio e por acompanhar o blog. Abraços.

      • Clésio Oliveira 28/03/2014 / 17:33

        Obrigado professor Bertone, abraços.

      • Daniel 20/11/2014 / 1:12

        Professor, será que devemos temer um novo golpe? Pergunto isso porque a mídia empresarial está trabalhando arduamente sobre isso.

      • Bertone de Oliveira Sousa 20/11/2014 / 13:21

        Daniel, creio que isso seja só uma onda e vai passar. Nos Estados o movimento conservador Tea Party esfriou e ninguém mais fala. Os que querem golpe são uma minoria de debiloides que não são ouvidos nem pelas Forças Armadas nem pelos partidos de direita.

  2. josé adelson da silva miranda 27/03/2014 / 11:59

    Excelente! Compartilhando…

  3. Amaury 26/04/2015 / 0:08

    Adorei, um lugar sério com pessoas que falam somente a verdade doa a quem doer, sou um apreciador de boas reportagens,acima de tudo com pessoas que tem uma visão ampla da nossa política, parabéns

  4. Pedro Ivo 17/11/2015 / 12:35

    Olá! Ouço e vejo multas discussões a respeito da necessidade do golpe de 64. Afirmam que João Goulart implantaria o comunismo (sic) no Brasil, e por isso as forças armadas tomaram o poder. Pergunto se há algum fundamento de que Goulart o faria.

    Lembrando que Goulart havia viajado para a China comunista pouco antes de tomar posse, e tinha interesse em fazer a reforma agrária. Mas tinha ele inclinações ao socialismo ou ao comunismo?

    • Bertone de Oliveira Sousa 17/11/2015 / 15:56

      Pedro, na verdade não. As reformas de Base de Goulart tinham o objetivo de modernizar o capitalismo no Brasil. Ele era um presidente de esquerda, mas sua política não pretendia promover o comunismo. Acontece que a Revolução Cubana ainda estava muito recente e os movimentos sociais pressionavam por uma reforma agrária justa e rápida ocupando terras. Com isso as elites nacionais e as Forças Armadas amparadas pelo governo americano pensavam haver uma ameaça potencial e decidiram tomar o poder. Mas não havia nenhum partido ou movimento organizado com força pra promover uma revolução socialista no Brasil.

      • Pedro Ivo 09/12/2015 / 14:27

        Obrigado!

  5. Carlos Wilker 16/01/2016 / 18:43

    Professor, você poderia colocar uma pequena lista de bons livros sobre a Ditadura? Principalmente livros que abordem causas, consequências e características do período.
    Obrigado.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s